Segunda Fundação

Segunda Fundação – Isaac Asimov

Tradução: Marcelo Brabão – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1951 – Minha Edição: 2009 – 235 páginas


O Plano Seldon está por um fio; a promessa da Galáxia se reconstruir da barbárie após a queda do Império Galáctico em apenas um milênio já está desacreditada. O mutante Mulo conseguiu conquistar a primeira Fundação e seus domínios se estabilizaram; mas para continuar sua sana de subjugar mais sistemas ele precisa encontrar a misteriosa segunda Fundação, a única facção na Galáxia capaz de derrotá-lo.

Funcionando como a retaguarda da Psico-História, essa outra entidade é dedicada à psicologia e seus integrantes têm poderes telepáticos – por isso é a grande ameaça ao Mulo – e permanece totalmente secreta; por alguns instantes a heroína do volume anterior, Bayta, consegue impedir que o vilão descubra seu paradeiro. Entretanto, alguns anos depois, ele incumbe o capitão Han Pritcher dessa missão; ao lado do ambicioso político Bail Channis.

O motivo da escolha de Channis é que ele é, dentre os mais poderosos do domínio do Mulo, o único que não foi “convertido”. Isto é; o único que não foi manipulado para ter devoção pelo Primeiro Cidadão, e, desta forma, poderia apresentar um pensamento diferente, capaz de enxergar o mistério de outro ângulo. Claro que justamente isso faz com que Han – um convertido – esteja o acompanhando, e a desconfiança é mútua. Ambos viajam para o pobre planeta de Rossem, frio, feio e agrário, mas que seria uma das pontas soltas do domínio da Segunda Fundação.

Assim como Fundação e Império, este volume também é dividido em dois contos, publicados originalmente em 1948 e 1949, respectivamente. E esta primeira parte é a mais estranha da trilogia original: com poucos dos tradicionais verbetes da Enciclopédia Galáctica, abrindo os capítulos, e com um ritmo diferente, permeada por interlúdios dos integrantes da Segunda Fundação conversando. O que não faz a menor diferença; são todas conversas lacunares (para não entregar nada do mistério) e contribuem muito pouco.

A estória tem um escopo bem mais reduzido, ficando bem restrita à investigação dos dois protagonistas sobre aquele planeta camponês. Desta forma, um pouco distante da Space Opera que normalmente caracteriza esta série. Ainda assim é muito tensa, com um sentido de urgência que vai até a última página; o destino da galáxia está nas mãos (da derrota) daquelas duas pessoas que se odeiam.

Passado meio século, a segunda parte demonstra um grupo da própria Primeira Fundação buscando a Segunda Fundação. Uma vez que sua contraparte conseguiu deter o Mulo, ela é entendida como a próxima grande ameaça dos descendentes de Terminus, já que seus poderes telepáticos poderiam ser uma gigantesca ameaça, tal qual a do mutante. Esse grupo de conspiradores decidiu estudar neurologia para entender como funcionam os poderes telepáticos, e as sequelas que elas deixam no cérebro.

Eles se reúnem na casa do Dr. Darrell, especialista em eletroencefalogramas, e filho de Bayta; mas a real protagonista desta aventura é sua filha, de apenas 14 anos, Arcádia. A intrépida adolescente deseja ser uma escritora e para arrumar material, passa da espionar os encontros do grupo de seu pai e até mesmo se enfia cladestinamente em uma viagem até Kalgan. O planeta, a antiga sede do Império do Mulo, ainda guarda tudo que o velho inimigo encontrou sobre a Segunda Fundação.

Arte de capa da edição de 1985 com Arcádia.

Entretanto, o local é ainda é administrado por uma hierarquia preservada desde àquela época, com um novo Primeiro Cidadão, muito belicoso, que deseja, novamente, atacar à Fundação. Arcádia vai cair em uma inescrupulosa trama da corte local para o início de uma nova guerra de um lado, e do confronto intelectual entre as Fundações de outro.

A personagem de Arcádia é carismática, mas não deixa de cair em lugares comuns das crianças prodígio; ao ser muito mais inteligente e destemida que os adolescentes da sua idade que vemos na realidade, as situações ficam pouco verossímeis em algumas vezes. Da mesma forma, aparecem alguns pequenos sinais da idade da obra; há uma obsessão de vários personagens sobre o casamento futuro da protagonista – e algumas insinuações sobre ela não ser uma boa esposa por seu comportamento destemido. Mas tudo dentro do aceitável.

Maior e com muito mais energia, a trama dessa segunda parte é mais ampla e é palco de várias viagens interplanetárias. Tem também um quê de pseudo-ciência bem legal, relativo aos eletroencefalogramas, que sempre compõe bem com o gênero; assim como o sempre charmoso “futuro retrô involuntário”, com a máquina de escrever por comando de voz, de última geração, que Arcádia ganhou no começo da obra. Na outra ponta, o desfecho é bastante impactante, não comprei muito a localização final mas o estratagema para manter o segredo é bem forte.

Essa trama, mesmo se mantendo interessante, parece esticar um pouco a corda do que vimos nos volumes anteriores. Na primeira parte, a escolha do planeta a ser investigado é uma imposição do texto, devemos apenas aceitar; e, na segunda, a disputa entre as duas Fundações também me pareceu arbitrária (o texto já parte do momento em que há essa rivalidade, não é algo construído). Assim como há uma repetição de temas da Fundação sobre a ameaça de um senhor de guerra local; e, revistando os mesmos planetas: Terminus, Kalgan, Trantor… fez falta, por sua vez, as analogias históricas. A obra acabou ficando ensimesmada, precisando resolver seus próprios problemas.

Se Fundação e Império reunia todas as características de uma continuação perfeita; Segunda Fundação acaba também sofrendo um pouco como normalmente sofrem os últimos episódios de grandes trilogias.

Muito Bom (4/5)

Continuações: apesar de, ao final da sua carreira, Fundação ter sido a principal série de Isaac Asimov; esta foi a última publicação (em 1949 nas revistas especializadas e 1951 como livro) da saga de Hari Seldon até o lançamento de Limites da Fundação em 1982; que aprofundou a Segunda Fundação e a origem do Mulo. Outros três volumes, uma nova continuação e duas prequelas, foram escritos pelo autor entre 1986 e 1993.


Últimas Postagens

Fundação e Império

A Fundação enfrentará seus dois maiores inimigos; o último grande general imperial e o temível Mulo – alguém capaz de colocar em xeque a própria Psico-História.

Fundação

Um historiador afirma que a civilização humana está colapsando sem chance de reversão; mas ele tem a solução. Com a Fundação uma recuperação é possível em “apenas” mil anos – em oposição aos 30 sem seu plano.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

Deixe um comentário