The Orville – 1ª Temporada

Em 2017, Jornada nas Estrelas ressuscitou após o longínquo cancelamento de Enterprise em 2005. Não estou falando de Discovery; e sim sobre The Orville, sob a batuta de Seth McFarlene, o autor de Uma Família da Pesada (e seus derivados), produções recheadas de referências ao universo da cultura pop americana – em especial, da Ficção Científica pop, como Star Wars e Star Trek.

Tentando unir os dois mundos que adora; a comédia e a Ficção, ele quis se aproveitar também do sucesso de “comédias de ação” da Marvel, como Guardiães da Galáxia e Deadpool, que também são afins do SciFi e contém um estilo de humor muito próximo do que McFarlene trabalha. Ele desenvolveu ao longo de 2016 os primeiros 13 episódios e se escalou como protagonista – tal como Seinfeld, quem ele também se inspira.

Contando com participações pontuais de grandes nomes da produção, como Jon Favreau e Brannon Braga; além de muitos atores de renome como convidados, a série chamou muita a atenção. E, infelizmente, não atingiu as grandes expectativas depositadas sobre ela; e recebemos uma primeira temporada muito irregular.

Agradou: O amor do autor pelos temas e humor “lado Bdo SciFi

Uma coisa que realmente faz você ter vontade de assistir Orville e provavelmente foi o que manteve a série no ar mesmo após uma primeira temporada muito difícil, é perceber como McFarlene AMA a Ficção Científica. Conheci ele em Uma Família da Pesada, e lá tem uma coleção de piadas referente ao SciFi (especialmente Guerra nas Estrelas) e já imaginava que eram referências específicas demais para alguém que não fosse apaixonado. Mais para frente fui descobrindo sobre autor, e estava certo, ele curte muito e até já fez uma ponta em Enterprise.

Isso fica nítido em quase todos os capítulos; os temas que ele escolhe trabalhar, a estética, as falas…. são todas inspirações de grandes outras obras do gênero. Ele trata tudo com muito respeito e veneração, isso é impagável. E especialmente isso se faz sentir quando ele aposta no melhor humor que ele pode oferecer, que é justamente em tiradas e ironias específicas do mundo da Ficção Científica; ele faz com elegância, respeito e deboche ao mesmo tempo. E zoar com respeito é uma das coisas mais difíceis da comédia; no que McFarlene, quando acerta, é brilhante.

Não Agradou: Falta de coerência no humor e roteiros muito fracos.

Episódio 01: Old Wounds

No primeiro episódio, Old Wounds, uma das coisas mais engraçadas de toda a Ficção Científica, tivemos uma obra prima de comédia; era de tudo um pouco. Desde quebras muito sutis e elegantes de quarta parede, piadas de fundo (minhas favoritas), um pouco de elementos de sitcom e, claro, o carro chefe, com ironias sobre as convenções do gênero. Infelizmente, muito pouco disso se concretiza.

Minha primeira impressão é que o seriado se trataria de algo como uma comédia sobre o Lado B das naves espaciais do seriado: trabalhar com ex-cônjuges; paradas para ir ao banheiro; confusão entre espécies; preocupações de como o capitão seria como chefe e se é possível manter regalias… tudo que com certeza ocorreria em qualquer nave de Jornada nas Estrelas só que a gente não vê. Mas não foi isso, embora quando retorna pontualmente é maravilhoso – o atraso ao abrir um canal de comunicação foi muito engraçado, por exemplo.

O humor foi bastante incoerente; a questão das “pegadinhas” realizadas por dois dos tripulantes, em Pria (E05), lembra os piores momentos de Uma Família da Pesada, por exemplo. Ainda há esquetes sitcom que são muito pouco orgânico e comprometedores para a compreensão geral do enredo. Em Command Performance (E02), o encontro com os pais do capitão é dispensável, mal encaixado, e pouco plausível desde o começo, mas enfiado goela abaixo apenas para realizar as piadas clichês sobre “pais que constrangem os filhos em público”.

Episódio 04: If the stars should appear

E esse humor mal colocado é uma face dos problemas de roteiro; a grande maioria escritos pelo próprio Seth McFarlene.

E é uma pena, ele tem tudo ali; argumento, premissas, personagens, universo mas há dificuldades de colocar estes elementos para funcionar em conjunto no roteiro. Há alguns capítulos que ocorrem grandes furos, como em If The Stars Should Appear, que as respostas para cada um dos furos está na história, apenas faltou conectá-las. Ou outros em que ele tenta fazer alguma crítica social ou política e o resultado é extremamente superficial – e com poucas alterações de cenas ou diálogos tudo se tornaria muito mais complexo.

Ele até me lembra um pouco o George Lucas, tem as grandes idéias e precisa ter o controle criativo das coisas, mas também precisa achar outras pessoas que pensam como ele para executar com primazia.

Episódios

S01E01: Old Wounds – Ri como nunca neste piloto. Conseguindo encaixar muito bem um enredo de Ficção Científica, hoje considerado já “clássico” (pensando no que foi produzido nos anos 80,90 e 2000), com muita comédia acompanhamos a jornada de Ed Mercer. Com dificuldades para superar seu divórcio, ele finalmente é promovido a Capitão de uma nave mediana de exploração e conhece sua tripulação.

A comédia aqui é completa; vamos de ironias com a Ficção Científica, ou com o ambiente de trabalho, ao lado B de um funcionamento das naves, problemas com relacionamentos a até boas piadas “de fundo” – com espaço para sutis e elegantes quebras de quarta parede (como um personagem não saber muito bem quem é quem ainda).

Infelizmente a temporada não manterá essa qualidade de comédia, ficará bem longe, aliás, mas este episódio sozinho é uma obra prima dos dois gêneros.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E02: Command Performance – Mostrando como é um grande fã da Ficção Científica no geral, e grande comediante, McFarlene consegue encerrar este capítulo com uma piada, se não engraçada, extremamente simples mas muito inteligente para o problema enfrentado. Entretanto, o caminho até lá é um pouco capenga. A impressão é que a concepção do episódio começou de trás para frente: ele queria de qualquer jeito colocar essa piada e depois pensou numa história pra isso.

O Capitão Mercer, por um acaso, tropeça numa nave onde estão seus pais e decide visitá-los; acontece uma ou outra coisa e a Tenente Alara se vê subitamente no comando da nave. O programa começa com algumas situações em que parece que estamos vendo uma sitcom no espaço – que serão os pontos mais baixos da temporada – despropositadas e genéricas na comédia (lembrando o que há de pior em Family Guy).

Esse começo não conversa bem com as tramas desenvolvidas no resto do episódio, que por sua vez, também não conversam tão bem entre si – não faz sentido uma personagem não humana conhecer a resolução do problema.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E03: About a Girl – O principal defeito deste episódio é a certeza – verdadeira, espero eu – que todos nós vamos concordar com a moral da história. Ao visitar o planeta natal de Bortus, a comandante Grayson será sua advogada no processo de transformação de sexo da filha recém nascida do oficial. Algo moralmente reprovável de imediato.

Daí pra frente, vemos os personagens discursando superficialmente sobre uma coisa que todo mundo sabe que está errada, inclusive dentro de uma perspectiva de lógica interna daquele universo ficcional. Em nenhum momento há qualquer tipo de aprofundamento do porquê, primeiro, existem fêmeas naquela espécie se a reprodução em si é assexuada, ou se não é, como foi possível dois seres do mesmo sexo se reproduzirem naturalmente? É uma forma de reprodução inédita com relação ao que conhecemos da fauna e flora terrestre?

Mas em especial, não compreendemos o porquê aquela sociedade em especial não deseja ser composta de fêmeas. Porque elas são menos, em todos os sentidos, que os machos, é isto? É apenas isso apresentado. Tal como vivemos na humanidade, isto é uma resposta suficiente para uma sociedade ser sexista ou machista, não para exterminar as mulheres como política de Estado. A condição mais comum em analisar entretenimento é achar algo bom mas reprovável; aqui é o inverso, apesar de louvável, fraco.

Avaliação: 1 de 5.

Muito Ruim (1/5)


S01E04: If the Stars Should Appear – Nossos heróis encontram uma gigantesca nave a deriva, e ela é habitada por uma sociedade que não sabe da existência de um mundo lá fora. O argumento e o final são ótimos, lembram muito uma pegada clássica de Ficção Científica, seria um belo episódio de TOS, por exemplo.

Entretanto, o roteiro é muito fraco. Visivelmente não é o forte de McFarlene para séries Live Action. Em algum momento uma personagem fala sobre o “povo do subterrâneo”, o que eu havia entendido que seriam os verdadeiros tripulantes da nave, ou algo nesse sentido. Mas no momento que eles entram no elevador, e deliberadamente, para fazer uma piada, um personagem pergunta sobre a direção a seguir, e a resposta foi ir para cima; podemos ver como o cuidado foi mínimo.

Além disso, não há como notar que parte daquela sociedade vive na Idade Média e outra metade em um século XIX ou XX meio steampunk. Essas contradições não foram abordadas, e deixam furos severos no roteiro; como era possível construir armas e carros num universo com o tamanho de Nova Iorque? O regime ditatorial daquela civilização, na realidade, em estórias que devem ter inspirado o criador da série, serviria como uma forma de manter sob controle aquela sociedade para fins de auto-suficiência – tal como o premiado Fim da Infância de Stargate Atlantis. McFarlene até sabe de tudo isso, pois os elementos estão lá, mas faltou habilidade de conectar.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E05: Pria – O bom de estrelar uma série da qual você tem total controle criativo e ainda estrelar como protagonista é produzir um episódio inteiro apenas para que você fique com uma garota belíssima – e uma das atrizes mais badaladas da indústria. A Orville encontra Charlize Theron precisando de ajuda em um asteróide prestes a ser destruído, mas após resgatá-la, há certas desconfianças de suas verdadeiras intenções.

Ao final, temos um argumento curioso com alguns momentos inteligentes, mas o capítulo nitidamente foi feito com apenas um objetivo em especial, que é criar um triângulo amoroso entre Mercer, Grayson e Pria – algo denunciado pelo peso da atriz envolvida e o título da estória.

De fundo, há uma ousadia muito grande com relação a viagem temporal e linha do tempo, no que tange ao destino da Orville, que, se abordada no futuro do seriado, pode render outros capítulos geniais. Se não, foi tudo apenas muito bobinho. E a trama B sobre as “pegadinhas” foi uma tentativa frustrada e clichê do humor com quem é incapaz de ter sentimentos, explorado exaustivamente na Ficção Científica.

Avaliação: 2 de 5.

Ruim (2/5)


S01E06: Krill – Após uma bela seqüência de batalha e sagacidade aeroespacial, o Capitão Mercer recebe uma missão impossível: se infiltrar em uma nave dos principais inimigos e sair de lá com uma importante amostra de sua sociedade. Foi um bom momento para finalmente apresentar e se aprofundar um pouco mais nesta raça que desponta como a grande antagonista do seriado.

Eu esperava mais subversão por parte dos inimigos, por exemplo, se eles não fossem tão obscuros ou malignos, ou pelo contrário, que eles fossem extremamente ruins de uma forma que rendesse bastante humor negro. No final, os Krill se mostraram inimigos bem padrões sem muitas características únicas, apesar de um visual maravilhoso.

O foco do humor acabou ficando na inadequação dos protagonistas à missão; e que foi realmente bem feito. Há muitas pequenas piadas aqui e acolá, todas bem engraçadas; desde o piloto não me divertia tanto. Além de um destaque para o final sombrio.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E07: Majority Rule – “Isso é muito black mirror!!“. A Orville é enviada para descobrir o destino de dois antropólogos que estavam infiltrados em um planeta idêntico a Terra no século XXI, estudando aquela sociedade. Eles relataram que haviam feito grande progressos mas subitamente encerraram suas transmissões. Sabe-se lá o porquê, não falaram em sua comunicação exatamente a principal característica daquela sociedade. Mais uma vez em que a dificuldade de McFarlene com roteiro pesa logo no começo, pois tudo teria sido evitado caso eles explicassem como a civilização funcionava em seu contato (que foi estabelecido pelo próprio capítulo que ocorreu).

Entretanto, há elogios: uma trama despretensiosa sobre um acessório de moda acaba gerando o plot twist fundamental do episódio. É curioso como Majority Rule parece, as vezes, que é mais superficial e, em outras, mais profundo que Nosedive de Black Mirror, que contém um argumento idêntico.

Enquanto aquele se preocupava com uma abordagem dramática e pessoal daquela questão, com um resultado que causava severo desconforto em nós; aqui a preocupação é mais dirigida aos aspectos sócio-políticos de uma civilização regida daquela maneira. Os questionamentos foram bons, mas feitos de uma forma não tão elegante, seria muito mais interessante mostrar algumas das coisas que Mercer falou na reunião, com relação à alimentação e hábitos, do que apenas ele ter dito.

Todo o tempo perdido com a “confusão” inicial dos personagens, poderia ser eliminado; com eles chegando já por lá cientes de como funcionava e observar as coisas descritas, de fato, acontecendo. Ficando tudo concentrado em um único diálogo, não deixa de parecer uma crítica superficial, especialmente com a comparação inevitável a Black Mirror; que nos coloca numa posição cada vez mais insuportável ao assistir a tragédia da protagonista.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E08: Into the Fold – Um louvável episódio dedicado inteiramente a personagens secundários (embora provavelmente a atriz mais renomada do elenco fixo). A Dra. Finn pretende ter um belo final de semana com os filhos em um planeta repleto de parques de diversões, entretanto, no caminho seu transporte sofre um acidente e ela, seus rebentos e Isaac acabam caindo em um planeta habitável mas hostil.

Há alguns elementos interessantes aqui e ali (e a participação de um ator convidado bem reconhecível de várias obras de Ficção Científica é bem vinda), entretanto, o episódio fica focado em um humor muito previsível ao colocar as crianças aos cuidados de Isaac. Mais uma vez somos apresentados a piadas capengas do personagem sem sentimentos.

Os raros aspectos interessantes se centram na história daquele planeta, mas, em especial, do arco solo da Dra. Finn, surpreendentemente sombrio e forte em seu desfecho – embora gostaria que tivesse sido mais trabalhado o impacto de tudo com a médica, será que ela já havia feito aquilo antes? O resultado final é um episódio tedioso mas sem grandes problemas.

Avaliação: 2 de 5.

Ruim (2/5)


S01E09: Cupid’s Dagger – Duas raças alienígenas com visuais fantásticos estão em guerra há séculos para controlar um desolado planeta; a União é escolhida como parte neutra para mediar esse conflito. Uma solução se avizinha quando uma escavação arqueológica pode indicar qual dessas duas espécies a mais tempo se estabeleceu no planeta. O detalhe é que o arqueólogo responsável diz respeito ao passado do capitão.

Contando com um grande ator convidado, perfeito para o tom cômico, o capítulo consegue transitar bem entre essa trama mais complexa e séria (que é um plano de fundo apenas) e o drama pessoal dos personagens, totalmente entregue à comédia. Eu gostaria de um desenvolvimento melhor dessas duas civilizações em disputa, já que havia umas premissas complexas por trás dela e por trás da resolução final; o planeta era o originário de ambas? Houve migração espacial há milhares de anos? Era necessário ter honrado a ambição do enredo, mesmo que marginal.

O capítulo foi exibido numa má hora, durante um grande escândalo de assédio sexual na indústria do entretenimento; e acabou despertando discussões sobre consentimento sexual, já que a habilidade de um determinado personagem acaba por se sobrepor a isso. Realmente seria uma discussão pertinente, mas injusta com a produção, que não esperava por isso e também não foi conservadora nem machista na abordagem, ainda que superficial.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E10: Firestorm – Após ter dificuldades para lidar com um acidente durante uma tempestade de plasma sofrida pela Orville, a Tenente Alara entra em crise e se questiona como oficial. Eu, particularmente, achei a trama desinteressante porque detesto capítulos dessa natureza, mas este é bem realizado.

Sabendo equilibrar os gêneros; começa como um drama e chega ao terror de forma boa, aproveitando-se de momentos certeiros para inserir algumas piadas pontuais. Visualmente também é bom, ao final claramente estamos assistindo a uma referência de O Oitavo Passageiro; e apesar de mesmo após alguns incidentes nós já desconfiarmos que tem coisa errada, a tensão se mantém alta, e a revelação final vem em uma boa hora.

É que, realmente, não me cativa esse tipo de recurso narrativo a não ser que sirva para explorar aspectos muito diferentes do personagem ou daquele universo, o que não houve – mas o saldo final é competente. Em uma temporada mais regular, este seria um capítulo mediano, mas nessa irregularidade que Orville teve em seu primeiro ano, ganha destaque.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S01E11: New Dimensions – O engenheiro chefe Newton pede transferência, assim, o Capitão Mercer precisa escolher um novo tripulante para essa posição e a oportunidade surge da crise: a Orville está a deriva após um acidente com uma anomalia espacial e precisa ser consertada com urgência pois está na rota de uma nave Krill.

Apesar de eu achar que caiu um pouco de pára-quedas a inteligência de LaMarr; este episódio é excelente no desenvolvimento de personagem. Foi muito acertado contar a história de LaMarr ao mesmo tempo em que Mercer descobre sobre sua promoção, as posições similares que eles se encontram. E tudo isso sob um plano de fundo verdadeiramente original e muito com cara de SciFi clássico – com visuais muito interessantes.

A piada inicial é fraca, mas é orgânica, assim como as demais espalhadas pelo episódio (e que tem seus bons momentos cômicos). Nesse sentido, temos um capítulo muito bem equilibrado entre tudo o que Orville queria apresentar – e com conteúdos mais genuínos dela, o que, por outro lado, afasta algumas das premissas originais da série de ser uma espécie de Paródia (ainda bem!).

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E12: Mad Idolatry – Há uma coletânea de ideias muito inteligentes aqui; o planeta que desaparece, a passagem do tempo, a interferência em civilizações primitivas, e a crítica à religiosidade. Tudo é muito bem feito, exceto nesta última temática. Explorando este planeta que aparece de tempos em tempos, a Comandante Kelly acaba ajudando uma criança e este acontecimento tem desdobramentos irreversíveis naquela sociedade.

Invariavelmente, este episódio é comparado ao fabuloso “Num Piscar de Olhos”, de Star Trek: Voyager, de onde McFarlene tirou a inspiração e fez várias referências. Por um lado, Orville consegue oxigenar o mesmo argumento através do comportamento astronômico muito inédito e interessante do planeta, por outro, ao tentar aprofundar mais às críticas sociais, se torna superficial.

Lembrando os capítulos anteriores com o mesmo objetivo; o roteiro acaba supondo, acertadamente, que vamos aceitar integralmente a crítica de forma tão óbvia que esquece de desenvolvê-la. Uma única aparição de Kelly para uma única tribo não seria suficiente para criar uma religião da forma como apresentada; alguns livros sagrados são de teor mais filosóficos, outros mais mitológicos e alguns, na realidade, como a bíblia (que é o alvo do comentário) são narrativas históricas. Uma antologia de eventos que os hebreus passaram em sua história que adquiriram determinado sentido ou coesão uns com os outros a partir do mito de um único Deus que, ao escolher aquele povo, interveio em momentos específicos de sua história – e estes são os eventos narrados.

Melhores diálogos poderiam apresentar como a figura da Kelly teve um papel análogo e coisas completamente aleatórias foram atribuídas a ela, sem mudar muito o episódio. Embora o ideal seria ela ter empreendido um contato um pouco maior com a população originária.

E ainda assim, a postura dela é um pouco idiota, intervir porque uma criança tropeçou, e novamente por culpa do roteiro. Era mais fácil ela ter causado ou sofrido um acidente junto com outros alienígenas, por exemplo, e ficasse num verdadeiro dilema sobre se curar e aos outros; algo bem menos evitável que se descontrolar com uma menina que se cortou. E, por fim, toda crítica posterior é completamente previsível composta de comentários óbvios um atrás do outro (só assim o roteiro poderia ter a certeza que concordaríamos com tudo). Faltou muito, mas muito, refino aqui ainda que parta de premissas inteligentes e relativamente originais.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


Melhor Episódio

Old Wounds: Triste falar, mas ele foi uma espécie de propaganda enganosa, este episódio promete muito para a série. Garanto que nunca ri tanto com algo que não fosse inteiramente dedicado a comédia; porque não o é realmente. Há uma trama e um desenvolvimento interessante por trás.

É um humor perfeito para o gênero, muito bem encaixado e distribuído – é bom demais. Se você não quiser dar uma chance ao seriado por conta da sua irregularidade, apenas assista a este episódio: tem um pouco de tudo. É a plena forma de McFarlene que víamos nas primeiras temporadas de Uma Família da Pesada.

Por fim, já no encerramento da temporada, temos um material muito mais original em New Dimensions. Explorando conceitos científicos bem originais e desenvolvendo o drama dos personagens de forma excepcional. E Krill é talvez o melhor capítulo cômico após o piloto.

Pior Episódio

About a Girl: As dificuldades de roteiro da série se tornam mais evidentes quando há a aspiração de ser uma crítica social mais aprofundada, que, naturalmente, precisa ser muito mais redonda e afiada. Sabemos que McFarlane está ao nosso lado nas trincheiras, e ele também sabe disso – ou então, tenta atrair de forma sutil alguma parte da fãbase de Ficção, que ainda é bastante reacionária – e esse parece que é o problema.

Aqui, a moral é clara – o gênero não deve ser imposto para ninguém, e isso tem a ver sim com machismo – ótimo. E, infelizmente, paramos por aí o elogio. Depois disso é uma confusão profunda; somos apresentados antes que aquela espécie tem apenas um gênero e logo em seguida que eles se reproduzem assim. Mas imediatamente depois há um plot twist que sim existe um outro gênero, ele apenas é “transformado”. E aí já temos o primeiro erro; se as fêmeas fossem apenas escondidas socialmente, tudo seria melhor amarrado – mas os Moclan provavelmente se tornariam vilões demais. O roteiro ficou devendo, então, explicar como funciona a reprodução da espécie – quem pode se reproduzir são os machos que eram fêmeas no nascimento? Foi o que ficou subtendido já que era o caso do esposo de Bortus.

Depois disso, provavelmente com medo de queimar o filme de uma espécie que estaria do lado dos mocinhos, é tudo muito patético com relação à justificativa do porquê eles mudaram o sexo das crianças. O máximo explicado é porque elas seriam mais fracas para sobreviver naquele ambiente hostil… isso é suficiente para descriminação (como o é com os humanos), não para uma política de Estado de extermínio de todo um grupo étnico, biológico ou social – sim, seria uma expressão assim para explicar o que acontece por lá, mas com medo de prejudicar os Moclan, ninguém fala como deveria ser falado.

Da mesma forma, as exposições da comandante Grayson são ainda piores; mostrar como machos humanos são burros (e o humor deste episódio, de longe, é um dos piores da série) e fêmeas de outra espécie podem ser fortes. Um argumento fraco puxa o outro; se não sabemos exatamente o porquê os Moclan exterminam as mulheres, também não tem saber exatamente como defendê-las.

No final, essa falta de cuidado, eu desconfio que possa levar a interpretações muito distorcidas da moral do capítulo – não me surpreenderia de algum ancap ultra-reacionário por aí entendesse a história como uma crítica à “Ideologia de Gênero” (coisa que não existe, sempre bom lembrar) e à “sexualização das crianças”.

Com relação a essa abordagem, Mad Idolatry tem problemas similares, assim como Majority Rule, mas ambos entretém muito bem e não fariam parte dos piores. Eu gostaria muito que fossem melhores.

Além disso, Pria e Into the Fold, infelizmente são duas perdas de tempo.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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