Arquivo X – Primeira Temporada

Arquivo X


A verdade está lá fora“. Com exceção de Jornada nas Estrelas, é difícil pensar em um seriado de Ficção Científica mais influente que este. É uma obra prima em tantos e diversos aspectos que comentar sobre ela é uma tarefa dificílima.

Havia assistido a série esporadicamente nos anos 90. Mas o primeiro grande problema, e mais importante, eu era ainda bem criança, sou de 1989. E além disso, não era fácil acompanhar Ficção Científica no Brasil até pouco tempo atrás; meu pai era um fã moderado mas tenho vivas memórias de alugarmos o filme de 1998 para assistir e ele não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo. Por um motivo mais simples que a complexidade geral do enredo: porque não havíamos conseguido assistir, chuto que, nem metade do seriado até ali.

Finalmente, acompanhei depois de adulto entre 2016 e 2017, e agora indo para a terceira assistida, a sensação de estar testemunhando uma das grandes obras da história da TV é ainda maior. Já sabemos de muita das influências que ela teve nas séries desde então, e é possível identificá-las, mas o melhor é como mesmo sendo um suco de anos 90 no começo ao fim, das estética aos enredos, a série se mantém viva.

As especulações, teorias da conspiração, monstros e situações paranormais – com algumas poucas, mas chamativas, exceções – conseguem ainda nos manter pensando e pesquisando sobre os temas décadas depois. Impossível um mérito maior para uma obra de ficção.

Agradou: episódios de “monstros da semana”, trama episódica, envelhecimento excelente.

Logo em seu terceiro capítulo, somos apresentados a Eugene Tooms, uma espécie de serial killer-mutante-devorador-de-fígados que tem centenas de anos. Esse formato dos agentes enfrentando um mistério, normalmente encarnado em um antagonista bizarro ou com poderes sobrenaturais, sem conexão com a grande trama principal da série, ficou conhecido como “monstro da semana“.

Esse estilo de trama episódica era o hegemônico no período, a Ficção Científica era um dos raros gêneros que tentava criar um enredo maior espalhado por toda a temporada. Gradualmente esse estilo narrativo foi substituído por “séries serializadas”, com o perdão da redundância, em que um capítulo começa quase que imediatamente de onde o anterior parou. Na época o estilo episódico me tirava do sério, achava um desperdício de tempo; mas agora, sendo algo na contramão, me agrada profundamente esses capítulos desconectados.

Começando com Aperto, os grandes capítulos desta primeira temporada são justamente os que possuem esse formato, como Gelo, Eva, Além-Mar, e mesmo assim vários dos episódios mais medianos desse tipo, como Lázaro, Formas ou Anoitecer têm seus méritos. Vários deles nos fazem ficar pensando nas possibilidades levantadas por eles ou fazem com que nos interessemos por seus temas.

Diabo de Jersey, por exemplo, têm vários problemas, mas sua especulação sobre a origem do “monstro” me fez pesquisar mais sobre o tema e ficar pensando por vários dias como seria possível. Fico imaginando como foi ver na época, sem acesso a internet e, assim, sem o imediato às informações de hoje. Como era a recepção dessas diversas teorias de Mulder pelos espectadores?

Aliás, o fato de incitar pesquisas e reflexões mesmo eu assistindo pela segunda ou terceira vez, e 27 anos depois, é um atestado como a maioria desses capítulos envelheceu muito bem (e melhor que os do arco principal). Com algumas exceções notáveis – normalmente episódios com tentativas de tecnothriller quase todos se mantém, ao mesmo tempo, atuais e ainda como bom testemunho da época em que foram produzidos. Melhor envelhecimento, impossível para uma obra de arte.

Não Agradou: episódios do arco principal e idade dos protagonistas.

Normalmente nas séries episódicas, os capítulos que chamam mais a atenção são aqueles relacionados a trama principal da temporada ou do seriado; por exemplo em Stargate e mesmo na maioria dos anos de Arquivo X, entretanto, em seu início, eles são justamente o elo fraco.

Com um enredo ainda, imagino que, não muito maduro, ou por pura opção, todos os capítulos relacionados ao arco principal, exceto o final, são extremamente lacunares. Nada é o que parece. Tudo o que você sabe é mentira. Tudo o que foi visto não era real. Nada do que disseram é verdade. É preciso muito cuidado para não levar o espectador a desconfiar também se vale a pena ele estar assistindo tudo aquilo.

Há séries inteiras baseadas nesse excesso de lacunas, Lost é o maior exemplo, mas a maioria não passa da primeira temporada – lembram-se de The Event? – e desconfio que poderia ter sido o caso de Arquivo X não fossem os excelentes capítulos de “monstro da semana”. Eles que, do fim ao cabo, carregaram sozinhos todo o ineditismo do seriado.

Além disso, uma coisa menor mas que incomoda até certo ponto, foi a idade de Mulder e Scully. Conforme os atores vão envelhecendo ao longo dos 11 anos de show, isso passa a aparecer menos, mas aqui no comecinho do seriado é bem impactante – além de que houve certos retcons.

Mas em Coração Jovem, dá a entender que Mulder tem 38 anos (alterado para 33/34); e Scully não chega a ter sua idade revelada até aqui (posteriormente estabelecido como 29, e atriz tinha 25). Ambos aparentam ser muito jovens para toda bagagem profissional e até mesmo carga emocional que colocam para eles – por exemplo, a insistência de Scully se relacionar com homens com 40 anos é bem estranha. Mas, de toda, forma é um detalhe apenas para ter o que falar sobre esse início fantástico.


Arquivo X

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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