O planeta do exílio

O planeta do exílio – Ursula K. Le Guin

Tradução: Marcia Men – Editora: Morro Branco

Ano de Lançamento: 1966 – Minha Edição: 2025 – 159 páginas


O planeta de Werel é habitado por duas espécies humanoides e similares, entretanto, uma é nativa do local e outra provém de uma civilização alienígena, que chegou por lá séculos atrás. Elas vivem de forma hostil, mas estável: há um contato limitado entre as comunidades, especialmente porque de ciclos em ciclos elas são ameaçadas por tribos nômades selvagens do norte, os Gaal – que são da mesma espécie dos nativos, mas, ainda assim, o inimigo comum.

Esses bárbaros costumam atacar durante o inverno, quando o norte congela e eles precisam descer às zonas temperadas para comida e abrigo. O diferencial é que em Werel, a órbita do planeta é muito diferente da nossa: cada rotação pelo seu sol dura 60 anos terrestres, o que leva a estações que duram cerca de 15 anos.

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A Revolução Venezuelana

A Revolução Venezuelana – Gilberto Maringoni

Ano de Lançamento: 2008 – Minha Edição: 2009 – 198 páginas


Um dos eventos que mais me desperta o interesse é a Revolução dos Cravos, que depôs o Salazarismo em Portugal, uma vez considerada a última revolução socialista do ocidente (e talvez da história). Quando me deparei com este volume das Revoluções do Século XX com a Venezuela na capa, já há alguns anos, foi um choque e o despertar de muitas dúvidas. O Bolivarianismo de Hugo Chávez teria sido, então, a próxima “última Revolução Socialista”?

Talvez até mais importante, uma revolução pela via eleitoral: a altura da escrita deste livro, o Chávez tinha vencido 12 eleições seguidas, em âmbito nacional, mas em diversas esferas, entre 1998 e 2006, todas livres e pluripartidárias. Uma popularidade e capacidade de mobilização eleitoral sem paralelo na História, especialmente na América Latina.

Diante do recente sequestro de Nicolás Maduro pelo governo americano, tendemos hoje, 20 anos depois deste último marco, entender que este processo já havia acabado e derrotado. Isso só o futuro dirá, entretanto, aqui temos uma excelente base de como ele começou.

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O Bem-Amado

O Bem-Amado – Dias Gomes

Ano de Lançamento: 1962 – Minha Edição: 2025 – 132 páginas


Quando saiu do governo, do posto de ministro da Casa Civil, o poderoso General Golbery do Couto e Silva, o grande arquiteto da “abertura lenta, gradual e segura” da ditadura, após mais de 8 anos no poder, pediu demissão e declarou: “acabo de sair de Sucupira“. Era 1981; os indicadores econômicos despencavam e o atentado do Rio Centro – dois militares tentaram explodir uma bomba no local de eventos como “false flag” para justificar um retorno à linha dura – criaram um dos momentos mais tensos da história nacional, colocando em xeque o regime militar como nunca antes; e seu epitáfio foi uma referência a uma novela.

Não qualquer uma: O Bem Amado, foi uma das produções da teledramaturgia nacional mais influentes de todos os tempos, ao retratar a tragicômica administração da cidade de Sucupira, no litoral baiano. Seu sucesso se deve à adaptação da peça original, escrita pelo autor de ambas as obras, publicada em 1962.

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Cidades Mortas

Cidades Mortas – Mike Davis

Tradução: Alves Cândido – Editora Paz e Terra

Ano de Lançamento: 2002 – Minha Edição: 2025 – 559 páginas


Pouco depois da pandemia se encerrar, ali por volta de 2022, lembro de usar um dia das minhas férias para ir até o centro de São Paulo, ir em sebos, almoçar e depois ir até a Casa Mathilde, uma tradicional doceria portuguesa, do século XIX, que ficava em um boulevard que reúne o Edifício Martinelli e o Edifício Altino Arantes (Banespão). Tinha tudo para ser um dos mais belos locais da capital; não só não já não era, como naquela minha visita, simplesmente tudo naufragou, minha esposa e eu desistimos ao ver uma série de portas fechadas (incluindo a doceria portuguesa). Voltei pra casa com a sensação que São Paulo tinha morrido.

Provavelmente a pandemia foi um dos cenários mais catastróficos para as cidades; São Paulo se recupera muito mal – não só o centro, como agora a própria Avenida Paulista está em franca decadência. Mas o movimento da falência da urbanização é algo que é possível de rastrear por todo o século XX; este é, mais ou menos, o tema deste livro de Mike Davis.

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Jornada nas Estrelas: Academia da Frota – 1ª Temporada – só mais um besteirol americano?

Quando estreou a série sobre The Wticher, lá na virada de 2019 para 2020, eu assisti mas não me pegou. Coincidentemente, acabei assistindo dias depois Monty Phyton e o Cálice Sagrado, de 1975, uma das maiores comédias de todos os tempos. O mais impressionante, é que nesse acaso, foi possível perceber que o filme, realizado quase 50 anos antes, ironizava uma série de clichês e convenções de fantasias medievais que o seriado, baseado em um grande jogo, ainda era dependente meio século depois.

Após assistir Jornada nas Estrelas: Academia da Frota, vou repetir a mesma experiência e buscar assistir Não é mais um besteirol americano, filme de 2001, nem de longe tão genial quanto O Cálice Sagrado, mas que parodiava muito bem várias convenções de dramas adolescentes dos anos 80 e 90 – e foi boa parte do que me pegou na minha juventude. A experiência de assistir agora é porque este seriado é quase que exclusivamente dependente dos mesmos clichês daqueles longas da sessão da tarde, um quarto de século adiante.

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Segunda Fundação

Segunda Fundação – Isaac Asimov

Tradução: Marcelo Brabão – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1951 – Minha Edição: 2009 – 235 páginas


O Plano Seldon está por um fio; a promessa da Galáxia se reconstruir da barbárie após a queda do Império Galáctico em apenas um milênio já está desacreditada. O mutante Mulo conseguiu conquistar a primeira Fundação e seus domínios se estabilizaram; mas para continuar sua sana de subjugar mais sistemas ele precisa encontrar a misteriosa segunda Fundação, a única facção na Galáxia capaz de derrotá-lo.

Funcionando como a retaguarda da Psico-História, essa outra entidade é dedicada à psicologia e seus integrantes têm poderes telepáticos – por isso é a grande ameaça ao Mulo – e permanece totalmente secreta; por alguns instantes a heroína do volume anterior, Bayta, consegue impedir que o vilão descubra seu paradeiro. Entretanto, alguns anos depois, ele incumbe o capitão Han Pritcher dessa missão; ao lado do ambicioso político Bail Channis.

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Fundação e Império

Fundação e Império – Isaac Asimov

Tradução: Fabiano Fernandes – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1951 – Minha edição: 2009 – 244 páginas


A Fundação foi formada por Hari Sheldon, um psico-historiador, com a função de fazer com civilização humana sobrevivesse da menos traumática o possível ao período de anarquia desencadeada com o colapso do Império Galáctico – também previsto pelo cientista. Passado alguns séculos, consolidada nos confins da Galáxia, ela definitivamente se estabeleceu como uma potência regional; a ponto de chamar a atenção do que sobrou do Império – que muitos imaginavam sequer existir mais – que despachou um de seus melhores homens para enfrentá-la.

Com dois grandes vilões, no segundo volume da série, veremos a Fundação precisando se defender do jovem General Bel Riose, o último grande comandante militar imperial; e do misterioso Mulo, um senhor da guerra local – este, em especial, desafiará até mesmo os preceitos da Psico-História.

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Fundação

Fundação – Isaac Asimov

Tradução: Fábio Fernandes – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1951 – Minha Edição: 2009 – 239 páginas


Um debate muito acirrado dentro do campo da historiografia é sobre considerar ou não a História uma ciência. “Ciência” implicaria em uma série de pressupostos os quais o estudo do passado pode ou não atender. A favor dessa posição temos, por exemplo, o rigor metodológico – ser historiador hoje não é simplesmente narrar eventos; há todo um processo científico por trás que é compartilhado por pares – mas, contra, e muitas vezes decisivo, não há como realizar experimentos com o tema de estudo, uma vez que ele já não existe mais.

É nesse contexto, no século XIX, que outras ciências humanas começam a ser desenvolvidas para suprir a “falta de cientificidade” da História e da Filosofia, tais como a Sociologia, a Geopolítica, Antropologia, e a Psico-História.

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Os Anéis do Poder – 2ª Temporada – Melhorou em tudo

Adaptar obras da magnitude e fãbase como as de de Tolkien é sempre uma opção arriscada. Por um lado, é um material original muito denso e a tarefa de apresentar ao público mais amplo algo tão profundo não será fácil. É necessário mastigar muita coisa, alterar outras tantas, de modo a ficar palatável ao público contemporâneo e ao formato televisivo e, ainda, excluir sumariamente uma terceira fatia de elementos. Por sua vez, todas essas mudanças vão inflamar os fãs mais antigos.

A tarefa de Os Anéis do Poder ficou ainda mais difícil ao tentar adaptar literalmente os Contos Inacabados, apenas um esqueleto da estória que o autor pretendia contar. A boa notícia é que ela sobreviveu – com um caminhão de dinheiro da Amazon, é claro – a uma difícil primeira temporada e, agora, nos entregou uma versão totalmente aprimorada de si mesma.

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Retrospectiva 2025

Neste ano, apesar de ter conseguido ler mais, o blog ficou menos movimentado. Ainda assim, mantivemos o mesmo ritmo de visitas, com 17,1 mil visualizações, em um número muito parecido com 2024, com um leve aumento de 10,200 visitantes. Desde o começo, estamos com um total de 54,3 mil leituras e 30,5 mil visitantes.

Um agradecimento a todos que deram uma passada por aqui em 2025 e um excelente 2026 para vocês!!

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Apontamentos sobre a teoria do autoritarismo

Apontamentos sobre a “Teoria do Autoritarismo” – Florestan Fernandes

Ano lançamento: 1979 – Minha Edição: 2019 – 165 páginas


Vencido o século XX, com a promessa de felicidade absoluta ao vivenciarmos o que seria o Fim da História, os regimes autoritários passaram se encarados como coisas do passado, totalmente superados – na retórica citada de Fukuyama ou na Samuel Huntington, eles eram anomalias causadas pela Guerra Fria. A promessa não durou muito em vários aspectos, mas nesse tema, já avançados dentro do Século XXI, percebemos que para cair em novos governos ditatoriais não precisamos de muito.

Como explicar esse novo cenário de recrudescimento das democracias burgueses mesmo sem um inimigo em comum e atentando contra esses regimes? A presença Chinesa, apesar da propaganda, não tem a menor correspondência com a União Soviética. Ela é uma concorrente comercial do grupo da OTAN, não política. Para responder este questionamento, temos aqui um clássico justamente daquele período de quando a maior parte do mundo era governado por ditaduras.

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Condição Artificial

Condição Artificial – Martha Whells

Tradução: Laura Pohl – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 2018 – Minha Edição: 2025 – 233 páginas


Livre de suas amarras computacionais, contratuais e morais, o nosso Muderbot decide finalmente tomar as rédeas da sua vida artificial e vai em busca de respostas sobre seu passado nebuloso no segundo livro da série Diários de um Robô Assassino. Desta vez, ele faz amizade com um transporte científico e cria uma parceria inusitada em sua nova aventura no planeta minerador no qual ele teria se voltado contra um grupo de trabalhadores.

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Lênin: uma introdução


Lênin: uma introdução – João Quartim de Moraes

Ano de Lançamento: 2024 – Minha Edição: 2024 – 139 páginas


Depois de figuras míticas ou religiosas, o russo Vladmir Ulianov, mais conhecido pelo pseudônimo Lênin, foi um dos seres humanos mais influentes, senão o mais influente, da História. Sua capacidade como intelectual e como político não encontram paralelo com mais ninguém, ao menos nos tempos contemporâneos; em sua curta vida de 53 anos, escreveu obras que continuam sendo discutidas até hoje e foi o líder da maior revolução no maior país que a Terra já viu.

Diante de um contexto como esse, nada mais necessário um livro de introdução a sua vida e obra, escrito pelo cientista político João Quartim de Moraes, professor da Unicamp.

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Parasite Eve


Parasite Eve – Hideaki Sena

Tradução: Ayumi Anraku – Editora: Darkside

Ano de lançamento: 1995 – Minha Edição: 2025 – 317 páginas


As mitocôndrias são responsáveis pela produção de energia dentro das células, descobertas em meados do século XIX. Entretanto, mais recentemente, também descobriu-se que elas possuem material genético próprio; o que deu força a teoria da simbiogênese, popularizada nos anos 60, na qual um dos principais motores da evolução seria que indivíduos em simbiose se transformariam em novas espécies. De acordo com essa proposta, as mitocôndrias, ou algo que as possuíam, há mais de um bilhão de anos no passado, se uniram a alguma forma de vida que deu origem à fauna e a flora terrestre.

Essa teoria faz com que elas sejam uma das coisas mais fascinantes no estudo da biologia – pelo menos é o que acha o escritor japonês Hideaki Sena. Neste livro, que foi sua estréia na profissão (originalmente ele é um cientista, doutor em farmacologia), o autor cria um drama e um monstro através de extrapolar o papel das mitocôndrias na evolução da vida no planeta.

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Diários de um robô assassino – 1ª temporada – Gen Z, TEA e robôs

Lançado em 2017, Alerta Vermelho, de Martha Wells, foi um fenômeno; arrebatando todos os prêmios de sua categoria – em especial, o Hugo e Nebulla. As vitórias de tão nobres cerimônias foram encaradas com certo ceticismo por parte do público por achar a obra curta e simplória demais; ela conta da estória de um robô de combate que consegue se rebelar do sistema, mas ele, mesmo assim, decide manter sua vida medíocre como segurança.

Mas precisamente nisso está o que conquistou os críticos e o demais leitores; é uma obra muito atual, na minha avaliação, pois pega exatamente as principais frustrações da geração Z com sua vida adulta. Isso colou tão bem que, em pouco tempo a série de livros, que já conta com 7 livros, recebeu sua adaptação televisiva em através do Apple TV, e soube manter a mesma essência dos livros.

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