Cidades Mortas – Mike Davis
Tradução: Alves Cândido – Editora Paz e Terra
Ano de Lançamento: 2002 – Minha Edição: 2025 – 559 páginas
Pouco depois da pandemia se encerrar, ali por volta de 2022, lembro de usar um dia das minhas férias para ir até o centro de São Paulo, ir em sebos, almoçar e depois ir até a Casa Mathilde, uma tradicional doceria portuguesa, do século XIX, que ficava em um boulevard que reúne o Edifício Martinelli e o Edifício Altino Arantes (Banespão). Tinha tudo para ser um dos mais belos locais da capital; não só não já não era, como naquela minha visita, simplesmente tudo naufragou, minha esposa e eu desistimos ao ver uma série de portas fechadas (incluindo a doceria portuguesa). Voltei pra casa com a sensação que São Paulo tinha morrido.
Provavelmente a pandemia foi um dos cenários mais catastróficos para as cidades; São Paulo se recupera muito mal – não só o centro, como agora a própria Avenida Paulista está em franca decadência. Mas o movimento da falência da urbanização é algo que é possível de rastrear por todo o século XX; este é, mais ou menos, o tema deste livro de Mike Davis.

Lançado em 2002, trata-se de uma coletânea de 18 ensaios do autor estadunidense – um intelectual polivalente, que transita entre a História e Geografia – que tem como tema o urbanismo ou a história das cidades, em especial de Los Angeles (o autor é nascido e criado na Califórnia). Os textos foram escritos em um espaço de uma década, entre 1992 e 2002, ano de lançamento; não coincidentemente, já que, em 92, houve a maior onda de protestos urbanos (riots) da história dos Estados Unidos, que levou a morte de 63 pessoas e 12 mil prisões, desencadeados após a absolvição de 5 polícias que espancaram um motorista negro preso por dirigir embriagado.
Provavelmente a área urbana mais tensa do país, Los Angeles possui um histórico muito extenso de fracasso urbanístico. A segunda maior região metropolitana dos EUA (e terceira do hemisfério, apenas atrás de São Paulo e Nova Iorque), é local de inúmeras contradições sociais e políticas, de fazer inveja a qualquer outra megalópole do mundo. Assim como a maioria das cidades dos Estados Unidos, seu urban sprawl e a idolatria pelo transporte individual, configuram uma verdadeira distopia em forma de cidade.
As tentativas de reformas urbanas são sempre faraônicas e muitas vezes geram outros novos problemas; o que foi batizado pelo autor como Jogo Infinito; no melhor artigo do livro. Assim que uma grande obra é concluída, uma nova é anunciada, bairros inteiros são destruídos e reconstruídos, populações deslocadas para assim que a especulação imobiliária desejar, recomeçar tudo de novo. Ele pega o exemplo de Bunker Hill, no centro de LA, um bairro nobre no início do século, transformado em bairro operário e posteriormente em distrito de negócios.
Em outro artigo “Quem matou L.A.?“, o autor esmiúça mais e demonstra os mecanismos locais e nacionais que permitem esses infernos na Terra do país mais rico da Terra. A crise começa com o Governo Regan, como sempre; e há o movimento nos EUA que passa a tratar as cidades como o grande problema do país, o foco de violência, drogas, desemprego. Nas palavras de Davis, as cidades são tratadas como enclaves de terceiro mundo no território estadunidense, dependentes de ajudas e programas econômicos, drenando recursos.
Há um anti-urbanismo na política estadunidense, impulsionado pela cultura do subúrbio, e que é facilitado pelo desenho administrativo e eleitoral dos Estados Unidos: são possíveis adequações muito mais fáceis aos interesses elites locais. As cidades têm diversos níveis hierárquicos; pode-se criar novas instâncias facilmente, assim como manipular os distritos eleitorais para aprovar o que quiserem; como é o caso da Cidade de Vernon (na foto abaixo). Essa abominação administrativa, localizada a cerca de 8km do centro de Los Angeles, possui apenas 200 habitantes e todo um corpo diretivo que administra um município sem nenhum serviço público – com exceção de abastecer o comércio e indústria.

Entretanto, neste exemplo já temos um dos grandes problemas do livro – no caso da edição brasileira. A estrutura municipal dos EUA é muito diferente da nossa, muitos dados ou fatos são simplesmente incompreensíveis para nós sem uma explicação – afinal, onde está o conde que governa os condados? – o que a edição não oferece; nem há sequer uma única nota explicativa. Não é só responsabilidade dos editores, a maioria dos textos não foi escrita para ser lida para quem não é dos Estados Unidos.
Um texto especialmente bobo é o qual o autor relembra a rebeldia de jovens californianos dos anos 50, que teriam sido pioneiros de um suposto grande movimento de contracultura, que desembocaria nas manifestações dos anos 60; isso tudo através da grande “luta” para poder disputar rachas nas avenidas das periferias de Los Angeles. Sim, é isso mesmo. Ele faz toda uma ginástica como isso seria uma expressão da classe trabalhadora, percursora de comunistas, mas só se engana quem quiser.
Aliás, essa cultura do carro, algo ultra-americano, está presente em vários dos ensaios do livro e contribui para essa impressão: ao falar sobre o Metrô de Los Angeles – de fato um sistema metro-ferroviário péssimo, como quase todos dos EUA, mal planejado e subutilizado – o autor se mostra muito crítico e contrário ao próprio conceito do modal. Ele invoca que há toda uma linda cultura do ônibus no país, como um local de convívio de todas as raças: teria um histórico de luta pelo uso do ônibus – citando até mesmo Rosa Parks – que a construção de um metrô iria apagar. Há até espaço para a divulgação de uma bizarra União dos Passageiros dos Ônibus, pedindo pela interrupção das obras do metrô; união que o autor aponta que é composta de não-brancos que sofrem com mal distribuição das linhas e trânsito. Vou te contar um segredo, Mike Davis, sabe o que pode ajudar com os problemas deles? Transporte sobre trilhos.
Se há um ensaio com uma profunda análise do orçamento para as cidades estadunidenses, há outro tal qual o dos rachas como expressão da classe trabalhadora. Nesse sentido, temos um livro extremamente irregular. Os artigos não se conectam e não se conversam; não fica bem distribuído o caráter dos textos. Dos que são mais analíticos e críticos, e dos que são mais “denúncias” e opiniões; dos quais o autor colocou porque achava que compunha bem com o resto a obra, e dos quais ele colocou só porque era algum texto do qual ele gostou muito e desejava publicar.
Dentro do tema do urbanismo, há alguns artigos muito legais, mas bastante aleatórios (veja abaixo), como sobre cidades falsas para servir de testes de bombardeios ou da memória construída de desastres naturais. Mas outros que até falam sobre cidades, mas não dá pra entender onde Mike Davis queria chegar. O referente às igrejas neo-pentecostais nos subúrbios de Los Angeles, é muito fraco, cita o histórico de algumas muito por cima, sem contexto histórico algum. Já o que dá título ao livro, as Cidades Mortas; no qual ele discute profundamente como cidades abandonadas reclamadas pela natureza foram retratada em alguns romances de literatura inglesa; mas no sentido “biológico” da coisa. Se os desastres retratados poderiam acontecer; se a fauna e a flora criadas pelos autores de ficção (todos desconhecidos fora do círculo anglófono) poderiam existir. Certo; se ficou próximo do possível ou se ficou muito fora, o que muda pra analisar as cidades do século XXI?
Ainda, há outros ensaios que se conectam muito mal com os demais; o próprio que abre o livro, sobre a perseguição de indígenas na expansão dos EUA para o Oeste, e o que quase fecha, com uma história de descobertas científicas; seleções que parecem extremamente aleatórios. A própria introdução, muito confusa e desconexa, que comenta sobre o 11 de setembro, não apresenta nada da obra – de onde saíram esses textos, o porquê da seleção, por exemplo – e toca em temas, relativos ao terrorismo e o ataque às cidades nesse contexto, que não aparecem mais em lugar algum.
E, no fim, esse é o tom de Cidades Mortas: uma porção de textos, alguns muito bons e outros bem dispensáveis; são altos e baixos que não se conversam e parecem unidos por capricho do autor.
Mediano (2,5/5)
Tem alguns artigos muito bons, mas outros que você se pergunta o que está fazendo ali e onde ele quer chegar. O título e a proposta, em certa medida, são enganosos. Ler inteiro é um esforço que não vale a pena.
Memória comunitária – Em um dos artigos, Mike Davis explora a memória cidade de Hilo, no Havaí. Apesar de uma rica história, de colonização polinésia, embates contra japoneses e americanos; depois de migração asiática, e de um local de convívio social e multi-étnico dentro dos EUA do início do século – sindicatos fortes, ligas esportivas com jogadores de várias raças – toda a história urbana foi reduzida à sobrevivência de um grande Tsunami em 1946.
Além do Museu do Tsunami – o único existente com esse tema no mundo – há um feriado no seu dia, festas, rituais, peregrinações, patrimônio tombado além de visitas turísticas e souvenirs remorando a tragédia natural. Davis aponta como a memória pública “tende a enfatizar as experiências unificadoras como desastres naturais […] ao invés dos legados ‘divisores’ como os representados pelo o racismo ou pela luta de classes“.
Cidades campos-de-teste – Por sua vez, talvez o mais curioso é surpreendente dos ensaios é “O esqueleto de Berlim no armário de Utah“. No qual o autor conta a história de como, ao sudoeste de Salt Lake, capital do estado, foram construídos bairros falsos, o Povoado Alemão e o Povoado Japonês, para servirem de testes para bombardeios urbanos na Segunda Guerra Mundial, em 1943.

O investimento e esmero era tanto que foram contratados arquitetos alemães e importados materiais alemães para fazer a construção mais fiel o possível do que enfrentariam na Europa. Objetos domésticos e roupas também foram compradas ou produzidas para serem colocadas nos cômodos. O mesmo foi feito, em menor escala, com réplicas de cidades japonesas. Os povoados foram construídos e destruídos pelo menos 3 vezes por bombardeios aéreos, para as forças aliadas estudarem como seria possível causar mais dano às cidades inimigas.
As conclusões foram ao encontro das principais intenções do suposto heróico primeiro-ministro britânico do conflito; endossando as opiniões de Churchil e seus assessores, conforme aponta Davis. O dano seria muito maior às moradias operárias, mais próximas umas das outras, ao invés de desperdiçar munições na classe média e alta, com casas e mais afastadas (além de um possível medo de retaliação equivalente); e, diante desse caos, criar um cenário de levantes populares contra os governos do eixo.
Últimos Posts
Jornada nas Estrelas: Academia da Frota – 1ª Temporada – só mais um besteirol americano?
Star Trek fez algo inédito, uma série direcionada a adolescentes… mas para quem foi adolescente na década de 90, sendo totalmente dependentes de convenções de filmes daquela época. O resultado foi horrível.
Segunda Fundação
A caçada pela misteriosa e oculta Segunda Fundação não tem descanso: os vilões e os mocinhos querem descobrir (e destruir) onde se escondem os poderosos telepatas.
Fundação e Império
A Fundação enfrentará seus dois maiores inimigos; o último grande general imperial e o temível Mulo – alguém capaz de colocar em xeque a própria Psico-História.