Fundação e Império – Isaac Asimov
Tradução: Fabiano Fernandes – Editora: Aleph
Ano de Lançamento: 1951 – Minha edição: 2009 – 244 páginas
A Fundação foi formada por Hari Sheldon, um psico-historiador, com a função de fazer com civilização humana sobrevivesse da menos traumática o possível ao período de anarquia desencadeada com o colapso do Império Galáctico – também previsto pelo cientista. Passado alguns séculos, consolidada nos confins da Galáxia, ela definitivamente se estabeleceu como uma potência regional; a ponto de chamar a atenção do que sobrou do Império – que muitos imaginavam sequer existir mais – que despachou um de seus melhores homens para enfrentá-la.
Com dois grandes vilões, no segundo volume da série, veremos a Fundação precisando se defender do jovem General Bel Riose, o último grande comandante militar imperial; e do misterioso Mulo, um senhor da guerra local – este, em especial, desafiará até mesmo os preceitos da Psico-História.
Também publicado originalmente como “folhetins” em revistas de Ficção Científica, ambos os capítulos foram editados em 1945 (ainda que com nomes diferentes – A Mão Morta e O Mulo) e colocados em conjunto para a publicação deste livro em 1951. Diferentemente do livro anterior, aqui fica muito nítido que são textos originariamente diferentes e não é uma transição tão orgânica. Embora um seja a antítese do outro, criando uma excelente contraposição entre os dois textos.
No primeiro conto conhecemos a tentativa do Império de contra-atacar a fundação, através do General Riose, um dos poucos imperiais familiarizados com a psico-História e que entende a “ameaça” que ela representa. O personagem é bastante inteligente e ambicioso, garantindo que a estória sempre permaneça tensa – ele é o verdadeiro protagonista, já que o mocinho, propositalmente, faz o perfil de alguém mais humilde, um mero contrabandista levado pelos acontecimentos após ser capturado pelo comandante em sua campanha contra a Fundação.
O desfecho deste arco é anticlimático, mas, ao mesmo tempo, muito inteligente ao demonstrar o poder da Psico-História – e faz alegorias históricas bem precisas (veja abaixo). O que, por sua vez, leva ao diametralmente oposto segundo capítulo, na qual o misterioso Mulo, um infalível conquistador que, muito rapidamente, passa a subjugar os arredores de Terminus, e é uma ameaça iminente à Fundação. Colocando em xeque justamente um dos pilares da ciência de Seldon: a de que um único indivíduo não teria o poder de alterar a História da humanidade.
O mais interessante desta nova estória é o salto temporal: um século no futuro e a Fundação já está muito distante da idílica comunidade acadêmica e último reservatório do conhecimento humano. Agora ela é uma sociedade autoritária, agindo como os reinos bárbaros do seu período, oprimindo os povos e passando a liderança de forma hereditária. Terreno fértil para o desenvolvimento de uma oposição, liderada pelos antigo comerciantes que eram a sua classe mais forte.

Um par de recém-casados, sobrinhos de um idoso membro da oposição são os protagonistas desta trama após resgatarem de um linchamento por populares de “Magnífico“, o bobo da corte de Mulo. Uma figura que se torna chave em toda a trama interplanetária, uma vez que ele é o único que convivera pessoalmente com o próprio senhor da guerra, que está conquistando mundos atrás de mundos na periferia da Galáxia. Com a ajuda do Capitão Han Pritcher, um intrépido piloto da Fundação, eles tentarão levar o palhaço de volta pra casa e extrair dele o maior quantidade de informações possíveis da maior ameaça enfrentada até então pela comunidade criada por Seldon.
Esta segunda estória já possui uma pegada mais diferente. O próprio arco do Mulo – que seguramente é o maior vilão das obras de Asimov – é uma contestação à Psico-História; e isso reflete em uma nova abordagem. Assemelhando-se mais às obras da série Robôs que viria a frente das mãos do autor, temos ação, tensão mistério e investigação; um escopo que compõe com o tom dos indivíduos sendo capazes de interferir nos rumos da humanidade.
Diante da ameaça e da grandeza do Mulo, a primeira parte acaba empalidecendo (havia esquecido totalmente dessa estória desde a primeira leitura, há mais de 10 anos); o que é uma pena, já que é nela que há, de fato, o confronto entre a Fundação e o Império que dá título a obra (e é toque muito legal os personagens surpresos que o Império ainda exista). Mas a contraposição entre os capítulos dos livros é genial – é aquele toque das grandes continuações de antagonizarem a obra antecessora – e consegue manter, expandir e continuar a grande epopeia da Psico-História.
Excelente (5/5)
Uma grande continuação, que consegue, ao mesmo tempo, manter a linha do original e contradizer seus princípios.
Justiniano e Belisário – O que restou do Império nesta história, o Imperador Cleon II e o General Riose, são inspirados em personagens históricos do Império Romano – na realidade, do que conhecemos hoje como Império Bizantino – à época o Império Romano do Oriente. Justiniano I foi o principal dos governantes bizantinos, reinando entre 527 e 565 d.C; e, mantendo o que já estava consolidado como o oriente (Balcãs, Macedônia, Grécia, Turquia, Levante, Egito) e, ainda, reconquistou a península itálica, parte da península ibérica e o norte da África.

Todas essas campanhas tiveram como liderança o General Belisário, que conseguiu derrotar vários reinos bárbaros como os Góticos e os Visigodos, resistir em Roma, e defender posições contra os Persas no Oriente. Seu sucesso – inclusive político e diplomático, com algumas guerras vencidas através tratados e acordos – levou a desconfianças na corte. O prefeito da capital, Constantinopla, prendeu o militar e o acusou de conspirar contra o Imperador; não se sabe ao certo como fora o processo, mas Justiniano o perdoou algum tempo depois.
Apesar de estarem entre os grandes nomes da História, e da capacidade política de ambas as figuras chegarem perto de reestabelecer boa parte do que havia sido o Império Romano, suas conquistas, na realidade podem ter ocasionados efeitos catastróficos segundos os medievalistas atuais. Os reinos “bárbaros”, na realidade, conservavam muito da estrutura, instituições e costumes romanos, compartilhados ao longo das fronteiras do Império, garantindo uma estabilidade àquelas regiões.
As vitórias foram “rapidamente” revertidas. Um século depois, o Império (agora já nas mãos de outra dinastia) havia perdido o controle de quase tudo reconquistado, e possuía domínios menores que antes de Justiniano e suas campanhas. E, assim, deixando para trás por boa parte da Europa um legado de instabilidade política e econômica, que ajudou por pulverizar os centros de poder e organização do continente, característica da Alta Idade Média.
Visi-sonor – O instrumento musical que o palhaço magnífico consegue tocar, um dos poucos na galáxia capaz disso, é uma peça importante no enredo da segunda parte e é uma das coisas mais marcantes da trilogia original da Fundação. O objeto – que transforma música em imagens, afetando diretamente o cérebro dos expectadores – serviu de inspiração para outros instrumentos parecidos em diversas obras da Ficção Científica. Em especial, em Futurama, no qual o Holophonor tem função análoga e foi o centro do episódio que, por vários anos, era o final da série; até ela voltar a ser produzida pelo Comedy Central.
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