The Expanse: Primeira Temporada

The Expanse


A humanidade se expandiu para as estrelas, construiu naves e destróiers espaciais, colônias e estações em outros planetas… mas não mudou muita coisa. Não encontramos indícios de vida de fora da Terra e não saímos do nosso sistema solar.

Na realidade, a grande briga é que as colônias terrestres odeiam sua metrópole. Uma já conquistou sua independência, Marte, enquanto as diversas colônias menores espalhadas pelo cinturão de asteróides desejam se libertar. Esta é a trama de fundo desta série.

The Expanse, se não a mais verossímil, é uma das ficções científicas espaciais mais pé-no-chão já produzidas. Desde o enredo geral descrito acima, quanto comportamento dos personagens, suas organizações sociais, passando pela tecnologia e pela estética, tudo é facilmente digerido como um futuro muito possível (e próximo, até).

Esse traço leva a desdobramentos positivos e negativos; um dos raros incômodos que a série causa é advindo dessa opção: como é tudo muito pé no chão, os personagens são também muito “terrenos”, por sua vez: todo mundo é meio amargurado e pouco idealista, gerando menos empatia.

Também conseqüência dessa proximidade entre nosso presente e o futuro criado é um esforço menor nas explicações de como tudo funciona. As coisas são apresentadas sem muita didática, muita coisa é tratada como se já soubéssemos do que estão falando. Isso é efeito também de seu formato, ela é quase que totalmente “serializada”, um capítulo começa praticamente do ponto onde o outro terminou.

É uma experiência não tão comum na Ficção Científica e causa algum estranhamento no acompanhamento porque, se aproveitando dessa narração contínua, o roteiro tem mais liberdade de deixar pontas soltas e mistérios de um episódio para o outro, assim como administrar as respostas em doses muito pequenas. Quando tudo é novo, como o caso do SciFi, não é raro a sensação de estar perdido em uma trama tão “serializada”.

Mas também esta característica é feita de forma magistral, com alguns poucos capítulos de “interlúdio” entre um foco de ação ou tensão e outro, o ritmo da série é invejável. São todos episódios muito regulares e configuram uma energia contínua a tudo que assistimos.

Agradou: ritmo, trama política, direção de arte e clima.

Seria mais fácil dizer que tudo agradou, já que citei tanta coisa acima. Mas vamos enumerar. O ritmo é excelente. Há alguns poucos capítulos, inevitáveis, de ligação entre uma parte e outra da trama, normalmente com os personagens em trânsito, que diminuem um pouco a velocidade dos acontecimentos. De resto, são todos grandes crescendos de tensão; em especial os três últimos capítulos.

Este arco final da temporada tem um clima que em alguns aspectos lembra Resident Evil e este gênero de Survival Horror, mas sem cair em clichês – afinal não há zumbis, pelo menos por enquanto – quase indo em direção a um filme pós-apocalíptico. Em alguns momentos também nos faz recordar do terror espacial mais “clássico”, como Alien, especialmente na exploração de naves e estações vazias.

Alien também salta à memória na direção de arte do seriado, a Canterbury lembra muito a Nostromo, um pouco mais clara, evidentemente. Seja em argumento: uma nave cargueira respondendo a uma chamada de socorro, mas em especial esteticamente (embora também mais “atualizada”). Isto porque são todas naves, e tecnologias, que poderiam facilmente existir em nosso mundo num futuro próximo.

Há também alguns detalhes de funcionamento dessas tecnologias, como a relação com a gravidade artificial, ou os celulares e “tablets” que são bem interessantes e bem verossímeis. Assim como todos os cenários são todos muito bons e fáceis de digerir como possíveis, as diferentes localizações da estação de Ceres particularmente é fantástica.

Por fim, o pano de fundo político é muito interessante e sem dúvida o maior atrativo do seriado. Imaginar as próprias colônias humanas se rebelando contra o planeta natal é praticamente uma subversão de todo o gênero. Isto mesmo quando o planeta não se corrompeu nem se tornou distópico, apenas está vivendo sua vida normalmente explorando os postos avançados. Constituindo uma abordagem muito sóbria sobre todos os aspectos.

Não agradou: personagens pouco empáticos e falta de esforço nas explicações e introduções.

Na primeira tentativa de assistir, há anos atrás, logo após o lançamento no Netflix brasileiro, assisti ao primeiro capítulo e desisti no meio do segundo. Pesquisando, observei que algumas críticas diziam que a série demorava para engrenar até conquistar os espectadores. Mas acredito que não seja bem por aí, embora de fato o final da temporada seja muito superior ao começo.

A questão é que, em primeiro lugar, The Expanse não teve piloto. Como foi baseada em uma série de livros, e o canal que a produziu originalmente, o SyFy, encomendou já toda a primeira temporada completamente, os roteiristas puderam ter menos responsabilidades nos estágios iniciais da série. Já com todo o planejamento, os primeiros episódios puderam omitir certas coisas, em enredo e ação, que do contrário seriam necessários para garantir sua renovação.

Essa trama da tortura que chega e desaparece do nada, te deixando ainda mais confuso. Aparentemente não estava no livro original.

Tirando os textos da introdução, quase não há exposição de nada. Temos que pegar como as coisas funcionam naquele universo na marra, conforme tudo vai acontecendo. O que eu considero positivo, mas em The Expanse, com a folga de já ter a temporada completa, não se preocuparam em seres muito didáticos. O significado da sigla OPA, por exemplo, eu acredito que perdi a cena pois só encontrei após pesquisa na internet.

Como aquele universo é bem próximo do nosso, também não são necessárias muitas explicações; e portanto confiam muito que vamos pegar de primeira a maioria das coisas. O que nem sempre é verdade. Essa sensação de estar perdido no enredo é bem desagradável.

Já em segundo lugar, e mais importante, é que por conta dessa verossimilhança com o nosso mundo, a abordagem dos personagens também é muito real, talvez até demais.

Nos primeiros episódios, todo mundo é extremamente desinteressante, pessoas amarguradas, chatas, que não gostam do seu trabalho, e só estão nele porque não tem nada melhor pra fazer. Nossos dois heróis, Holden e Miller, são bem cuzões com seus colegas; não acreditam em nada maior que eles – o peso do idealismo fica depositado no parceiro de Miller, que é um porre e esquecido completamente ao longo da temporada.

Ao longo dos episódios os personagens vão acertando seus ponteiros e suas bússolas morais; vamos entendendo que por trás daquelas pessoas chatas tem alguém mais razoável e a tripulação da Rocinante vai conquistando seu espaço. E assim, passamos a nos interessar mais por seus destinos e torcer para seu sucesso; o que não acontecia nos primeiros capítulos. O que explica que essa “demora para engrenar“, na realidade, era a “demora para nos importarmos“.


The Expanse


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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