O 8 de janeiro que o Brasil não viu – Ricardo Capelli
Ano de Lançamento: 2025 – Minha Edição: 2025 – 223 páginas
Eu me lembro vivamente de, no alto dos meus 14 anos, virar a madrugada do 20 de março de 2003 assistindo a TV para ver qualquer notícia ou imagem do início da Invasão dos Estados Unidos ao Iraque. Na minha cabeça, era a oportunidade de ver a história acontecendo ao vivo; nem pensava em cursar história na época mas já me interessava bastante pelo tema. Já adulto (e historiador), a sensação voltou a se repetir com o afastamento da Presidente Dilma, já com um grande amargor. Os mesmos atores, personagens e falas de 1964 estavam se repetindo e população aceitando – esse tipo de coisa me causava um profundo desgaste, fui a incontáveis manifestações, atos, passeatas e campanhas entre 2013 e 2022.
Em 8 de Janeiro de 2023, eu estava de folga (o que não é comum, pois trabalho por escala), minha esposa, já esperando minha filha, havia saído e estava jogando alguma coisa no computador – sabia que isso não aconteceria com tanta frequência com um bebê em casa. Um conhecido me ligou e disse para eu ligar a TV imediatamente, até sintonizei e vi as imagens mas desliguei na sequência. Ele me falava “a história está acontecendo agora” mas ignorei. Estava diante do mesmo sentimento de 20 anos antes, mas agora invertido, estava de ressaca de ver a história acontecendo com tanta intensidade no Brasil.
Felizmente para me por a par daqueles momentos tão intensos, descobri este livro de Ricardo Capelli; o interventor federal nomeado para gerir a segurança do Distrito Federal durante a crise. Servidor de carreira, ele tinha acabado de chegar do Maranhão para trabalhar com Flávio Dino, recém empossado ministro da justiça, como secretário executivo; e desde o primeiro momento na função já estava trabalhando, ainda sem saber, contra a conspiração golpista – negociando com a secretaria de segurança púbica de São Paulo sobre o bloqueio do trânsito de caminhões de combustíveis por bolsonaristas.
O livro é uma retrospectiva dos eventos daquela tarde e os dias seguintes. Não há muito sobre a as investigações subsequentes, ainda que apareça aqui ou ali elementos de coisas descobertas posteriormente. Em outros momentos, aí com mais frequência, há observações que Capelli faz de algumas coisas que aconteceram, situações que presenciou ou sobre o que ficou sabendo.
Assim como precisa tomar muito cuidado com quem cita. Por exemplo, logo nas primeiras páginas, ele explica que havia informações das agências de segurança pública sobre as intenções e volume dos manifestantes, mas houve ação de pessoas para que o fluxo dessa inteligência fosse interrompido e não chagasse a se a materializar uma operação policial. Ele não pode afirmar quem seriam esses agentes, mas indica quem, normalmente, seria responsável por essas atribuições.

Sobre o dia 8 de janeiro especificamente o livro é bastante conciso, Capelli relata como foi selecionado para o papel de interventor pelo ministro Dino de forma relativamente inesperada; e de alguns momentos no qual ele esteve na linha de frente da repressão aos atos. Nesse sentido as vezes o livro fica um pouco chato porque temos muito do autor falando de si mesmo – algo sempre enfadonho. Embora na escrita, especificamente, o livro parece ser sido redigido em conjunto uma jornalista amiga do interventor, deixando sempre bem fluído.
Agora, quando as coisas ficam realmente interessantes e as conspirações se aprofundam, são os eventos posteriores aos atos; já na madrugada do dia 8 para o dia 9. Capelli tinha como missão prender o maior número de pessoas envolvidas, não apenas dispersar as turbas. Eles precisavam prender para entender e investigar o ocorrido; e, desde o primeiro instante que ficou claro que este era o objetivo da intervenção federal, uma série de forças passaram a agir contra a tarefa das autoridades distritais, agora lideradas pelo autor. Algumas pessoas apareciam para “ajudá-lo”; não quer uma carona aqui, outra ali, que tal pegar um helicóptero, e se o senhor fizer isso, ou se fizer aquilo? Difícil dizer quem queria o quê, mas nitidamente muito do “auxílio” era proposital para tirar o foco do inteventor.
Já a primeira grande briga foi contra o exército: posicionando tanques e armamentos na entrada do Setor Militar, os militares impediram a polícia distrital de adentrar aos acampamentos e realizar as prisões dos manifestantes que voltaram às portas do local assim que começou o contra-ataque policial. Os generais “convidaram” Capelli para conversar e o levaram para dentro.
O alto oficialato tentou intimidar o interventor e demais autoridades civis, alegando que eles estavam para iniciar um “banho de sangue” com as ações de prisão. E como autor respondeu aos generais; esse possível banho de sangue só seria causado pelo próprio exército atacando os civis (no caso os policiais distritais), ou então de que havia manifestantes armados que revidariam contra a polícia as Forças Armadas – e que os militares eram cúmplices desse cenário. Diante disso, o escalonamento das ameaças foi instantâneo e o interventor decidiu aguardar a chegada de Flávio Dino. O ministro chegou a um meio termo no qual os próprios militares iriam desmontar o acampamento e entregar os manifestantes.
Dai em diante, absolutamente todos os passos de Capelli se tornam uma trama digna de filme. Explicar aqui detalhadamente todos eles extrapolaria os limites da resenha e estragaria a leitura; mas para demonstrar, talvez a mais grave, é como foi difícil para ele conseguir os ônibus para transportar os presos dos acampamentos à Polícia Federal. Os ônibus que eles vieram para Brasília foram motivo de querela: eles foram apreendidos para investigação, verificar o seu interior e quem os financiaram, mas os militares os queriam de volta. Por quê? Queriam proteger o que? Passaram a alegar que só entregariam os manifestantes para as autoridades civis se eles viajassem nos próprios ônibus.
O interventor buscou veículos emprestados para outra esferas do governo do Distrito Federal e os enviou para transporte. Mas, após saírem do Setor Militar, os ônibus simplesmente sumiram por horas – o Coronel da PM que organizava o comboio decidiu “para”r o transporte por um período de tempo, sem explicar o motivo. Capelli voltou a estrada para encontrá-los, achou, fez o coronel trazer para a sede da polícia federal – a discussão entre os dois teria deixado ele sob a mira de armas de policiais fieis ao coronel, segundo relato de terceiros.
Qual era o plano dessa parada também não sabemos; entretanto, havia um estratégia muito específica dos golpistas: fazer com que os presos entrassem em inanição e problemas de saúde, e assim descreditar a operação e as autoridades responsáveis. Capelli foi atrás de marmitas para entregar aos detidos, entretanto, mesmo após conseguir, ele teve dificuldades na entrega. Pessoas impediam o caminhão de entrar na sede da PF, depois indicavam o caminho errado para o motorista; apenas após o próprio interventor ir atrás do veículo ele conseguiu chegar e iniciar a distribuição.

Estes foram os momentos mais marcantes, mas a conclusão de Capelli – que é extremamente comedida – é a mais clara: as manifestações deveriam ser o gatilho de uma crise institucional que justificasse um golpe de estado; como foi também a conclusão das investigações. O Governo Lula conseguiu escapar da primeira armadilha, ao mostrar que as coisas poderiam ser controladas pela própria polícia do Distrito Federal; e que o caos foi deliberadamente planejado – em especial por Anderson Torres, secretário de segurança pública do DF, nomeado dias antes pelo governador Ibaneis Rocha, ao sair do próprio Governo Bolsonaro. As demais armadilhas foram vencidas pelo interventor, que precisou driblar uma série de ações para impedir que existissem provas e detidos sobre os eventos e, assim, tornasse inviável responsabilidade ou investigação; como ele relata por aqui.
Neste livro – que é, na realidade, bastante curto e tranquilo de se ler – temos um importante registro histórico de uma das pessoas mais importantes (talvez a mais importante) na tarefa de refrear um golpe de acontecer. Todos os brasileiros devem um pouco à Ricardo Capelli.
Bom (3,5/5)
Relativamente curto e simples, é um registro de eventos, embora não tenha como fugir de certas passagens maçantes de um livro em primeira pessoa. Ainda assim, é um documento histórico: o relato de, talvez, a pessoa mais importante na linha de frente que impediu mais um golpe de estado acontecer no Brasil.
Inteligência dupla?: Uma das coisas que mais me surpreendeu é que a polícia do DF tinha informantes nos acampamentos golpistas, e que estavam monitorando de perto a situação e os objetivos dos manifestantes – e que, inclusive, haviam avisado as autoridades de Brasília do que estava para acontecer; mas alguém trabalhou para que esses avisos não se traduzissem em uma operação de maior porte.
Da mesma forma, é de se pensar se esses informantes também não agiam como agentes duplos, levando informações aos golpistas. Capelli diz que durante o mês de dezembro, as autoridades distritais – e as militares – trabalharam em conjunto com os manifestantes para organizar os acampamentos. O poder público da capital estava fornecendo desde suporte médico, com presença permanente de ambulâncias no local, até coleta de lixo.
Formação: um dos momentos que mais me tocou sobre a trajetória de Capelli é quando Flávio Dino, em conversa com o presidente Lula, que deseja saber mais de quem estaria a frente da estabilização do Distrito Federal, explica que o futuro interventor era jornalista. A reação do presidente foi de desconfiança; como um jornalista daria conta de uma invenção na Segurança Pública? Capelli explica que praticamente nunca exerceu a profissão, logo depois de formado já entrou no serviço público e teve um carreira de mais de 30 anos; mas que “o que marca é o que estudamos, como uma cicatriz ou tatuagem“. Acho que todos que estão no serviço público passaram por isso; eu trabalho há 18 anos em um ramo que não tem absolutamente nada a ver com história educação.
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