Limites da Fundação

Limites da Fundação – Isaac Asimov

Tradução: Henrique B. Szolnoky – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1982 – Minha Edição: 2012 – 407 páginas


Quinhentos anos se passaram da criação da Fundação, que agora é uma gigantesca federação de planetas e abrange quase metade da galáxia de forma relativamente calma, estável e democrática. Ainda assim, tudo é governado a partir da prefeitura de Terminus, desta vez ocupada por Harla Branno, que acabou de superar mais uma crise Seldon. Sua administração foi magistral: todas as decisões que ela tomou ficaram exatametne de acordo com projeção feita pelo psico-historiador em sua última aparição.

Neste, que deveria ser seu maior dia de glória, um dos conselheiros da Fundação, Golan Trevize, lança uma bomba em público: o governo da prefeita está perfeito demais, com o perdão da cacofonia. Isso só pode significar uma coisa: a Segunda Fundação ainda existe e está manipulando a ela, e a figuras chaves da galáxia, para garantir o cumprimento mais preciso o possível do Plano Seldon.

Não se passou o meio século entre este e o primeiro livro da trilogia original da Fundação, mas quase isso. Os primeiros volumes de Fundação foram escritos nos anos 40 e esta continuação a partir dos anos 80; e tal como em Os Robôs da Alvorada, a performance de Asimov é impressionante. O autor consegue ter o mesmo tom e estilo que tinha quase meio século antes, quem não sabe que há esse intervalo entre as publicações não seria capaz de perceber.

O que mudou, todavia, e assim como nas obras que continuaram a série robôs, é o ritmo. Limites da Fundação tem quase o mesmo tamanho que os três livros originais somados, e isso não se deve nem à densidade nem aos acontecimentos da obra – é realmente um problema de ritmo. Há muitas descrições, reflexões, monólogo e pensamentos. Isso se torna uma questão latente especialmente porque o livro tem dois núcleos separados e simultâneos.

Um é entre Golan Trevize e seu companheiro de viagem, Janov Pelorat. Após confrontar a prefeita Branno, o conselheiro é “condenado ao exílio.” Este desterro, transforma-se em um pedido secreto da governante para que ele viaje e tente encontrar qualquer pista da Segunda Fundação – no fundo, ela tem a mesma desconfiança de Trevize, da manipulação, ainda que não movida pelos mesmos motivos. Por sua vez, ele será acompanhado por Pelorat, um historiador acadêmico que dedicou toda a sua vida recolhendo mitos sobre um possível planeta original da humanidade – a mítica Terra – e talvez as coisas possam estar relacionadas.

A dinâmica entre os dois protagonistas é boa; Trevize é jovem e destemido, Pelorat é velho e acomodado. Um sempre olha para o futuro e outro para o passado – mais um capítulo do desprezo que os americanos têm pelo campo da historiografia, se me permitem o aparte. E uma das coisas que movimenta a convivência entre os dois é que o professor tem medo das viagens espaciais e nunca saiu de Terminus. É interessante para compor a oposição entre ambos, mas, no final, é uma característica que não serve para nada no enredo a não ser para encher linguiça – são vários e longos trechos do conselheiro explicando o funcionamento e comportamento da nave para acalmar o amigo que levam a lugar algum.

Do outro lado, há a Segunda Fundação, que voltou às sombras após o livro anterior. E por lá também temos integrantes que estão desconfiados da mesma coisa: de que o Plano Seldon está dando certo demais. O Orador Stor Gendibal até consegue convencer o Primeiro Orador (o governante da Segunda Fundação) de que há terceiro ator nessa história, que está garantindo que tudo siga conforme a psico-história previa; mas ele precisa também vencer seus demais companheiros de mesa. Estaria alguém manipulando os manipuladores?

A construção das intrigas políticas das Fundações é muito boa, cria excelentes preâmbulos para as duas estórias; o começo delas é muito intrigante. Entretanto, toda vez que mudamos entre um núcleo e o outros, temos sempre muita introdução, e aí temos os problemas de ritmo: longas exposições e descrições de pensamentos dos personagens: sobre o que ele estava fazendo, sobre o que ele iria fazer, sobre seu passado, sobre o que ele acha sobre os outros, sobre o que ele acha que os outros acham dele… ajuda na composição, claro, mas torna a leitura cansativa, quase burocrática em certos momentos.

Vencida essa meiuca, quando percebemos que os dois núcleos vão se encontrar, a estória acelera a cria um suspense maravilhoso. Eu não conseguia parar de ler até ver todo mundo se encarando. E, então seguimos para o final; bastante polêmico. Vou tentar evitar o máximo de spoilers, mas cuidado adiante.

Este foi o primeiro livro no qual Asimov tem como objetivo conectar seus principais universos ficcionais (Fundação, Robôs e Império), então boa parte da explicação é uma complexa amarração destas três coleções – e até um bônus da conexão com o Fim da Eternidade. E a conexão é excelente, tudo vai se encaixando muito bem – o efeito colateral é que você só vai aproveitar se tiver lido recentemente as demais obas (estou atualmente numa maratona de mais de um ano). Ainda, sobre os Eternos, difícil compreender como os seria possível os personagens saberem daqueles eventos.

Em narrativa, o que pesa é que Asimov quase sempre encerra suas obra com o recurso-do-personagem-que-explica-tudo-em-uma-única-fala, entretanto, aqui pela densidade do final, esses monólogos finais pesam mais que o normal. Apesar dos protagonistas estarem juntando peças durante o (longo) livro todo, elas pouco contribuem para que nós montemos o quebra-cabeça sem necessidade da exposição. Sobre o conteúdo, o que não gostei são dois pontos: o primeiro é que, aparentemente, o Plano Seldon é colocado pra escanteio e psico-história já não serve de mais nada, não fica claro se os Gaianos estão a utilizando como norte. O segundo é que o papel de Trevize não convence; o destino da Galáxia – e, por tabela a validade do plano todo – depende dele porque ele tem, aparentemente, um superpoder de dar bons palpites?

As analogias históricas, que davam credibilidade a pseudo-ciência, ausentes já desde o livro anterior, não retornam e resultam em uma obra ainda mais ensimesmada que a predecessora. Eu já havia falado isso, mas aqui é um caso extremo: não só ela é dedicada a conectar outras obras do autor, mas em trama; uma vez é um enredo baseado em criar ainda mais camadas subterrâneas em sua própria narrativa. Essa é a minha segunda leitura; na anterior, eu só havia lido a trilogia original, e havia detestado este aqui. Simplesmente não tem como aproveitar o livro se todas as demais obras do cânon não estiverem frescas na memória.

Talvez nos próximos volumes (há mais uma sequência e duas prequelas), as coisas se expliquem melhor, já me lembro muito pouco; entretanto, em um primeiro momento a impressão é que Limites da Fundação enfraquece de certa forma a epopéia de Hari Seldon apesar de ser um livro bom e divertido.

Bom (3,5/5)

Estrela Distante – Passadas as várias décadas entre as continuações, Asimov aproveitou para apostar em inovações tecnológicas daquele seu universo; o que ficou concentrado na nave do protagonista. O símbolo de tudo que a Fundação foi capaz de aprender e desenvolver em seus quinhentos anos, ela impressiona até mesmo os demais personagens. A Estrela Distante se move a partir de Energia Gavimétrica; isto é, a partir da manipulação da própria energia da massa da nave – um conceito além da minha compreensão.

Isso possibilitaria energia infinita, assim como uma total falta de sensações para os tripulantes dentro do veículo, que sempre teriam a percepção de estarem parados. Além disso, a nave está equipada com um computador capaz de ler a mente de seu capitão – no caso Trevize. E, especialmente, aprender suas preferências e forma de raciocínio; o que, descobrimos ao longo da obra, que também atende aos interesses de um certo grupo, e acaba direcionando as ações do protagonista.

Desta vez, Asimov acertou em cheio os dilemas da Inteligência Artificial e os algoritmos, sem ter a menor noção do que viria pela frente.


Últimos posts

O planeta do exílio

Em um planeta no qual um ano dura o equivalente a 60 anos terrestres, duas cidades rivais precisam se unir para enfrentar um longo inverno e hordas de bárbaros.

A Revolução Venezuelana

Contradizendo a própria coleção que faz parte; este volume busca explicar o que levou à Revolução Bolivariana em pleno Século XXI, e se é que pode ser classificada assim.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

Deixe um comentário