Jornada nas Estrelas: Enterprise – 2ª Temporada

Jornada nas Estrelas: Enterprise


Provavelmente ao tentar explicar a interrupção das produções de Star Trek logo na virada do século XXI – que irônico! – temos que olhar para este ano de Enterprise. Não há como fazer rodeios, é a pior temporada de todas as Jornadas nas Estrelas clássicas (TOS, TAS, TNG, DS9, VOY e ENT) talvez a pior se juntarmos com as produções modernas.

As razões são evidentes; enquanto a primeira temporada se segurou ao conter uma direção muito específica – as primeiras atividades e problemas enfrentados pela humanidade na exploração espacial – esta aqui ficou completamente sem objetivo. Não são exatamente claros os motivos, mas a recepção que a produção teve, na época, denunciou essa característica, contar o início das coisas, como um dos problemas de ENT.

Talvez por conflitos canônicos ou por se tornar uma premissa muito repetitiva, que, apesar de serem motivos legítimos, não são a raiz do problema; a questão era a baixa qualidade dos roteiros – Terra Nova, por exemplo, era o argumento da primeira colônia humana no espaço profundo, mas um desenvolvimento sem brilho tornou o capítulo completamente esquecível e deu a impressão que o próprio ponto de partida era bobo. Não é verdade.

Na segunda temporada, foram exatamente os capítulos dedicados à inexperiência da tripulação da Enterprise NX01 que renderam episódios dos melhores de todos os tempos – não apenas na minha opinião – O Comunicador e Congenitor.

Episódio 20: Horizon – incompetência de desenvolver os personagens secundários.

Completamente desnorteados com a recepção da série, ENT acabou aumentando justamente o pior erro que havia cometido. Mudar muito sem mudar nada.

A estrutura dos capítulos, iniciada em 1987, continuou exatamente a mesma e a desatenção com o desenvolvimento continuado dos personagens principais e recorrentes apenas se agravou. A pequena serialização, inteligente, de fazer alguns eventos de episódios reverberar em outros desapareceu; apenas temos várias histórias mais que soltas, despropositadas. Sendo a imensa maioria de péssima qualidade.

Agradou: direção de arte e capítulos dos arcos principais

Apesar de começar tropeçando com a resolução fraca do gancho da primeira temporada, em Onda de Choque parte 2, os raros capítulos deste segundo ano que trabalharam com questões maiores foram muito bons. Com destaque para Futuro do Presente, embora, bem ao modo que foi aquela temporada, praticamente nenhuma informação nova da Guerra Fria Temporal foi apresentada.

Sendo camarada, incluiria aqui capítulos de arcos menos delimitados mas presentes em toda Enterprise, como a transformação da sociedade vulcana e a criação da Primeira Diretriz, nesse sentido, temos alguns dos melhores episódios de todos os tempos.

Já falando da outra ponta, dos infindáveis capítulos ruins que tivemos, felizmente há sim um ponto positivo em todos eles. A qualidade da arte apenas aumentou; até separando as fotos para este post percebi que muitas das piores histórias tinham visuais muito bons e cuidadosos – o pavoroso Noite na Enfermaria construiu 3 bonecos de Porthos para as cenas de cirurgia e recuperação, por exemplo.

Episódio 12: A Passarela

As maquiagens estão muito boas, em Amanhecer e Canamar – inclusive rendendo indicação ao Emmy – e os efeitos especiais do espaço, apesar de visivelmente datados, também indicados ao prêmio, ainda aguentam bem. Foram belas tempestades e singularidades em Passarela, Singularidade e Travessia. E, por fim, os sets criados para alguns episódios, como Regeneração, Ponto Morto e Julgamento foram ótimos.

Não agradou: muitos capítulos ruins, menos serialização, arcos principais pouco trabalhados.

Completamente sem direção, esta segunda temporada dá a impressão que, tirando os episódios de argumentos já pré-estabelecidos (vulcanos, primeira diretriz, e etc) foi escrita de forma completamente aleatória ou improvisada. Querendo fugir das premissas de “primeira vez que a humanidade fez isso“, não sabiam exatamente o que oferecer no lugar.

Episódio 25: A Recompensa – Com certeza o cara que bolou a sala de descontaminação é o grande vilão de Star Trek.

Qual o objetivo de contar a história de vulcanos perdidos na Terra nos anos 50? Ou que tal uma história completamente sem significado sobre o teletransporte? Sem ideias, apelar para auto-plágios – personagens apresentando comportamentos estranhos – reciclagem de argumentos – como mais uma releitura de Sete Samurais – ou, novamente, retratar a avó de uma personagem com a mesma atriz, foram várias das saídas. E sempre na manga temos a T’Pol em roupas íntimas, para qualquer emergência.

A improvisação é sentida sempre que usaram saídas muito cômodas para roteiros sem brilho. Tal como no episódio em que Phlox é uma espécie de xenófobo e sua civilização, descobrimos, compostas por antigos criminosos de guerra, algo completamente aleatório e forte; mas tudo se resolve com uma boa conversa e histórias da família. Ou, ainda, quando conhecemos os parentes de Travis, cujo irmão apenas precisava de um empurrãozinho para ser um excelente capitão, sem usar nenhum eixo temático do personagem (ser nascido no espaço e pioneiro da exploração).

Além disso, que já denuncia forte despreparo para os próprios argumentos dos roteiros, o tom de desorientação é reforçado, primeiro, com todas tentativas frustradas de episódios ou tramas cômicas mal colocadas em episódios comuns e, segundo, com praticamente ausência de conexão entre os capítulos. Com raras e fracas exceções, a tímida serialização que vimos anteriormente, como o sub-subplot do Archer como líder rebelde ou dos Sulibans como manipulados, desaparece. Assim como temos ainda menos episódios dos arcos principais: só um para cada um (política vulcana, Vulcano x Andoria, Guerra Fria Temporal).

Episódio 21: A Ruptura

Ao final, entendendo muito mal as críticas recebidas (e talvez por culpa dos próprios fãs), as mudanças da primeira para a segunda temporada acabaram apenas por explorar e repetir os problemas enquanto diminuíram o uso dos pontos fortes de até então.


Jornada nas Estrelas: Enterprise

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

2 comentários em “Jornada nas Estrelas: Enterprise – 2ª Temporada

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