Fundação e Terra: Isaac Asimov
Tradução: Henrique Szolnoky – Editora: Aleph
Ano de Lançamento: 1986 – Minha Edição: 2013 – 461 páginas
Golan Trevize tomou a decisão mais importante da história da Galáxia e selou o destino de zilhões de seres vivos ao final de Limites da Fundação. Entretanto, o conselheiro exilado ainda não está certo se fez a escolha mais adequada; e para tentar entender como e o porquê de decidir no que decidiu, ele quer buscar o maior mistério da humanidade: a Terra.
Aproximadamente 20 mil anos no futuro, com os seres humanos espalhados por milhares de plantes; a própria noção de que a nossa espécie originou-se em um único mundo é altamente contestável. A Terra virou parte de uma mitologia: algo da pré-história da humanidade; um sinal de mau agouro em alguns locais, enquanto, em outros, uma espécie de símbolo religioso. Apesar desse cenário, Trevize, ainda acompanhado de Pelorat – um acadêmico da Fundação especializado justamente nos mitos terrestres – e, agora, também da jovem gaiana Júbilo, deseja buscar o planeta original da humanidade na esperança de encontrar lá algo que explique toda a sua jornada.
O grande charme deste livro, e que Asimov acerta em cheio é justamente ver os personagens tratando a Terra como um mito; desconfiando de sua existência. É uma sensação inexplicável, mas muito gostosa. Divagações sobre a fauna e a flora, ou da existência ou não da Lua; é tudo uma delícia, porque cria a impressão, sempre interessante ao leitor, de que sabemos mais que os personagens – que, por sua vez, são muito inteligentes. É como em filmes de terror, que nos incomoda que nós vemos formas muito melhores das vítimas, sempre burras, de agirem ou fugirem, mas aqui em um sentido inverso: a cada passo dado no caminho certo, ficamos mais felizes e satisfeitos de vê-los se aproximando.
Isso só pode ser alcançado através do equilíbrio com o grande mistério por trás: o que, de fato, se esconde na Terra e qual a conexão com a Fundação, Gaia e a Psico-História? Na jornada desta aventura, o que temos, na realidade, é uma continuação da série Robôs: um novo volume após Robôs e Império. Após seguir a pista deixada por Compor, o “rival” de Trevize, nossos heróis passam a visitar as localizações daquela série de livros; em especial, os mundos siderais; frutos da primeira onda de colonização humana da galáxia – assistida de perto por robôs.
Nesse sentido, o que temos é uma grande aventura interplanetária, algo relativamente incomum na obra de Asimov apesar do gênero. Trevize passa por aproximadamente 6 planetas diferentes, todos com interessantes dilemas e perigos. Desta forma, não parece um livro inchado quanto o anterior; tudo o que precisa ser preenchido para dar, literalmente, volume ao livro é correspondente à exploração. O tamanho foi força dos contratos com a editora, que exigia um determinado número mínimo de páginas, conforme ele mesmo diz neste prefácio
Naturalmente, há coisas mais e outras menos interessantes. Se é muito intrigante descobrirmos quem fim levou os Solarianos; é muito tedioso o ataque dos cachorros em Aurora – ele até se encaixa bem na discussão da fauna e da convivência com a espécie humana, mas é tudo muito bobo: não só o ataque como o contexto, que acontece durante Trevize lembrando-se, aletaoriamente, como marchava no serviço militar. Da mesma forma, o autor abusa um pouco da temática sexual aqui. É até menos do que eu me lembrava da primeira leitura, mas o protagonista faz as vezes de um 007; levando mulheres para cama para ter mais informações, o que sempre é algo fraco – e, especialmente, um nível abaixo tratando-se de Asimov.

Entretanto, até agora são coisas marginais. O principal problema é da ordem conteúdo – novamente peço desculpas, mas preciso do aviso de spoiler.
Antes de tudo, Fundação e Terra é absolutamente intragável se você não estiver com a leitura fresca de todos os livros do cânone da Fundação – realmente todos desde Cavernas de Aço. A primeira vez que eu li este aqui, simplesmente detestei. Nada fez sentido: nem a busca pela Terra, tampouco a visita aos planetas siderais. Ficou uma aventura completamente oca naquela minha primeira leitura, que se restringira naquele momento aos livros da trilogia e Limites. Isto porque, ao mesmo tempo, que exige muita bagagem anterior é um extremamente descolado dos demais da sua própria série (Fundação), desde as primeira páginas.
A comitiva é composta de apenas de Trevize, Pelorat e Júbilo – e as coisas apenas giram torno desse trio. É um livro pobre de personagens com relevância para o enredo. Há algumas pessoas importantes em algumas das paradas, mas elas cumprem papéis específicos naquele cenário e depois são esquecidos. A primeira busca é em Comporellon, local em que conhecemos muito uma ministra do planeta, mas que não terá mais relevância alguma. Aliás, o próprio planeta foi uma pista deixada por Compor, um antagonista do livro anterior; mas nem me lembro se ele chega a ser citado aqui. E ele é um ótimo exemplo: não temos ninguém, nem da Primeira, nem a Segunda, Fundações aparecendo no livro – de onde naturalmente surgiriam bons antagonistas.
Passamos a maior parte do texto assistindo a discussões de Trevize com Júbilo como seria melhor ser parte ou não de Gaia em cada situação. Não sei exatamente o que Asimov pretendia criticar ou alegorizar aqui, não consegui pensar em nada; a discussão sobre uma inteligência coletiva ser superior à humanidade me pareceu sempre rasa Mas, especialmente, nunca passou de uma conversa repetitiva. O autor não conseguiu criar uma situação na qual esse dilema realmente fez a diferença: Júbilo tem importância por conta de seus poderes telepáticos (que não são restritos aos gaianos, vamos nos lembrar) e Trevize continua dependente do seu superpoder de ter bons palpites em cada uma das aventuras que eles passaram, não por conta da consciência coletiva.
O pior de tudo é que essa discussão, que não serviu de nada na viagem, também pouco importa diante da revelação final: mais uma nova camada de manipulação mental é revelada. O personagem por trás de tudo é muito querido e carismático, entretanto, é mais uma forma de enfraquecer o argumento central da Fundação. A psico-história e as Fundações eram só uma contingência? Tudo que acompanhamos até agora foi um quebra galho que ele havia encontrado para segurar um pouco até implantar a Galaskia. Esta opção que, por sua vez, é justificada tão somente para o grande manipulador conseguir assimilar melhor sua missão.
Nas últimas linhas há um novo cenário introduzido, com uma provável nova ameaça à Galáxia, algo que justificaria toda a jornada (ainda assim os problemas do parágrafo anterior continuam), mas cai absolutamente de pára-quedas. Parece que Asimov perdeu o fio da meada no fechamento da estória. Por exemplo, em um determinado momento, o “antagonista” explicitamente deixa claro que o ele precisa explicar seria restrito membros da Fundação, algo que me encheu de esperança, pois daria importância a jornada da série, talvez Gaia servisse às Fundações e não o inverso; mas isso não se concretiza, ambos serviam, no fundo a ele – e Júbilo também fica sabendo de tudo.
Fundação seria a jornada da própria humanidade em domar seu futuro. Uma temática que Asimov trabalha muito bem em quase todos os livros, a própria decisão de usar ou não robôs na colonização da galáxia, que ele estava desenvolvendo paralelamente em Robôs da Alvorada foi ótima.
Com a Psico-História, teríamos descoberto formas de controlar, ou ao menos, desvendar nosso destino; e sem nenhum tipo de sobrenatural ou influência divina, mas pela nossa própria capacidade de analisar, de forma cada vez mais precisa, nosso passado. Conforme a série foi ganhando corpo, a questão foi se desenvolvendo no sentido de que, dentro da humanidade, grupos distintos – ainda que com o mesmo propósito – passavam a reivindicar o direito de manipular o futuro. Claro que sou eu, um zé ninguém, falando, mas o dilema que acho que me parecia mais propício e interessante seria talvez a humanidade, mesmo com a força do antigo personagem, tentando escapar, mas não conseguindo, do Plano Seldon pela própria força dos acontecimentos.
Na terrível adaptação para a TV de Fundação, uma das principais críticas -não só minha – foi ao papel da personagem de Gaal Dornick. De um pequeno coadjuvante nos livros, aparecendo apenas no prólogo do primeiro, ela vira protagonista e tem um papel incomensurável, contradizendo, nos níveis mais elementares, tudo o que os livros representava: desde a queda do Império Galáctico, causada por suas contradições internas, e não por uma bobagem de clonagem, à incompreensão do enredo a ser movimentado por jornada de “escolhidos“, como Gaal e Hardin, algo diametralmente oposto à Psico-História,
Mantenho a crítica, mas, infelizmente, com Trevize e o poder dos seus super-palpites e o imortal que manipula a todos – além dos seres super-humanos que manipulam energia – parece que o próprio Asimov caiu exatamente nos mesmos problemas aqui em Fundação e Terra.
Mediano (2,5/5)
É um texto mais movimentado que o antecessor; com uma verdadeira aventura interplanetária, parece menos “inchado” e fica mais divertido. Entretanto, é um livro muito descolado dos demais de sua série, pobre em personagens e dilemas que, infelizmente, trás um final muito insatisfatório.
Continuações: por aqui temos o fechamento da saga da Fundação e seu cânone, é o final de toda a história começada por Eu, Robô – ou por O Fim da Eternidade. Depois, Asimov ainda lançaria mais dois livros, mas que se tratariam de prólogos – Prelúdio da Fundação e Origens da Fundação. No prefácio do primeiro deles, o autor diz que gostaria de escrever ainda outros volumes e acredita que há espaço para contar mais adiante dos eventos de Fundação e Terra. Infelizmente, o bom doutor morreu antes de ser capaz de concretizar essa empreitada.
De acordo sua sua viúva, Janet Asimov, ele confessava a ela que não tinha a mínima idéia de como continuaria a estória. Houve ainda mais três livros escritos após sua morte, por três autores diferentes, autorizados pela família de Asimov. Mas todos são novas prequelas à Fundação, contando mais da estória de Hari Seldon e a criação da Psico-História.

Lua: essa é uma das principais pistas na busca pela Terra. A nossa lua possui um tamanho descomunal tratando-se de satélites de planetas rochosos, assim como da nossa proximidade em relação ao sol. Ela é a quinta maior lua do sistema solar, sendo maiores apenas as galileanas de Júpiter e Saturno -gigantes gasosos longe da sua estrela; características muito diferentes das terrestres.
Dentre o que conhecemos da galáxia, a Lua, é, de longe, o satélite que tem a maior proporção de tamanho em relação ao planeta em que orbita, possuindo aproximadamente 1/4 do diâmetro da Terra. Uma das hipóteses que permitiria essa configuração é somos originários da colisão de um outro planeta, com uma massa parecida a de Marte chamado de Théia, com a “proto-Terra”, a aproximadamente 4 bilhões de aos atrás. O material que ficou em órbita transformou-se na Lua.
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