Raízes do Brasil (edição crítica) – Sérgio Buarque de Holanda (et. al.)
Ano de Lançamento: 1936 – Minha Edição: 2016 – 525 páginas
Algumas obras mudam os rumos da humanidade e seus respectivos campos; a Origem das Espécies mudou a biologia, e o O Capital transformou todas as humanidades; e no caso da historiografia nacional, o livro de Sérgio Buarque de Holanda tem este papel. Ao lado de Casa Grande e Senzala, em 1933, e Formação do Brasil Contemporâneo, em 1946, revolucionaram a forma de enxergar e, especialmente, de escrever sobre o nosso passado.
Orientado por perspectivas conservadoras ou positivistas, o estudo de história do Brasil, com raras exceções, era focado em reconstruções, genealogias ou catalogações, e isso se transforma após a década de 30. E um dos responsáveis é este livro; não raras vezes os historiadores nacionais são classificados como pré- ou pós- Raízes do Brasil. Ler esta obra é obrigatório para qualquer um decidido a entender nossas perspectivas sobre nosso passado.
Determinado a compreender de onde são derivadas determinadas características da sociedade brasileira que chegava à década de 1930, Sérgio Buarque vai a fundo até o momento “zero” de nossa história: a colonização portuguesa. E faz isso magistralmente, explorando as inúmeras opções que os lusos fizeram na ocupação e exploração do Brasil, e como essas decisões foram a origem dos traços contemporâneos do nosso país. Por exemplo, em um dos capítulos mais célebres, demonstra como a construção das cidades – quando aconteciam – na américa portuguesa não respeitavam um ordenamento ou planejamento, simplesmente seguiam a geografia ou a necessidade de trajeto daquele momento. Comparando com a colonização espanhola, repleta de centros urbanos milimetricamente organizados em linhas retas, ele chegou a história do “semeador e ladrilhador“, o colonizador português e o espanhol, respectivamente.

Este é apenas um dos exemplos (e um dos mais “fáceis” de resumir); há outras tantas observações que decisivamente transformaram a forma de encarar o passado brasileiro, tais como a opção portuguesa de não modernizar a agricultura praticada na América, que retinha práticas quase nômades; ou a completa submissão da cidade ao campo na sociedade, política e economia brasileiras.
Acredito que não seja produtivo nesta resenha abordar os temas de Raízes do Brasil: resumos mais completos e mais acadêmicos podem ser encontrados muito facilmente pela internet. Esta edição, por sua vez, comemora os 80 anos de lançamento, completados em 2016, e se dedica a ser uma apresentação completa de todas as versões de Raízes do Brasil, destacando minimamente todas as alterações feitas em cada uma das cinco edições realizadas por Sérgio Buarque. Além de contar com todos os prefácios e posfácios, e ainda adição de uma dezena de artigos comentando a obra e sua influência.
Com relação às alterações da obra, são apontadas realmente em mínimos detalhes: até mesmo uma mudança de artigo de uma edição para outra é anotada e registrada. Nesse sentido, observar ou não as notas vai muito do seu objetivo de leitura, e ainda assim, atentar-se a todas serve apenas a quem deseja estudar especificamente o texto de Raízes. A obra mudou sensivelmente desde 1936 até 1969, data da quinta e última edição, mas nem tudo possuía significado maior por trás; poderiam ser alterações estéticas e mesmo da mudanças suscitadas pelo mercado editorial e mundo acadêmico da época – afinal esses 30 anos entre uma e outra foram decisivos para o Brasil, e Raízes é um dos motivos, vale lembrar.
As principais diferenças na obra são destacadas nos nove artigos que acompanham o livro; sendo a mais sensível àquela que Sérgio Buarque ironiza explicitamente a democracia liberal na primeira versão, chamando-a de equívoco no Brasil, mas suaviza a crítica nas edições posteriores. Tudo é explicado pelos comentadores devido ao contexto: com a ditadura do Estado Novo e a posterior inauguração de um regime democrático no Brasil em 1946, SBH deu um outro curso em sua crítica pois era um opositor declarado do Varguismo. Infelizmente, uma bola fora da editora é que, deste conteúdo suplementar, apenas um dos textos é de um historiador, justamente a área mais influenciada pelo livro original.
Nesse sentido, a leitura de Raízes do Brasil requer muita maturidade e distanciamento. Uma obra muito ambígua tamanha sua profundidade; quem quiser ler como elogio à Portugal, encontrará elementos, quem quiser ler como uma condenação do Brasil ao fracasso, também poderá fazer isso; entender que o problema do país foi a colonização lusa é possível observar elementos nesse sentido; ou até mesmo criar esperança de um futuro melhor.
Longe de classificá-lo como Conservador, como um péssimo posfácio desta edição aponta (que transforma ele em simpatizante do nazi-fascismo, vejam abaixo), Sérgio Buarque e Raízes escreviam contra a democracia da República Velha, muito atrelada ao Liberalismo e, mas também desconfiados do rumo da Revolução de 1930. E nada mais significativo disso tudo que a briga entre ele e Cassiano Ricardo, notório intelectual do período, mas também notório propagandista do Estado Novo.
Ricardo não poderia aceitar que o conceito do Homem Cordial, a mais famosa e mais complexa das ideias do texto, seria uma ironia sobre a “bondade” brasileira. Holanda disserta como o cidadão no Brasil exerce sua participação social através da cordialidade, um substantivo capcioso, que pode significar muita coisa. Agindo através “do coração”, o que não necessariamente é algo positivo, no Brasil as decisões políticas, por exemplo, eram tomadas através de uma criação de intimidade (aparente ou real) entre os envolvidos. Cassiano Ricardo queria, mantendo sua propaganda nacionalista, que SBH assumisse que a cordialidade era genuinamente “boa”, não poderia ser algo mau ou de aparência.
Por outro lado, recentemente surgiu uma releitura da obra e desse conceito que, na realidade, faz o mesmo exercício de Cassiano mas apenas de cabeça para baixo, a de que a cordialidade seria algo genuinamente ruim. Jesse Souza, por exemplo, identifica Raízes do Brasil como a obra que inaugura o vira-latismo brasileiro e Sérgio Buarque seria o pai disso. Ao observar os costumes brasileiros na política caracterizados pelas relações passionais e pelo “patrimonialismo”, SBH seria a raiz do pensamento que caracteriza o Brasil, como sociedade, incapaz de se organizar de forma séria – e, portanto, sendo necessário colocar nossas riquezas e patrimônios para serem administrados por entes estrangeiros ou por regimes autoritários.

A avaliação de Jessé Souza é injusta do ponto de vista de culpar o autor por seus supostos leitores. Também o é por colocá-lo justamente como uma figura central de um pensamento que não é só brasileiro – o fenômeno das privatizações para empresas estrangeiras foi uma política de todo o continente Latino americano nos anos 90 (e provavelmente de todo o segundo e terceiro mundos). Em todos esses locais houve uma narrativa para justificar isso, então seria necessário um Raízes do Brasil em cada país? Ou seriam suas traduções que alastrariam esse pensamento no continente? E, ainda, injusta porque Sérgio Buarque também critica a importação de ideias estrangeiras que se pretendem superiores às nacionais.
No caso, ele aponta como a República Velha apresentou um arcabouço de ideário liberal trazido da Europa para curar os problemas da monarquia, e acabou por criar um regime ainda menos democrático. Conectando-se ao ponto no qual temos a principal alteração de Raízes: a crítica a democracia liberal. Durante todo o período monárquico, os liberais se apresentavam como a oposição ao regime, e uma vez no poder com a República (não eram as mesmas pessoas e grupos, todavia), embasados por ideias europeias – militarismo alemão, positivismo francês, diplomacia americana – não empreenderam mudanças significativas. E isso pode se estender décadas afrente: um neoliberalismo que espalhou a miséria em velocidade relâmpago, ou as tentativas de Social Democracia que terminam em golpes conservadores.
O que explicaria o “fracasso” dessa implantação de ideais europeus ao Brasil? Talvez seja essa a pergunta principal deste livro – e, em menor medida, em toda a América Latina. Buarque responde que nossa colonização foi diferente porque nós éramos diferentes, e o Brasil é o resultado da adaptação dos traços portugueses a nossa realidade – assim como também transformamos nossa metrópole. E uma mesma conclusão sobre as seguidas tentativas de europeizar a América do Sul, que fracassaram, criticando também as disputas caudilhas em torno destes mesmos ideais e palavras ao longo do XIX. Definitivamente, somos algo sui generis.
Em um dos posfácios de Antônio Cândido, o intelectual relembra como foi libertador para a geração dele ler Raízes do Brasil e, pasmem, Casa Grande & Senzala. Obras que, contrariando boa parte do que era estabelecido na academia no período, buscavam identificar o que havia de mais brasileiro em nosso passado, através de um olhar crítico e não laudatório. A paixão por entender o passado brasileiro presente neste livro é, talvez mais que a metodologia e conteúdo, que inspirou e mudou os historiadores nacionais para sempre.
Excelente (5/5)
O maior clássico da historiografia nacional.
Colonização Holandesa: este é um dos raros livros (o único que me lembro de ler recentemente) que apresenta o nordeste holandês não se consolidou por um fracasso da colonização e não apenas da reconquista luso-brasileira do território. Buscando implantar métodos menos adaptáveis à geografia e sociedade americana, a operação liderada por Maurício de Nassau teve diversos problemas, desde mão-de-obra (mesmo escrava) e até mesmo colonos para administrar a empreitada.
Técnicas agrícolas e administrativas mais “modernas” não eram bem aceitas por escravos, indígenas, senhores ou pela igreja – isto é, por quem estava lá – e não havia migração suficiente dos Países Baixos para cá e compensar esse esvaziamento da colônia. Nesse sentido, tornando possível a reconquista liderada por colonos já da América e da África portuguesa; e a aceitação por parte da Holanda desse quadro, que transferiu seus esforços de plantation para o Caribe.

Aventura lusa: em muitos momentos um traço da colonização portuguesa que nos marcou de forma fundamental foi o senso de “aventura”. E, mais uma vez, Raízes exige maturidade de leitura. Apesar de parecer, essa palavra não carrega nenhum valor “bom”; e sim tem mais a ver com o famoso “pioneirismo português” que aprendemos na escola. Uma nação relativamente pouco povoada e com poucos interesses de construção e estabilização de colônias. O desejo era um enriquecimento relativamente pouco trabalhoso e rápido, proporcionado especialmente pelo comércio mais diversificado o possível. Algo extremamente aventureiro.
Ausência de tradição: Enquanto no resto da Europa ainda se canonizavam reis e guerreiros, como Joana D’Arc na França e os diversos reis santos na Inglaterra, na década de 1380, Portugal já era uma nação com muita flexibilidade em seus laços nobiliárquicos. A partir da Revolução de Avis, se tornou muito comum importantes comerciantes ou mestres de corporações de ofício interferirem publicamente na política.
Não é possível falar de alguma revolução burguesa, por exemplo, tanto que muitos destes poderosos compravam os títulos aristocráticos para permitir o ingresso no poder, mas isso possibilitou um dinamismo decisivo para ser o país pioneiro na exploração marítima. A prática influenciou diretamente em nossa organização social, os donatários ou os capitães mores designados para as sesmarias e capitanias, na imensa maioria das vezes eram desses “novos-nobres“. Esse contexto perdurou até o Império, quando os “barões do café” passaram a comprar seus títulos de nobreza – a expressão tem origem no fato do baronato ser o título mais barato de ser adquirido.
A questão, aponta Sérgio Buarque, é que, em Portugal ou no Brasil, o discurso conservador que pede para retomar antigas tradições e costumes como tábua de salvação para crises é completamente oco e irônico, já que essa “tradição” muitas vezes sequer existia.
Demodé: com as correntes decoloniais ganhando força, difícil imaginar uma obra que poderia ser tão mais fora de moda, como Raízes do Brasil. Estamos falando de um livro que se encaminha para seus 90 anos, claro, e dificilmente pode ser utilizado para algum debate historiográfico. Mas a questão é que a abordagem de Sérgio Buarque de Holanda, coloca o Brasil como uma espécie de prolongamento da cultura portuguesa (ou ibérica). Todos os nossos traços sociais e culturais são indissociáveis dos valores portugueses trazidos para cá – embora Buarque aponte várias vezes o quanto que nós transformamos a metrópole durante os 300 anos de colonização.
Essa é um dos principais pontos de crítica a SBH. Sua interpretação, como aponta também Jessé Souza, dá espaço a idéia de uma herança maldita aos brasileiros, que seriam fadados a serem corrompidos e imperfeitos devido à colonização portuguesa. A crítica sobre o quanto Raízes trata o Brasil como um prolongamento português é válida, e um importante alerta para se ler esta obra. Mas, novamente, não é justo condenar um livro devido aos seus leitores, no caso de Jessé.
Serge Buharkdt von Niederlanden – Há ainda, como em um dos apêndices, uma comparação completamente tresloucada de Sérgio Buarque a algo como um determinismo biológico. Traço que seria uma prova de seu conservadorismo, demonstrando como historiador teria uma filosofia “vitalista”, anti-iluminista e anti-intelectual, buscando a essência das coisas. Observações muito alinhadas, segundo o comentador, Leopoldo Waizbort, com o pensamento conservador nacionalista, antidemocrático e antirrepublicano do seu período – quem eram os conservadores com essas características na década de 30? Uma viagem psicodélica para transformar Sérgio Buarque e Raízes do Brasil em símbolos fascistas ou numa espécie de Olavo de Carvalho do início do século passado.
História e Arquivologia – Uma piada recorrente para defender a necessidade de uma pegada mas humana e menos mecânica em biblioteconomia e arquivologia é que não seria raro encontrar Raízes do Brasil classificado pelo tema de Biologia em bibliotecas por aí (ainda que normalmente as edições contém com o código necessário de história do Brasil 981 na ficha de catalogação).
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