Fundação

Fundação – Isaac Asimov

Tradução: Fábio Fernandes – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1951 – Minha Edição: 2009 – 239 páginas


Um debate muito acirrado dentro do campo da historiografia é sobre considerar ou não a História uma ciência. “Ciência” implicaria em uma série de pressupostos os quais o estudo do passado pode ou não atender. A favor dessa posição temos, por exemplo, o rigor metodológico – ser historiador hoje não é simplesmente narrar eventos; há todo um processo científico por trás que é compartilhado por pares – mas, contra, e muitas vezes decisivo, não há como realizar experimentos com o tema de estudo, uma vez que ele já não existe mais.

É nesse contexto, no século XIX, que outras ciências humanas começam a ser desenvolvidas para suprir a “falta de cientificidade” da História e da Filosofia, tais como a Sociologia, a Geopolítica, Antropologia, e a Psico-História.

Neste livro, que é talvez o maior clássico da Ficção Científica do século XX, Isaac Asimov nos apresenta o conceito dessa ciência (ficcional antes que seja mal interpretado). Analisando milênios de história humana, em enormes grandezas, populacionais, cronológicas e espaciais, seria possível “prever” o futuro através do estudo do passado. O autor desta teoria é o matemático Hari Seldon, que acabou sendo conhecido por uma tese polêmica: o Império Galáctico, que domina milhares e milhares de planetas há mais de 10 mil anos está caminhando para seu inevitável final.

O livro começa quando, durante o recrutamento de outros cientistas para a Fundação – uma instituição responsável por guardar todo o conhecimento da humanidade, através da Enciclopédia Galáctica, durante o período de barbárie que se seguirá – Seldon é preso, julgado e condenado ao exílio pelas autoridades imperiais ao ser confrontado por sua previsão. Esse prólogo, aliás, é a parte mais nova da obra, escrita em 1951 especialmente para a publicação dos demais contos em forma de livro: cada um dos capítulos foi publicado entre 1942 e 1944 como “folhetins” em revistas especializadas.

Embora fique claro que são textos diversos alocados no mesmo livro, eles conversam muito bem entre si – funcionando melhores até que nas continuações – pois os saltos temporais entre um e outro funcionam como amostras da Psico-História, de fato, provando-se verdadeira. Já a idade de escrita dos textos fica muito evidente, com as estórias mais extravagantes de todo o cânon da Fundação – lembrando que são dos seus primeiros textos profissionais – tal como a “religião nuclear” e o papel das mulheres relegadas a meras acompanhantes dos cientistas.

Nos dois primeiros contos, a Fundação, exilada nos confins da galáxia, em um planeta com o sugestivo nome de Terminus, começa a ser assediada por seus vizinhos. Já em franca decadência, o Império não tem poder para controlar aquela periferia e os conflitos entre os “reinos bárbaros” estão prestes a explodir pela hegemonia daquela região. Passados 50 anos, Seldon já faleceu, e os Enciclopedistas não conseguem sair dessa crise, nesse contexto, surge Salvor Hardin o primeiro político do planeta – antes administrado exclusivamente como uma espécie de universidade – capaz de negociar e manipular as partes na disputa de poder regional.

A partir daí, a organização se transforma de um grupo de acadêmicos responsáveis pela preservação do conhecimento da humanidade para um das instituições ativas na reconstrução da civilização durante a queda do império. Seldon promete que, com a Psico-História e a Fundação, a Galáxia voltará a ser estável em “apenas” mil anos – contra 30 mil anos de anarquia sem sua atuação. Testemunhamos essa mudança através de saltos entre décadas de eventos entre os capítulos, e é uma das coisas que mais gosto do livro – embora seja algo quase “involuntário”, já que é consequência do formato original de publicação.

Na segunda metade, o cenário muda: várias décadas depois a Fundação precisa lutar contra sua própria desagregação, pois sua forma de “domínio” sobre os povos bárbaros está sério questionamento. Nosso protagonistas, com o poder do Plano Seldon (a análise psico-histórica), precisarão se reinventar para manter a periferia galáctica minimamente estável. Apesar de muito suspense, as obras e ações dos protagonistas são puramente intelectuais. Intrigas políticas e manobras econômicas são as armas dos heróis; um tipo de abordagem que não só não é comum no gênero, como costuma afastar os fãs.

Na contracapa desta edição, temos a citação de um economista estadunidense, vencedor do Prêmio Nobel da sua área em 2008; na qual ele lembra de como Fundação, a partir dos psico-historiadores, o inspirou a ser um cientista social para tentar desvendar as dinâmicas da civilização. Afinal, é a capacidade de análise a grande ferramenta do enredo. Confesso que é algo que me pega também, e imagino que também ao próprio Asimov – no próprio livro em um momento um personagem comenta como cientistas de exatas são sempre péssimos administradores.

“Há uma série muito antiga de Isaac Asimov – os romances da Fundação – na qual os cientistas sociais entendem a verdadeira dinâmica da civilização e a salvam. Isso é o que eu queria ser. E isso não existe, mas a economia é o mais próximo que se pode chegar. Então, como eu era um adolescente, embarquei nessa.”

Entretanto, se ele próprio era um eminente químico, o que teria inspirado o autor a pensar dessa forma?

A grande inspiração de Asimov é com Declínio e Queda do Império Romano, uma das obras de História mais influentes de todos os tempos, escrita pelo aristocrata inglês Edward Gibbon no final do século XVIII. Entretanto, não bebendo necessariamente das visões daquele autor, já bastante ultrapassadas, mas com o objeto de estudo do livro: o contexto de um grande império, que era visto como infinito, interpretado como o início e o fim da própria História humana, estar em decadência sem perceber.

The Course of the Empire: Destruction, de 1836, do pintor estadunidense Thoma Cole é uma das representações mais famosas da queda do Império Romano, com uma imaginação sobre um saque de Roma.

Há uma importante controvérsia aqui, que já havíamos apontado na resenha de Poeira de Estrelas: o autor acredita piamente na teoria autoritária da Pax Romana, na qual advoga-se que o Império Romano, através da dominação dos povos do Mediterrâneo, fez florescer a paz e a prosperidade do mundo ocidental. A teoria é muito controversa por uma série de razões, além de obviamente significar a opressão de vários povos, outros pontos são de que a “paz” era restrita a grandes conflitos entre entidades políticas, mas haviam inúmeras disputas internas e de fronteiras; assim como ignora a própria perenidade dos romanos às idéias estrangeiras.

Para além do debate historiográfico, no contexto de publicação das obras da Fundação, nos anos 50 e 60, surgiram os defensores da Pax Americana. Ideia na qual esse papel, na contemporaneidade, seria feito pelos Estados Unidos para o Ocidente; algo que justificaria as incontáveis guerras, golpes e interferências no geral realizadas pelos EUA nos países hemisfério. Assim, aumentando a controvérsia por trás da idéia de Asimov, contrapondo o Império Galáctico à barbárie e anarquia.

Nesta edição brasileira, há um prefácio assinado pelos editores referenciando uma polêmica envolvendo o Destino Manifesto – teoria na qual os estadunidenses tinham a missão divina de conquistar o resto do continente, exterminando os povos indígenas. Não acho que seja o caso, porque não há nenhum componente étnico religioso que legitimaria o papel da Fundação no reestabelecimento do Império (a “religião nuclear” não cumpre o mesmo papel). Por sua vez, essa face era algo fundamental para justificar a inferioridade dos nativos da América do Norte diante dos colonos anglo-saxões.

Por outro lado, para mim sempre foi óbvio uma outra inspiração de Asimov: o Marxismo. Quando li a série pela primeira vez, no início da década passada, estava no começo do mestrado e estava lendo algumas obras marxistas para referências teóricas; e provavelmente me influenciou nessa observação. Mas sempre esteve claro para mim que a Psico-História era o Marxismo; em outras obras da Fundação aparece até uma citação de que a “Psico-História é a única ciência“; citação idêntica a uma das rasuras de a Ideologia Alemã, Marx e Engels afirmaram que a História era a única ciência (muito embora seja improvável que Asimov tenha conhecido essa obra) capaz de explicar a humanidade.

As alegorias vão em direção de dois aspectos. O primeiro, mais complexo mais teórico, envolve uma análise mais “macro” na falta de melhor palavra, dos eventos históricos, no sentido de diminuir não exatamente o escopo ou o objeto, mas entender os grandes fenômenos – tais como o modo de produção, no caso marxista. E, nesse mesmo sentido, há uma diminuição da força das ações individuais nos processos históricos; repetido várias vezes pelos personagens de Fundação – o Mulo é outra história. Assim como na vida real: Lênin, por exemplo, precisava lutar contra as alas revolucionárias da Rússia que praticavam atos de terrorismo, pois entendia que, na visão do marxismo, essas ações individuais não seriam capazes de mudanças definitivas na sociedade; apenas a Revolução operária teria essa força.

O segundo aspecto, mais prático, mas até mais importante, é que para Marx e Engels, o estudo História era uma ferramenta de transformação social. Até a Idade Moderna, o estudo do passado tinha mais ares de legitimação do presente – genealogias ou registros régios para confirmar os direitos de um governante, por exemplo. Apesar do surgimento de uma análise mais crítica do passado (tal como a obra de Gibbon sobre o Império Romano), apenas com o Marxismo a historiografia seria considerada um fator importante para transformar a sociedade. Ela revela os caminhos a se percorrer, a quem enfrentar e quais os próximos desafios. A História passa a falar também sofre o futuro. Embora jamais trabalhe com previsões.

Asimov negou publicamente, mais de uma vez, que a Psico-História teria relação com o Marxismo – o que era de esperar. Ele viveu todo seu sucesso na Guerra Fria, e qualquer associação poderia ser o final de sua carreira, especialmente na época da publicação dos livros, auge do Macarthismo – e calhava dele ser soviético de nascimento. Entretanto, quando os contos originais foram escritos, no início da década de 40, era o período de maior proximidade dos EUA com a União Soviética, no forjar da aliança na II Guerra, e poderia explicar a ousadia de criar um Marxismo ficcional.

Da mesma forma, para mim, ou qualquer outro estudioso, se declarar marxista hoje é fácil se comparado ao século passado. Não há exatamente uma correspondência política no sentido de filiação, não apenas em sofrer alguma perseguição política, mas seria um aceite, concorde ou uma apologia ao Socialismo Real do período. O que dificilmente seria o objetivo do autor. O contexto atual também permite, hoje, por sua vez, uma interpretação mais ampla do próprio Marxismo.

Asimov dizia, por exemplo, que o marxismo era muito mais engessado que psico-história; essa impressão burocrática é muita da herança da Terceira Internacional, controlada pela União Soviética. Atualmente os estudos de Marx são muito mais abertos e menos engessados, do que na época – uma mudança iniciada pelos marxistas britânicos da New Left Review nos anos 60, na pessoa com o nomes de Eric Hobsbawm, Edward Thompson e George Rudé – e podem abranger diversos formatos, objetos e abordagens.

Talvez a maior força e prova da inspiração seja talvez a “in-voluntaridade” dessas aproximações, Asimov talvez tenha entendido melhor a essência do marxismo, como estudo de História, nas esferas teóricas e práticas, que os seus próprios ativistas contemporâneos da primeira metade do século XX.

Nesse sentido, Fundação – em especial, delimitando a este livro e às duas continuações da época – apesar de não ser a mais conhecida, é uma das obras mais potentes do gênero. Seu objeto é a maior ambição de todo, historiador, filósofo ou cientista social: uma teoria capaz de explicar à humanidade em todos os aspectos. Se isso ainda um dia será possível, não sabemos – o mais próximo foi o Marxismo, vou puxar a sardinha -, mas a empreitada de Asimov e seus personagens é talvez a mais interessante da Ficção Científica – e minha favorita.

Excelente (5/5)

Cartas marcadas, ou não: Em 1966, o Prêmio Hugo, principal concurso de literatura de Ficção e Fantasia do mundo anglófono, deu pela primeira e única vez o prêmio com título de “melhor série de todos os tempos“. Todo mundo contava que seria um jogo de cartas marcadas para premiar a trilogia do Senhor dos Anéis, incluindo Isaac Asimov, mas para surpresa geral, Fundação (e suas duas continuações) recebeu a honraria.

Impossível de ser adaptada: considerada uma das grandes obras inadaptáveis da literatura, finalmente Fundação recebeu uma versão em série, produzida pela Apple+ e lançada em 2021; atualmente indo para quarta temporada. De fato, Fundação era inadaptável mesmo: o seriado não tem semelhança alguma com os livros, exceto por compartilhar alguns nomes e ideias – e ainda mistura algumas dessas coisas dispersas entre as várias obras.

Não só conta uma estória diferente, como radicalmente tem morais e mensagens diversos dos livros; o estudo do passado, da psicologia humana, os confrontos entre as ciências e tecnologia… não há absolutamente nada da essência do texto de Asimov presente. Que ao menos sirva para aumentar a popularidade da trilogia original.

Os detalhes podem se encontrados na resenha que fizemos da primeira temporada – a única que tive estômago de ver.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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