Mr. Robot: A Sociedade Hacker (Primeira Temporada)

A crise de 2008/09 dada sua grandeza poderia ter um efeito tão devastador quanto a de 1929. Por uma série de razões que seria impossível discutir aqui, as coisas não mudaram muito para aqueles que justamente causaram o colapso, os integrantes do sistema financeiro e bancário.

Vários foram os filmes e documentários produzidos no período para retratar tanto a crise quanto suas repercussões. Mr. Robot também é um documento desse momento da nossa história recente.

A premissa da série em sua primeira temporada é direta: os especuladores e banqueiros precisam pagar pela crise. Um grupo de hackers reunidos em uma espécie de célula quer levar isso até o final, simplesmente apagando as dívidas de todas as pessoas dos sistemas computadorizados dos bancos.

A diferença de Mr. Robot para a maioria das produções referentes a esse contexto é retratar um contra-ataque frontal ao sistema financeiro. E é entorno disso que a trama desta primeira temporada gira.

Composta por apenas 10 episódios, nela somos introduzidos aos personagens, conceitos e estilo daquele universo. Inicialmente, após os dois primeiros capítulos, eu fiz uma imagem completamente distinta do que viria a ser o seriado: como o desenvolvimento da história culminava com Elliot hackeando alguns personagens e entregando eles para as autoridades, acreditei que ela se trataria quase como uma série policial. Numa espécie de Lei & Ordem: Cyber Victims Unit.

Felizmente estava enganado (embora eu também gostaria de ver uma série assim), a trama não era episódica mas sim unificada com um ponto de chegada, abrindo outras tantas possibilidades de desenvolvimento.

Agradou: a premissa geral, reviravoltas e a empatia com os personagens.

É incrível como o seriado foi capaz fazer nós nos importarmos tanto com seus personagens em tão poucos episódios. A abordagem intimista, de acompanharmos os acontecimentos predominantemente pela ótica de Elliot, e compartilharmos das opiniões dele sobre as pessoas, foi bem eficaz nesse sentido. Acreditamos piamente que Gideon e Krista (seu chefe e sua psicóloga) são pessoas genuinamente boas, mesmo com seus defeitos e eventuais oposições à trama, e queremos muito que elas não tenham grandes problemas. Shayla é tão bacana que queremos que ela seja o interesse romântico principal. Da mesma forma, os vilões já têm nosso total desprezo pela avaliação que recebemos do protagonista.

Além da forma, a série também gera empatia pelo conteúdo: a crítica ao sistema financeiro que se tornou um esquema de agiotagem global legalizada, enquanto trava nosso desenvolvimento tanto quanto indivíduos como humanidade. A crítica diz respeito a cada uma das bilhões de pessoas do planeta. Seja ao americano que sai da faculdade com uma dívida que ele nunca pagará quanto ao brasileiro que paga 250%, ou mais, de juros no cartão de crédito.

Um bom livro para entender parte da crise de 2008/09 e seus efeitos.

A Era do Capital Improdutivo

Um raio-x do Capitalismo Tardio. Demonstra com muitos dados e rigor como atualmente a economia gira em torno da especulação: drenando dinheiro da produção de mercadorias e travando o desenvolvimento da humanidade.

Outra vantagem de vermos a maioria das coisas através do que Elliot pensa é que também sabemos o mesmo tanto que ele sobre o que está acontecendo. E é partindo disso que a maioria das reviravoltas são muito bem apresentadas (não apenas nesta temporada), e surpreendentes. Todas valem muito a pena você se guardar. Se você ainda não assistiu, FUJA de qualquer avaliação ou análise para te preservar dos plot twists.

Não agradou: ritmo muito irregular e bizarrices desnecessárias

Essa mudança de tom entre uma série quase policial para um misto de drama e suspense não foi indolor. Há uma quebra muito aguda de ritmo quando somos apresentados ao formato mais dramático. Há muitos capítulos sem um único elemento de tecnothriller – um subgênero tanto da Ficção Científica, quanto do Suspense, que deposita a criação da tensão de acordo com os usos e implicações da tecnologia – o que é fatal para o aproveitamento do seriado, com suas premissas baseadas exatamente nisso.

O aproveitamento dos episódios de par em par é uma montanha russa. Após dois capítulos muito bons, se seguem dois extremamente lentos onde quase ninguém sai do lugar, passados por dois com a trama voltando a andar – tanto em arcos de personagens quanto em direção à trama principal – voltando a mais dois bem lentos e fechando com dois muito bons.

Por outro lado, em alguns pontos a série me pareceu muito pretensiosa em certos aspectos. Primeiro, por conta da narração expositiva demais nas críticas sociais e políticas do seriado. É mais elegante e mais inteligente apresentar a crítica ao colocar os personagens nas situações a serem denunciadas, e não colocar um deles para declamar as coisas. Isso foi diminuído mas é difícil escapar, devido a característica da série ser narrada em off em primeira pessoa.

Um outro sintoma de pretensão que avalio é o excesso de bizarrices descarregadas nos personagens sem um objetivo claro; o miolo desta primeira temporada é praticamente pautado por isso. A qualidade do roteiro da série não deixa que as tramas bizarras sejam largadas sem depois chegarem em algum lugar, mesmo que em outras temporadas, mas a maioria acaba tendo pouco sentido. Vejamos as alucinações causadas por drogas de Elliot. A dependência química é um traço importante do personagem, mas uma coisa são as drogas criarem uma relação entre ele e Shayla, outra é assistirmos as viagens psicodélicas.

Da mesma forma, a trama do casal Tyrell toma alguns caminhos bem sinuosos que, de novo, os roteiristas conseguem amarrar muito bem ao final, mas que pouco parecem contribuir e os caminhos poderiam ter chegado por meios mais habituais sem perder a força do seriado. Eles usarem uma língua inventada, os espancamentos pagos ou sadomasoquismo me pareceram dispensáveis, assim como um assassinato que embora tenha implicações futuras no enredo, foi bem súbito.

Os personagens são todos bem verossímeis, isso faz parte da empatia que conseguimos gerar tão bem com eles. Mas no caso dos Tyrell, percebam quantas características bizarras em sequência citei acima; acredito que seria uma crítica aos super-ricos com gostos e hobbies inimagináveis para as pessoas comuns, entretanto, que fossem mais distribuídas entre outros personagens desse núcleo. Como foi, criaram uma caricatura em um universo povoado por pessoas tão críveis.


Mr. Robot – A Sociedade Hacker

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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