Jornada nas Estrelas: Academia da Frota – 1ª Temporada – só mais um besteirol americano?

Quando estreou a série sobre The Wticher, lá na virada de 2019 para 2020, eu assisti mas não me pegou. Coincidentemente, acabei assistindo dias depois Monty Phyton e o Cálice Sagrado, de 1975, uma das maiores comédias de todos os tempos. O mais impressionante, é que nesse acaso, foi possível perceber que o filme, realizado quase 50 anos antes, ironizava uma série de clichês e convenções de fantasias medievais que o seriado, baseado em um grande jogo, ainda era dependente meio século depois.

Após assistir Jornada nas Estrelas: Academia da Frota, vou repetir a mesma experiência e buscar assistir Não é mais um besteirol americano, filme de 2001, nem de longe tão genial quanto O Cálice Sagrado, mas que parodiava muito bem várias convenções de dramas adolescentes dos anos 80 e 90 – e foi boa parte do que me pegou na minha juventude. A experiência de assistir agora é porque este seriado é quase que exclusivamente dependente dos mesmos clichês daqueles longas da sessão da tarde, um quarto de século adiante.

Acreditem se quiser, o maior número de referências que você vai encontrar em Academia da Frota estarão presentes neste filme de paródia de 2001.

Partindo de uma premissa até que razoável – e que já era o desejo da equipe desde o final de Enterprise – da reconstrução da Federação e da Academia da Frota; a série joga toda a fórmula de Star Trek (e até mesmo do Kurtzman Trek) pro alto e, supostamente, tentando conquistar um público novo, cria um seriado que oferece nada ou pouco para este universo ficcional tão antigo e rico. E, pior de tudo, buscando emular um cenário de escolas estadunidenses do final do século passado, é o seriado mais provinciano de Jornada nas Estrelas.

Agradou: Identidade Visual

Carregando uma virtude que veio desde Discovery, Starfleet Academy consegue criar muita bem uma identidade visual de uma era completamente diferente da franquia. Não seria fácil imaginar a humanidade um milênio a frente; de fato, como veremos, eles não conseguem no roteiro, mas nos visuais é bem competente. Não sei se 900 anos, mas pelo menos alguns séculos a frente de TNG com certeza estamos.

Pontualmente; gostei muito da evolução da personagem da comandante Reno. Em Discovery eu a achava odiosa: suas tiradinhas – que se acumulavam com as de Georgiu durante parte da trama – não tinha função alguma, exceto irritar os demais personagens e dificultar a convivência geral. Entretanto aqui, com uma boa reescrita, a dinâmica da ironia quando, de fato, ela é mais inteligente e experiente que os demais, funcionou demais. Todos os professores são clichês; temos a professora maluquinha, a professora durona e, com Reno, a ranzinza.

A ranzinza é a mais realista, e, não por acaso, a que funciona melhor.

Na justificativa de tentar conquistar um público novo, Jornada nas Estrelas decidiu fazer algo que nunca tinha tentado antes: uma série voltada para adolescentes. Uma vez que os últimos fãs conquistados provavelmente já estão enfrentando calvície, diabetes, hipotireoidismo, seria um movimento legítimo. Entretanto, não só a qualidade foi muito ruim, como o seriado continuou voltado ao mesmo público, uma vez que tentou emular o que era o entretenimento adolescente dos anos 80 e 90, da época na qual os fãs atuais ainda tinham espinhas. Restringiu ainda mais, uma vez que agora, mantendo-se no nicho de pessoas entre 30 e 60 anos, restringe-se a quem gosta de conteúdo juvenil.

Esses agasalhos, patéticos demais.

Todos os clichês possíveis de filmes da sessão da tarde vão aparecer; desbloquearão memórias, em um mau sentido, de coisas que você julgava estarem ultrapassada mas retornaram. Com relação aos estudantes temos lá o delinquente juvenil que pode ser recuperado; temos o que se acha (e inclusive se anuncia assim); temos a mocinha bonitinha e responsável; o grandalhão com o coração de ouro… do lado dos docentes temos a professora maluquinha, a durona, a ranzinza ou o compreensivo.

Os clichês não são por si só problemas, mas eles são limitantes do enredo: tudo que acontece precisa girar em torno desse contexto de ensino médio americano. Não só nenhum personagem sai disso: como o enredo se desenvolve através conceitos batidos, os episódios começam e terminam para manter as coisas onde estão. Nesse sentido, é uma série extremamente monotemática, apenas trabalhando essa rotininha. Na realidade, não é nem uma série de escola dos anos 90 no espaço, apenas no futuro, uma vez que os alunos saem, efetivamente, da escola para fazer alguma coisa em 3 episódios.

Os cenários, lindos, é verdade, são sempre os mesmos. Fica até estranho que em alguns momentos eles têm aula no “átrio”, na realidade, no hall de entrada ou no corredor – será que a Academia da Frota é administrada pelo PSDB? As cenas externas (raríssimas) são em locais muito genéricos, em um jardim ou e uma floresta – no máximo, em uma cidade escura – e contrastam muito com a grandiosidade dos internos. Parece que só temos bottle episodes na temporada.

Em uma das poucas visitas plenetárias feiras na temporada, os alienígenas que recebem a delegação criam um cenário igual a da academia.

Mas tudo isso empalidece diante do principal problema: Academia da Frota é um seriado extremamente provinciano, isto é, que acha que a sua realidade corresponde ao do universo inteiro. Todas as espécies da Galáxia gostariam de mandar seus filhos estudarem numa escolinha de Pawnee, no interior de Indiana; no máximo, na universidade de Greendale. Mas é um resultado inevitável de tudo acima disposto. Buscando referências em filmes de ensino médio dos anos 80 e 90, um contexto extremamente restrito à realidade dos Estados Unidos, o resultado não poderia ser diferente. Situações, comportamentos, estereótipos, arquétipos, cenários, falas, tudo com cara de estarmos presos numa escola americana de 30 anos atrás. Tem o dia do time da escola, tem o dia do debate, o dia do bullying (no caso, enaltacendo), o dia de visitar os pais (esse sequer dá certo, veremos adiante).

Desde a TOS, mas especialmente em TNG, bebendo nas visões e intenções de Roddeberry, Jornada nas Estrelas significava uma humanidade mais internacionalizada (a ponto de se unir com outras espécies), que via no outro, nas demais raças e civilizações, algo a ser entendido ou compreendido, como verdadeiramente iguais. Algumas vezes havia uns escorregões, claro, mas o desejo era genuíno, e o Capitão Picard talvez seja a melhor expressão em seus grandes discursos. Enquanto, aqui temos um episódio, por exemplo, que vai, literalmente, chamar os Klingon de “espécie em ameaçada de extinção“, os tratando como animais.

Já sentia muito isso em todos os seriados do Kurtzman Trek (algumas coisinhas em SNW já me deram essa impressão), mas aqui é insuportável. Enquanto nas visões de Roddeberry e sua equipe, assim como de Michael Piller, Rick Berman, Jeri Taylor ou Brannon Braga, com todos os seus problemas, o desejo era superar o que humanidade era no século XX, chegamos neste seriado que, em pleno XXI, só consegue imaginar uma sociedade, mesmo mil anos adiante, que se comporte como no final do século passado.

  • Os vilões são muito ruins também. Outro clichê do gênero, ainda que não exclusivo dos filmes de adolescentes, temos um vilão que falastrão, cheio de monólogos, cujo único objetivo parece ser perseguir nosso garoto prodígio. E não é uma boa transição: ele era um cara que vivia de dar golpes em mães solo, e, de repente, seu plano já está em causar morte de, literalmente, bilhões de pessoas.
  • Outra coisa muito provinciana: a estória de origem da Capitão Ake a família Mir. A narrativa extremamente batida do militar honrado que, agindo como força colonial, é obrigado a punir a população nativa e isso o persegue. Como diria o meme: os Estados Unidos vão até o seu país, matar o seu povo, e depois fazer um filme sobre como isso fez eles ficarem chateados. No último episódio, ainda, temos uma abordagem ainda pior, contando como ele se aposentar, aquela era sua última missão, ele era pai de 7 filhos – e, nossa, adivinhem: era estadunidense, do Havaí.
  • Pra ajudar, a capitã (ou chanceler, não deveria se reitora?) fala como se fosse uma vaqueira. A renomada e multipremiada Holly Hunter, fui verificar entrevistas, realmente tem uma fala com um sotaque sulista (ela é original da Georgia); mas não é possível que não tenha sido uma opção. Não só o sotaque está acentuado, como as próximas expressões faciais durante os diálogos, quebrando o maxilar – talvez com a intenção de deixá-la mais “maluquinha”.
  • A trilha sonora com músicas “normais“, na falta de melhor expressão. Para ainda colocar mais provincianismo naquele universo, mais de uma vez, vários episódios usam músicas pop estadunidenses como trilha. Está dentro do aceitável, mas é outra expressão de pensamento limitado (e tendência dos seriados atuais). Talvez se rolasse um Blink 182 ou CPM 22 entraríamos mais no clima; seria um clichê do bem.
  • A série também esqueceu a dinâmica das facções, tão cara à Jornada nas Estrelas. Discovery introduziu no século XXXII duas muito importantes, os Breen e a Corrente Esmeralda. Ambas sofreram derrotas e, certamente, desejariam interferir na reconstrução da Federação – e, especialmente, os Andorianos deveriam ser prioridade para reintegração. Starfleet Academy veio com os tal Venari Ral e uns canibais, do nada, sem explicar coisa alguma

S01E01: Essa garotada hoje em dia… – A Academia da Frota será reativada; a partir da reconstrução da Federação no século XXXII, as próximas gerações de oficiais serão treinados menos para a sobrevivência e mais para a exploração. Para chefiar essa nova empreitada, foi convidada a Capitão Nahla Ake, uma Lanthania, com seus 400 e tantos anos, e que viu a Frota em seu auge podendo inspirar os corações mais jovens. Para seguir em seu caminho, ela precisa fazer as pazes com seu passado: 15 anos atrás ela foi responsável pela separação entre mãe e filho após condenar a genitora à prisão.

O episódio já começa com uma estória pra lá de batida: a militar honrada que precisou tomar uma decisão terrível mas respaldada pela legalidade. Ah, que preguiça. E é uma trama tipicamente estadunidense, coisa que será o tom da temporada.

Este é só o primeiro (e nessa mesma sequência também temos dois argumentos manjados, a mãe foi enganada por um vilão maior, e um militar foi morto sem querer) de inúmeros clichês que o episódio vai usar se tratando de uma trama com adolescentes. É só separar sua cartela de bingo: o protagonista é um delinquente juvenil; temos um bully, que se anuncia como tal, é uma cena patética; a melhor aluna é a mocinha bonitinha e responsável; uma menina nerd que não sabe se comportar; um grandalhão com coração de ouro; um triângulo amoroso; a professora durona; a professora compreensiva…

Se na abordagem é puro clichê; em ponto de vista de enredo e premissa, a série também não oferece nada de novo em seu primeiro episódio. Não há uma trama de fundo. O vilão, um falastrão típico de filme adolescente, é um fim em si mesmo que vai voltar tão somente para perseguir os protagonistas. Temos alguns bons visuais e efeitos especiais; mas também prejudicados por linguagem pobre, com a câmera tremendo, cortes rápidos e efeitos sonoros de pancadaria.

Apesar de visuais muito bonitos e um ritmo bom de ação, é, de longe, o pior primeiro episódio de uma série de Jornada nas Estrelas ao não oferecer nem uma ínfima fração de novidade.

Avaliação: 2 de 5.

S01E02: Teste Beta – Uma das primeiras missões da nova Academia da Frota é receber a delegação de Betazed; o planeta foi um dos vários mundos que deixou a Federação após a Queima e agora é preciso reincorporá-lo. A tarefa não será fácil, uma vez que os telepatas criaram uma barreira psiônica intransponível ao redor de seu sistema, ficando, por sua opção, incomunicáveis por mais de um século.

Para ajudar nesse trabalho, por uma razão qualquer, a delegação dos alienígenas é composta por jovens adultos – que, convenientemente, contém os filhos do presidente, sendo uma gatinha que se apaixonará pelo protagonista. Nossa, pessoal, tá difícil demais. Não temos um minuto de descanso da bobagem de filme de adolescentes americanos; é um bombardeio de mais clichês (nem imaginava que tinham tantos). Agora temos a professora maluquinha e a estudante de intercâmbio bonita que se apaixona pelo mocinho.

O diálogo entre Tarima e Caleb é particularmente emblemático de tão fraco; vamos de “você está me manipulando e achei que estávamos apaixonados“, para “eu te conheci ontem” em segundos. E Caleb é um protagonista simplesmente odioso; em toda cena ele precisa fazer uma gracinha ou ter uma piadinha barata, como errar o lado que ia seguir ou soltar um “olha ali!” para os guardas. Também há um problema com os personagens secundários: Kerec, o comandante da Escola de Guerra, tem um diálogo depois se limita a fazer caras feias; e Ocam, o irmão, com apenas uma série de falas picadas, totalmente dispensáveis, faz seu final ser inesperado pelas razões erradas.

No plano de fundo, há uma traminha um pouco mais interessante com as discussões de Betazed – o presidente surdo-mudo é um toque muito legal; me lembrou um ótimo episódio da segunda temporada de TNG – e a resolução do acordo é realmente inteligente. Primeira coisa nova que o seriado parece nos oferecer – apesar de perdermos totalmente a ação neste aqui.

Avaliação: 2 de 5.

S01E03 Virtus Reflex – Quando pareciam que as coisas iriam se assentar, novos ventos turbulentos atingem a turma dos cadetes. Os alunos da antiga Escola de Guerra (que substituiu a Academia durante à Queima) decidiram praticar bulliyng com os novatos; e agora uma guerra entre as duas facções de estudantes irrompe na escola.

Quando a gente pensa que não tinha mais de onde tirar clichês de filmes de adolescentes, Starfleet Academy aparece com mais do fundo do saco. Agora temos as “guerras de pegadinhas” e a equipe de esportes com casacos bordados. Impressionante. E mais um episódio perdido; o tal do esporte, no final, não era esporte (algo que poderia até aumentar o lore da série), mas sim apenas jogos de guerra com outro nome. Há até uma questãozinha de sobre o que é ser um capitão, mas é bobagem.

Se a dinâmica entre Reno e Lura ficou legal (com o romance subentendido), as coisas continuam patinando. Continuamos com uma professora maluquina, uma durona, o playboy com problemas com os pais, a bonitinha responsável, o grandalhão com o coração de ouro… ninguém tem uma única faceta nova. Os romances continuam outra perda de tempo; agora o casal entre Caleb e Tarima, nossa Anne Hathway de baixo orçamento, ficou numa dinâmica de Crepúsculo; um se aproxima e outro vai embora pra na cena seguinte ser o inverso; o outro se aproxima e o um vai embora.

Guerra de Pegadinhas é uma besteira total; uma trama insonsa que não contribui em nada no desenvolvimento nem da série (da reconstrução da Federação), e nem dos personagens, terminando com o papo de de amigos e rivais que precisam se respeitar e como, na realidade, bullying faz bem e constrói caráter. Que fundo do poço, aterrador como o Kurtzman Trek está cada vez mais provinciano.

Avaliação: 1 de 5.

S01E04: Vox in Excelso – A Academia começa a trabalhar as habilidades argumentativas dos estudantes e inicia uma competição de debates; e o tópico mais quente é a recente situação dos Klingon. Até agora não sabíamos, mas seu Império foi o mais atingido pela Queima, a dependência deles do dilítio devastou o planeta capital e a civilização colapsou; agora, sua principal caravana de refugiados sobre um grave acidente. Buscando sua reconstrução, a Federação oferece um novo lar.

Mudando um pouco de ares do que vimos até; o protagonista do episódio é o solitário Jay-Den Kraag. Descobrimos como ele viveu refugiado com sua família, e causou grande tristeza a ela ao decidir se juntar à Frota. As sequências de flashback são bem simples (pessoas fantasiadas correndo em uma floresta genérica do hemisfério norte), contrastando com toda a opulência dos demais cenários da série, mas atendem.

Finalmente temos uma boa introdução de lore nativo do seriado; embora as coisas apareceram meio vomitadas de repente. O roteiro foi obrigado a colocar um “noticiário” para resumir a política dos Klingon – sempre um recurso preguiçoso. E temos algumas outras discussões; a Queima causou explosões em reatores de Dilítio em todos os planetas? Esse evento até agora é novo e daria uma dimensão ainda maior ao desastre. Eu realmente gostei dessa analogia ao uso dos combustíveis fósseis, uma pena que a explicação que entregaram foi uma merda: tudo isso porque um marmanjão chorou no lugar errado.

Ficou uma temática repetitiva – é a mesma situação dos Romulanos em Picard – e, novamente, ficou muito provinciano. Essa coisa de clube de debate já é algo totalmente ligado aos EUA; mas não só isso, o noticiário, as falas, os argumentos, são todas coisas que poderiam estar sendo discutidas exatamente em uma universidade por lá sobre qualquer país que não tenha boas relações com eles: só substituir Klingon por Irã, Venezuela ou China.

A Federação da era de TNG genuinamente parecia tentar olhar como iguais para as demais raças e civilizações, a Federação do Kurtzmann Trek olha totalmente de cima para baixo – o papo dos Klingon como “espécie ameaçada de extinção“, puta que pariu, tratando literalmente como animais. Mas, apesar de tudo, é o primeiro episódio bom do seriado, conseguindo intercalar o desenvolvimento dos personagens com o lore.

Avaliação: 3 de 5.

S01E05: Series Acclimation Mil – Em um episódio totalmente feito do ponto de vista de SAM, vamos entender um pouco mais do porquê a cadete holográfica (ou Fotônica) foi parar na Academia; e, de quebra, uma discussão sobre o destino do Capitão Benjamin Sisko, desaparecido desde o final de Deep Space Nice.

E lá no fundo do saco das ideias batidas e surradas de filmes adolescentes dos anos 90, os caras conseguiram achar mais um que provavelmente todos nós havíamos apagado da memória: a meta-linguagem do estudante contando para o público o que está acontecendo – algo como as Visões de Raven. Por favor, Q, pare com isso, entendemos a lição, até mesmo os episódios de Holodeck tem seu valor… pode voltar e apagar este seriado da realidade.

O episódio até tem algumas boas sacadas; uma das coisas genuinamente boas de Academia da Frota é saber brincar e fazer referências com o lore – um aprendizado com Lower Decks. E aqui temos mais uma porção de coisas resgatadas. Entretanto, a profundidade do episódio termina aí. O recurso das visões de SAM são patéticos e não desenvolvem absolutamente nada; os fotônicos se comportam como deuses do contínuo Q e ela continua no estereótipo da nerd infantilizada e desajeitada. Pra somar com a bobagem, temos as cenas de bar pra somar na cartela do bingo dos filmes de adolescentes que estamos marcando na temporada.

A grande atração, a trama do destino de Sisko, é total e completamente oca. É claro que não poderiam resolver esse mistério definitivamente. Mas, ao final, não só ninguém descobre nada, como não há nenhuma informação nova: o Jake virou, de fato, um escritor e foi feliz (o que é legal, foge da tendência de todos os personagens do passado serem frustrados), Bajor continua venerando o profeta e mantém a mesma religião, Dax ainda é um simbionte por aí… “Ressuscitam” o protagonista de outra série tão somente para oferecer apenas uma porção de frases de autoajuda.

Avaliação: 1 de 5.

S01E06: Vem, vamos partir – Finalmente nossos estudantes vão por a mão na massa; eles farão um exercício real em um cemitério espacial de naves. Precisam entrar e sair da USS Miyazaki, uma antiga nave da Federação abandonada há mais de um século naquele local; mas é claro que não será tão simples assim e a aula se transforma em uma missão de verdade.

Quem diria que colocar essa molecada pra trabalhar e parar de ficar acompanhando eles fazendo nada na escola seria algo que levantaria o seriado? Com uma aventura aqui, uma ação ali, disparos acolá; e nossa, naves no espaço! Estávamos sentido falta disso. E também é uma oportunidade que Academia da Frota tem de mostrar seu maior ponto forte; os efeitos especiais que não só são bonitos, mas são bem utilizados – as cenas são inteligíveis, entendemos onde está cada coisa e pessoa – e dão uma identidade visual à série, com naves ainda mais futuristas

Já, no roteiro, temos algumas coisa legais, como a Tarima agora como uma espécie de Fênix de Star Trek, o que confesso que gostei. Assim como é bom já engatarem de vez o romance com o protagonista, e gostei até mesmo o lore de que romances com Betazoides tem esse algo a mais; acho que era um objetivo que estava já lá em TNG. Mas também temos coisas soltas, como o tal motor de singularidade, que deveria ser algo muito importante mas não faz diferença alguma; e outras muito previsíveis.

Sabemos que o exercício será transformado em uma missão, sabemos que o vilão tem outras cartas na manga… e, no geral, acho que a série não está sabendo trabalhar os antagonistas. Discovery colocou dois inimigos para o Século XXXII, a Corrente Esmeralda e os Breen, que ainda não foram utilizados (e trazer os andorianos de volta para a Federação seria uma prioridade).

No lugar temos piratas genéricos; os tal Venari Ral e agora essas Fúrias canibais, que simplesmente caem de pára-quedas e ninguém explica nada. E não falta oportunidade, já que Nus Braka teve, pelo menos, dois enormes monólogos – aproveitando a deixa, estou achando os episódios muito longos – que até servem para desenvolver melhor a Capitão Ake (muito boa a antítese de salvar muitos ou um apenas um), mas abusam da nossa paciência.

Avaliação: 3.5 de 5.

S01E07: Ko’Zeine – Os cadetes entraram em uma pequena semana de férias; a maioria deve retornar aos seus locais de origem encontrar com suas famílias, exceto por Mir, que decide ficar sozinho na Academia. E, embora de fato viaje, as coisas não dão muito certo para Jay-Den; o Klingon acaba indo parar em uma cerimônia com Daren em seu planeta natal – ou quase isso.

Quando um episódio de férias não parece tão ruim, é porque as coisas estão realmente difíceis. Não me entendam mal, este aqui está longe de ser bom, mas ele entra num rol de capítulos que sempre temos – as vezes, mais de uma vez, em todos os seriados de Star Trek, e nos dá uma certa familiaridade que estamos sentido falta com Academia da Frota. Mas, infelizmente, é uma oportunidade perdida em todos os aspectos.

O arco principal, referente ao casamento, é mal escrito. Além do patético “sequestro”, as coisas são explicadas de forma truncada; nos diálogos, os personagens se esforçam muito para não explicar exatamente o que está acontecendo – eu não tinha pegado que ele seria o governante do planeta, por exemplo. Gostei, ainda assim, do Daren genuinamente fazer de boa vontade tudo aquilo por amor, fraternal ou romântico, à parceira, algo bem tridimensional. Mas fora isso, não há desenvolvimento algum: não conhecemos seus pais (sua relação difícil com eles é sugerida em vários episódios), sequer vemos o planeta natal e todos os mais convidados não assumem suas formas reais.

Coisa parecida com a segunda trama do episódio referente a Calebe e Genesis, também que ficamos sem conhecer sua família (na realidade, não há a introdução de nenhuma delas). Eles perdem um tempão numas bobagens para depois criar-se expectativas sobre uma revelação de podres da melhor aluna da sala… que, no final, não se concretiza e é incompreensível, qual era a questão das cartas de recomendação? Ela se cobrava demais? Seu maior defeito era ser perfeccionista? Síndrome de Impostora?

Avaliação: 2 de 5.

S01E08: A Vida das Estrelas – Os alunos ainda não se recuperaram totalmente após os incidentes envolvendo o treinamento a bordo da USS Miyazaki, eles estão irritadiços e sem foco. Para ajudar na cura do trauma, a Tenente Tilly é convidada para lecionar à turma uma aula de teatro. Só que, com relação à SAM, o buraco é mais embaixo: sua própria programação parece não processar aqueles tristes eventos.

Quando anunciaram a série, imaginava que a principal personagem de Discovery que estaria por aqui seria Tilly, já que seu desfecho era ser instrutora da Academia; mas ela só chega nesse antepenúltimo episódio, e se trata de uma participação que bastante apagada. Mesmo a personagem nunca me agradando, ela é divertida e carismática; todavia, poderia ser qualquer outra aqui: a própria dinâmica do teatro para apaziguar o trauma é genérica.

Ela começa um monólogo sobre encenação e arte de governar que não tem ressonância nenhuma com os eventos do episódio ou da peça – caem todos no lugar comum funcionarem como um espaço de “abrir o coração”. Teatro teria a ver com confiança e trabalho em equipe; por exemplo, um ator puxa o outro, em posicionamento, falas e clima; mas, aqui, as leituras são apenas uma desculpa para darem indiretas ou desabafos.

O grande personagem do episódio, na realidade, foi o Doutor. Entretanto, apesar de um momento muito marcante, toda a aventura foi uma decepção – não vimos nenhum personagem e nem localização nova, como Starfleet Academy é monótona de cenários, parece uma série composta apenas de bottle shows. Tudo fica dependente, mais uma vez, de gente “abrindo o coração”. Na realidade, apesar de alguns estarem disfarçados de diálogos, este episódio todo é apenas umas porção de monólogos, com pessoas, as vezes na presença de outras, desabafando – e no caso deste arco da SAM é nítido, já que conversam sobre ela com a própria desacordada – falando sozinhas.

Avaliação: 2 de 5.

S01E09: Trezentésima Noite – O final do primeiro ano de funcionamento da Nova Academia da Frota se aproxima, conhecida como a 300ª noite do ano letivo. Uma noite de festas e comemorações que se estenderá por toda a viagem até Betazed, onde a turma participará das celebrações de inauguração da nova sede da Federação. Tinha tudo para ser um grande dia festivo, exceto que Caleb Mir, finalmente, descobre onde está sua mãe.

Bom, antes de tudo, é importante comemorar que o episódio não foi centrada na tal 300ª noite. Que vitória. No comecinho achei que seria esse o caso com o drama no elevador – outra coisa muito idiota é a dinâmica com os anúncios sonoros “da escola”, um último clichê do fundo do baú – mas, felizmente tudo mudou. No lugar, rapidamente, descobrimos que os grande vilões estão planejando algo grande contra a Federação.

Infelizmente, por outro lado, é um roteiro extremamente preguiçoso e sepulta Caleb como protagonista. Absolutamente todas as descobertas do episódio vêm até ele: a resposta para o enigma da mãe estava lá o tempo todo e ele não viu; os amigos que aleatoriamente vão até ele para a aventura; até mesmo a mãe dele que o encontra também sem razão alguma. Não é possível que ninguém percebeu isso; tem que ter sido proposital para mostrar como ele é fraco.

A trama de fundo é legal, sobre o Ômega 47, isolamento da Federação e tal, mas o grande problema é que Starfleet Academy criou vilões genéricos – em locais genéricos: encapuzadas em um local pobre, cheio e escuro – afinal, que porras é o Venari Ral? É uma união da gangues? Tá lembrando a ridícula Lucian Alliance que tentaram emplacar em Stargate Universe (embora já existia em SG1). Aliás, os paralelos entre aquela bomba e esta bomba são gritantes, vamos torcer para Jornada nas Estrelas, diferentemente de Stargate, sobreviver.

Discovery estabeleceu duas grandes facções inimigas naquele século e já foram esquecidas. No lugar, o vilão capaz de acabar com toda a Frota é um cara que precisava aplicar golpes em mães solos e seus filhos em planetas longínquos? É bom ter uma aventurinha e uma missão pra variar, mas diante da falta de uma boa construção, não chega nem perto de criar um grande clímax para o final da temporada.

Avaliação: 2.5 de 5.

S01E10: Rubicão – Com todas as naves da Frota presas dentro do espaço da Federação; apenas a Athena com os nossos cadetes tem alguma chance de tentar atrapalhar os planos de Nus Braka e sua parede de minas. Entretanto, antes mesmo deles começarem a se movimentar, o vilão os encontra e separa o grupo: de um lado, a Capitã Ake e Aisha Mir capturadas e, de outro, a Comandante Reno com os estudantes.

Essa separação fez muito bem e criou dois núcleos distintos; o principal e melhor é que fica na nave. Todas saídas para os problemas com cara de Jornada nas Estrelas; muito tecno-blábláblá, novos ângulos, sensores, elementos e partículas completamente sem sentido, foi ótimo. Este clima; dos estudantes precisando aprender e resolver problemas com a orientação dos professores, este deveria ser o motor da série.

A Comandante Reno teve uma química excelente com os cadentes. Diferente de Discovery, quando a personagem era simplesmente insuportável, vivendo de tiradas irônicas; aqui sua dinâmica tem justificativa. Ela, de fato, sabe mais que os demais colegas e sua forte personalidade faz diferença. Assim como os estudantes, tem todos um papel adequado, apesar de Caleb ter um diálogo batido de “não quero machucar ninguém“, todo mundo parece contribuir com a solução.

Já os eventos do “julgamento” têm até uma estética legal, mas uma mensagem extremamente conservadora – que demonstra pela última vez, o quão provinciano é o Kurtzman Trek. É como se estivéssemos assistindo ao julgamento das forças armadas dos EUA por terroristas; Braka usa uma série de jargões associados a revolucionários e opositores ao país de forma distorcida, é faz tudo aquilo, para ser desmentido de forma simplória por militares honrados ao não perceber uma obviedade (eu me lembrei dos noghri da Trilogia Thrawn). Não sei exatamente como vai ser a segunda temporada, porque tudo terminou fechadinho, só espero que não voltem com este mesmo vilão tão vazio e caricato.

Este é o episódio que deveria servir de modelo para a série, a fórmula está aqui: alunos em missões guiadas por oficiais já veteranos. Isso aqui deveria a base de todos os capítulos de Academia de Frota; pena que só temos ele no final da temporada.

Avaliação: 4.5 de 5.

Virtus Relfex – O episódio já tem o plano de fundo tipicamente americano de que bullying é fundamental nas escolas, é ele que desenvolve seu caráter. Para piorar, na trama paralela, além enfiarem o clichê do time de esporte da faculdade (outra coisa super restrita aos EUA), essa porra sequer é um esporte, são só simulações de batalha, ou jogos de guerra. Acho que é o capítulo que menos oferece qualquer coisa para Jornada nas Estrelas em toda a franquia.

Outro muito ruim é o centrado em SAM, Series Acclamation Mil, não por ela, mas por, novamente, se basear totalmente em clichês de filmes adolescentes – o estudante quebrando a quarta parede (que é esquecido da metade pro final). Além de tudo é um episódio oco: trás de volta o destino de Benjamin Sisko para não apresentar nenhuma novidade, só frases de auto ajuda.

Rubicão – Conforme colocamos acima, esta estrutura deveria ter sido o padrão dos episódios do seriado, pelo menos da maioria. Os estudantes saindo em missões e fazendo alguma coisa (afinal a própria universidade é uma nave) e aprendendo conforme atuavam. Seria possível articular o que conhecemos de Jornada nas Estrelas com a proposta dessa nova geração de estudantes; podendo haver conflitos com o pessoal já formado nos tempos de Queima, por exemplo.

Não coincidentemente, o outro episódio bom é Vem, Vamos partir; mais um qual a molecada realmente sai para fazer alguma coisa.


Jornada nas Estrelas: Academia da Frota


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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