Jornada nas Estrelas: Enterprise – 1ª Temporada

Jornada nas Estrelas: Enterprise

A história de Jornada nas Estrelas original (conhecida como TOS), é famosa: apesar de ser reconhecida como uma das grandes obras de todos os tempos, na época ela fez um sucesso moderado. Não reverberou como poderia – não gosto da expressão, mas ela estava muito a frente de seu tempo. Ainda que tivesse seus fãs fiéis, acabou fazendo o sucesso merecido apenas no final dos anos 70, quando Guerra nas Estrelas abriu as portas da Ficção Científica espacial para a cultura de massa.

Inicialmente com a produção de filmes sobre TOS, a idéia da série foi retomada ao final dos anos 1980 com A Nova Geração (identificada como TNG), em 87. Com alguns problemas de percurso nas primeiras temporadas, engatou em seu terceiro ano; foi encontrada uma fórmula de episódios e narrativas que naquele momento era perfeita. Tão perfeita que gerou dois spin-offs diretos, Deep Space Nine (DS9) e Voyager (VOY), e uma prequel, Enterprise (ENT), que em 2005, encerrou 18 anos de produção e exibição ininterrupta de Jornada nas Estrelas.

ENT acabou se tornando a ovelha negra; a série que causou o fim de Jornada nas Estrelas. Pra que um prequel? Pra que uma abertura cantada? Até a produção de Discovery (DIS), em 2017, apenas filmes de qualidade duvidosa eram produzidos e não se traduziam em mais que tentativas bem ou mal sucedidas de reviver a marca comercialmente. Tudo indicava que aquele universo ficcional iniciado em 1966 estava morto, e Enterprise, através de uma seqüência de decisões equivocadas, seria a responsável.

E isso, infelizmente, creio que seja verdade. Mas não pelos motivos mais óbvios, porque ela mudou muito a proposta, mas provavelmente porque ela mudou pouco a fórmula inaugurada em 1987.

Desde TNG, as séries de Jornada nas Estrelas se estabilizaram em um formato muito específico (que era o de TOS aprimorado). Composta por episódios isolados um do outro, em histórias que se encerravam em apenas um capítulo, poucos personagens secundários e antagonistas recorrentes… além disso um arco principal bem pouco delimitado e também que aparece de forma muito esparsa. TNG, aliás, sequer possui esse arco principal que guia o seriado, DS9 desenvolveu ao longo, e VOY criou desde o começo, mas tudo a conta gotas.

Enterprise mudou muito pouco, quando mudou, em muitas coisas dessa fórmula. Pelo menos nesta e na próxima temporada. O arco da Guerra Fria Temporal, o principal de ENT, tem apenas um único episódio entre 24, além do piloto e do finale. Da mesma forma, praticamente não há personagens recorrentes, e apenas pontualmente alguma coisa de um episódio interfere no outro.

O documentário Caos On the Bridge revela as dificuldades dos produtores, autores e roteiristas de fazer acontecer o universo criado por Rodenberry.

Além desses ritmos narrativos, ENT ainda herdou a “maldição de Rodenberry“, que quase acabou com TNG em suas duas primeiras temporadas, a restrição (proibição por muito tempo) de confrontos entre os personagens principais; para preservar o caráter utópico e bandeira geral de entendimento universal de Jornada nas Estrelas.

Não só não era fácil como se tornou virtualmente impossível criar e manter uma série nesses moldes nos anos 2000; moldes concebidos na década de 60 e bem sucedidos nos anos 80 e 90. A primeira temporada foi um sério sinal disso.

Agradou: direção de arte, senso de progressão e relação com os vulcanos.

O ponto mais polêmico de Enterprise, de longe, foi o retrato dos vulcanos. Considerados os melhores amigos do homem do espaço, normalmente eram retratados quase como freis franciscanos sempre prontos para ajudar a humanidade. A realidade é que, apesar de ser o povo mais antigo de ST, era um dos menos explorados.

Durante TNG e DS9 eles foram muito pouco explorados, apenas realmente com VOY houve um destaque maior a um personagem vulcano, que pela natureza da série, estava isolado da sua espécie, portanto, seu desenvolvimento era limitado. Por conta do carisma dos personagens originais, Spock é quase que onipresente quando falamos de ST, é quase seu sinônimo, então tendemos a vê-lo com simpatia.

Mas afirmo categoricamente: essa aí só se enganou quem quis. Em vários episódios, como do Pon Ffar em TOS ou o do jogo de baseball em DS9, sempre esteve na cara que os vulcanos se tratavam de uma civilização extremamente arrogante e olhavam de cima pra baixo para os terráqueos. Assim como era este mesmo o comportamento de Tuvok na Voyager (incluindo o capítulo que ele conta como era insuportável servir na Excelsior de Sulu).

Embaixador Soval na ponte da NX01

Aqui em ENT os méritos foram enormes nesse sentido; os vulcanos se mostraram arrogantes e paternalistas, apesar de finalmente quererem o bem da humanidade. Da mesma forma, a conquista da confiança deles por nós foi muito bem retratada ao longo da série. Ainda na primeira temporada, eles são praticamente antagonistas, mas é desse antagonismo que uma das melhores tramas de toda Jornada nas Estrelas se desenvolve, o triângulo de poder entre Terra, Andoria e Vulcano, que tem seu início ótimo nos primeiros capítulos.

E esse início é um verdadeiro início, mesmo nos capítulos mais fracos, é possível termos uma noção de progressão da humanidade em direção ao futuro estabelecido pelas demais séries. A cada episódio a tripulação descobre uma coisa então desconhecia ou tem a primeira experiência com algo que no futuro se tornará corriqueiro. Poucos foram os capítulos que não contribuíram dessa forma.

Gabinete do Capitão da Enterprise NX01

Além disso, o destaque é para a direção de arte. Que conseguiu reconstituir de forma satisfatória um prequel de uma série de quase 40 anos. Claro que a Enteprise NX01 parece infinitamente mais nova que a Enteprise NC1701, não hava como escapar.

Entretanto, ela parece também muito mais próxima do século XXI; dentro da projeção otimista de Jornada nas Estrelas, parecem cenários e personagens próximos de existir. Os materiais e rotinas da nave, suas telas, e espaços parecem muito possíveis de existir daqui há 100 anos e também primitivos em relação às demais séries que se passam 200 anos a frente. O detalhe da viga cortando o gabinete de Archer no meio, obrigando ele a se abaixar o tempo todo, é genial.

Não agradou: muitos episódios fracos, personagens secundários, falta de serialização.

É duro dizer isso de uma série querida, mas a primeira temporada de Enterprise tem muitos capítulos ruins. A irregularidade é muito grande. Já seria difícil para uma série em tom episódico, como já conversamos tanto acima, ter o sucesso merecido mesmo se fosse repleta de grandes episódios. Quando não é o caso, então fica ainda mais complicado.

Episódio 20: Oásis, um auto-plágio de Shadow Play (DS9).

São vários episódios mornos e sem brilho, nitidamente com roteiros medianos ou ruins. Os argumentos se mostram sem ambição como Terra Nova, ou com muita previsibilidade, como Quebrando o gelo… ainda como Oásis, um auto-plágio. Tudo isso foi contribuindo para desgastar ainda mais a fórmula de Jornada nas Estrelas emplacada por TNG. Foi uma sensação de reciclagem.

A opção pela narração episódica da série pede muita qualidade nesses roteiros individuais. Quando não encontramos isso com freqüência, o que poderia compensar seria o desenvolvimento de personagens, o que é muito fraco em Enterprise. A alternativa de não serialização dificultou ainda mais a tarefa.

A exceção de T’Pol (que funciona como alegoria ao desenvolvimento daquela espécie toda, por isso tem mais atenção) e de momentos pontuais em algum ou outro tripulante, Archer ou Dr. Phlox, que muito gradualmente vão criando algum drama ou desenvolvimento particular – este último tentando se distanciar de Neelix de VOY. Todo mundo é estático. Hoshi um degrau acima, mas a tripulação é uma tragédia.

Episódio 18: Planeta Errante – um dos piores de todas as séries.

Sem a serialização, isto é, os capítulos conectados uns aos outros diretamente, é mais difícil demonstrar as mudanças dos personagens se seus dramas vividos ou relação com outras pessoas terminam ao final de cada capítulo – a inserção de elementos recorrentes ajudaria, coisa que não temos também. Apenas com refino de roteiro e argumento é possível inserir essas mudanças em decisões ou dramas muito precisos durante as situações vividas por eles, coisa que ENT não faz (que aliás, poucas séries de Jornada nas Estrelas faziam, mas não eram cobradas à época).

No lugar disso, vemos episódios desastrosos desse ponto de vista, como Cápsula Auxiliar 1, que teoricamente é exclusivamente centrado na relação de Tucker e Malcon, mas todas as experiências vividas por eles, fracas de toda forma, desaparecem em seguida. Tucker aliás, é disparadamente o pior personagem; é inversamente proporcional a dedicação que dão pra ele nos capítulos – sempre com papel de destaque e decisão – com seu desenvolvimento.

Episódios centrados nesses dois já sabemos que é bomba.

Se você pesquisar em análises e debates americanos, ele é um dos personagens mais queridos (“o” mais em alguns deles). Isso só me permite chegar à conclusão que é algo completamente direcionado a atender um estereótipo daquela sociedade, o redneck . Tudo o que acontece com ele é de forma a demonstrar como ele é um homem simples, sem firulas, humilde em personalidade e conhecimento, mas que é genial do jeito dele e sem alarde, e sua maior ambição é andar com um Muscle Car restaurado por ele próprio aos finais de semana.

Queriam criar uma mistura de Chefe O’brian com Tom Paris, o resultado é um cara que não é um nem outro e que aparenta não ter competência para seu trabalho . Não há um capítulo que não nos questionamos que a Enteprise NX01 estaria na lama caso a T’Pol não fosse transformada em Primeira-Oficial em seu lugar.


Jornada nas Estrelas: Enterprise

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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