The Mandalorian – 1ª Temporada

The Mandalorian


Eram tempos sombrios na galáxia; a trilogia sequel, ambicioso plano da Disney ao adquirir a marca Guerra nas Estrelas foram sucessos de bilheteria e fracasso com os fãs; por razões mil conseguiram desagradar a todos. Quando foi anunciada que a saga entraria no mundo das Séries Live Action (não-animações), a preocupação era generalizada.

Felizmente Mandalorian fez todo mundo queimar a língua e fomos presentados com uma história completamente original mas conectada em pontos essenciais ao que já conhecemos e esperávamos. Tudo entregue em altíssima qualidade (e de muito bom gosto em visuais e feitos) num autêntico Space Western.

Agradou: Enredo original, visuais e ambientação Faroeste

A melhor surpresa do seriado foi ver A Criança como um boneco e não um ser totalmente de CGI. Essa opção da direção de arte, aliás, é em vários momentos em todo o seriado: empregar alguns “efeitos práticos” (pratical effects) pontuais ao invés de computação gráfica. Tudo isso contribui para dar um ar de unicidade à produção, uma identidade própria, em tempos de tanta coisa genérica de fantasia e ficção atualmente.

Aliás, o tom único do seriado é maravilhoso. Começando pelos visuais, que se aproximam muito da visão original de George Lucas, do “futuro usado”, nos sentido de um carro usado, ou futuro velho. E que casam perfeitamente com temática de Faroeste emulada por toda a Série – é um casamento perfeito.

Nesse sentido, a trama original é uma grande força de Mandalorian; em tempos de marvelização total (especialmente agora que Star Wars é uma marca Marvel) é uma surpresa muito boa o seriado não depender exclusivamente de referências e crossovers. Essa epidemia de referência pela referência está pasteurizando completamente o entretenimento e é muito feliz vermos algo de cultura de massa se livrando um pouco dessas amarras.

Aqui e ali há alguns sintomas disso, como um capítulo centrado numa personagem que deve ter 5 minutos de tela, apenas para introduzi-la para futuros seriados. Lembrando-me um pouco do bizarro episódio duplo da terceira temporada de Discovery apenas para preparar uma personagem para um spinoff que sequer havia certeza de produção.

Claro que Guerra nas Estrelas é um mundo muito complexo, longevo e rico de universo expandido e com certeza esses elementos vão aparecer e satisfazem aos fãs, mas diferentemente da horripilante trilogia sequel, houve coragem de termos uma história original.

Não agradou: vais-e-vens, trilha sonora e humor Marvel.

Apesar das críticas ao formato mais episódico que o seriado tomou, de a cada semana temos um problema que precisa ser enfrentado e resolvido no mesmo capítulo, isso não me incomodou. É uma opção narrativa. Entretanto, o que realmente não me agradou é um constante deslocamento geográfico em círculos que os personagens vão fazendo ao longo da temporada. Todo mundo vai e volta dos lugares o tempo todo.

Não sei o que exatamente estão tentando emular do gênero Faroeste, em que normalmente o deslocamento é lento e sofrido, mas não necessariamente em círculos. A impressão é de, realmente, falta de cuidado no roteiro; se pegarmos o arco da captura da Criança por Mando é um deslocamento de A (Navarro) para B (local de pouso da nave) para C (Kuiil) para D (local da captura), depois para B, depois para C, para E (Jawas) para F (toca do monstro), ai voltamos para E, depois para C e aí para B e, finalmente, para A.

O miolo da temporada é composto por capítulos que começam com ele pousando a nave, andando até onde precisa ir, e depois ele voltando para a nave e saindo com a nave. Não é necessário demonstrar isso o tempo todo. Além disso, o argumento vai ficando repetitivo; estava faltando apenas ao final de cada capítulo tocar o tema do homem solitário da série do Hulk de 1977, já que sempre tempos uma história em que Mando arruma um trabalho, algo da errado e ele precisa ir embora.

Falando em trilha, ainda que o tema do seriado seja absolutamente fantástico, senti falta de algumas referências musicais pontuais da trilogia origina; afinal estamos falando da maior trilha instrumental da história do cinema americano.

E com relação aos sintomas de marvelização do seriado, na primeira temporada não chegou a ser muito prejudicial do ponto de vista de referências; entretanto, aquele humor fora de lugar típico dos filmes de super heróis, além de presenças especiais (cameos) de atores populares serem forçadas no meio do roteiro, deram as caras. A estúpida cena dos scout troopers foi a única mácula do episódio final juntando essas duas características.

Episódios

S01E01: O Mandaloriano – Um caçador de recompensas recebe um trabalho arriscadíssimo e que paga muito bem: extrair de um esconderijo remoto um alvo de 50 anos e entregá-lo de volta ao cliente, um antigo oficial imperial vivendo no submundo de um planeta periférico 5 anos após a destruição da segunda Estrela da Morte.

Tomando o título como objetivo do episódio, esperava-se mais um pouco de desenvolvimento do protagonista, alguns minutinhos a mais de tela aqui seriam muito bons tanto para ele como para o honrado Kuiil. Entretanto, essa reclamação é quase procurar pelo em ovo de uma estreia como essa. Tudo muito interessante, especialmente em visuais e em criar o clima e tom do seriado; coroado com uma grande sequência de ação final.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E02: A Criança – Ao tentar retornar com a criança, nosso protagonista encontra um terrível contratempo ao ver que foi saqueado e a Razor Crest depenada por Jawas; e agora ele precisa negociar com eles a recuperação do que foi roubado de sua nave.

O capítulo é muito legal, e um evento específico que acontece aqui com a criança marcará profundamente o enredo do seriado, contribuindo decisivamente para a história de ambos os personagens. Entretanto, todo o arco com as peças e os Jawas, ainda que rendendo momentos legais, me pareceu um pouco andar em círculos, o perigo enfrentado poderia ter ocorrido sem o vai-e-vem.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E03: O Pecado – O Mandaloriano cumpre seu trabalho e entrega a encomenda; é recompensado por um gordo volume de aço Beskar, valioso para seu povo, suficiente para criar uma nova armadura para ele. Enquanto isso, passa a pensar melhor sobre o destino da criança.

O ponto forte, para além das maravilhosas sequências de ação, muito bem coreografadas e realizadas, é o desenvolvimento do lore dos Mandalores, a armeira é uma personagem muito intrigante… o que, por sua vez também é um ponto fraco do roteiro. Num primeiro momento há desaprovação da tribo com relação ao protagonista, enquanto, ao final, eles abrem mão de muita coisa pelo herói. Fui surpreendido pela reviravolta final em um mal sentido, por não acreditar que seria isso que aconteceria.

Com o passar dos capítulos o laço entre eles, entre suas crenças a situação da Criança vai se explicando melhor, entretanto aqui provavelmente o erro foi colocar uma tensão desnecessária no primeiro diálogo entre o protagonista e seus companheiros.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E04: Santuário – Buscando refúgio após o brutal ataque sofrido ao escapar com a criança, nosso herói encontra um planeta completamente esquecido. Entretanto, uma vez lá, ele tropeça em um grupo de camponeses que busca ajuda de caçadores de recompensas para proteger sua aldeia de bandidos saqueadores.

Onde foi que eu vi isso antes? Em todo puto seriado de ficção científica de todos os tempos. Mais uma vez somos reapresentados à trama de Os Sete Samurais. Há, claro, algumas atrações aqui e ali, como a apresentação da personagem de Cara Dune e a representação assustadora de um andador imperial; e a experiência é positiva, mas é uma estória pra lá de surrada. e sem nenhuma subversão.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E05: A Pistoleira – O mandaloriano está sendo perseguindo incessantemente por caçadores de recompensas atrás da criança, e, desta vez, ele sofre um pesado ataque que o obriga fazer uma parada em um lugar conhecido por reunir a escória da galáxia: Mos Esley. Ele rapidamente é contatado para fazer um trabalho difícil em conjunto com um caçador novato.

Patinando um pouco no caminhar do enredo, somos apresentados a informações que já temos; que os caçadores de recompensas de tudo quanto é parte estão atrás do protagonista. Há uma introdução de uma personagem recorrente e algumas referências aos filmes, mas temos um vai-e-vem que está se tornando repetitivo; um humor previsível entre o herói e o “assistente trapalhão”; e a impressão de uma personagem desperdiçada (que vai reaparecer em um spinoff).

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E06: O Prisioneiro – Não encontrando paz, Mando vai atrás de antigos companheiros para realizar trabalhos por fora da Guilda dos Caçadores de Recompensas, mas são seres muito pouco confiáveis. É mais um episódio com pouco desenvolvimento de enredo, mas tem um roteiro direto e com mais elementos únicos – ainda que previsíveis.

Acredito que o escorregão aqui se dá na falta de ousadia ao lidar com a posição do protagonista. Não estavam preparados para colocar ele realmente matando em cena outros personagens com falas (no episódio anterior não há exatamente essa tomada), e todos terminam bem de forma bastante inverossímil para manter a nobreza de Mando.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S01E07: O Acerto de contas – O antigo corretor de Mando na Guilda dos Caçadores de Recompensas entrou em contato para sugerir uma oferta irrecusável; um complô para matar o ex-imperial (o cliente original atrás do bebê) que tomou o controle da cidade. A única condição é entregar a criança para ele antes, a tempo de armar uma emboscada.

Claro que pela sinopse, já dá para saber que não vai ser bem por aí que o capítulo vai caminhar. Alguns perigos são colocados aos protagonistas e importantes mudanças acontecem; o resultado final é fantástico. Há reuniões, introduções de novos personagens, além de muita ação, tensão e até uma pontinha de drama.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E08: Redenção – Cercados pelas tropas imperiais, os nossos heróis precisam achar uma saída do lugar, da cidade e do planeta provavelmente. Mesmo alternando entre momentos mais lentos e mais agitando, o capítulo é muito bem dirigido e consegue caminhar de forma maravilhosa no ritmo.

É interessante como em determinados pontos, um recurso sempre muito elegante, a cena de ação é suprimida (apostando na certeza de que o personagem será capaz de derrotar o perigo) para mantermos um importante diálogo que dará o tom para a continuidade da série. É um excelente final de temporada, capaz de encerrar com competência um ciclo ao mesmo tempo que deixa o próximo em aberto.

Entretanto, a cena entre dois scout troopers é um pouco fora de lugar. Muito longa – porque conta com famosos atores de comedia, Jason Sudeikis (Ted Larso) e Adam Pally (Happy Endings) – e com um tipo de alívio cômico que não havia aparecido até agora nem parece compor muito bem com o resto do roteiro.

Avaliação: 4.5 de 5.

Excelente (4,5/5)


Pior Episódio

A Pistoleira – O capítulo em que fica a impressão de uma andança em círculos é caracterizado justamente por um vai e vem, tanto em deslocamento quanto em narrativa. Mando encontra um trabalho, ele e o novo parceiro vão lá e encontram o alvo, e depois Mando precisa voltar para buscar o animal, aí volta para o local onde estava o alvo, para depois voltar para Mos Eisley sem o alvo.

Pautado quase que exclusivamente na nostalgia de voltar a Tatooine, tudo é muito previsível, no humor e no roteiro. E, além disso, as sementes da marvelização desenfreada estão aqui: a personagem de Fennec, gasto em uma atriz renomada, fica na cara que foi colocada ali pura e simplesmente para ser utilizada em outros seriados.

Melhor Episódio

Acerto de Contas – O Vai-e-vem da temporada se justifica aqui quando são reunidos os personagens para o confronto final. Quando, ao mesmo tempo, somos apresentados ao vilão principal do seriado – a transição entre esses dois núcleos é excelente. Por fim, ou melhor, no começo ainda somos brindados por uma grandiosa e tensa sequência na cantina.


The Mandalorian


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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