A Mão Esquerda da Escuridão


A Mão Esquerda da Escuridão. Ursula K Le Guin – Ed. Aleph

Data de Lançamento: 1969 – Minha Edição: 2019 – 304 páginas


E se descobríssemos um planeta onde as pessoas não têm sexo, ou melhor, têm os dois, ou ainda melhor, podem ter os dois? É essa a premissa da obra mais famosa de Ursula Le Guin escrita no final dos anos 60.

Apesar dessa apresentação, a temática sexual e os dramas dela decorridos são muito sutis em toda a estória, que na realidade é uma trama política muito interessante. Em um mundo que vive em permanente inverno, um visitante, que é representante de uma confederação de planetas, da qual a Terra faz parte, deseja convencer este novo mundo a se tornar mais um associado.

Considerada a primeira obra do gênero Ficção Científica feminista é bem tímida nestes aspectos, o que foi alvo de críticas das ativistas no período pois a trama sexual é só mais um dos aspectos daquele mundo inédito que ela criou – há um apêndice até esmiuçando o calendário e o fuso horário daquele planeta. Na maioria das vezes, parece ser um mundo habitado apenas por homens que as vezes se tornam mulheres, mas isso é mais culpa da mente do leitor e do idioma, pois o uso dos pronomes e concordância é masculino (inclusive no original em inglês). Mas, dada a data da publicação, é injusto com a autora cobrar mais ousadia.

Mais claras são as alegorias à União Soviética, por outro lado. A trama é mais atrelada às questões políticas, o planeta que alvo dessa Confederação Interplanetária é povoado por vários países diferentes, e o protagonista precisa de uma adesão unânime dessas nações para que não haja favorecimento de um ou outro. Dos principais, um se organiza de forma mais ou menos feudal, e o outro, ainda que não seja socialista, é mais próximo a um Estado Moderno com algumas representações de órgãos de repressão, que, pelo ano de lançamento, no auge da Guerra Fria, provavelmente a autora tinha em mente essas instituições soviéticas.

Claro que todos os eventos políticos se passam com o visitante na companhia de alguns personagens especiais e a intimidade que ele desenvolve com os habitantes é o espaço para explorar a questão da sexualidade. Todavia, quando são feitas relações entre a sexualidade e o desenvolvimento social daquela civilização, que gira em torno de uma sociedade tensa mas que raramente se envolve em conflitos armados, não me foi convincente o suficiente.

Excelente (5/5)

Uma das obras mais clássicas, em todos os sentidos, da ficção científica. uma trama política leve mas instigante, de leitura é muito agradável.

Antropologia: o pai de Ursula foi um dos pioneiros da antropologia nos Estados Unidos, no início do século XX, e estudou vários povos originários na América. A autora diz que muito de seu estilo é influência paterna, e neste livro é bem sentida. O livro se constrói a partir de observações do visitante alienígena sobre aquela civilização e alguns “documentos” dos habitantes do planeta, inclusive mitos e religiões. A observação e comentários lembram bastante o trabalho dos antropólogos.

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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