Globalização, Democracia e Terrorismo


Globalização, Democracia e Terrorismo – Eric Hobsbawm

Companhia das Letras – Tradução: José Viegas

Data de Lançamento: 2007 – Minha Edição: 2011 – 182 páginas


Eric Hobsbawm é conhecido por suas obras dedicadas às transformações que consolidaram o mundo burguês tal como conhecemos hoje; estudando o longo século XIX e o breve século XX. Mas o que será que ele conseguiu identificar do século XXI?

Esta obra, uma de suas últimas, é uma coletânea de textos que ele escreveu ou apresentou já neste século acerca dos nossos problemas mais contemporâneos. Os três assuntos principais são justamente os três que dão o título ao livro. Além dele, outros pontos fundamentais que aparecem com frequência são o declínio dos Estados-Nação como forma principal de organização social e várias reflexões sobre o Império Americano, o único que restou dos séculos passados.

Na realidade, são essas duas considerações são o fio condutor dos três temas principais. Afinal, todos esses problemas do século XXI derivam exatamente da soberania americana sobre o mundo e a dificuldades que o estados nacionais, inclusive os próprios Estados Unidos, têm para lidar com eles.

Os Estados Nacionais enfraquecem diante da globalização. Não conseguem dominar as empresas transnacionais, que pilham seus países através de dívidas públicas e privatizações. Estes países mais fracos, submetidos pelo Imperialismo Americano, por suas armas ou seus bancos, não conseguem revidar de formas nacionais (com exércitos ou representações diplomáticas), deixando um vazio para entidades não-nacionais, como grupos terroristas, a força para combater a dominação.

Por sua vez, os Estados Unidos como nação, mesmo contrário muitas vezes a vontade de seus cidadãos, precisa intervir para garantir a dominação, afinal eles também estão com o rabo preso com a globalização. Quando os EUA interveem em algum país, qual é a solução que eles tentam implantar para estabilização? A Democracia. E aqui democracia significa menos vontade popular e mais as instituições tais como conhecemos; parlamento, judiciário, polícia, ministérios, eleições e etc.

São essas as instituições que configuram, mais ou menos, um Estado-Nacional, que, então, não dispõe de ferramentas para enfrentar as empresas transnacionais que mudam seu capital de acordo com seus interesses, sendo dominados por dívidas e privatizações…

Excelente (4,5/5)

fornece bases fundamentais para começarmos a enteder os problemas do nosso século XXi. Toda discussão contemporânea deveria partir do que ele levanta aqui. Hobsbawm não é dos autores mais fáceis de se ler, mas pelo formato deste livro, composto por falas e comunicações públicas, em artigos separados, é uma leitura relativamente tranquila.

Cidadão ou consumidor: No capítulo 6, As perspectivas da democracia, uma discussão cada vez mais sensível que Hobsbawm apresenta é como gradualmente, a noção de cidadão, um vínculo coletivo, vem sendo substituída pela noção, de consumidor, um vínculo individual.

O consumidor é uma pessoa sozinha que teoricamente comprou algum produto e quer receber o que ela acha que é de direto pelo valor que foi pago; quando essa noção se mistura à cidadania, ela acredita que pagou, através dos impostos, um determinado serviço; desde o asfalto da sua rua ao transporte público, da educação à saúde pública. Deveria ser destinado a atendê-la do jeito que ela quer.

Isso é extremamente prejudicial ao convívio social. Se você pensa como consumidor, ficará incomodado quando na frente da sua casa ou do seu comércio a sua rua seja re-pavimentada e receba uma faixa de ônibus, impedindo estacionamento. Afinal, as obras públicas seriam seu atendimento como cliente da prefeitura pelo serviço que você pagou com o IPTU; tem que sair como você quer.

Pensando como cidadão, você se entende como parte de uma comunidade, e tende a ser mais compreensivo com demandas coletivas (como o transporte público), desde apoiá-las a, pelo menos, entender que pode anteder outros membros da sociedade tão cidadãos quando você. Quando reclama-se que hoje se tem muitos direitos e poucos deveres, isso deveria ser traduzido com esse problema: hoje se sentem mais consumidores e menos cidadãos.

A confusão entre consumidor e cidadão também é importante neste livro:

O ódio à democracia

A crise mundial das democracias representativas levou a um paradoxo: as pessoas acham que a democracia não é democrática suficiente, está viciada, portanto, elas depositam seus votos em quem fala contra a própria democracia.


Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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