Mr. Robot: A Sociedade Hacker – Terceira Temporada

Mr. Robot: A Sociedade Hacker


É muito gratificante acompanhar uma série e perceber quando ela chegou em sua plena forma, é o que vemos na terceira temporada de Mr. Robot: a Sociedade Hacker.

Desta vez, sem deixar muito espaço para bizarrices, alucinações e vômitos, a série mergulha de cabeça no tecnothriller e no gênero policial. Perseguições, seguir pistas, tramas de gato e rato, ação, suspense, hacking, agentes infiltrados, tudo isso são elementos desta temporada.

Isso não quer dizer que as condições psicológicas de Elliot não dêem as caras desta vez, muito pelo contrário. Temos cenas excelentes baseadas justamente na relação entre Mr. Robot e Elliot. Dois momentos são memoráveis: o encontro do alterego com a psicóloga e a disputa entre os dois pela execução ou não de um ataque. Por quase todo um capítulo inteiro temos seqüências ótimas do conflito entre os dois pelo controle físico do corpo do protagonista.

Entretanto, nem tudo são flores. Se por um lado em termos de roteiro, a série ficou muito madura – sem rodeios, sem diversionismo, todas as cenas contribuem para seu desenvolvimento – isso veio acompanhando de um moralismo barato. Agora os protagonistas se arrependeram da revolta que iniciaram e pretendem revertê-la.

Agradou: ritmo regular, elementos do gênero policial, enredo mais centrado, e Irving.

Com exceção de um par de capítulos, um no começo e outro no final, todos tiveram um ritmo muito bom e constante. Sempre com a trama geral caminhando adiante, muitos momentos de suspense e tensão. Pouquíssimos são os capítulos que você não dá aquela endireitada na postura para prestar melhor atenção no que está havendo.

Os momentos mais tediosos, ironicamente, são os de Darlene, que havia carregado boa parte da segunda temporada nas costas. Aqui, como informante do FBI, a personagem parece perdida e tudo o que ela faz normalmente não dá certo. Provavelmente isso foi pensado justamente para vermos a decadência e desencontro da personagem, que está trabalhando para o “inimigo” agora – mas acaba rendendo episódios mornos.

Em contrapartida, a balança também se altera para Angela, se na temporada anterior todo arco dela era bem confuso, jogada de um lado para o outro, como se não soubessem muito bem o que fazer com ela, aqui a coisa muda de figura. Ela continua confusa, é verdade, mas com direção. Inesperadamente ela ganha protagonismo nos momentos cruciais dos acontecimentos e seu passado ganha uma importância para o desenvolvimento do enredo.

Além dela, Dominique rouba boa parte das cenas, e é interessante como a série passa a beber mais do gênero policial, com tramas de investigações, passando por incriminações e chegando a presença de infiltrados. Ajudou na manutenção do ritmo mais regular. E se a agente do FBI foi a grande adição da temporada passada, agora somos apresentados a Irving, um enigmático “mercenário” que trabalha para o Dark Army. O ator, que tem raízes na comédia, é dono de uma presença de cena que consegue concentrar as atenções nele e fazer oscilar que vejamos em Irving tanto medo quanto simpatia. O personagem é muito bem escrito também; no limiar da caricatura e da verossimilhança.

E no geral, apesar da mensagem, esta é uma temporada extremamente bem escrita; ela contém já toda a inteligência de roteiro das anteriores, mas desta vez, tudo é mais bem centrado, organizado, e direcionado. Mesmo os elementos mais absurdos, como as alucinações de Elliot e suas particularidades psicológicas, agora rendem alguns dos melhores momentos da série; muito diferente de comer vômito.

Não agradou: moralismo e Deus ex machina

Para quem não está familiarizado com esta expressão latina, ela significa uma resolução súbita ou inesperada. E numa série de situações tão complexas, acabamos nos decepcionando muito quando isso dá as caras. Agora, ao final desta temporada, todo o hacking, exibido por anos, subitamente pode ser desfeito através das chaves de criptografia originais – que foram guardadas pelo protagonista sem ele saber mas sabendo que seria o que ele queria mais pra frente.

O problema é que, como também alguns personagens anônimos falam na tela, reabilitar os dados da ECorp e das corporações bancárias no geral, fará as dívidas de todos voltarem – que já eram impagáveis, mas agora, em profunda crise, provavelmente tornará a vida das pessoas ainda mais difíceis. Mesmo assim, Elliot e os protagonistas chegam à conclusão, ao longo desta temporada, que o mundo era melhor antes, com as pessoas endividadas.

A série é bem competente em te convencer disso, várias são as tramas de fundo apresentando pessoas comuns que perderam com o “05/09”, apelido pelo qual o ataque hacker ficou conhecido. Algumas mais sutis, mas outras têm o moralismo chinfrim de classe média em sua forma final, com o dono de um pequeno negócio prejudicado pela crise.

Enquanto a voz das pessoas prejudicadas ganha eco, as vozes das pessoas indignadas são praticamente silenciadas. A revolta da população é (novidade!) manipulação dos vilões, de protestos à invasões de prédios, toda pessoa politizada e indignada não passa de uma marionete – não precisamos de uma obra do tamanho de Mr. Robot pra receber essa mensagem tão manjada.

Os grandes mestres dos títeres (e vilões) são os chineses! Os novos-soviéticos do entretenimento americano. A trama política é bem adulta e inteligente, e com certeza no mundo da internet a China é uma potência, mas quando essas características são colocadas juntas ao mesmo tempo como é feito aqui, parece que a série, que começou como uma feroz crítica ao Capitalismo Tardio, se encaminhou para algo que quase namora o trumpismo – embora o próprio tenha sido alvo de críticas do seriado em vários momentos.

Eu confio que na temporada final da série, essas novas características do seriado se tornem mais complexas. Confio que os personagens vão entender que mesmo com um desfecho positivo nesse sentido, uma reversão do hacking, o mundo que emergir melhor só tenha sido possível por conta daquele ataque.


Mr. Robot: A Sociedade Hacker

O Brasil no espectro de uma guerra híbrida

O autor desnuda os movimentos subterrâneos – teóricos e concretos – feitos pelo exército, desde a redemocratização mas, em especial desde o governo lula, para reconquistar o poder nacional. Dentre esses movimentos, a deflagração de uma guerra híbrida.

The Orville – 2ª Temporada

Mais coesa e organizada, a série teve um salto com relação a qualidade de seu humor, sempre cirúrgico. Mas isso, por outro lado, resultou numa temporada praticamente de um tema só: relacionamentos; virando quase uma Comédia Romântica no Espaço.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

2 comentários em “Mr. Robot: A Sociedade Hacker – Terceira Temporada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: