O Fim da História e o último homem

O fim da História e o último homem – Francis Fukuyama

Tradução: Aulyde Soares Rodrigues – Editora: Rocco

Data de Lançamento: 1992 – Minha Edição: 1992 – 489 páginas


Desenvolvido no século XIX, o conceito de Fim da História é uma coisa das mais intrigantes da filosofia e da historiografia: a humanidade atingiria um nível de desenvolvimento material e cultural capaz de neutralizar, de certa forma, a maioria dos nossos conflitos sociais e econômicos. Mas por que isso significaria o fim da história?

A partir de Hegel, mas para nossos propósitos, em especial de seu maior discípulo (e detrator), Marx, a história precederia de um movimento em um certo sentido, e esse sentido é a luta dos explorados contra os exploradores – “a história de todas as sociedades existentes até hoje é a história da luta de classes”, já diria um famoso panfleto. No momento em que os explorados conseguissem sua libertação final e eles se governassem sem distinção de classes, esse seria o fim da história. Para os marxistas, essa sociedade sem classes é o Comunismo e é por isso que eles lutam, sendo o Socialismo, uma etapa intermediária entre o Comunismo e o Capitalismo – que já teria vencido antes uma batalha libertadora sobre o Feudalismo.

Desta forma, com o colapso dos países socialistas da Europa, entre 1989 e 1991, uma pergunta legítima se colocou: se essa direção da História – a busca pela sociedade sem classes ou sem conflitos – foi interrompida, e o que foi colocado no lugar, foram regimes capitalistas, significa que chegamos então ao fim da história? Ou sequer existe essa direção? Ou uma direção?

Este livro, publicado no calor do momento, se tornou o grande símbolo dessa discussão. E por maus motivos. Apesar da elegante premissa – e da conexão com a ideia do “último homem” – não é muito mais que uma propaganda típica de think tanks americanos.

Em uma marcante e impactante frase, Eric Hobsbawm afirmou que a Revolução Russa, foi muito mais generosa para o resto do continente que para seus próprios filhos – os soviéticos.

Enquanto o bloco socialista passou por diversas crises e guerras desde 1917, e submetendo a população a regimes autoritários, uns menos, outros mais, a Europa Ocidental foi gradualmente aplicando, ao longo de vários anos, em seus países alguns direitos conquistados pelos revolucionários. O resultado, a grosso modo, é o que conhecemos como Estado de Bem Estar Social ou Social Democracia: os governos europeus foram atendendo a algumas demandas reivindicadas pelos movimentos socialistas em cada nação, após várias lutas e manifestações: saúde e educação universais, ou aposentadoria, por exemplo. Um compromisso para evitar as temidas revoluções. Mantinham a sociedade de classes e o sistema burguês mas gerenciavam suas riquezas de uma forma mais democrática. Uma avaliação de países em estados próximos ao que poderia ser um fim-da-história, como Suécia ou Noruega, começaria a partir dessa reflexão e as contradições que eles despertam.

Não é, nem remotamente, isso que Fukuyama está pensando. Ele sequer coloca isso em questão, nem para desmentir, se fosse o caso. O final da Guerra Fria foi a vitória da “Democracia Liberal de Mercado”, como ele caracteriza o regime hegemônico atual. Entretanto, não é possível encontrar na obra dele uma história da Democracia. Ele não observa mudanças nos regimes nos últimos séculos. As diferenças entre a Inglaterra de 1810 e a França de 1980, por exemplo, devem ser mínimas para Fukuyama, já que ele não dedica tempo algum para demonstrar essa evolução, no máximo nomeia mudanças no sistema eleitoral. O que podemos entender dele é que o fim da história começou com a Independência Americana, em 1776.

Para fazer essa ginástica, o think thank realiza verdadeiros malabarismos dialéticos (dividir os argumentos em dois polos opostos) porque, o que ele deseja é retroceder no tempo. Afinal, se a Guerra Fria significou o fim da história através da derrota das novas propostas sociais criadas no século XX (Socialismo Real ou Social Democracia) pela proposta antiga (Capitalismo Liberal), que já existia, o fim da história já estaria em vigor há muito. Essa proposta dele é a polpa da fruta do Paleo-Conservadorismo.


O primeiro malabarismo é dividir as sociedades entre democracia (liberal de mercado) e o resto. Numa legítima encarnação da teoria da ferradura, para ele há os regimes democráticos e há os autoritários, é apenas essa a nuance da história dos últimos séculos. A história foi uma luta entre os favoráveis e os contrários à democracia, sempre em polos opostos. Os autoritários podem variar entre a direita e a esquerda, e ele faz considerações econômicas – justificando as ditaduras que abram mercados, claro – mas são apenas isso: não-democracias. Tendo em vista que “democracia” para o autor é algo ao mesmo tempo muito delimitado e muito subjetivo.

Subjetivo porque fora algumas considerações como direito à propriedade, liberdade de imprensa e eleições eventuais – e sem entrar, em nenhum momento na efetividade dessas práticas (não há distinção entre eleição direta ou indireta, por exemplo). Mas também é muito delimitado porque sabemos exatamente que ele tem como modelo de fim-da-história os EUA. Como dito, sem entrar em detalhes das deficiências de seu sistema eleitoral ou da sua seguridade social. E, desta forma, a Europa Ocidental também é citada a exaustão como exatamente o mesmo regime que a América do Norte, mas nunca apontando as gritantes diferenças entre as democracias de cada lado do Atlântico.

O truque para conseguir criar essa “democracia” generalizante, universal e imutável é rebaixar o que conhecemos por regimes democráticos o mais longe no tempo que ele conseguir. Vai citando vários autores e achando neles trechos que seriam defesa da Democracia Liberal de Mercado, e indo até um ponto de chamar Thomas Hobbes de democrata liberal, que o Leviatã desejado por ele é o Estado Liberal – sendo que o regime parlamentar inglês foi batizado por Hobbes de Behemoth, o inimigo mitológico do Leviatã.

Na mitologia cristã, Behemoth (acima) e Leviata (abaixo) são inimigos mortais. Ao escrever sobre a Revolução Inglesa, Thomas Hobbes, usou os monstros de alegorias, no século XVII. O Leviatã era o Estado Monárquico, defendido pelo filósofo inglês, e título do livro em que ele desenvolve suas idéias “autoritárias”. Em contraposição, ele escreveu Behemoth ou o longo parlamento, narrando os eventos de quando a Inglaterra se tornou uma República Parlamentar. Fukuyama consegue fazer a ginástica de mostrar que Hobbes estava desejando uma democracia, e que ela tomaria forma com o Leviatã – ainda que o regime parlamentar tenha sido apelidado de Behemoth pelo próprio filósofo.

Assim ele cria uma espécie de atemporalidade da Democracia Liberal de Mercado, ela sempre existiu, e sempre da mesma forma como a atual. O sentido da história se resumiu. desde a modernidade (século XVI), em uma busca pelo modelo dos Estados Unidos – que também é apresentado como imutável. Qualquer outra organização social é um desvio da estrada, como ele apresenta numa alegoria nas últimas páginas.

Os desvios, os regimes autoritários pelos critérios dele, são levados a cabo – e aqui talvez o maior malabarismo – por uma parte irracional do homem, que ele vai chamar como “timótica“. A luta entre o primeiro homem (o mais primitivo) e o último homem (o mais evoluído) foi uma constante batalha para a racionalidade domar a irracionalidade. O thymos (o espírito ou energia que nos move em ser reconhecido pelos demais humanos) faz com que reis e ditadores desejem se impor sobre seu povo e outras nações, enquanto a racionalidade leva a uma isothymia, quando o reconhecimento mútuo é pleno e não há necessidade de imposição. Ou seja, a democracia; levada adiante pela parte racional do homem.

Para dar concretude e cumprir seus objetivos de propaganda ideológica, ao longo das quinhentas páginas, alguns os exemplos de irracionalidade que ele coloca, por exemplo, são governos que políticas econômicas desenvolvimentistas. Fukuyama explica que é por puro capricho, que governos e movimentos sociais lutem por empresas estatais, estabelecimento de indústria nacional. É apenas para fazer com que seu país consiga ser reconhecido pelos demais, por pura necessidade timótica – e satisfazer sua megalothymia, quando a necessidade de reconhecimento toma contornos exagerados e autoritários. Se fossem racionais, abririam totalmente o mercado para ganhar dinheiro com importações e consumo.

Mas ao mesmo tempo, o autor passa bons capítulos denunciando um excesso de igualdade (isothymia) como deturpações da democracia. Direitos econômicos, por exemplo, como salário mínimo, férias ou saúde universal, são erros pois ferem igualdades mais primordiais, tal como o direito à propriedade. E, pior, atacam profundamente o princípio da satisfação plena do desejo de reconhecimento, pois esse seria conquistado por atalhos dentro do sistema: desestimularia o talento natural, a criatividade, a premiação pelo sucesso no trabalho, isto é, a individualidade e, assim, portanto, um ataque à democracia entendida como um grupo de indivíduos reconhecidos mutuamente por suas particularidades. A igualdade apenas pode ser o ponto de partida, nunca o de chegada para uma Democracia.

Um porém, muito positivo, é que a escrita de Fukuyama é muito agradável. O tamanho do livro e o próprio tema, filosofia da história, espanta, mas tenho que tirar o chapéu. A leitura vai embora e tudo é bem concatenado.

Na realidade, apesar de uma aparência refinada, com citações de Hegel, Kant ou Nietzsche, é um verdadeiro suco concentradíssimo de esgoto que tanto recebemos de propaganda neoliberal.

Há passagens explicando como apenas o capitalismo é o único terreno fértil para a criatividade humana, e para o desenvolvimento científico – este que claro, seria neutro, age com motivações sempre alheias à política, no máximo atrapalhado por ela. Aliás, a ciência e a tecnologia seriam o grande “Mecanismo” que faz a roda da história girar para frente. Também tem um momento de dizer como o Estado, repartições e estatais, são ineficientes, ou como a educação formal por si só é transformadora e melhora os níveis de vida da população. Temos, ainda, uma famosa lógica de You Tube que explica como a guerra é ruim para a economia, e se todos pensarem racionalmente (visando ao lucro empresarial) os conflitos militares serão evitados. Para não decepcionar ninguém ainda rola que o problema do subdesenvolvimento da américa latina é que não teve capitalismo o suficiente por aqui.

Não estou suficientemente por dentro do mar de chorume dessas publicações americanas para ver se ele é um tipo de raiz ou divisor de águas dessas produções ou se é só mais um. Mas se você fizer um bingo com tudo que você vê compartilhado na página do MBL antes de ler este livro, com certeza vai fechar a cartela.

Muito Ruim (1/5)

É uma peça de propaganda. O resumo é que, usando de toda a ladainha neo-liberal, o autor diz que praticamente desde as cavernas a humanidade buscou viver como os estados unidos do século xx, e o final da guerra fria só serviu para comprovar que qualquer outra tentativa está fadada ao fracasso. E, inclusive, qualquer expansão da democracia para além do que foi concebido em 1776 é uma deturpação do que seria realmente o objetivo final da história da humanidade.

Posts que envelheceram mal: em uma passagem, o autor rasga elogios aos líderes “modernos” e democráticos que estavam sendo eleitos no terceiro mundo, em especial na América Latina, como Carlos Menem, Carlos Salinas e claro, Fernando Collor.

O que acabou com o Apartheid, para Fukuyama, foi a economia da África do Sul se tornar tão capitalista a ponto de fazer os guetos, como Soweto, na foto, incompatíveis com as necessidades de deslocamento urbano de uma economia sofisticada.

Mal-entendidos: algumas citações de regimes contemporâneos e históricos são bem complicadas de aceitar, e só podemos esperar que, ou ele não estava por dentro das informações, ou foi um mal entendido. Por exemplo, ele elogia a “burguesia esclarecida” por trás da administração pública durante o Franquismo, que teria sido capaz de ao longo das décadas modernizar a Espanha economicamente e criar talvez a transição mais pacífica da história (autoritarismo) para a pós-história (democracia liberal de mercado).

É uma linha constante do seu argumento, o desenvolvimento econômico (no caso, capitalista) autoritário que permite a democracia futura – no Japão pós-guerra ele diz que houve uma “democracia coerciva“. Foi assim, também, com a Ditadura Militar no Brasil, ou mesmo com o Apartheid na África do Sul – ainda ativo na época – nesses dois processos, teriam sido os autoritários que perceberam que era hora de democratizar devido à sofisticação econômica. Especificamente sobre o regime africano, ele aponta que fora uma questão dos empresários perceberem que não era lucrativo manter os negros em espaços segregados da cidade; consumiriam menos e demorariam mais no deslocamento de casa para o trabalho – últimas conquistas negras em 1992.

Teoria da Dependência: para desconstruir essa vertente do marxismo o autor usa as maravilhosas “lógicas” simples que tanto vemos em mídias think tanks e em Junkconomics no YouTube.. A ideia de uma dependência econômica através do domínio de tecnologias, pelo primeiro mundo, por exemplo, não se sustentaria porque, na realidade, os países pobres, neste caso, têm uma vantagem que eles não sabem usar direito. Quem precisou desenvolver a tecnologia foram os ricos. Eles que perderam tempo e dinheiro. O terceiro mundo só precisaria ir lá e importar as coisas que precisam (e abrir os mercados completamente para isso) e então, assim, sairiam na frente do hemisfério norte. Genial.

Totalitarismo: Ele se apega menos a essa categoria do que eu imaginei. Mas uma consideração importante sobre seu uso é que Fukuyama aponta que o totalitarismo acaba quando há um setor privado na economia. Ou seja, fascismo não seria totalitário – embora ele diga o contrário em outras partes.

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Perry Anderson faz uma breve história do Imperialismo Americano desde a guerra Hispano-americana até o Governo Obama, utilizando como fonte exatamente os “pensadores” estadunidenses.

Pensador: o autor não gosta do rótulo de think tank e procura não ser visto em conjunto com movimentos neoconservadores americanos, e não aparece muito em eventos e televisão. Esse distanciamento foi desmascarado por Perry Anderson, na obra acima, quando o historiador britânico encontrou até mesmo um documento onde Fukuyama cobra do governo dos EUA a invasão do Iraque ao final dos anos 90, para terminar o trabalho da Guerra do Golfo.


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Sacrificando o conteúdo pela forma, o livro trata apenas da Revolta dos 18 do Forte, razoavelmente, e paulista de 1924, muito mal. Mas apenas o faz pinçando curiosidades sobre os eventos e envolvidos e criando até um texto agradável, mas despropositado.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

2 comentários em “O Fim da História e o último homem

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