O planeta do exílio

O planeta do exílio – Ursula K. Le Guin

Tradução: Marcia Men – Editora: Morro Branco

Ano de Lançamento: 1966 – Minha Edição: 2025 – 159 páginas


O planeta de Werel é habitado por duas espécies humanoides e similares, entretanto, uma é nativa do local e outra provém de uma civilização alienígena, que chegou por lá séculos atrás. Elas vivem de forma hostil, mas estável: há um contato limitado entre as comunidades, especialmente porque de ciclos em ciclos elas são ameaçadas por tribos nômades selvagens do norte, os Gaal – que são da mesma espécie dos nativos, mas, ainda assim, o inimigo comum.

Esses bárbaros costumam atacar durante o inverno, quando o norte congela e eles precisam descer às zonas temperadas para comida e abrigo. O diferencial é que em Werel, a órbita do planeta é muito diferente da nossa: cada rotação pelo seu sol dura 60 anos terrestres, o que leva a estações que duram cerca de 15 anos.

Desta vez, parece que o buraco vai ser mais embaixo no inverno que se a aproxima. Batedores informam que as cidades mais ao norte já foram atacadas e não conseguiram resistir, uma vez que os Gaal estão mais organizados neste último meio século. Atacando em números maiores e de forma coordenada, sua força bruta está sendo capaz de desmontar as defesas das “cidades invernais”, as fortalezas que os nativos constroem para passar a década de extremo frio.

Todo este contexto é muito interessante, entretanto, a grande peça central do livro é a dinâmica entre as duas espécies – no caso, representada por duas cidades vizinhas. Tevar é a cidade dos nativos, de pele pálida e olhos dourados, eles dominam algum tipo muito rudimentar metalurgia e têm sua língua, entretanto, não possuem escrita. Como se estivessem no finalzinho do Neolítico e começando a Idade dos Metais. São da mesma raça que os Gaal – inclusive compartilham raízes linguísticas – mas enquanto aqueles ainda são nômades, estes já são sedentários.

Por sua vez, em Landin, temos os distantinos, como eles são chamados pelos nativos. Uma espécie alienígena que colonizou o planeta cerca de 600 anos (terrestes) atrás, com pele negra-azulada e olhos escuros; apesar de serem muito mais avançados em cultura e conhecimento que os nativos, eles também estão presos naquele lugar recém saído da pré-história. E com um outro problema, muito mais grave. Depois de tantos anos por lá, a sua raça está em vias de extinção; cada vez menos crianças nascem já que a espécie tem dificuldades de adaptação às longas estações.

Diante da maior organização dos Gaal, se faz necessária uma aliança entre os dois povoados. O movimento é encabeçado pelos distantinos, na pessoa de Jakob Agat Alterra, o líder da cidade; que busca convencer os tevarianos, governados pelo velho Wold. Este gigante envelhecido teve várias esposas – incluindo uma dentre as alienígenas – e uma de suas filhas, Rolery, acaba tendo um contato mais íntimo com Jakob, uma vez que os distantinos tem poderes básicos de telepatia, ao salvá-la, através de uma mensagem mental, de um acidente.

Com o mesmo estilo de outros livros seus, Usrula Le Guin não é muito de introduções e exposições. Todos esses conceitos são distribuídos em conversas naturais entre os personagens, algumas vezes em perguntas diretas, outras tantas vezes, nem isso; você precisa pegar no contexto a maioria das coisas. Isso torna a leitura difícil, mas em um bom sentido; é estimulante para tentar entender melhor aquele universo. A autora é realmente brilhante nessa tarefa de explicar sem expor, mesmo em um livro mais curto e direto como este.

Essas lacunas, as quais você mesmo precisa preencher lendo mais da estória, por sua vez, só se mantém estimulantes porque o ritmo da obra é muito bom. Conforme os bárbaros se aproximam, há um senso de urgência cada vez maior sobre os personagens; ao passo que também uma intensa melancolia e tristeza conforme os eventos vão se desenrolando. Apesar da protagonista ser Rolery, acredito que a maior sensibilização do leitor será com os distantinos; uma raça condenada há séculos e que, a cada novo acontecimento, parece ficar mais próxima de seu fim. Uma parte especialmente tocante é justamente, quando o “exílio” é explicado e do porquê eles vivem como vivem apesar da sua origem. Top 10 dos melhores momentos literários do Sci-Fi fácil, fácil.

E é interessante como muito do livro é uma obra de ação: combates e momentos de tensão são bem descritos e eletrizantes. Não é uma abordagem muito comum da autora, o que torna uma experiência mais diferente da que estamos acostumados em seu trabalho – em um bom sentido, é quase uma inovação, embora este seja apenas seu segundo livro publicado – mas sem deixar de ser uma experiência densa, como tudo o que ela já escreveu.

Muito Bom (4/5)

O Ciclo Hainish – Não parece, afinal são conexões muito sutis, mas a maioria dos romances de ficção científica de Ursula L. Guin são parte de um mesmo universo conhecido como Ciclo Hainish; que leva este nome pois a humanidade teria se originado de uma civilização anterior chamada Hain e colonizado vários planetas (dentre eles a Terra). Os temas são variados, mas a abordagem das estórias é que se assimilam. E muitas das histórias leva à reconexão dessas espécies através de uma Liga dos Planetas, citada em vários dos livros – incluindo este aqui – e ao posterior Ekumen, uma grande comunidade interplanetária, central em A Mão Esquerda da Escuridão.

O Planeta do Exílio, especificamente, tem uma continuação direta: A Cidade das Ilusões, no qual descendentes distantes destes personagens retornam à Terra, que foi dominada por uma outra civilização.

Ruínas de Santu Antine, na Sardenha. São os restos de uma cidade da Idade do Bronze, construída aproximadamente entre 1900 e 1800 anos antes de Cristo, pela civilização Nuráguica.

Idade dos Metais: No final do Neolítico para a Antiguidade, a humanidade, após se sedentarizar e construir cidades, passou a dominar a metalurgia, conseguindo manipular o cobre, bronze e o ferro; nessa sequência, o que proporcionou um salto tecnológico incrível ao ser humano. Os habitantes de Werel estão no meio desse processo; não fica exatamente claro em que ponto dele, e nem se os habitantes de Tevar têm sistema de escrita – em algum momento eles desconhecem o que são “livros”.

Isto porque a escrita é o que marca do fim do Neolítico, parte da pré-história, e o início da História, com a Antiguidade. Muito embora esse processo aconteceu em diferentes ritmos ao redor do globo; e não são marcos estanques – normalmente quando nos referimos a eles estamos pensando nos povos do Oriente Próximo e Mediterrâneo.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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