O Bem-Amado – Dias Gomes
Ano de Lançamento: 1962 – Minha Edição: 2025 – 132 páginas
Quando saiu do governo, do posto de ministro da Casa Civil, o poderoso General Golbery do Couto e Silva, o grande arquiteto da “abertura lenta, gradual e segura” da ditadura, após mais de 8 anos no poder, pediu demissão e declarou: “acabo de sair de Sucupira“. Era 1981; os indicadores econômicos despencavam e o atentado do Rio Centro – dois militares tentaram explodir uma bomba no local de eventos como “false flag” para justificar um retorno à linha dura – criaram um dos momentos mais tensos da história nacional, colocando em xeque o regime militar como nunca antes; e seu epitáfio foi uma referência a uma novela.
Não qualquer uma: O Bem Amado, foi uma das produções da teledramaturgia nacional mais influentes de todos os tempos, ao retratar a tragicômica administração da cidade de Sucupira, no litoral baiano. Seu sucesso se deve à adaptação da peça original, escrita pelo autor de ambas as obras, publicada em 1962.
A trama é conhecida: a última eleição de Sucupira teve como candidato vencedor o Coronel Odorico Paraguaçu, um poderoso fazendeiro e grande orador, que faz toda sua plataforma de campanha baseada em uma simples promessa: a construção de um cemitério no pequeno vilarejo – os falecidos precisavam ser enterrados em uma cidade vizinha, o que forçava a realização de singelos cortejos para os velórios. Ele se torna o novo prefeito e, como um hábil político, tira dinheiro de todas as áreas possíveis para cumprir sua principal promessa, e entrega a obra em tempo recorde.
Era o plano perfeito, ele estaria nas graças do povo e se perpetuaria no poder, não fosse um pequeno problema: desde o término da obra, ninguém morreu na cidade, impedindo a inauguração cemitério. A partir daí, Odorico começa a bolar os mais mirabolantes planos pra garantir que morra alguém o mais breve o possível, incluindo a contratação de um matador; o Capitão Zeca Diabo, um cangaceiro aposentado, com fama de que não leva desaforo pra casa.
Aquele cenário é povoado por outros personagens marcantes: o jornalista Neco Pedreira, editor do principal periódico da cidade – um tablóide – é o grande opositor de Odorico; Dirceu Borboleta, o burocrata que auxilia as manobras de Odorico e as irmãs Cazajeiras, três irmãs, filhas de outro coronel da região, que nutrem uma paixão platônica – ou não – pelo prefeito. Além de outros menores mas que compõe o enredo; como o vigário ou o coveiro do cemitério.
É impressionante a sensibilidade de Dias Gomes – também autor de O Berço do Herói, que viria a inspirar Roque Santeiro – em captar e fazer alegorias à realidade sócio-política brasileira. Todos os personagens fazem sentido e têm correspondência para inúmeras situações do nosso cotidiano; desde Neco, um jornalista malandro, que consegue dar sempre dar um nó em Odorico, mas também Tião Moleza, um faz tudo que, sempre pelas beiradas, arruma umas boas formas de se virar.
Claro que quem rouba a cena é Odorico, um dos melhores protagonistas da cultura brasileira. O coronel – uma das principais censuras aplicadas à novela durante a ditatura foi suprimir seu título – é um homem esperto, manipulador e com poucos escrúpulos. A sua principal marca são seu discursos repletos de neologismos; com uma série de palavras inventadas de forma a buscar mostrar uma pretensa erudição, e, especialmente, tem como objetivo não ser entendido pela população.
E o que fecha com chave de ouro e coroa a genialidade da obra, é que a população não é boba. Todos sabem do jogo que está sendo jogado; manobram conforme as situações vão se desenrolado, manipulam e se deixam manipular por Odorico. Claro que o prefeito, coronel que é, tem lastro e consegue ganhar muitas vezes na enrolação; afinal ele é a classe dominante da região e o menos honesto da cidade. Há um quê de teatral em todo aquele contexto, como se cada um soubesse que está interpretando um papel; e muitas vezes é a realidade da política brasileira – e o era, definitivamente, durante a ditadura, dai a analogia do general, um teatro armado para redemocratização controlada.
O texto é escrito em formato de peça, o que pode afastar alguns leitores, mas garanto que não é problema algum. É uma leitura muito leve, e, especialmente, muito engraçada. É um exemplar perfeito de um obra que soube dialogar com a nossa realidade, fazer críticas e alegorias, de forma divertida e atemporal. A fala de Golbery não é por acaso, um dos homens mais fortes da ditadura – um dos artífices do golpe e da abertura – decidiu despedir-se do poder citando Sucupira; um testemunho do poder e da relevância de O Bem Amado.
Excelente (5/5)
Um clássico atemporal da literatura e dramaturgia brasileira: muito engraçado e com alegorias certeiras a nossa realidade.
Discurso na ONU: uma das adições mais interessante feita pela novela, é uma viagem de Odorico Paraguaçu a Nova Iorque; na qual ele diz a todos que fará um discurso na Assembléia Geral das Nações Unidas. Na realidade, ele fica no gramado, do lado de fora do prédio, e arrisca umas palavras em inglês, com uma porção de frases prontas, sem dizer nada com nada. Mais uma prova da imortalidade da obra: se Odorico foi comparado com Sarney mais de 10 anos depois, desta vez, 50 anos mais tarde ele era exatamente como Bolsonaro passando vergonha na ONU.
Adaptações – Uma das obras mais adaptadas da dramaturgia nacional, O Bem Amado rendeu uma novela, uma série e um filme. A novela, a primeira a cores da história brasileira, foi exibida em 1973 e um dos maiores sucessos da TV em todos os tempos; tornando-se também a pioneira em exportações desse produto para o exterior. Menos de 10 anos depois, ela recebeu um remake em forma de seriado, contando praticamente com o mesmo elenco, com a inserção de novas situações; ambas com Paulo Gracindo como o prefeito, no papel que acabou por definir sua carreira.
Exibida entre 1980 e 1984, essa segunda versão não pegou tanto com o público, uma vez que as novas tramas inseridas, mais isoladas e fechadas em um episódio, não possuíam o mesmo tom agudo e afinado com a política nacional. Da mesma forma, a novela original havia sido reprisada em 1977, saturando um pouco o público dos personagens.
Por fim, já mais recentemente, em 2010 houve o lançamento de um filme, protagonizado por Marco Nanini, e dirigido por Guel Arraes; posteriormente transformado em minissérie para a Globo. Nem de longe fez tanto sucesso como a novela (ou a peça), inserindo novas tramas, com uma polarização oca na figura de um novo adversário político de esquerda falastrão, também perdeu a precisão da crítica que tanto marcou a oba original.
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