Tecno-Feudalismo: o que matou o capitalismo – Yanis Varoufakis
Tradução: Érika Nogueira Vieira – Editora: Crítica
Ano de Lançamento: 2023 – Minha Edição: 2025 (3ª) – 239 páginas
Provavelmente a maior contribuição que o marxismo proporcionou à humanidade foi o conceito do modo de produção. Através de sua análise, podemos entender as diversas esferas da humanidade e suas relações entre si; da cultura à economia. Foi através do marxismo que entendemos melhor o que era o Feudalismo e o que é Capitalismo, e, especialmente, as diferenças entre os dois; tais como os laços de trabalho servis e o salarial, por exemplo. Mesmo os principais detratores de Marx trabalham com esses mesmos referenciais. Todavia, se a ruptura entre estes dois modos diferentes é, hoje, ponto pacífico; diante das inovações tecnológicas deste atual século, será que já não estamos em um outro modo de produção?
A resposta de Yanis Varoufakis é que sim; estaríamos hoje na transição do Capitalismo para o Tecno-Feudalismo. O ex-ministro das finanças da Grécia, e economista de carreira, acredita que após a crise de 2008/09 abriu-se um novo conjunto de relações sociais e econômicas que indicaria o fim do capitalismo; algo acelerado pela Pandemia do Corona Vírus e alavancado pelos avanços na internet e inteligência artificial.
O Tecno-Feudalismo
O cenário para essa transformação foi inaugurado pelo resgate aos grandes bancos depois daquela crise, e de algumas gigantes multinacionais, pelos governos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental após a quebradeira. Essa injeção de dinheiro estatal sem contrapartida, já que seriam valores jamais pagos pelos beneficiários, entrando no rolamento da dívida pública, permitiu que o capital fosse multiplicado, de forma artificial, em muitas vezes. Algo que acabou se repetindo pouco tempo depois com a nova crise desencadeada pela COVID 19.
Uma das manobras mais comuns foram as empresas e seus executivos comprando suas próprias ações com os empréstimos e auxílios governamentais para manter seus preços em alta; e, assim, conter as perdas no campo especulativo. Isto é, ao invés de priorizar as linhas produtivas; como forma garantir os pagamentos de funcionários e fornecedores, ou outras medidas de emergência; os grandes empresários arrocharam os gastos nesses setores, como já fariam, e injetaram o dinheiro para manter a roda do mercado financeiro girando.
Este não só seria um sintoma das contradições cada vez mais claras do Capitalismo – ao sobrepor a valorização do capital à produção de mercadorias – como marca uma importante mudança para o autor: o lucro passa a ter cada vez menos importância para os capitalistas. Embora o “lucro” de maneira genérica ainda exista (os acionistas continuam ganhando mais dinheiro do que eles investiram), ele deixa de prover da exploração do trabalho e da comercialização das mercadorias.
Em seu lugar, o que passamos a testemunhar é o ressurgimento da renta, tal como no Feudalismo. Em termos conceituais, quase filosóficos, a renda é resultado de uma exploração capitalista dos trabalhadores ou da mercadoria: advém de uma transferência de capital. Um aluguel, por exemplo, é o resultado de uma série de relações socioeconômicas que possibilitou a compra ou construção do imóvel por parte do proprietário; assim como, na outra ponta, o salário do inquilino advém da sua exploração – e, assim, esse valor é transferido de um pra outro na locação.
A renta, por sua vez, tem funcionamento muito diferente. Os servos em uma propriedade feudal pagavam tributos ao senhor sem aquele nobre ter participação efetiva alguma na produção. Ele não provinha capital, força de trabalho, empréstimos, nem nada assim, para que os camponeses plantassem ou colhessem; o pagamento, normalmente em espécie, justificava-se por um direito – que não era exatamente propriedade – sobre a terra na qual os servos trabalhavam por parte do aristocrata. Não havia transferência de capital ou mais-valia.
Nesse sentido, o que Varoufakis indica é que, a partir da injeção desse dinheiro dos bancos centrais e governos nas crises dos últimos 15 anos – ele diz que é dinheiro “criado do nada”, mas não acho que seja bem por aí – a desassociação entre a produção e a financeirização se tornou tão grande que possibilitou a surgimento do que ele vai chamar de “capitalistas-da-nuvem“: os donos das plataformas e softwares. Alavancando-se a partir desse financiamento estatal indireto, empresas de tecnologia puderam investir pesado para aumentar e monopolizar diversos setores da internet sem preocupar-se com o lucro.
Com esses capitalistas das nuvem, as plataformas – turbinadas pelos algoritmos e inteligência artificial – passaram a extrair uma versão atual da renta feudal. Para os comércios e fabricantes se inserirem no mercado, é necessário que eles coloquem seus produtos em marketplaces, como a Amazon; restaurantes, nos equivalentes do Ifood em cada país; entregadores e motoristas na Uber, Lalamove e etc. A questão é que essas plataformas não têm interferência na produção ou a prestação de serviço em si, não participam de nada no processo, apenas “conectam os clientes e os prestadores” – e a cada nova conexão recebem uma módica parcela do serviço ou produto.
Há funcionários dessas empresas, claro, assim como os associados; estes se tornam os “operários-das-nuvens” que não têm chefes ou patrões, a mais-valia não é mais extraída pelo dono dos meios de produção. Trabalhando para a plataforma, tem sua parcela de produção drenada a cada nova atividade – e, mais distópico ainda, sequer recebem ordens de outra pessoa; seguem as instruções das inteligências artificiais e algoritmos. Na outra ponta, temos os “servos-das-nuvens” que são os usuários das plataformas; o cliente passa a trabalhar para essas empresas – sem receber absolutamente nenhuma parcela, ao contrário, muitas vezes pagando, e por isso servos – uma vez que suas ações como usuários (avaliações, preferências, uploads e etc) transformam-se em dados, que também são comercializados pelas big-techs e aperfeiçoam o processo de exploração.

Essa dinâmica das plataformas é realmente onde podemos ver o nó que Varoufakis está tentando desatar; especialmente esses “tecno-servos”. Nosso papel como consumidores passou a ser comercializado, e gerar valor por si mesmo, o que é algo realmente inédito. Assim como, nas duas pontas, na comercialização e produção das mercadorias, a própria ação humana está cada vez menos importante, e nosso desempenho produtivo está sendo administrado cada vez mais por ferramentas artificiais.
Ainda há correspondência real
Entretanto, apesar da descrição e da novidade, as principais críticas que o livro enfrenta centram-se em que todas essas características não mudam os paradigmas do modo de produção capitalista – o que eu tendo a concordar mesmo após sua leitura. Essas inovações todas não deixaram de manter a atividade econômica focada na produção de excedente de mercadorias e da valorização do capital; os algoritmos e plataformas não deixaram de manter essa roda girando – mesmo porque estes novos mecanismos são criados, organizados e administrados pela a burguesia, eles não caíram do céu.
Varoufakis parece cair justamente na mesma propaganda das bigtechs; o funcionamento disso tudo não é independente da troca de mercadorias que movimenta o capitalismo. As plataformas precisam que os “associados” vendam efetivamente mercadorias e serviços através dela para terem seus poderes; mesmo o comércio de dados tem como objetivo aprimorar o ganho com esse comércio. Da mesma forma, temos um componente Geopolítico quase que ignorado pelo autor; a tratativa de dados é diferente na Europa, Estados Unidos ou América Latina. Os dados não são iguais, cada um tem seu peso, este que é relacionado ao seu componente real. A nuvem existe fisicamente, através da centrais de servidores, assim como os dados têm correspondência em pessoas e objetos, não são abstratos. Essas informações valem mais ou menos dependendo do que representa no “mundo real”; os hábitos de consumo do estadunidense são diferentes dos brasileiros; ou interesses em figuras políticas são diferentes na Europa ou no Oriente Médio.
Em Resgatar a Função Social da Economia, Laudislau Dowbor indica como esses mecanismos virtuais – assim com outros mais terrenos – são drenos instalados para extrair cada vez mais dinheiro da economia. É uma severa deturpação da nossa organização social e coloca em risco nossa sobrevivência como espécie. Ainda assim, é um desdobramento do capitalismo; o qual ele classifica como capitalismo de pedágio – e acho essa observação mais precisa.
Por vários momentos aqui, o autor aponta aqui que o lucro já não é o objetivo mais importante dos capitalistas-das-nuvens; e acredito que ele esteja errado sob vários aspectos. Inicialmente ele aponta que esse cenário seria possibilitado por dinheiro “criado do nada” pelos bancos centrais – até me senti escutando um Ancap com o Renato 38oitão; não tenho formação alguma em economia, mas estou certo de que não é bem por aí. Existe dívida pública e precatórios que financiam esses resgates e alavancagens.
Mas, para além disso, ele aponta que essas empresas – as bigtechs – estariam sempre fechando no vermelho e isso não impactam em nada seu funcionamento e expansão. De imediato, isso, me parece, não é bem verdade. Uma pesquisa no google mostra que, ainda que em alguns anos houve fechamento no vermelho – em especial da Uber – a tendência é positiva para todas, como demonstra a tabela abaixo, verificando lucro operacional entre 10 anos.
| Empresa | ~2014 | ~2024 | Crescimento Aproximado |
|---|---|---|---|
| Microsoft | ~27 | ~110 | +307% |
| Alphabet | ~16 | ~112 | +600% |
| Amazon | ~0,2 | ~69 | +34.000% |
| Nvidia | ~0,8 | ~82 | +10.000% |
| Uber | N/A* | ~3–4 | N/A |
Mas mesmo se isso fosse um dado claro, e eu que não entendi exatamente como consultar, não me parece ser capaz de explicar tudo; desde o século passado, práticas como dumping (venda de produtos a preços abaixo das margens de lucro) proporcionam um prejuízo imediato para conquista de mercado futura. Assim como o cenário de crescimento agressivo, tal como a maioria das plataformas fazem, é constituído de projeções que justificam deixar de lucrar inicialmente – como o investimento na construção de data centers, por exemplo – para a eventualidade de um lucro muito maior no futuro. É o mesmo princípio da “bolha da IA“, com as mesmas 5 empresas trocando trilhões de dólares entre si pra justificar o crescimento umas das outras. Se isso será viável – para as empresas ou para a humanidade – são outros quinhentos; ainda é capitalismo.
Forçando a novidade goela abaixo
O que dificulta o entendimento do processo apontado por Varoufakis pode ser até explicado por opções textuais e narrativas – este é um livro que coloca a forma a frente do conteúdo. Muito preocupado em mostrar que está propondo coisas novas, a todo momento essas coisas precisam ter também nomes que reflitam essa novidade. O próprio autor tira um tempo para explicar que ele considera realmente importante tudo ter um nominho único; mas essas muitas vezes atrapalham o entendimento uma vez que são termos que buscam serem inéditos, mas com palavras que já existem e já carregadas de outros significados.
E é um texto que busca ter um narrativa muito infantilizada, e força a barra com a questão de inovação, ao mesmo tempo que tenta lidar com coisas muito complexas. Há todo um longo trecho que pulei aqui – e até o próprio economista recomenda pular – sobre a publicidade, com o foco no protagonista da série Mad Men, que é uma perda de tempo; tentando reinventar a roda, ele quer explicar todas as novidades que foram aparecendo durante o capitalismo para emplacar a suas novidades.

O pior de tudo é que o livro inventa ser em formato de carta ao pai do autor. Buscando criar um tom intimista, um pai conversando com filho, mas para um conteúdo que basicamente está descrevendo um novo estágio da humanidade; intimidade para algo tão amplo, é um contradição em termos. Além de piegas, atrapalha decisivamente a leitura, pois em momentos soltos há declarações ao senhor Varoufakis sênior – têm “você”s que são para o leitor e outros ao pai, por exemplo.
Da mesma forma, ele usa recursos muito comuns de junk-economics (explicações de economia com analogias muito simplistas que, com objetivos específicos, não contemplam pontos chaves), que irritam muito – pode ser algum tipo de ironia, talvez, e eu que não peguei o espírito. Mas, me refiro a coisas como “joãozinho e mariazinha pegam um empréstimo” (Jack e Jill no caso, a tradução comeu bola aqui ao usar os mesmos nomes em inglês e não adaptar), que, pessoalmente, para mim dificultam mais do que ajudam no entendimento. Parte-se do principio que você é incapaz de entender se ele falar como adulto; criando uma narrativa bobinha como alegoria. Na realidade, desta forma ele acaba criando uma nova camada na mensagem, e pode se tornar só mais uma barreira entre o leitor e a idéia que o autor quer passar.
O livro já é um dos mais influentes do mundo por enfrentar questões latentes dos dias atuais, da quais queremos respostas; e Varoufakis é um dos primeiros intelectuais a terem a coragem de anunciar a mudança de um modo de produção. Entretanto, parte de um pilar elementar – do qual o lucro já não é mais objetivo dos tais capitalistas-da-nuvem, isto é, dos donos das bigtechs – que não me parece ser verdadeiro (pelo menos por enquanto) e é questionado por vários outros economistas. Ainda assim, mesmo se não for nada de inédito, é uma obra importante a ser lida para compreender o avançar do século XXI – se você tiver paciência com recursos textuais muito paternalistas.
Bom (3,5/5)
Tornou-se muito influente por enfrentar uma discussão latente da atualidade e é importante ser lido. Entretanto, muitas das ideais são frágeis demais para demonstrar a superação do capitalismo, algo tão drástico. E muito da novidade é forçada pelo autor através de um vocabulário muito enfeitado e recursos textuais paternalistas.
Alternativas – O autor fecha o livro com algumas propostas para o futuro, que possam se contrapor ao domínio do tecno-feudalismo. Entretanto, como as demais observações, elas não parecem muito novas. Ele propõe “as empresas democratizadas”, no qual as ferramentas tecnológicas funcionem em conjunto com os trabalhadores para administração das empresas. Com as capacidade de processamento atuais, desde os orçamento e pagamento até os planejamentos operacionais, poderiam serem feitos pelos trabalhadores em regimes de votações complexos e simultâneos.
Ele diz que pensou nessas possibilidades através da escrita de uma ficção chamada Another Now: dispaches from an alternative present e até detalha algumas coisas do funcionamento desse “outro agora”. Entretanto, apesar de muito boa, a perspectiva é exatamente a socialistas e comunistas buscam há séculos: o controle dos meios de produção pelos trabalhadores. O que Varoufakis demonstra, desta vez, seria como operacionalizar esse cenário com as capacidades tecnológicas atuais.
Cripto moedas – Em vários momentos do texto, o que foi levantado pelo economista grego me lembrava “reinvindicações” de pessoas que representam grupos ancaps na internet afora; especialmente na crítica aos resgates dos bancos centrais. No final do livro, Varoufakis enfrenta essa questão e diz que, em ideia, as cripto moedas nasceram como uma Utopia ao capitalismo.
Livre do processamento, ingerência e pagamento da taxas a bancos públicos e privados a proposta de uma moeda que corresse por fora desse circuito viciado era algo maravilhoso. Entretanto, ao aplicar-se no mundo real, essa ferramenta também foi alvo de disputa de poder, ficando longe do ideal comunitário. Uma facção específica – libertários de direita nos EUA – tomou a liderança e foi a maior beneficiária do que ele chama de um esquema de pirâmide; uma vez que depende do constante aporte de dinheiro “real” e associados para que elas se valorizem.
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