Prelúdio à Fundação – Isaac Asimov
Tradução: Henrique B. Szolnoky – Editora: Aleph
Ano de Lançamento: 1988 – Minha Edição: 2013 – 452 páginas
Hari Seldon era um acadêmico em matemática no início de carreira de um planeta periférico até decidir participar de um congresso decenal na capital do império, Trantor. Em sua apresentação, ele demonstra que existe a possibilidade de uma análise que alie matemática e história; observando o quantitativo de acontecimentos históricos e número de pessoas participando delas, seria possível chegar a certas “previsões” de comportamento da humanidade – no caso, de tendências probabilísticas da civilização.
Uma afirmação dessas rapidamente chama a atenção das autoridades imperiais, que entendem a “previsão histórica” como uma importante arma; no dia seguinte do simpósio o nosso herói já foi “convidado”, pelo primeiro ministro, o implacável Eto Demerzel, a um encontro com o próprio imperador para discutir o tema. Depois disso, Seldon soube que sua vida nunca mais seria a mesma.
Recuperando-se das digressões de Fundação e Terra, Asimov consegue voltar aos fundamentos da série, ao explorar, pela primeira vez, a vida de Hari Seldon e o desenvolvimento da Psico-História. De fato, parece que o autor realmente percebeu que colocou os pés pelas mãos no último volume – e no prefácio deste livro, ele revela que acha que precisa contar mais sobre o que viria depois daquele final – e busca se aproximar mais da trilogia original; a começar pelos próprios verbetes da Enciclopédia Galáctica, que voltam a aparece aqui.
Situado décadas antes do primeiro capítulo de Fundação, acompanhamos aqui o que ficaria conhecido na História Galáctica como o “Período de fuga“: após revelar a possibilidade da Psico-História, Seldon passa a ser alvo de uma disputa de grupos políticos (a situação e a oposição a Cleon) e ele precisa estar sempre um passo a frente de seus captores. Mas o grande problema é que, como o protagonista se cansa de explicar, ele ainda não criou a Psico-História; apenas mostrou que uma projeção assim seria possível.
Durante a sua fuga, ele é auxiliado pelo jornalista Chetter Hummin, que também viu sua apresentação e acredita que seu trabalho precisa ser desenvolvido de forma independente das disputas imperiais. O repórter tem inúmeros contatos em Trantor e convence Seldon que sua melhor chance de continuar vivo – e desenvolvendo seu método científico – é continuar na capital. Ela desfruta de maior liberdade política, justamente por sua centralidade, população e estrutura; uma imensa e única cidade dividida por setores diferentes – e rivais uns dos outros.
Nesta aventura ele será acompanhado pela historiadora Dors Venabili, que ele conhece na Universidade de Sterling, sua primeira parada da fuga. Juntos, eles buscam mais informações sobre o “mundo original” da humanidade – a Terra. A ideia de Seldon é que, para desenvolver a Psico-História, seria necessário um quantitativo ainda grande, mas bem menor que os quintilhões de pessoas da galáxia; e, ainda, que representasse a mesma variedade social; e, assim, criar equações que possam demonstrar as tendências de comportamento da civilização humana.
Definitivamente Asimov fez as pazes com os livros originais; neste aqui a psico-história volta ao centro da obra; a capacidade da humanidade compreender seu passado e dominar seu futuro novamente é o que move a jornada. Ao mesmo tempo, consegue pegar a melhor característica do volume anterior, com a exploração de vários locais diferentes – verdadeiros planetas dentro do planeta Trantor. Os heróis vão viajando por vários setores, e cada um deles contém suas contradições e singularidades. A estrutura, se pararmos para pensar, é muito parecida entre os dois, mas aqui melhoramos em quase todos os problemas que encontramos previamente.
Tal como, por exemplo, a questão dos personagens isolados uns dos outros em Fundação e Terra. A dinâmica de pular de setor em setor ainda faz com que vários fiquem restritos aos seus espaços originais, mas há um fio condutor que converge em vários momentos; tanto na figura de Chetter, mas especialmente, as conexões vêm através amadurecimento dos pensamentos do protagonista, que evoluem a cada novo dilema. A repetitivas discussões entre Trevize e Júbilo, debatendo por debater; aqui dão lugar a Hari e Dors pensando juntos sobre as possibilidades e limitações da ciência psico-histórica ao vivenciar cada problema encontrado pela capital imperial.
Nesse sentido, o final é talvez o mais agradável desde a trilogia original. Livre das amarras de tentar conectar todas as demais obras – ainda que existam boas e importantes referências – foi possível focar nos próprios personagens e conceitos nativos de Fundação. Há claro, uma conveniência enorme, que exige extrema boa vontade do leitor, no que se refere à real identidade de um dos personagens; mas essa revelação é algo mais marginal – não estamos tão dependentes da palestra-que-explica-tudo-de-uma-vez como nas últimas estórias.
Aliás, pelo contrário; mesmo sem as revelações finais ainda seria um livro com um desfecho bastante satisfatório. Assim como Hari Seldon vamos descobrindo, em cada canto de Trantor, uma nova face da humanidade e, com isso, novos ângulos de análise da civilização e, junto com ele e sua imparável companheira, vamos entendendo as possibilidades da Psico-História.
Muito Bom (4,5/5)
Uma retrospectiva que nos apresenta o Hari Seldon para além do mito da trilogia original. É um livro repleto de personagens e localidades interessantes; e que influenciam decisivamente os rumos que a Fundação terá – definitivamente feitas as pazes com a psico-história.
Prefeitos – Neste universo, os governantes regionais do Império Galáctico são chamados de “prefeitos”, inclusive os senhores dos setores da capital, Trantor. E mesmo já muito avançado na estória, os líderes da Primeira Fundação ainda detém este título, como a implacável Brano de Limites de Fundação. Diferentemente da conotação brasileira, que restringe o uso à administração executiva municipal, os prefeitos do Império Romano, a óbvia inspiração de Isaac Asimov, eram poderosos burocratas locais.
O sentido foi mais amplo, originalmente eram pessoas ligadas diversas esferas da administração da capital, Roma, e seus arredores Haviam prefeitos que tinham funções de gestão muito específicas, como Prefeito dos Alimentos, que gerenciava a distribuição de mantimentos da cidade, ou o Prefeito Pretoriano, que comandava a guarda pretoriana; além do próprio “Prefeito da Urbe“, o responsável por Roma – um dos homens de maior confiança do Imperador – e a inspiração do atual significado do título.
Com o papel mais próximo do que vimos em Fundação, haviam os Prefeitos das Províncias imperiais, como, por exemplo, Pôncio Pilatos, que era Prefeito da Judéia e o Prefeito do Egito, o mais prestigioso fora da capital. Entretanto, não era exatamente um processo fixo nem muito claro: eram nomeações que poderiam tanto ter o peso de vice-rei, como ser temporárias e desfeitas com facilidade, ou substituídos por governantes com outros títulos, como Legado ou Procurador. O caráter mais burocrático e fixo é algo já da Antiguidade Tardia, a partir do século IV, quando o poder central ficava cada vez mais frágil – não por acaso onde Asimov se inspirou – e continuou existindo por alguns intervalos no Império Bizantino.
Últimos Posts
Guia da Copa Falha de Cobertura
Para a sua quarta Copa do Mundo, o Falha de Cobertura lançou o seu primeiro guia físico – infelizmente, genérico demais.
O 8 de janeiro que o Brasil não viu
Por muito pouco, o Brasil escapou de um golpe de estado em 2023. Este relato de Ricardo Capelli, interventor federal durante a crise, nos ajuda a entender as dificuldades que ele teve para garantir que provas e pessoas fossem preservadas para investigação.
Fundação e Terra
No capítulo mais avançado da jornada da Fundação, os heróis visitam os primeiros planetas colonizados pela humanidade em busca da Terra – e de entender o porquê de chegarem até aqui.