Origens da Fundação – Isaac Asimov
Tradução: Maria Silva Mourão Netto – Editora Aleph
Ano de Lançamento: 1993 – Minha Edição: 2014 – 406 páginas
Na última aventura, Hari Seldon teve a certeza que sua vida, depois de conceber a Psico-História – uma ciência capaz de “prever o futuro” – não seria mais a mesma; mas dificilmente imaginava o que viria pela frente. De um acadêmico com uma grande ideia fugindo de grupos políticos em disputa pelo Império, neste último volume da série ele estará, efetivamente, no cotidiano do governo galáctico.
Passados alguns anos, com o patrocínio do primeiro ministro Eto Demerzel, Seldon é diretor na Universidade de Sterling e conseguiu, de fato, iniciar sua pesquisa psico-histórica e administrando todo um departamento trabalhando para ele – com a ajuda de Dors Venabili e seus historiadores, para fornecerem os dados, e Yugo Amaryl, e os demais matemáticos, para testar as equações. Entretanto, apesar dessa calmaria, o potencial político de sua empreitada ainda é objeto de interesse de muitas partes.
O que já chama atenção é a estrutura do livro: em referência à trilogia original, os capítulos são espaçados por longas passagens de tempo – ainda que não tão grandes como antes, agora de 10 em 10 anos. E, com elas, importantes transformações e desenvolvimentos da estória e de amadurecimento para Seldon. É uma rima interessante justamente com o tema da obra; a Psico-História está tomando forma, e nada mais adequado que pontuar isso com o avanço cronológico.
Diferentemente das aventuras e explorações dos livros anteriores; o motor desta obra aqui são as intrigas “palacianas”. Sem entrar em muitos detalhes, o matemático já não será apenas mais um acadêmico neste último volume da obra. Ele interferirá diretamente nos rumos do Império e, especialmente, das Fundações. Isso dá mais grandiosidade para o personagem, mas não achei esse desenvolvimento dos mais interessantes. É muito pouco verossímil, na realidade, imaginar que o protagonista seria capaz de exercer aquela função.
Muito se fala sobre este livro (e um pouco do anterior) ser o momento em que Asimov transforma Seldon em seu alter-ego; um cientista correndo contra o tempo para terminar seu trabalho ainda em vida, cercado por pessoas as quais ele não consegue corresponder o amor e carinho. De fato, é uma característica marcante deste grande personagem; mas, se era o caso, acho que o autor pesou a mão. Além de genial, brilhante, revolucionário e com a jornada do herói involuntário; ele ainda é capaz de ser um exímio lutador de artes marciais (mesmo sexagenário), o tal do “tufão”, e ser um dos responsáveis pela administração de milhares de planetas. Seu único defeito é ser perfeccionista.
As conspirações políticas da primeira metade da obra são interessantes; ainda que inverossímeis, uma vez que a acusação de um político ser um robô, algo que sequer as pessoas acham que exista, é absurdo; seria o mesmo que o Governo Temer ser realmente ameaçado na época por ele ser chamado de vampiro. Todavia, acredito que o grande problema é ser um desperdício de tempo (ou de páginas); o interessante desta reta final seria ver as raízes das Fundações sendo construídas – algo que ocorre efetivamente só na metade final da obra.
Em alguns momentos a coisa parece correr; as mortes de alguns personagens acabam não tendo o impacto que deveriam devido essa ritmo – parecem apenas caprichos do texto para aumentar o sofrimento de Seldon. Enquanto em outros momentos andamos em círculos; toda a trama de ter a permissão para usar ou não a biblioteca é longa e inócua, por exemplo. Apesar de introduzir Agis XIV, um personagem muito interessante, temos muitas dificuldades e vai-e-vens para serem resolvidas por, quase que literalmente, poderes mágicos. A prisão e julgamento de Seldon também é uma trama pouco efetiva e que se resolve da mesma maneira.
Esses episódios fazem parte da luta de Seldon para sobreviver ao cada vez mais degradado Império, nisso o contexto de Origens da Fundação é muito competente – é o melhor aspecto do livro. O Império está, realmente, parando de funcionar e sua pouca eficiência que ainda existe é gasta com coisas sem importância; daí essas dificuldades simplórias que os heróis precisam passar, coisas que parecem insignificantes diante de sua tão nobre missão – incompreendida pelos demais.
No início do primeiro livro, é estabelecido que centenas de pessoas já estão no projeto e conviveram com o seu idealizador, então talvez fosse interessante desenvolver a relação do próprio Seldon com a equipe original; seus anseios e expectativas com eles (o arco referente ao seu sucessor é prévio). Talvez explicar o que levou a contratação de Gaal Dornick; isso acaba sendo o estopim da saga, mas é um personagem que nunca mais é mencionado, Esperava algo que fosse nessa direção, que elaborasse melhor a estruturação das Fundações, especialmente da Segunda. Pode ser um mal entendido com a tradução brasileira, já que o título original é “Foward the Foundation“, de complexa adaptação, que poderia dar a entender algo como “foi dado o início à Fundação.
Desta forma, faz sentido que o livro se limite a plantar as sementes da Fundação e não mostrá-la já em funcionamento. Entretanto, ainda seria muito interessante ver talvez já algumas conexões com as primeiras “Crises Seldon”, como a invasão de Anacreon ou mesmo a possibilidade de um oficial imperial como um General Riose. Há, todavia, alguns primeiros testes da Psico-História neste livro; Seldon prevê e deixa rolar alguns dos eventos políticos – o que é muito legal e fortalece essa ciência (enfraquecida com os desdobramentos de Fundação e Terra) e fechamos essa saga com Amisov fazendo as pazes com sua principal empreitada.
Ele desejava escrever mais, mas esta acabou sendo seu último livro – publicado já postumamente, após sua morte em 1992. No prefácio desta edição ele diz que imaginava haver mais coisas para contar; mas, confessando a sua esposa, o que foi revelado apenas em sua biografia, ele não fazia ideia do criaria a seguir. Mas, felizmente, apesar de sempre querermos mais, com essas duas últimas obras, Isaac Asimov conseguiu – assim como Hari Seldon – encerrar o trabalho de sua vida e deixar seu legado para a humanidade.
Bom (3,5/5)
Gostaríamos de algo maior e melhor daquele que seria o último livro escrito por Asimov, mas é um fechamento satisfatório para saga de Ficção Científica mais influente da literatura.
Segunda Trilogia – embora esta seja a última obra de Asimov, o cânon da Fundação continuou. Organizado pela editora HarperCollings, e com a benção da família do autor – na pessoa de sua viúva e de seu irmão – foram encomendados outros três livros. Os autores escolhidos não eram dos mais bem sucedidos a época, mas houve o cuidado de buscar o trabalho de escritores de hard scifi e que também fossem cientistas, como forma de manter, mais ou menos, a mesma essência.
O objetivo era manter o interesse do público e do mercado na obra do autor após seu falecimento . E, para o enredo, a família disponibilizou anotações e rascunhos nunca publicados como norte das revelações a serem feitas. Lançados anualmente entre 1997 e 1998, O Temor de Fundação, Fundação e Caos e o Triunfo da Fundação foram “midquels”, se passando entre este livro aqui e o anterior (Prelúdio), contando mais sobre a vida de Seldon.
A recepção foi bastante divisiva entre os fãs; o primeiro livro é muito criticado, já o último costuma ter uma recepção boa. Mas ainda é algo que não foi bem digerido e, desde então, não mais houve obras canônicas e autorizadas pelo Espólio de Asimov; o foco passou para a adaptações cinematográficas, como O Homem Bicentenário e Eu, Robô, de 1999 e 2004, respectivamente.
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