1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart

1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart – Almino Affonso

Data de Lançamento: 2014 – Minha Edição: 2016 – 680 páginas


Uma forma infalível de medir a grandeza de um governo e seu projeto é observar seus ministros, enquanto alguns contam com Damares, Pazuelos e Wintraubes da vida, outros contam com Darcy Ribeiro ou Celso Furtado. A equipe reunida pelo presidente João Goulart tinha capacidade, coragem e vontade de mudar o país como poucas vezes vimos, entretanto, tudo deu errado. Aqui temos a visão de um dos integrantes dessa equipe do porquê.

Com um título auto-explicativo, o livro narra as memórias de Almino Affonso, que ocupou a posição do título por apenas 6 meses, entre janeiro e julho de 1963. Se levarmos em consideração que o Governo Jango começou apenas após o retorno ao presidencialismo, naquele primeiro mês do ano, ele esteve no cargo por quase metade do período e foi da equipe inicial – em um cargo de alta pressão, pois, a época, esse ministério era responsável pelas negociações com os sindicatos, que vinham em constantes ondas grevistas por conta de altas levas inflacionárias.

O autor levanta uma importante rima entre autor e personagem: ele estava na mesma posição em relação ao João Goulart que o próprio João Goulart também esteve, à frente do mesmo ministério no segundo Governo Vargas, em pressões parecidas. Aliás, o livro inicia exatamente com esse momento; Affonso identifica como a concepção das conspirações golpistas nasce lá, monopolizando o debate político brasileiro entre os nacionalistas e os entreguistas.

Os primeiros, aglutinados no PTB e PSD, desejavam o desenvolvimento do Brasil em uma direção que privilegiasse o capital e o gerenciamento nacional desse crescimento, enquanto os segundos, reunidos em torno da UDN, parte do PSD e partidos menores, acreditavam que a melhoria do país era possível de ser alcançada apenas pela ação do capital estrangeiro. Essa disputa tomou forma com a criação da Petrobrás e o monopólio estatal da exploração do petróleo, e até 1964 pautou e dividiu as ações políticas, no geral.

Daí se inicia uma longa descrição e pesquisa, trazendo muitos episódios e documentos, de como essa disputa se desenrolou durante os Governos Vagas e JK, até a entrada dele próprio na luta, em 1958, quando é eleito deputado federal e passa a integrar o “grupo compacto” e a frente parlamentar nacionalista, bancadas voltadas exatamente para a via nacionalista de desenvolvimento. Em pouco tempo se tornou um líder do PTB na câmara e figura importante das negociações políticas.

E aí então ele narra com propriedade os bastidores de tudo que presenciou entre 1958 até 1964 na política nacional, ao final do período JK e os turbulentos governos Jânio e Jango. Em especial, claro, este último, onde ele escreve com muita devoção as esperanças, projetos e objetivos que ele, e os demais integrantes, tinham para o país e as seguintes frustrações.

Especificamente sobre o golpe militar de 1964, o livro até trata relativamente “pouco”, cerca de 120 das 650 páginas, mas todos os episódios que ele apresenta têm como telos explicar possíveis raízes ou prelúdios da deposição de João Goulart. Tudo é narrado para chegar no trágico 1º de abril. O que, invariavelmente, nos traz um livro que tem um texto mais pessoal e mais direcionado em tudo que narra; quem já conhece bem o tema, sentirá falta de algumas coisas ou discordará de certas ponderações, ficando bem claras as visões do autor. Ainda assim, contribui demais para o entendimento desses dias tão marcantes de nossa história.

Tudo é muito detalhado – às vezes até demais, irritando um pouco as voltas que ele dá em contar a mesma coisa mais de uma vez – e ricamente ilustrado em uma edição muito luxuosa, entretanto, ruim de portar; grande e pesada. Além disso, é um livro muito rico de fontes (testemunhos do período), com depoimentos do autor, obviamente, mas transcrição de algumas cartas, manifestos, conversas e debates parlamentares.

Ao final, uma leitura extremamente comovente; mais uma que te deixa com a certeza da grandeza daquelas pessoas ao mesmo tempo com a certeza que foi em primeiro de abril de 1964 que o destino do Brasil como país pobre e subdesenvolvido foi selado pela conspiração militar.

Excelente (5/5)

Um dos principais livros para se entender o golpe de 64, é um misto de memórias e análise pessoal de um dos principais nomes da política do período, com uma pesquisa fantástica, muitos documentos e fotos, e numa leitura agradável e, inevitavelmente, comovente, afinal, conta a história justamente do esforço fracassado de temos um país melhor.

Falha no motor: são várias as “coincidências” que permeiam as conspirações do golpe militar, entretanto, uma relatada nas memórias pessoais de Almino é a seguinte: no início da noite de 1º para 2 de abril de 1964, Jango estava deixando Brasília, onde corria risco de morte, para ir até Porto Alegre, para encontrar aliados políticos e militares reunidos por Lionel Brizola. Mas o avião teve “problemas técnicos”.

O jato Coronado, avião civil mais moderno disponível no Brasil, com menos de um ano de uso, com todos embarcados e pista livre, partiria ás 20h para chegar até às 23h na capital gaúcha. Todavia, o vôo permaneceu imóvel por mais de uma hora, devido a uma pane no motor. Almino Affonso e Tancredo Neves, que ficaram na pista aguardando a decolagem, foram atrás de um outro avião para transportar Jango, encontraram apenas um Avro turbo-hélice, que demoraria quase o dobro do tempo para concluir o trajeto. Levantando vôo cerca de 22h.

De lá, Affonso e Neves foram para o Congresso tomar parte da sessão farsesca que declarou a vacância da presidência da República: Jango teria saído do país sem autorização do legislativo, o que é passível de impeachment . Darcy Ribeiro, ministro da Casa Civil, leu aos parlamentares declarações atestando a invalidade dessa informação; o chefe-de-estado estava em Porto Alegre. Tudo foi ignorado já que o presidente permanecia incomunicável. A sessão foi encerrada a 1:30 da manhã, e assim, o golpe concluído.

João Goulart pousou no Rio Grande do Sul às 2h.

Popularidade: uma pesquisa do IBOPE realizada entre 2 e 26 de março de 1964 nunca foi publicada. Affonso apresenta os dados dela: 72% da população apoiava a Reforma Agrária; 60% apoiaria um candidato indicado por Jango à presidência em 1965; e a aprovação (ótima, boa e regular) do governo de João Goulart era 77% em São Paulo, 78% em Recife, 85% em Porto Alegre, 74% no Estado da Guanabara (Rio), 70% em Belém e 85% em Salvador. Além disso, 47% dos brasileiros estariam dispostos a reelegê-lo no ano seguinte – o que sequer era permitido pela Constituição.

Autogolpe: ao levantar documentos e bastidores da renúncia de Jânio Quadros, o autor é decisivo em apontar que tudo se tratou de uma tentativa de auto-golpe de Estado. O presidente armara toda a viagem de Jango ao bloco socialista e planejou a renúncia naquele exato momento, contando que militares e conservadores vetariam a posse do vice antes dele chegar de viagem. Até aí, Jânio estava certo, mas ele não contava com a popularidade de Jango e sua própria falta dela. Embora Quadros tivesse apoio do Congresso e de alas militares, poucos foram os que estariam dispostos a tanto para transformá-lo em ditador.

Rixa antiga com os militares: uma rusga antiga que Affonso encontra entre João Goulart e o alto oficialato das forças armadas foi quando ele ainda era Ministro do Trabalho de Vargas. Num conhecido episódio, ele concedeu 100% de aumento no salário mínimo para compensar as perdas salariais da inflação. Naquele momento, um grupo de militares lançou o chamado “manifesto dos coronéis” criticando, dentre outras políticas do Governo Vargas, aquela medida de Jango. Segundo o panfleto, era inadmissível os trabalhadores “comuns” ganharem mais que praças.

A carta de Jango a Kennedy: um documento inédito do livro, e um dos mais emocionantes, é a uma resposta do presidente brasileiro ao americano, quando somos intimados a ajudar numa possível invasão à Cuba. Além de recusar o “convite”, numa correspondência redigida pelo próprio além de Affonso e San Tiago Dantas, João Goulart faz duras críticas à condução dos EUA em toda a crise internacional do período e à OEA.

Ainda, aponta que praticamente em toda a América Latina, facções políticas das mais desprezíveis se esconderiam atrás do anticomunismo para impedir o desenvolvimento de seus países. Portanto, se governo americano continuasse com essa postura, essa seria a primeira de muitas crises similares que viriam. Infelizmente, Jango estava mais que certo.

Ela está disponível aqui, na íntegra:

A Carta de Jango a Kennedy

Em outubro de 1962 a Guerra Fria teve seu auge na América com a crise dos mísseis cubanos, num episódio pra lá de famoso. Entretanto, por tabela, nos bastidores e completamente sigiloso até alguns anos atrás, o Brasil viveu um de seus momentos mais grandiosos.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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