A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam

A Verdade Vencerá: o povo sabe por que me condenam Luiz Inácio Lula da Silva e Ivana Jinkings (et al)

Data de Lançamento: 2018 – Minha edição: 2018 – 214 páginas


Em 7 de abril de 2018, história foi feita em São Bernardo do Campo: pela primeira vez no Brasil um ex-presidente foi preso. Curiosamente, dada a ficha corrida dos governantes nacionais, este único que chegou à carceragem foi justamente o mais popular que passou pelo Palácio do Planalto. Como explicar isso?

É o que o próprio tenta fazer nesta entrevista, auxiliado por outros quatro nomes de peso, os jornalistas Juca Kfouri e Inês Nassif, pela editora Ivana Jinkings e o historiador Gilberto Maringoni, realizada semanas antes da prisão, em fevereiro daquele ano. A conversa é um misto de memórias com análise de conjuntura, com lembranças, em especial, do período em que Lula foi presidente, e análises do golpe de 2016 com o afastamento de Dilma.

Por conta do contexto, nitidamente Lula está acuado na entrevista, que é pontuada por um tom defensivo em todo o momento. Entretanto, estamos falando, justamente, do maior presidente do país, e mesmo nessas condições ele é capaz de revestir sua defesa com uma feroz ofensiva eleitoral; em todas as falas temos as justificativas e enaltecimentos de suas ações como governante e o potencial que ele ainda tem para isso.

Lembrando que até a retirada de sua candidatura, em agosto daquele ano, as chances dele eram de vitória ainda no primeiro turno. E, ainda, que o principal responsável por sua prisão ocupou cargo na administração do segundo colocado; mas isso é outra história.

O resultado é um texto bastante pessoal. Desde as expressões (e os palavrões), passando por anedotas do passado e às analogias populares, é praticamente possível escutar a inconfundível voz do presidente ao ler suas falas. O que torna leitura muito agradável. Os entrevistadores tentam conduzir a conversa para alguns caminhos, mas o esforço é em vão: o cara consegue falar o quer. E sem grosseria ou imposição, ele apenas domina a entrevista.

Invariavelmente, isso significa também que não há um tom crítico tão forte. Bem que os jornalistas tentam, mas Lula não deixa brechas. Sempre há uma justificativa para qualquer atitude. E aqui reside realmente um ponto fraco da análise dele próprio sobre o que houve: acaba sendo tudo muito focado nas características “morais” ou “ideológicas” (entre muitas aspas dada a imoralidade e ausência de ideário dos envolvidos) dos vários golpes que ele, Dilma e o partido sofreram. A explicação que o presidente apresenta não consegue sair muito da repugnância que a elite e a classe média alta tiveram sobre a democratização política, social, econômica e cultural da Era PT, que, através de mecanismos midiáticos, em especial a farsesca luta contra a corrupção, contaminou a classe média baixa e as classes populares.

Se isso tudo é verdadeiro, e acredito que seja, explica apenas parte do problema. As implicações materiais, econômicas e internacionais do crescimento brasileiro e à reação, das elites nacionais e estrangeiras, para ele não tem tanto espaço – embora sejam mencionadas por entrevistado e entrevistadores.

E essa opção é intencional, afinal, o que aprendemos lendo a entrevista é que Lula é um excelente negociador; vários são os episódios que ele explica como conseguiu contornar a oposição ou determinadas pessoas para implantar alguma política social, por exemplo (e as histórias de bastidores são as melhores partes do livro).

E aqui é mais uma demonstração disso. Suas críticas são direcionadas ao que é necessário ser intransigente na construção de um país melhor: superação do ódio de classe. Para Lula, não conseguiremos nunca sair do lugar se, pelo menos, não se tornar ponto pacífico na elite brasileira (em todos seus ramos) que para o país se desenvolver é necessário que todo o povo se desenvolva junto; o resto dá pra negociar.

Excelente (5/5)

No momento de seu lançamento já se tornou um documento histórico, ao ser lançado às vésperas de sua prisão. Um misto de memórias e análise conjuntural em um texto muito pessoal, com as características histórias de bastidores, expressões e analogias populares de lula. Pesando um pouco no caráter eleitoral da mensagem, todavia.

Relacionamento com o Governo Dilma: os momentos mais impactantes e reveladores da entrevista são os relacionados à vida do presidente no governo de sua sucessora. Lula relata como a presidenta era considerada uma pessoa muito difícil de lidar. Mesmo com ele se mantendo afastado da administração pública, vários deputados e, até mesmo ministros, o procuravam para pedir que ele os ajudassem a conversar ou negociar com Dilma.

Elementos pré e pós-textuais: além da entrevista e muitas fotos, há prólogo, prefácio, cronologia e mais dois curtos artigos; uma pequena biografia e um rápido resumo do processo jurídico, e suas falhas, que ele havia sido condenado.

Brizola: em lembranças mais antigas, Lula relembra dois episódios bem curiosos passados com o ex-governador do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro; o primeiro em 1989, quando negociando quem apoiaria quem no segundo turno e a proposta do pdetista era de ambos apoiarem Mario Covas, e o segundo em 1998, quando queriam organizar a chapa para as eleições daquele ano, e Brizola o levou para visitar o túmulo de Vargas, em São Borja.

Temas diversos: mais alguns dos vários temas abordados na entrevista foram a possibilidade de Eduardo Campos compor chapa com a Dilma, em 2014; a visita de Bush ao Brasil; a relação com Meirelles no Banco Central; a hostilidade da mídia com ele; relação com FHC, Ciro Gomes, Boulos… além de, claro, extensa discussão sobre o que ele passara com a Lava Jato, e, muita analogia com o futebol.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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