Arquivo X
Após a vitória de 35 a 21 do Green Bay Packers contra o New England Patriots em 26 de janeiro de 1997 no Super Bowl, a Fox, que recentemente havia adquirido os direitos de transmissão do futebol americano, finalmente conseguiu realizar uma antiga estratégia das redes americanas: exibir imediatamente após o evento esportivo mais importante dos Estados Unidos o episódio de algum programa que a emissora quisesse alavancar. Naquele ano, a exibição posterior foi de Leonard Betts, o 12º episódio da quarta temporada de Arquivo X, e com pouco mais de 29 milhões de espectadores no país se tornou o capítulo mais assistido do seriado
Não é uma obra prima, mas é um capítulo divertido e um dos melhores episódios com a temática do monstro da semana, algum ser com poderes paranormais que é investigado pelos agentes. Foi uma marcante amostra de Arquivo X; este quarto ano provavelmente é o que estabeleceu a imagem da série mais associada ao terror e conteúdo graficamente forte.
Depois de uma terceira temporada que internacionalizou o arco principal do seriado e se aprofundou nas teorias da conspiração, este aqui tentou desenvolver mais os protagonistas e focar em momentos fortes. Os resultados foram variados, a maioria dos capítulos foram bons, mas na caminhada tão tortuosa que é o desvendar do mistério de Arquivo X, este ano foi um passo para trás.
Agradou: Gore
Decidida a conquistar o público através do choque visual, Arquivo X caprichou demais no gore deste ano. Mesmo os piores capítulos, como o envolvendo viagem no tempo ou o chupacabras, têm excelentes cenas e cenários envolvendo mortes, corpos desfigurados e bizarrices no geral. O episódio mais assistido de todo o seriado, Leonard Betts é dos mais dedicados ao choque, com uma decapitação logo no teaser.
E todos funcionam bem. Com a exceção do capítulo Lar, envolvendo uma família com práticas bizarras ao extremo, que chegou até a ser banido da TV aberta, nada parece apelativo; no sentido fugir aos propósitos dos capítulos, mesmo nos mais ruizinhos. Todos terão uma cena marcante que se conecta bem à trama, e muitas vezes é o clímax do episódio, e provavelmente os capítulos mais lembrados do seriado estão nessa temporada.
Não Agradou: trama de Skully e sequência final
Mesmo já tendo assistido à série antes, não me lembrava de imediato sobre esse arco da doença da agente e fiquei surpreso quando há uma revelação no capítulo sobre Leonard Betts. Esta trama permitiu um aprofundamento da personagem, que foi colocada em perspectiva através de um questionamento sobre sua posição passiva com relação a Mulder. Ele que tem seus objetivos fixo para enfrentar, e ela fica relegada, costumando apenas o seguir.

Esse início foi bastante saudável e ligou alguns pontos da trama principal do seriado envolvendo gestações e fertilidade, entretanto, talvez começou cedo demais, no 12º capítulo dos 24 totais. Quase todos os seguintes martelaram muito essa mesma ideia, com resultados variados, alguns bons, como os que conectaram a doença com o arco principal, outros interessantes, como os que ela questiona seu papel como coadjuvante do parceiro, e outros muito fracos, como o envolvendo as aparições de “pré”-fantasmas para quem iria morrer em breve.
Este último fez parte da sequência final da temporada, que até agora foi a mais fraca do seriado, episódios repletos de furos, que não chegam “lá” em revelar nada, repetitivos – há três seguidos que usam o flashfoward – e ainda sobra para história do protagonista que acorda com amnésia e cheio de sangue que não é seu. Assim como provavelmente nesse final temos o mais fraco dos episódios de gancho de passagem de uma edição para a outra en Gethsemane. A continuação em Redux partes 1 e 2, no quinto ano, é fraca e inócua, uma trama que leva a lugar nenhum.
Claro que é muito fácil eu falar isso três décadas depois e sabendo que o seriado iria até a 9ª temporada (e depois até a 11ª), mas este quarto ano gasta muita energia em mistérios e respostas que a gente já sabe de imediato que são diversionistas; sabemos que Scully não vai morrer, sabemos que o desaparecimento da irmã de Mulder não foi só coincidência de um serial killer, como também sabemos que Samantha não é exatamente aquela que aparece em um episódio. E, pior ainda, sabemos que alienígenas existem naquele universo – um dos principais episódio tentará nos convencer do contrário.
O que importa nesses casos é a jornada, evidentemente, mas várias dessas histórias gastaram mais energia em criar esse “mistery box” do que em dar gás à jornada – como é o caso do gancho final em Gethsemane sua resposta no ano seguinte – a própria trama da doença de Scully gera um excelente episódio sobre o diretor Skinner buscado curá-la, mas que não fará diferença no resultado final.
Infelizmente tivemos um monopólio do arco principal em eventos e temas que giraram em torno do câncer da personagem e este quinto acabou sendo um passo para trás no mistério da interferência alienígena.
Melhor Episódio

Soma Zero – é até triste colocar como melhor episódio um que os protagonistas não são os protagonistas, com o perdão da redundância – e Scully sequer aparece. Mas justamente por isso é algo tão único e interessante, temos a perspectiva da história de Arquivo X a partir das pessoas que trabalham contra os agentes, aqueles que estão sempre buscando apagar as evidências e rastros. E fica até melhor sabendo que é o diretor Skinner nesse papel, que tenta fazer sua investigação paralela atrapalhando, ironicamente, por Mulder. Um dos melhores do seriado, sem dúvida.
Além dele, Reflexões de um fumante é um dos episódios mais únicos de Arquivo X, uma espécie de Forrest Gump do avesso. Assistimos ao passado do Homem-que-fuma e sua conexão com diversos eventos históricos do século XX nos Estados Unidos; e ainda com um bônus sobre um passatempo pessoal desse personagem que é simplesmente maravilhoso – e coloca tudo que vimos em xeque.
O episódio duplo Tempo Voa e Max, envolvendo o grande acidente aéreo e o reaparecimento um personagem tão marcante é excepcional também; todas as cenas envolvendo o local da queda do avião são grandiosas e muito bem produzidas. Uma trama envolvente e repleta de ação faz com que não deixamos a ponta do sofá por todo o episódio.
O que não é exatamente o caso do outro episódio duplo, Tungunska e Terma, que são bons, com ares internacionais, mas intercalados por uma “CPI” que parece só preencher tempo para garantir que a estória renda os 90 minutos de exibição – e ainda é um recurso repetitivo na temporada.
Gostaria que fossem melhores: 1) Sanguinário – Este macabro episódio tem bastante gore, violência, um bom ritmo e uma boa reviravolta, mas falou um refino a mais. 2) Corações de Papel – Um capítulo bastante tenso e com um interessante conceito por trás, mas que perde tempo com um mistério que sabemos ser falso, se focasse mais nos “poderes” do vilão e manipulação mais clara desde o começo, teria mais energia. 3) Não Correspondido – Mais um monstro-da-semana com poderes interessantes, mas perdido em episódio mal dirigido contendo várias cenas recicladas.
Pior Episódio

Sincronia – Com certeza essa aventura entraria em um rol de piores estórias de viagem no tempo. Um cientista quer impedir que sua grande invenção seja finalizada e para tal ele deseja sair matando a todos os envolvidos na criação, inclusive a si mesmo (?) – menos uma dessas pessoas, que, inclusive, ele começa tentando salvá-la (??) e mesmo assim parece que a invenção vai sair (???). Não pergunte mais nada, é melhor. Tudo extremamente confuso e, especialmente, chato. A bem da verdade, há uma cena bem legal, envolvendo a combustão instantânea, mas toda a parte da temperatura é outra coisa que não faz o menor sentido – o congelamento de coisas levaria à viagem no tempo, acredite se quiser.
Tão sem pé nem cabeça quanto, e também envolvendo uma questão temporal, temos O Campo onde eu morri, que explora uma pessoa capaz de reviver suas vidas passadas, no meio de um culto suicida e milícia religiosa. Nem tente entender – muito menos assistir. O que coloca um pequeno degrau acima é o desempenho da atriz principal, que faz o melhor invocando suas diferentes “personalidades”.
Quando comecei a assistir Arquivo X investigar o Chupa-cabra em El mundo gira, achei que seria um capítulo divertido; mas ledo engano. Uma história que começa com isso mas termina com uma super mutação de pé-de-atleta não tem nada de bom, exceto algumas cenas de gore muito bem feitas, característica da temporada.
Essenciais
São vários os episódios desta temporada que fazem parte do Arco Principal do seriado – que envolve os alienígenas e a conspiração liderada pelo Sindicado – especialmente se alargarmos a ele todos envolvendo momentos chave sobre sobre a doença de Scully. Estão todos destacados abaixo, e já consomem 11 dos 24 episódios, embora alguns sejam histórias de monstros da semana que acabam por trazer questões interessantes dos personagens, como é o caso de Leonard Betts, o episódio mais assistido do seriado, e Nunca Mais, que explora a frustração de Scully. Reflexões de um Fumante é quase uma brincadeira, mas dá gás à mitologia da série.

Os episódios duplos, Tunguska/Terma e O Tempo Voa/Max, são obrigatórios, embora o segundo par seja muito melhor. Memórias da Morte e Soma Zero são conectados às tramas principais mas não são episódios duplos. O mais solto é Insignificância, um dos capítulos mais engraçados do seriado graças ao tempo cômico de David Duchonvy – e uma amostra de “mau envelhecimento” com relação à temática da violência sexual. E se você estiver disposto a muito mau gosto, Lar, é o episódio mais polêmico de Arquivo X.
Herrenvolk resolve o gancho da terceira temporada, e Gethesemane deixa o da próxima – mas sinceramente se quiserem pular tanto esse quanto os dois primeiros que resolvem a trama na temporada seguinte, recomendo.
| Herrenvolk | Muito Bom | |
| Lar | Bom | |
| Teliko | Ruim | |
| Tumulto | Mediano | |
| O Campo onde Morri | Muito Ruim | Piores |
| Sanguinário | Bom | |
| Reflexos de um fumante | Excelente | Melhores |
| Tunguska | Muito Bom | Melhores |
| Terma | Muito Bom | Melhores |
| Corações de Papel | Muito Bom | |
| El Mundo Gira | Muito Ruim | Piores |
| Leonard Betts | Bom | |
| Nunca Mais | Bom | |
| Lembranças da Morte | Muito Bom | |
| Kaddish | Bom | |
| Não Correspondido | Bom | |
| O Tempo Voa | Excelente | Melhores |
| Max | Muito Bom | Melhores |
| Sincronia | Muito Ruim | Piores |
| Insignificância | Muito Bom | |
| Soma Zero | Excelente | Melhores |
| Elégia | Ruim | |
| Demônios | Ruim | |
| Gethsemare | Mediano |
Arquivo X
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