Viva la Revolución

Viva la Revolución: a Era das utopias na América Latina – Eric Hobsbawm (Organização: Leslie Bethell)

Tradução: Pedro Maia Soares – Editora: Companhia das Letras

Ano de Lançamento: 2016 – Minha Edição: 2017 – 545 páginas


A América Latina é “um continente feito para minar a verdades convencionais […] Ela nos obrigou a encontrar sentido no que a primeira vista parece implausível. Ela proporciona o que as especulações contrafactuais jamais poderiam fazer, ou seja, uma gama genuína de resultados alternativos para situações históricas.” (p. 500) São algumas das palavras de Hobsbawm para resumir seus estudos sobre nossa região, em sua autobiografia, parcialmente reproduzidas aqui.

Apesar de nunca se considerar um estudioso do continente – para quem frequentemente se depara com sua obra, ela só começou a figurar em seus principais livros em A Era dos Extremos – sempre foi um simpático assumido dos Latinos, e, especialmente dos brasileiros. Ao menos é que nos testemunha Leslie Bethell, seu amigo e organizador desta obra, e, ele sim, grande especialista em história da LATAM.

Na realidade, nosso continente estava definitivamente no radar de Hobsbawm quando ele passou a estudar os “Rebeldes Primitivos”. Um conceito desenvolvido por ele, através de um influente livro de mesmo nome, que estudou revoltas prévias à urbanização e industrialização de regiões e países; muitas vezes oriundas de organizações camponesas. Não por acaso, quando o autor decidiu visitar o hemisfério sul, nos anos 60, a América Latina estava em ponto de ebulição com diversos movimentos rebeldes vindos do campo.

Com algumas exceções, o foco deste livro, uma coletânea de ensaios e artigos publicados pelo autor em diversos locais – outro livros, periódicos, congressos – organizados pelo companheiro de profissão citado acima, é justamente nos camponeses e estruturas agrárias latinas. Com muito destaque à Colômbia e ao Peru, dois países que passavam por processos políticos extremamente conturbados no período. E talvez seja essa a principal decepção para um leitor desavisado sobre este título – que foi o meu caso.

Das 500 páginas de texto, mais de 150 são dedicadas ao caso peruano, quando, na década de 1960, o país passou por dois golpes de Estado relativos ao poder da APRA (Aliança Popular Revolucionária da América) no governo, um partido político esquerdista que almejava uma união latina, mas ficou bastante restrito ao Peru. Esses episódios são muito pouco divulgados ou estudados no Brasil; mas este aqui também não é um bom lugar para se informar.

Os artigos são muito de momento, no sentido que são direcionados a quem acompanhava ou vivia aquele período; não há boas introduções ou contextualizações – até tentando acompanhar por artigos da Wikipedia fiquei perdido; são estudos de eventos muito recortados da história, então contemporânea, do país. Há muitas suposições, avaliações preliminares, projeções… é quase um trabalho jornalístico de um Hobsbawm, temperado com muitas esperanças e aspirações políticas.

Cena da cidade de Tolima, ocupada durante das ondas de “La Violencia”, em 1955, durante a ditadura do General Rojas Pinilla. Após a morte do candidato liberal, em 1948, a Colômbia entrou numa guerra civil descentralizada entre facções locais de liberais e conservadoras – esta última, estando o poder, levou vantagem e venceu o conflito.

Já sobre a Colômbia, os eventos são mais familiares. Já havia me inteirado de muitos eventos em leituras anteriores, mas o país é mais presente na imprensa e cultura de massa, no geral e o leitor médio estará mais contextualizado nos temas. Há uma análises sobre La Violencia, o período de guerra civil descentralizada após a morte de Eliécer Gaitán, candidato à presidente, mas também, sobre o contexto da guerrilha e do narcotráfico nos anos 80; com estudo desde as FARC até as posturas do governo colombiano frente às drogas e sua sujeição aos Estados Unidos.

O que provavelmente surpreenderá a muitos são os textos relativos à Revolução Cubana. Na realidade, as análises sobre aquele processos são breves, mas o que o autor se debruça muito e mais e se mostra crítico é a sua propagação. Ainda que admire os feitos do Movimento 26 de Julho, Hobsbawm apresenta muito ceticismo sobre como ele estava sendo interpretado por seus simpatizantes, em especial, na América Latina. O sucesso em Cuba despertou no continente a possibilidade de que uma revolta armada liderada por uma guerrilha pequena e não-urbana pudesse tomar o poder e iniciar uma revolução.

Desde os anos 60, nas suas primeiras impressões da região, ele já alertava para a incapacidade desse tipo de movimento em se transformar numa Revolução; especialmente nos países maiores e mais urbanizados da América do Sul. Há um ensaio em específico, de 1970, no qual ele lista 12 tópicos nos quais as análises sobre as guerrilhas estavam erradas – especialmente as leituras europeias desses movimentos influenciadas pelo francês Regis Debray. Os textos com essa temática são até engraçados, tragicômicos, na realidade, no relativo à forma a qual Hobsbawm aponta seus problemas: em seu período “a desproporção entre sonho e realidade era enorme” (p. 329) ou que “a revolução era vivida como uma Lua de mel coletiva” (p. 299).

Em 1967, Regis Debray foi preso e condenado há 30 anos de prisão na Bolívia, após entrevistar Che Guevara, mas o guerrilheiro foi encontrado e morto semanas depois. Debray foi solto em 1970 por pressão internacional, e há suspeitas se ele teria delatado o paradeiro dos rebeldes às autoridades.

Olhando de trás pra frente, a avaliação do historiador britânico estava correta; todas as guerrilhas fracassaram – no Brasil, inclusive, a elas podem ser atribuídas o próprio recrudescimento do regime, dependendo da interpretação. Entretanto, Hobsbawm falava isso já na época, indo totalmente contra a maré dos Comunistas do período; há uma espécie de “obituário” que ele escreve sobre Guevara aqui que é muito ácido. Há textos também contemporâneos os eventos do governo Allende no Chile; há uma avaliação bastante sóbria e didática da conjuntura do país na década de 70 e do primeiro ano da experiência Socialista e um rápido ensaio sobre o golpe; no qual ele afirma que não havia sido “um teste do socialismo democrático, mas, no máximo, da disposição de burguesia de aceitar a legalidade quando a legalidade e o constitucionalismo não funcionam ao seu favor” (p. 448).

Sobre o Brasil há supreendentemente pouco. A apresentação de Bethell é enganadora nesse sentido, escrita especialmente para esta edição brasileira, ela fala sobre a relação carinhosa que ele tinha para conosco; dizia que era o local do mundo no qual era o mais popular. Provavelmente tinha razão. Entretanto, não há nenhum dos ensaios exclusivamente sobre o Brasil; o país aparece em seus textos mais generalistas, ressaltando a grande desigualdade do desenvolvimento econômico nacional, alguns dos caminhos da ditadura, e a insurreição armada contra ela dentro das observações sobre a guerrilha. O assunto que ele mais se detém é o cangaço – algo que foi bem desenvolvido em Bandidos.

Hobsbawm na FLIP, em 1997.

Privilegiando as décadas de 1960 e 70, e com os temas envolvendo os levantes armados; a seleção é bem realizada pelo organizador. Entretanto, no saldo, é desproporcional o destaque dado ao Peru e Colômbia, especialmente porque são textos muito específicos, tanto em recortes – existe uma análise de uma pequena província interiorana do Peru – quanto em debates – há uma discussão sobre o feudalismo e neofeudalismo na América, que recebemos só um pedaço da conversa. Em certos momentos, se observarmos que o historiador era contemporâneo ao que estava analisando, lembra o um trabalho de jornalismo como Marx fazia no século XIX.

Nada é perdido; muito pelo contrário. Provavelmente o problema foi minha falta de intimidade com o tema – os referentes à Colômbia, eu já tinha leitura prévia e me foi muito mais proveitoso – mas esse tipo de estudo pormenorizado, é um estilo do autor que não estamos acostumados a ver. Por outro lado, os textos mais generalistas são excepcionais e apresentam reflexões muito importantes; como a década de 30 “encerrar a Idade Média da América Latina” (p. 62); e a avaliação da Aliança para o Progresso, prontamente abandonada após o recuo soviético na crise dos mísseis e uma boa análise da trajetória do nacionalismo latino em suas elites políticas.

Essas paronâmicas sobre nossa região valem a leitura. Nelas temos, realmente, Hobsbawm em sua melhor forma e produção; sua capacidade de analogias e correlações é excepcional – mesmo para um continente que “simplesmente não faz sentido” (p. 56).

Muito Bom (4/5)

Uma bela seleção de textos, mas de caráter muito variado; alguns são ensaios, outros estudos e ainda há quase correspondências jornalísticas. Os capítulos mais específicos não são tão interessantes, especialmente sobre o peru, mas as paronâmicas são tão excelentes quanto podemos esperar de Hobsbawm.

Informante comunista: durante sua primeira viagem à América Latina, em 1962, Hobsbawm entrou no radar a contra-inteligência do bloco ocidental durante a Guerra Fria. Como membro do partido comunista britânico, ele já era periodicamente monitorado pelo Serviço de Segurança Interno (o MI5) do Reino Unido; mas sua viagem ao nosso continente despertou um alerta nos órgãos de repressão do hemisfério. Os ingleses informaram à CIA da presença desse “agente comunista” que iria fazer contato com os grupos rebeldes da América do Sul. Entretanto, o aviso foi atrasado e quando os americanos ficaram sabendo, ele já havia retornado à Europa.

Geografia: Na análise do autor, no caso sobre os anos 60, mas não é algo tão distante assim; a América Latina configurava-se com um grande áreas desabitadas, pontuadas por grandes cidades, mas com péssimas conexões e comunicações entre si. Nesse contexto, uma característica importante era como os governos latinos permitiam-se a perder o controle de províncias mais distantes para manter os principais centros sob controle; as insurreições que importavam eram as próximas às capitais.

Populismo: Essa característica tão presente na política latino americana é relativamente pouco explorada por Hobsbawm em seus ensaios, mas ainda assim recebe importantes reflexões. Como dissemos, ele chama a década de 30 como fim da idade média por aqui, e que algumas datas desse período são marcos tão importantes para a história da América Latina quanto a Independência – o que concordo firmemente.

Ele vai adiante, já em outro ensaio, de como o afluxo dos camponeses aos centros urbanos criou uma nossa massa de atores políticos mais integrados às dinâmicas do Estado Nacional e serviram como base dos líderes populistas dos anos 40 e 5. Apesar de atrelar isso a uma espécie de herança do clientelismo rural, o que é questionável, Hobsbawm aponta como essa popularidade e força política desses líderes populistas estava pautada na realidade.

Os grandes nomes desse movimento se estabeleceram no poder ao, efetivamente, empreender grandes políticas e ações no governo que atendessem a demandas dessa nova massa trabalhadora urbana. Longe de um preconceito que imaginaria essa população inerte, a força dos políticos depende de seu desempenho, não promessas.

Isso se mostra muito verdadeiro, por exemplo, na Colômbia, na qual o Estado Nacional, efetivamente controlou cerca de 1/3 de seu território no auge das guerrilhas; e na Argentina, o governo federal ficou restrito por muito tempo a Buenos Aires. No Brasil, embora as revoltas provinciais e estaduais sempre fossem duramente reprimidas, os governos tiveram grande autonomia e força em assuntos locais.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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