Bandidos

Bandidos – Eric Hobsbawm

Tradução: Donaldson Garschagen – Editora Paz e Terra

Lançamento: 1969 / 2000 – Minha Edição: (4ª) 2010 – 280 páginas


Poucas figuras são tão terreno fértil para romances ou aventuras que o “bandido honrado”, o que tira dos ricos para dar aos pobres ou que desafia as autoridades para fazer a verdadeira justiça. O exemplo que você acabou pensar ao ler a frase anterior é, óbvio, foi Robin Hood, uma lenda criada na baixa idade média na Inglaterra, em algum ponto dos séculos XIV e XV, mas esse arquétipo permanece atual. Não é preciso vasculhar muito para encontrar algum personagem dos quadrinhos ou de filmes que se encaixe nessa descrição.

A razão de que se criam personagens dessa natureza desde Robin Hood na Idade Média, nos primórdios da literatura pulp no final do século XIX, em meados do XX com o Zorro, ou no XXI com o sucesso dos filmes de DeadPool ou o carisma de personagens como Han Solo; é porque esse arquétipo realmente existiu e continua existindo em figuras históricas. Aliás, eles sempre existirão porque são frutos das contradições do sistema econômico – ao menos é o que nos apresenta Eric Hosbawm neste livro.

Em uma de suas primeiras obras, ele estudou o que chamou de “rebeldes primitivos“. Diferentemente de grupos revolucionários que organizavam rebeliões de alcance suficiente para balançar as estruturas de poder, normalmente orientados em partidos ou movimentos burocráticos, os “primitivos” agiam por pura e simples revolta contra as conseqüências do avanço do capital, através de tumultos ou levantes pontuais – ainda que muitas vezes também avassaladores.

Dentre esses primitivos, uma das figuras que mais chamou a atenção do autor, e ele decidiu estudá-los especificamente, foi a categoria que ele classificou de Bandidos Sociais, dentre esses rebeldes “desorganizados”.

Então, como marxista, a preocupação de Hobsbawm nesta obra é identificar determinadas personagens históricas que se enquadram nesse arquétipo, confirmar sua veracidade, contar sua história, e, especialmente, apontar a profundidade, razões ou abrangência de cada um em sua rebelião. E aqui o britânico vai fundo nisso, são estudados os bandidos de todos os cantos do mundo.

Um famoso Haiduque servio.

É o Hosbawm em plena forma. Prepare-se para ver histórias sobre os bandidos sicilianos na Itália ou de bandoleiros na Andaluzia, ao sul da Espanha – minha avó jurava que a casa onde moravam, numa pequena vila nos arredores de Sevilla, havia sido comprada com o dinheiro recebido pela família de um “zorro” (provavelmente trava-se de El Pernales, conforme apontado por Hobsbawm aqui). Ou então sobre os Haiduks búlgaros, que incitavam levantes contra o Império Otomano; ainda sobre os Klepths e Komitadjis, que assaltavam nos Balcãs e Grécia. Além de claro, alguns casos mais próximos, como Pancho Villa e os revolucionários mexicanos, e, em especial Lampião e os cangaceiros.

Apesar de muito criticado por ter ousado criar paralelos entre realidades tão diversas, em vários pontos do mundo – ainda sobra para bandidos na Índia ou China, o historiador consegue chegar sim há algumas importantes conclusões. Como não poderia deixar de ser, todas relativas às varias contradições que os bandidos sociais apresentam.

Muito ligados a sua região de origem – a qual costumavam retornar ao final da carreira de crime – tinham um potencial político limitado apesar de causar profundas crises. Proliferaram na época da expansão do capitalismo – não há toa, os mais antigos atuavam no Reino Unido, França e Alemanha ainda no XVIII e XIX para existir até o XX na Itália, Espanha, América e Europa Oriental – e, nesse momento, podiam unir forças e mobilizar revolucionários. Ambos lutavam contra um inimigo comum, ou um dominador externo, como os Impérios Otomano e Austríaco, ou o Estado Nacional Burguês, que se consolidava.

Com exceções, claro, em especial no México, muita dessa resistência não se dava através de ideais revolucionários. Pelo contrário, não raras vezes, se simbolizavam através da reação, resgatando valores tradicionais ou religiosos, que fatalmente se chocariam com movimentos progressistas. Inclusive, em episódios eventuais, eram convencidos de que os revolucionários eram mais modernizantes e ameaçadores que as autoridades estabelecidas, tal como ocorrera no Brasil, na história contada mais abaixo.

Em um livro muito agradável, muito fácil de ler – Hobsbawm, detido em um tema mais específico, fica mais comedido com suas digressões costumeiras de exemplos da conchichina ou de uma província esquecida da Bielorrúsia – aparentemente o autor acaba concluindo que, apesar de ser fenômenos muito interessantes e sedutores por si só, os Bandidos Sociais realmente não vão muito além de Rebeldes Primitivos

Excelente (5/5)

APesar de pendurado em uma reflexão anterior do autor, o livro é um estudo completo e de valor em si mesmo; o tema é sedutor por natureza e a erudição de hobsbawm só o torna ainda mais atrativo. E tudo em uma leitura muito agradável, li praticamente em um dia.

Lampião e Prestes: Um episódio muito interessante analisado no livro é o curioso momento em que a história dessas duas grandes figuras do nosso passado convergem. Muitas vezes, de acordo com Hobsbawm, o banditismo, ainda que represente uma revolta contra um poder central ou estrangeiro, também se alia pontualmente a autoridades ou opressores locais, por sobrevivência.

Seria uma das explicações para o longevo reinado de criminalidade de Lampião; quando se via ameaçado por um determinado grupo político, ou tropas federais, buscava proteção ou aliança com algum coronel da região – que também colocava seus interesses alinhados com os cangaceiros.

Em um desses momentos, Lampião foi abordado pelo Governo Federal de Artur Bernardes com a missão de acabar com a Coluna Prestes, que viajava pelo Nordeste. Em acordo mediado pelo padre Cícero, em Juazeiro, o cangaceiro foi incorporado à Guarda Nacional, recebendo a patente de Capitão e incumbido de combater os revolucionários. No caso, tanto Cícero quanto os coronéis da região queriam, ao mesmo tempo, combater a revolta liderada por Luís Carlos Prestes e, também, evitar o máximo o possível a presença das forças armadas federais na região – interesse comum com Lampião, que deixaria de ser combatido temporariamente por ambas as partes; coronéis e federais.

(Ao final, o bandido desistiu da perseguição à Coluna após desconfiar das intenções do governo em honrar suas promessas de anistias passadas e futuras).


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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