Olho por Olho: comentários sobre Marighella

Poucas coisas são tão controversas em nosso passado como a resistência armada à ditadura militar. Para além dos terraplanismos históricos do último período, ressaltando torturadores e crápulas dos porões não apenas como heróis, mas como – puta merda! – vitimas dos “terroristas”, as ações dos grupos guerrilheiros são objeto de intenso debate entre os historiadores.

Concentrados entre 1968 e 1972, os levantes armados em oposição ao regime militar têm como apenas ponto pacífico, de concordância, entre os especialistas o fato de terem fracassado e visto o regime se fortalecer cada vez mais. É a história de uma tragédia. E justamente por isso, estudá-los (ou mesmo representá-los em filmes, seriados ou novelas) acaba sendo quase que sinônimo de tentar entender porque tudo deu errado.

A História de uma Tragédia

E as explicações são variadas, para citar algumas: 1) a invisibilidade dos movimentos na mídia da época – por efeito de censura, mas normalmente cumplicidade dos jornais e emissoras com a ditadura. 2) a falta de apoio dos partidos e movimentos sociais que ainda não haviam sido destruídos pelo regime. 3) Exatamente o fato da repressão, ao destruir movimentos e partidos, inviabilizar redes de comunicação ou órgãos de divulgação de oposição. 4) A falta de apoio popular. 5) E, a importante questão, de que, para alguns dos grupos armados, o objetivo não ser exatamente a derrubada da ditadura, eles também desejavam despertar uma revolução socialista no Brasil. Todas questões exploradas decentemente pelo filme Marighella.

Invariavelmente, se o porquê do fracasso é uma questão controversa, as consequências dessa derrota, são ainda mais complicadas de se debater. A grande dúvida nesse sentido é se a luta armada contribuiu de alguma forma com a queda do regime militar.

Tendo em visa que ela encerrou sua ofensiva em 1972 (o último foco no Araguaia foi debandado em 1974), e o regime durou até 1985 (ou 1979 ou ainda 1988, dependendo dos marcos utilizados), a resposta para essa pergunta tende a ser não. Para além da distância no tempo, uma questão importante é que os movimentos que participaram da derrubada da ditadura, como as greves do ABC, a campanha das Diretas Já ou a Constituinte, tiveram pouca relação com os grupos revolucionários da resistência armada. Apesar de compartilhar algumas figuras importantes, surgiram várias lideranças novas, métodos políticos, objetivos, discursos e ações diferentes entre um momento e outro.

É relativamente calmo dizer que o que se passou entre 1979 e 1988 não dependeu daquilo que ocorreu entre 1968 e 1972.

O problema é que a briga não pára por aí. Já que a luta armada não contribuiu com a queda do regime, há uma grave brecha que se abre na interpretação do nosso passado, a conclusão ser exatamente o oposto: ela teria ajudado a ditadura a endurecer a política nacional: quanto mais resistência e ofensiva de um lado, mais repressão se via do outro. A implantação do AI5, a principal medida autoritária da história do país, foi posterior ao início das operações armadas de oposição à ditadura; por exemplo.

Nessa visão, a luta armada permitiu que os militares avançassem cada vez mais contra os direitos da população. E, ao mesmo tempo, se legitimavam cada vez mais no poder, como defensores da sociedade brasileira, que estava sob ameaça real e imediata de sofrer o terrível “golpe comunista” e a mercê de violentos grupos terroristas.

“Olho por olho” ou “o ovo e a galinha”?

O longa começa com um grande e tensa seqüência do grupo de Marighella, a ALN, assaltando um trem que carregava (além de passageiros) armamentos para as Forças Armadas. Embalada com uma impactante trilha sonora, o ataque ao trem já mergulha a gente de cabeça no perigoso e tenso universo da resistência a um regime autoritário.

Essa sequência é um prenúncio (ou foreshadowing) das ações que os protagonistas irão empreender ao longo da narrativa. A história que o filme conta é linear, os eventos se passam um atrás do outro; exceto por essa cena inicial, que nos adianta que tipo de ações e dificuldades os personagens irão se deparar.

Logo após ela, voltamos ao tempo, a 1964, semanas depois do golpe, quando Marighella é baleado e preso em um cinema no Rio de Janeiro. E daí a narrativa vai seguindo o caminho normal: pulamos para 1967, quando já solto é expulso do Partido Comunista, e em seguida para 1968 com as primeiras ações armadas da ALN, indo até seu assassinato, em 1969. Apesar de estabelecer, cronologicamente, a primeira agressão como partida do governo ao protagonista, o começo do filme coloca, dentro da sua lógica interna, isto é, dentro da mensagem em que o filme, como texto, passa a nós, como leitores, que Marighella é quem agride primeiro.

Esse tipo de dilema se repete ao longo de todo o filme. Durante o assalto ao banco, os guerrilheiros acabam matando uma pessoa dentro do banco após um tiroteio; ela morre lá, enquanto um protagonista é baleado e acaba sendo socorrido na casa da mãe de uma das integrantes. Mas, em especial e mais grave, todo o arco envolvendo a participação americana na repressão estatal também refaz a mesma lógica.

Em um encontro com representantes das forças repressivas, o consultor americano dá dicas de como lidar com a oposição, tais como censura e tortura, mas ele alerta, em tom de brincadeira, que não deveria matar os presos políticos. Claro que dependendo do ponto de vista (o meu, inclusive) matar é mais humano que torturar indefinidamente; entretanto, o desfecho dessa cena é a morte do “diplomata” estadunidense pelos guerrilheiros. Novamente, quem eleva o limite da violência é a oposição.

Nesse sentido, excetuando-se o ataque no cinema, quem sempre ultrapassa esse limite da ação mais violenta até então são os guerrilheiros. Ou melhor, isso apenas se colocarmos a cena na ordem cronológica, porque na ordem em que é apresentada a nós, não é o caso; quem aparece em tela agredindo primeiro são os rebeldes.

Desde a primeira cena, a força das agressões por parte dos guerrilheiros é um crescendo estável e organizado: assaltos, atentados, assassinatos. Por outro lado, ao longo do filme, em suas imagens, acaba que o crescimento da violência por parte do regime é mais acentuado, aumenta de forma mais grave (e até mesmo mais desorientado). De um lado da moeda, o assalto ao trem é a primeira cena, enquanto do outro, as torturas só são apresentadas diretamente na tela (embora subentendidas em vários momentos) nos minutos finais de exibição; em cenas muito fortes.

Falsa simetria

Uma espécie de moto que o protagonista usa em vários momentos é o “olho por olho“; dando a entender que o que estava em curso era uma simetria no aumento da agressividade da luta política – cada lado aumentaria sua violência conforme a ação ou reação do outro. É uma visão razoável, afinal, progressivamente o regime foi fechando cada vez mais portas para a oposição dentro dos marcos legais: cada vez mais deputados eram cassados; em 1965 – após perder eleições estaduais – os militares extinguiram os partidos; no mesmo ano também tornou-se crime dar voz à pessoas com direitos políticos suspensos; e em 1968 uma portaria criminalizou a Frente Ampla entre Carlos Lacerda, o ex-presidente JK e o presidente João Goulart.

Isso tudo sem levar em conta exatamente a deposição de Jango e o golpe militar, a maior agressão feita à sociedade brasileira em sua história.

Entretanto, o filme parte do pressuposto que você já conhece intimamente isso tudo. Para além de um texto introdutório e alguns discursos inflamados de Marighella, muito pouco do que, de fato, se tratou o golpe militar e os anos iniciais da ditadura (que disparam o início da guerrilha) é apresentado. Wagner Moura apostou numa abordagem muito perigosa ao trabalhar com uma obra de arte de manifestação política; a de que concordamos previamente com a mensagem que ele está passando.

Insuficiente para explicar quem era o líder revolucionário, e como ele cativava as pessoas, por exemplo, também decide mostrar pouco do contexto político do regime. E, pior ainda, concentra toda a repressão estatal em um único personagem, o Delegado Lúcio, o que pode representar que as torturas ou censuras, por exemplo, eram ações individuais dos agentes públicos e não uma política de Estado – que foi (e é) a versão oficial das Forças Armadas sobre todo o período.

Com uma moral simplória, de que violência gera violência, o olho por olho como fio condutor da história acaba levando a nivelar por baixo a interpretação do filme. Nesse sentido, ganha importância a lógica de quem fez o quê primeiro; e, em muitas escolhas narrativas do filme, em roteiro, diálogos e imagens, quem agride mais forte antes é a oposição. O que, por sua vez, de certa forma pode fazer com que o filme passe a endossar a visão de que a resistência armada à ditadura teve o efeito contrário aos seus objetivos: ao invés de ajudar na derrubada do regime, apenas o fortaleceu.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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