O Assassinato de uma nação: como os Estados Unidos e a OTAN destruíram a Iugoslávia – Michael Parenti
Tradução: Clóvis Marques – Editora: da Vinci
Ano de Lançamento: 2002 – Minha Edição: 2023 – 238 páginas
Apesar de ter sua origem na I Guerra Mundial, fundado originalmente como o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, a Iugoslávia ficou associada ao Socialismo, implantado no país após a expulsão dos nazistas pelos Partisans. Justamente por isso, seu desmembramento foi associado ao colapso desse regime; e a península balcânica foi palco de guerras, guerras civis, limpezas étnicas, bombardeios e todo o tipo de infortúnio que advém desse cenário.
Entretanto, longe desse estigma que marcou o final de sua história, a Iugoslávia foi um dos modelos mais bem sucedidos, estáveis e democráticos de Socialismo, com uma grande organização através da autogestão. Além disso, foi uma da principais lideranças das relações internacionais do século XX, ao encabeçar o movimento dos não-alinhados. Neste livro, o cientista político estadunidense Michael Parenti, busca demonstrar como essa catástrofe, de Socialismo Democrático para total carnificina, foi fabricada.
A cronologia do assassinato
O autor não se aprofunda muito nas origens da Iugoslávia e sua experiência socialista; apenas relembra como o país passou a ter menos estabilidade após a morte de Josip Broz Tito, em 1980. E a constituição de 1974, extremamente avançada, permitiu mais autonomia para os constituintes daquela federação, mas passou a criar instabilidade política após a morte de Tito. Durante os anos 1980, e a crise generalizada despertada pelo neoliberalismo, a Iugoslávia, por ser não-alinhada, não fazia parte dos acordos econômicos do bloco oriental, e precisou recorrer ao mesmos organismos internacionais de financiamento que espalhavam a miséria no globo; como o FMI.
E aqui que começa o assassinato da nação de acordo com Parenti; para “acertar as contas“, a Iugoslávia recebeu as recomendações gerais – austeridade, corte de direitos, privatizações – mas também um curioso desmembramento dessa dívida entre as repúblicas constituintes. O que se tornou mais um vetor de instabilidade interna, além de, inevitavelmente, render à Sérvia, a maior dívida, pois era onde ficavam sediadas as principais empresas e instituições federais. Ao mesmo tempo, houve um ultimato do bloco ocidental para um desmembramento das eleições federais de 1990.
Mais uma consequência inevitável: os partidos locais que advogavam pelas diversas independências foram amplamente vitoriosos em todas as repúblicas constituintes, com exceção de Sérvia e Montenegro, além de resultados contestáveis na Bósnia. O autor apresenta como organismos da Europa Ocidental e dos EUA já atuavam com financiamento e consultoria aos líderes desses partidos secessionistas. A partir de 1991 o colapso efetivamente se inicia, com a proclamação de independência da Eslovênia; um território bastante homogêneo etnicamente, e mais distante da Sérvia, realizou a Guerra dos 10 Dias, ao neutralizar as tropas federais no local. Parenti também denuncia que tropas alemãs combateram na condição de “instrutores” dos eslovenos.

A crise realmente começa quando inicia-se o processo da secessão da Croácia, em 1992; atualmente todos os novos países mantiveram os territórios que já eram assim designados dentro da Iugoslávia – incluindo o Kosovo. Entretanto, este não era o plano dos croatas. Entre a Croácia, a Bósnia e a Sérvia havia uma profunda miscigenação e migração interna; e tratavam-se de povos muito diferentes – católicos, muçulmanos e ortodoxos respectivamente. A Sérvia alegava que as comunidades de maioria ortodoxa queriam (e de fato queriam) permanecer na Iugoslávia, assim como os bósnios também tinham uma significativa tendência de permanecerem na federação, já que a Croácia possuía uma política nacionalista muito agressiva, e assim temiam serem vítimas de limpeza étnica.
A guerra começava pela posse das regiões da Slavonia e da Krajina, de maioria sérvia, no território croata. No meio do caminho havia outro país, a Bósnia; e lá a divisão era ainda maior; praticamente metade de seus 51 mil km² era de maioria sérvia e a outra metade de maioria bósnia. Foi a ferocidade a partir dessa nova fase que acabou atraindo os olhos do mundo. A Croácia, já comprometida com as reformas neo-liberais, e com uma etnicidade mais próxima do ocidente, católica (até o Vaticano, na pessoa de João Paulo II, feroz anticomunista, entrou na briga), foi rapidamente eleita como heroína do conflito. Só que a situação era tão mais complexa, que a própria Bósnia ficou dividida (e permanece assim até hoje) em dois países diferentes, Bósnia Herzgovina, de maioria muçulmana, e a República Srpska, de maioria sérvia.

Na Srpska, o autor alerta, ficou evidente o papel colonial que a OTAN vinha desempenhando no conflito. Apesar da maioria sérvia e vontade de permanecer com a Iugoslávia, o país não só foi forçado a se separar, como teve seu território dividido em dois pelo Distrito Brcko, uma “área internacional”, que conecta as duas metades das porções sérvias. Dois presidentes eleitos em eleições consideradas democráticas pelo observadores internacionais foram afastados ao contrariar interesses da OTAN; Radovan Karadzic e Nikola Poplasen, em 1995 e 1998 respectivamente, um pela assinatura dos Acordos de Dayton, que encerraram a guerra, e outro pelo Alto Representante (veja abaixo), que também indicou nomeação de um primeiro-ministro e apoiou a dissolução do parlamento. Em meio a tudo isso, talvez o principal objetivo, o processo de privatização da economia da Bósnia era gerido diretamente pela OTAN, as propostas contrárias ao projeto privatista eram consideradas incompatíveis com o processo de paz.
Após o encerramento da Guerra da Bósnia, houve um pequeno período de estabilidade no que restava da Iugoslávia, agora restrita a Sérvia e Montenegro (houve ainda, a separação da Macedônia, muito pacífica, na qual deixava aberta a possibilidade de reintegração no futuro). Entretanto, logo na sequência, começou a crise no Kosovo, com a fundação do ELK (exército de libertação do Kosovo), em 1996. Essa província sérvia tinha um status bastante diferenciado. Com a Constituição de 1974, na prática, gozava da maior autonomia de todos os constituintes da Federação – algo que, ao longo dos anos, rendeu empréstimos internacionais de distribuição de verbas maiores que todos os demais entes da Iugoslávia. Com a crescente crise no país, mesmo antes do início das guerras civis, muita dessa autonomia passou a ser revogada e o racha entre os políticos locais e os nacionais se agravou.
Parenti não entra em detalhes prévios ao início da insurreição, mas durante os conflitos na Bósnia e na Croácia, as lideranças kosovares, na pessoa de Ibrahim Rugova, buscavam uma secessão pacífica nos moldes da Macedônia; especialmente porque a população local era muito pequena em relação ao resto do país e os albaneses não eram maioria absoluta da região. Entretanto, a partir de 1996, a insurreição se tornou aberta e o ELK passou a realizar inúmeros atentados na província; contra autoridades sérvias e locais, entendidas como resistentes ao processo de separação, inclusive publicando uma sentença de morte ao próprio Rugova. A situação foi escalonando até um conflito aberto entre as milícias e o que sobrara do exército iugoslavo em 1998, rendendo ações de violência severa uma vez que o ELK não era um exército regular.
No início de 1999, para tentar, supostamente, pacificar a situação, a OTAN chamou delegações kosovares e iugoslavas (multiétnica, e incluindo também kosovares de outras etnias) para uma conferência no castelo de Rambouillet, na França. Além de prever a independência da província, o acordo estipulava um cenário absurdo, no qual 30 mil tropas da organização seriam alocadas, inicialmente, no Kosovo, mas com livre passagem por todo território da Iugoslávia e com total imunidade às leis nacionais. A OTAN também poderia requisitar o uso ou interdição de todas as rodovias, ferrovias portos e aeroportos iugoslavos sem necessidade de arcar com custos ou seguir regulamentos locais; Michael Parenti denuncia também que foi contrabandeada exigência sobre privatização de bens públicos iugoslavos.

Como uma ironia da História, à época, a proposta foi comparada ao ultimato do Império Austro-Húngaro à Sérvia, em 1914, que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Um documento insano que só poderia resultar no conflito; a secretária de Estado dos EUA assumiu que se tratava de ultimato. Não foi ratificado pela Iugoslávia, o que resultou em uma campanha de bombardeio da OTAN sobre o país (incluindo o Kosovo) que durou 3 meses, resultou em mil militares mortos e 5 mil militares feridos, 2 mil mortos civis e 6 mil civis feridos (estimativas de 60% de civis mortos sendo no Kosovo); além da completa destruição da infraestrutura do país, com perdas estimadas em 29,6 bilhões de dólares . As bombas continham elementos de urânio empobrecido, tóxico e radioativo, ainda que em níveis baixos, e alvo de diversos processos e estudos para proibir seu uso. Não há conclusão sobre os danos da radiação causados à população da Iugoslávia; mas o país foi, literalmente, assassinado e reorganizado em 2003 como Sérvia e Montenegro.
O motivo do assassinato
No período ficou conhecida a expressão do “bombardeio cirúrgico”. Em 78 dias, a OTAN atacou a Iugoslávia com aproximadamente 23 mil toneladas de bombas, com o objetivo de “proteger” as minorias étnicas e apenas pressionar o governo federal; não seria uma guerra declarada contra o país. Para comparação, na Guerra do Iraque, os aliados dos Estados Unidos, em invasão, despejaram 29 mil – em um território 3 vezes maior. A OTAN nunca atuou em bloco durante toda a Guerra Fria, para o que ela exatamente foi criada, mas foi acionada pouco tempo depois de seu fim e realizou essas duas campanhas contra um país dentro da própria Europa, em território que correspondia a apenas 1,5% do continente naquele momento.

Nos dados apresentados do Parenti, as habilidades cirúrgicas da OTAN ficaram, realmente, bastante evidentes. A destruição da infraestrutura da Iugoslávia foi amplamente documentada na época, o artigo da wikipédia revela alguns dados: 38 pontes destruídas, 14 aeroportos, 21 depósitos de correios, 17 instalações de tratamento de água, 56 estradas e 19 ferrovias; nos serviços públicos, 47 clínicas e hospitais atacados, 100 escolas e universidades bombardeados, assim como 176 centros religiosos, culturais ou esportivos. Além disso, 82 indústrias e 123 instalações econômicas (minas, fazendas, transportadoras) também foram bombardeadas (na conta dos Sérvios, foram 164 indústrias destruídas) – o mais interessante é que absolutamente todos os alvos eram de propriedade estatal, nenhuma empresa privada foi alvo da OTAN.
Sem meias palavras, o autor denuncia claramente os objetivos da Europa Ocidental em realizar uma terceiro-mundização da Iugoslávia, levando a cabo uma completa privatização da economia do país – nos moldes que tentava se fazer na antiga União Soviética. Enquanto na Rússia, e outros países do antigo bloco oriental, houve uma terapia de choque na qual formou-se a classes de oligarcas que controlou a entrada de capitais; na Iugoslávia, a Federação não se encaminhou para esse processo e durante toda a década de 1990 resistiu à liberalização da economia, não permitindo a terapia de choque.

Partindo, justamente, para a balcanização no local onde o termo foi cunhado, seria mais fácil atacar países menores e de economia mais frágeis. Entretanto, mesmo os governos da Croácia e de Bósnia tentaram, de certa forma, controlar a abertura econômica – o que rendeu até mesmo golpes de estado ordenados pela OTAN, na figura do “Alto Representante” (veja abaixo) – e a Sérvia, em especial, tinha desejos diametralmente opostos.
A cobertura do assassinato
Boa parte do livro de Michael Parenti, um intelectual dos EUA, foca na cobertura realizada pela mídia estadunidense sobre os eventos e conflitos na Iugoslávia. Após a queda do bloco socialista, a mídia ocidental passou a vender uma espécie de ideia milenarista, de felicidade infinita proporcionada pela vitória do capitalismo; a ideia do Fim da História. A profecia não durou meses, ao final de 1991 caía a União Soviética, e no início de 1992 começavam as guerras iugoslavas – sem contar com a Guerra do Golfo, em janeiro de 91. Os teóricos milenaristas precisavam se desdobrar para explicar como seria possível uma tragédia nascer de algo tão maravilhoso quanto a restauração capitalista nesses países; os resultados foram bizarros e interferiram diretamente na cobertura jornalística da época.
Para Fukuyama, uma das importantes diferenças entre história e pós-história era a total aceitação da economia de mercado. Buscar programas, intervenções ou empresas estatais era algo primitivo, contra-evolutivo, e os governantes que por alguma razão não pensavam assim eram egoístas, pois a única razão para buscar fortalecer seu país seria um desejo egocêntrico e irracional de desenvolver seu governo em detrimento do mercado coletivo. Parenti não cita diretamente o filósofo americano, mas, do que ele nos apresenta, essa linha de raciocínio está sempre presente: o governo iugoslavo era irracional e belicoso por não aceitar a abertura de mercado, ao passo que os líderes das novas repúblicas tinham essas qualidades racionais e desejavam a paz, ao apoiar o neoliberalismo.
Enquanto isso, no trágico Choque de Civilizações, Samuel Huntington explica que as guerras da Iugoslávia tratavam-se da disputa entre as civilizações ocidentais (Croácia), ortodoxa (Sérvia) e muçulmana (Bósnia) e, por isso, foram tão sanguinárias, mas, ao mesmo tempo, “naturais”, para corrigir a irracionalidade que era a Iugoslávia. Para explicar por que o ocidente se posicionara a favor da Bósnia, ele diz que foi para seguir o caminho do “bem”; simplesmente inacreditável um acadêmico escrever isso, mas também foi a postura de Tony Judt.
Nesse sentido, o que se operou foi uma difamação completa do governo e autoridades iugoslavas. A cobertura jornalística foi uma loucura, comportando-se como abutres em busca de qualquer história trágica de guerra, os repórteres do bloco da OTAN publicavam qualquer coisa. Havia notícias de recompensas dadas aos sérvios por cada criança morta; que os sérvios haviam criado campos de estupro para garantir uma reprodução industrial de crianças sérvias; ou médicos sérvios que implantavam fetos caninos em mulheres muçulmanas (teria ocorrido até um parto). Como deve-se imaginar, nenhuma dessas notícias tiveram evidência alguma encontradas durante ou depois dos conflitos.

Na mídia de massa dos anos 1990 e 2000, os sérvios frequentemente eram retratados como vilões de filmes e seriados americanos; na primeira temporada de 24 Horas, o grande vilão era um criminoso de guerra sérvio que desejava se vingar de Jack Bauer e do Senador Palmer por terem atuado na Guerra da Bósnia; na terceira temporada de Arquivo X, uma sequência de assassinatos é iniciada após alguém ser sugestionado a enxergar um general iugoslavo que frequentemente estava nos noticiários pelo papel de limpeza étnica; e Atrás das Linhas inimigas, blockbuster de 2001, retratava um piloto americano perdido em território bósnio fugindo de seus executores sérvios – e rendeu outras 4 continuações.
Foi mais de uma década de dedicação da mídia americana para transformar os iugoslavos em uma espécie de sucessores dos nazistas na Europa, seres irracionais e carcomidos por ódio – o que era refletido na não-aceitação do livre mercado. Convenientemente ignorou-se que as limpezas étnicas ocorreram em todos os lados do conflito; sérvios, sérvios-croatas, croatas, bósnios-sérvios, bósnios-muçulmanos… cada facção buscando controlar os seus territórios decidiu por expulsar ou executar as demais etnias. Da mesma forma, as próprias tropas da OTAN realizaram sua boa parcela de crimes – vamos relembrar que todos os acordos propostos exigiam total imunidade de oficiais do bloco que estivessem em campo, por exemplo.
A campanha para justificar o bombardeio, já após a guerra, na crise do Kosovo, precisou dar um novo upgrade – mais uma nova campanha de ataque ao país. Originalmente, o ELK era tratado, inclusive na imprensa ocidental, como um agente desestabilizador dos Balcãs; um grupo narco-guerrilheiro que importava drogas para a Europa. Para transformá-los em lutadores da liberdade, foi necessário re-sintonizar o discurso sobre a Iugoslávia. O comportamento de abutres em busca de carniça retornou, e uma caçada em busca de massacres e corpos tomou a província; qualquer notícia sobre execuções se transformavam em novos genocídios. Um homem encontrado morto no poço de sua fazenda se transformou em onda sobre como a moda dos sérvios agora era esconder corpos em poços; 4 cadáveres em uma vila foram noticiados como a possibilidade de execução de 300 civis; uma vala comum com 7 corpos foi apresentada como um massacre de mais de 350 civis.
Trocando uma versão por outra?
Esses são os pontos mais controversos de toda a obra, todavia. O trabalho do autor é claro, e sabemos onde ele quer chegar; desnudar o discurso de demonizar a Iugoslávia e a Sérvia – levando a economia contrabandeada. Em uma zona de conflito de guerra civil, é esperado encontrar valas comuns com alguns corpos sem identificação, não há mais ou menos maldade envolvida. Entretanto, há alguns trechos mais complicados de digerir, como quando ele cita que apesar das alegações de 7 mil mortes em uma determinada cidade, foram exumados “relativamente poucos” cadáveres – sem citar cifras, mas mesmo se citadas, é uma posição delicada julgar o que são poucos ou muitos mortos.
O pior de tudo é que, no caso, ele se referia ao massacre de Srebenica, o maior do conflito e o maior da Europa após a segunda guerra. Até o momento da publicação do livro, não havia cifras conclusivas, e não haviam sido encontrados corpos correspondentes aos desaparecidos – cerca de 8 mil. À época, as mais esdrúxulas teorias foram criadas: os bósnios-sérvios enterrando e desenterrando corpos pelo país, como espécie de cemitérios ambulantes; ou teriam colocado em minas e depois demolindo; ou, ainda, dissolvido as vítimas em ácido. Parenti ironiza, com razão, tudo isso, entretanto, pouco tempo depois, foram, fato, identificados 6,8 mil corpos enterrados em diversos pontos da cidade de forma desordenada – difícil considerar “poucos”.

O livro de Parenti é um esforço grandioso e didático de uma análise daqueles eventos; entretanto não sem suas controvérsias. O autor abre o livro com uma ponderação sobre usar fontes sérvias; se as fontes ocidentais, muito enviesadas, são aceitas como confiáveis, ou no mínimo dignas de serem confrontadas, porque não as iugoslavas? A lógica tem seu sentido, mas não é sólida o suficiente para vencer, então, uma simples posição que trocamos uma versão por outra. O trabalho acadêmico ou jornalístico, tão criticado pelo autor, pressupõe confronto e cotejamento de fontes. Coisa que ele não faz totalmente: há alguns momentos desconfortáveis, tais como contemporizar que o exército iugoslavo atacava civis pois tinha a “triste tarefa de distinguir combatentes paramilitares da população comum”.
Ao invés de fazer essa operação de igualar fontes “ocidentais”, provenientes de países da OTAN, poderia complementar com outras informações. Por exemplo, a concentração de bósnios-muçulmanos em Srebenica deveu-se a uma ação deliberada das forças de ocupação do bloco, composta por tropas holandesas, ao tentar criar um “santuário” para essa etnia no local (que ficava sobre a administração da Sprska). Algo que já seria problemático por natureza (forçando uma limpeza étnica “do bem”), não levou em conta que a cidade estava, antes disso, ocupada por forças muçulmanas que fizeram sua parcela de crimes por lá – inclusive, seu comandante foi condenado no tribunal de Haia posteriormente por essas mortes. As forças bósnias-sérvias expulsaram os holandeses e buscaram vingança dos eventos anteriores. Nada justifica, mas a tensão étnica foi potencializada pelo papel colonial da OTAN, tão denunciado pelo autor; e seria mais vantajoso que relativizar o genocídio – armadilha que ele cai ao justificar seu uso das fontes.
Ainda assim, diante do colapso da Iugoslávia, um acontecimento histórico tão marcante mas que, ao mesmo tempo, temos acesso a apenas uma única ótica dos eventos – resultado do bombardeio da mídia ocidental sobre nós – ter acesso a uma obra como esta, mesmo que seja apenas para funcionar como contrapeso, é um passo fundamental.
Muito Bom (4/5)
UM livro muito importante por nos dar acesso a outras versões sobre o colapso da iugoslávia, evento que fomos massivamente bombardeados por propagandas da otan. Entretanto, não sem suas controvérsias, não é suficiente trocar uma versão por outra, como em alguns momento parenti parece fazer.
País Maravilha – Provavelmente o iugoslavo mais conhecido do Brasil é o jogador de futebol Dejan Petkovic, nascido na pequena cidade de Madjanpek, na fronteira da Sérvia com a Romênia. Muito talentoso, após ter sido revelado, foi vendido para o futebol espanhol, no Real Madrid, mas, devido exatamente às guerras iugoslavas, ele acabou rodando até ficar sem clube em 1997 e teve oportunidade de jogar no Brasil, o que ele imaginava que abriria novamente as portas do futebol europeu por ser a liga mais forte fora do velho continente.
Nunca mais voltou – especialmente porque ele tinha grandes problemas com os dirigentes da federação da Iugoslávia/Sérvia e Montenegro. Em mais de uma oportunidade, dada a excentricidade de sua origem e seu enraizamento no Brasil, ele é questionado sobre a “infância difícil” na terra natal. E sempre quando recebe oportunidade de responder, questiona frontalmente essa narrativa da Iugoslávia como um verdadeiro inferno na Terra. Em um desses momentos, numa entrevista à Ana Maria Braga ele disse que lá era um “país maravilha“.
Alto Representante – Uma das coisas mais bizarras foi a instalação desse cargo na Bósnia após os Acordos de Dayton, em 1995, e que continua existindo até hoje, com 8 homens assumindo o posto, desde então. Indicado por um conselho de representantes da forças que invadiram o país durante a guerra civil (países da OTAN), ele tem poderes que ultrapassam os de todos os outros governantes do país; e, após um incremento de suas competências em 1997, com capacidades quase que absolutistas.
O alto representante pode, dentre outras coisas, anular leis votadas pelos órgãos bósnios, e afastar qualquer oficial eleito ou funcionário público: em 1998, o presidente eleito Nikola Poplasen, foi removido do cargo após uma nomeação ministerial que foi considerada contrária aos “princípios da paz”, estabelecidos pela OTAN. Naquela oportunidade, o Alto Representante, ainda impediu que a campanha eleitoral fizesse referência ao primeiro governo do país, também afastado, após os Acordos de Dayton.
Oligarca à balcânica– Uma história curiosa que o autor compartilha e explica bem o que estava em jogo é a figura de Milan Panic: um imigrante iugoslavo que residia nos EUA desde os anos 1950 e lá fundou uma Big Pharma, a ICN (atual Bausch Health). Em 1991, sua empresa passou a adquirir várias farmacêuticas do bloco oriental; dentre elas a Galenika, a principal estatal do ramo no seu país natal e por lá ficou. Ele se aproximou do governo, buscando financiar campanhas de vacinação e distribuição de remédios, e chegou a ser nomeado primeiro-ministro e ministro da defesa; exatamente no início das guerras.

Ele concorreu ao cargo de presidente da Sérvia em 1992, como candidato patrocinado pelo ocidente, mas foi derrotado por Slobodan Milošević e gradualmente perdeu força – Parenti denuncia que ele articulou greves para desestabilizar a política iugoslava – e voltou aos Estados Unidos de onde passou a “buscar a paz” em conjunto com o Governo Clinton. Suas empresas permaneceram intocadas até 1999, quando ele voltou a se manifestar, na crise do Kosovo, e a ICN foi ocupada pelo governo iugoslavo e entregue à gestão dos trabalhadores – a fábrica foi destruída pelo bombardeio da OTAN. A figura de Panic, retratado como grande bilionário e filantropo pelos povos eslavos, era bem provável que seria análoga aos oligarcas russos, mas no processo iugoslavo de abertura econômica, se controlado pelo ocidente.
Líder revisionista – o primeiro presidente da Croácia, e líder do país durante as guerras, Franjo Tudman, acabou sendo conhecido também por sua carreira como “historiador”. Seu livro, com o sugestivo título Desertos da Verdade Histórica, tinha como objetivo repensar o papel dos croatas na história da Iugoslávia. A Croácia existiu como país independente durante a ocupação nazista na península balcânica, governado através da milícia Ustashe (cujos símbolos e iconografia são os mesmos adotados pelo governo atual), perseguindo diversas minorias na região – e o que não faltavam eram minorias na região de população eslava.

O principal centro de extermínio foi o Campo de Concentração de Jasenovac, administrado pelo governo croata de então. Na memória da Iugoslávia, se tornou um grande marco da ocupação nazista. Tudman decidiu realizar um revisionismo reduzindo o número de mortos, minimizando os prisioneiros eslavos, e explicando que o local era apenas um campo de trabalho, não de extermínio. Conforme foi se aprofundando em seus devaneios, escorregou mais do que devia, justificando práticas de limpeza étnica como algo divino para nações escolhidas. Alega, ainda, que a morte de judeus no holocausto foi muito menor – “apenas” 900 mil e não os 6 milhões normalmente aceitos – e que os verdadeiros responsáveis pelas mortes em Jasenovac eram os judeus colaboracionistas e não a Ustashe.
Na edição em inglês do livro, a tradução tratou de suavizar todas essas passagens – que inclusive explicavam como o povo judeu era uma nação infeliz de pessoas que sucumbiram as suas próprias ambições. Tudman foi o único dos líderes dos Estados envolvidos na guerra a não ser confrontado com acusações no Tribunal Penal Internacional; foi considerado um grande estadista, era idolatrado pelo Papa João Paulo II, e um dos principais artífices da paz.
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