A Revolução Palestina de 1936 a 1939: antecedentes, detalhes e análise – Ghassan Kanafani
Tradução: Letícia Bergamini Souto – Editora: Expressão Popular
Ano de Lançamento: 1972 – Minha Edição: 2024 – 122 páginas
Um dos lemas iniciais do sionismo era “uma terra sem povo para um povo sem terra“, sendo essa terra, a Palestina, com a formulação se popularizando no início do século XX. Como a região não era um local sem habitantes, o uso dessa frase é polêmica é suscita debates até hoje; mas uma prova de como sim havia um povo com terra na região é a Revolta de 1936-39 dos árabes contra o domínio britânico do local.
Neste pequeno livro, o escritor palestino Ghassan Kanafani faz uma análise dos eventos ocorridos na Palestina a partir de abril de 1936. Quando as forças britânicas prenderam e mataram al Din al-Qassam – um importante revolucionário árabe contra a colonização franco-britânica do Levante – a população palestina irrompeu em uma onda de greves nas cidades e escaramuças contra tropas britânicas no interior, movimento que ficou conhecido como a Revolução Palestina.
O autor, conhecido mais por sua produção de ficção, repleta de grandes romances sobre refugiados da região, aqui nos apresenta uma breve mas detalhada análise marxista, no sentido bem clássico do termo – até me lembrou o trabalho de Pierre Villar sobre a Guerra Civil Espanhola. Temos aqui análise de antecedentes políticos e econômicos, classes e frações de classe, até mesmo a luta entre burguesia e lideranças feudais; tudo que o podemos esperar de alguém que se propõe a essa tarefa.

Nos apontamentos sobre o contexto da revolta; Kanafani observa como nos anos 1920 e 1930, o influxo de capital aumentou muito na região. Passando do domínio do caduco Império Otomano para o Império Britânico, os investimentos ocidentais entraram no país em grande volume (se comparado ao período anterior) – e, especialmente, a partir da Declaração de Balfour, os capitais provenientes de migrantes judeus, vindos da Europa e, assim, muito mais refinados que os dos árabes. A colonização britânica passou a incentivar muito o povoamento da região por sionistas, que, por natureza e por contexto, mantinham seu capital girando dentro do seus grupos.
Nos dados do autor; em 1935, ano anterior à rebelião, a indústria palestina era composta de 1.212 empresas, destas, 872 era de capital judaico; o que correspondia a cerca de 13 mil empregos gerados pelos investimentos de migrantes contra apenas 4 mil gerados pelos árabes locais. Da mesma forma, as concessões de serviços e obras públicas pelo governo britânico eram 90% dedicadas à empresas judias; e, assim, gerando uma intensa disparidade salarial. Em média, em dados de 1937, os trabalhadores judeus recebiam 145% a mais que os árabes – a diferença em alguns setores variava até 433%.
No campo, a situação era ainda mais drástica. O mandato britânico, sob o pretexto de modernização da região, incentivava o registro e negociação de terras. Novamente, com o incentivo da metrópole, a imensa maioria de propriedades eram compradas pelo capital judaico; contando com a ajuda de “latifundiários” locais, que recebiam valores altos, dezenas de milhares camponeses foram despejados de terras que foram vendidas sem sua anuência com valores irrisórios – gerando uma massa de trabalhadores sem-terra. Para os pequenos proprietários árabes, a proporção dos impostos, “ajustados” a modernização, e, em 1930, aproximadamente 35% da renda anual dos camponeses árabes era convertida em impostos e juros.
É um contexto muito parecido com o que encontramos nas análises de Mike Davis em Holocaustos Coloniais. A “modernização” da economia palestina pelo Império Britânico, através do capital dos colonos judeus vindos da Europa, foi esmagando a cultura e modo de vida local; obras e investimentos empurraram para a pobreza a população nativa.
Após a discussão dos antecedentes, que toma mais da metade do texto, e é a parte mais interessante, entramos de fato na revolução. Como o objetivo é mais uma análise de conjuntura e menos sobre os eventos, há algumas lacunas aqui e ali da cronologia do que houve no período – aquela olhadinha no artigo em inglês da Wikipédia sempre ajuda. Como, por exemplo, em determinado momento ele aponta que a rebelião teria começado em 1935 com o movimento Qassamita (referindo-se ao líder rebelde assassinado que deu origem aos motins, al-Qassam), mas depois utiliza 1936 normalmente.

Em todo caso, o que recebe o destaque é a explicação da derrota da revolução: normalmente dividida em duas fases, a de 1936, com o foco nas sublevações urbanas através de longas e importantes ondas de greves, e a de 1937-38, mais aguda em combate e ataques no campo. O cerne da análise de Kanafani está no problema das lideranças políticas da palestina na época. Com uma burguesia industrial muito fraca (e perdendo muito espaço para os capitais judaicos), fragmentação em diversos partidos nacionalistas criados nos anos 30, sindicatos também descentralizados; a cabeça do movimento ficou com o que o autor classifica de “lideranças clérigo-feudais“.
Como o próprio nome denuncia, líderes religiosos e grandes proprietários de terras que exploravam os camponeses, marginalizados pelo domínio britânico, se tornaram os homens fortes do movimento popular – representados publicamente, em menor medida, pelos comerciantes urbanos e intelectuais, través da formação do Alto Comitê Árabe, liderado pelo mufti de Jerusalém (um cargo que mesclavam funções administrativas e religiosas dos locais sagrados da capital), Amin Al-Husseíni, uma figura extremamente complexa (a qual Kanafani é extremamente crítico).

Bastante desorientadas e divididas, essas lideranças em buscaram, em um momento, se aproximar dos líderes sionistas para juntar-se contra o domínio britânico – o que logo se mostrou equivocado. Em outro, atuar atrás da ajuda das monarquias árabes vizinhas – Transjordânia, Iraque, Arábia Saudita – que, também sob o domínio britânico, atuaram buscando pacificar o cenário político sem ganhos reais – algo realizado ao final daquele ano.
Após a paz, o império britânico organizou a Comissão Peel para investigar os eventos na Palestina e propor reformas administrativas; a solução encontrada foi assumir a incapacidade do Mandato Britânico de governar a região e iniciar a partição da região em dois estados, um árabe e outro judeu (e uma terceira zona internacional referente às localizações sagradas). Kanafani denuncia a manobra, apoiada pelas demais monarquias, como direitista e conservadora; e o resultado foi colapsar a liderança do movimento palestino. Com raríssimas exceções, os árabes não aceitaram a proposta – que favorecia os principais centros urbanos no estado sionista e não garantia uma independência – mas também não havia acordo do que fazer e tentaram, até mesmo, negociar com os sionistas um novo movimento anticolonial, pois estes também estavam descontentes com a proposta.
Os diversos partidos políticos nacionalistas – que o autor ironiza, dizendo que correspondiam a, no máximo, 10% dos envolvidos – desapareceram ao não saber como se pronunciar; o Alto Comitê foi colocado na ilegalidade e al-Husseíni, que era visto até com simpatia pelos britânicos, recebeu mandato de prisão – Kanafani disse que ele foi forçado “recuar para frente” ao exilar-se no interior e inflar a revolta, que agora entraria em uma fase majoritariamente camponesa e combate armado aberto entre milícias palestinas descentralizadas e as forças coloniais no interior do país.
Diante desse cenário, a resposta britânica foi muito mais agressiva e decisiva, com a execução, encarceramento ou fuga dos principais comandantes rebeldes, em especial a de Abu Kamal, e, vencendo a revolta na força bruta após dois anos de combate. A campanha toda resultou em 5.032 mortos e 14.7 mil feridos entre os árabes – mas o autor alerta que, em números per capita, analisando de acordo com a população árabe da Palestina, seria o equivalente a morte de 200 mil mortos no Reino Unido (ou 1 milhão de mortes nos EUA) no mesmo período.
Kanafani, todavia, aponta que durante 1938 o domínio britânicas ficou nas cordas; cidades inteiras eram controladas por rebeldes – a própria Jerusalém ficou nessa condição – e a repulsa aos ingleses era generalizada. O que foi decisivo para mudar o rumo e garantir a vitória colonial fora a aliança com os sionistas; com a criação da Polícia Auxiliar Judaica, posteriormente renomeada Polícia dos Assentamentos Judaicos, que, em 1939, contava com 14 mil homens treinados e equipados pelos britânicos. Além de engrossar as tropas repressivas, ela passou a empregar os trabalhadores judeus mais pobres, que passavam pela mesma crise econômica e política que os árabes; diminuindo o apoio popular ao movimento.

A derrota dos rebeldes palestinos nas mãos da aliança entre os colonizadores britânicos e colonos sionistas é o que selou o destino da região e permitiu as condições para a guerra de 1948, quando as milícias judaicas realizaram limpeza étnica das principais cidades da Palestina sob o olhar dos britânicos, deslocando mais de 700 mil civis e fundaram o Estado de Israel – essa foi a principal conclusão do autor. No geral, a análise é muito boa e “técnica”, na falta de melhor palavra, mas Kanafani parece-me depositar muita responsabilidade do fracasso na questão das lideranças. Todas são duramente criticadas, individualmente em alguns casos, o que pode ser perfeitamente plausível.
Mas também deixa subentendido uma espécie de pureza do movimento popular – um cacoete comum na esquerda – corrompida, ou pior, desperdiçada e ou mau-aproveitada. O que paradoxalmente acaba criando lacunas justamente nesse ponto; por exemplo, a Palestina teria ficado 6 meses em greve geral organizada pelo Alto Comitê Árabe – o qual Kanafani é muito crítico – então quem teria verdadeiramente organizado esse grande movimento? Quem eram os sindicalistas? Ou era puramente espontâneo? Ainda ele fala sobre o papel importante dos intelectuais na preservação da cultura árabe, mas não também não fica bem claro quais os símbolos do nacionalismo Palestino (e são citado os partidos com esse teor, muito pouco explorados); havia identificação da população com eles? E a parte relativa à revolta rural, que o próprio indica como o “ventre da revolução“, praticamente não são citadas lideranças; e, não coincidentemente, a própria explicação da derrota camponesa, ou mesmo o que os eventos que a encerra, são pouco elaboradas.
Lembrando que ele era um militante integral do movimento palestino da época, não podemos esquecer que é uma análise com objetivos políticos delimitados. Mas observando que as conclusões de Kanafani levantam coisas como: 1) a fraqueza do movimento palestino, era composto por lideranças conservadoras ou descentralizadas, incapazes de criar um verdadeiro movimento nacionalista; 2) a posição dos países vizinhos, que pensavam mais em seus interesses imediatos que em apoiar uma nova nação árabe; e 3) o apoio das potências internacionais aos sionistas, e a disposição destes em participar de qualquer repressão aos povos árabes; vemos como todas as suas análises, independente de objetivos e agendas daquele momento, ainda permanecem atuais.
Muito Bom (4/5)
Uma rápida e aguda análise – e, por isso mesmo, não tão introdutória – desse movimento esquecido mas decisivo para a história contemporânea, que tem sua mansagem política mas, mesmo 50 anos depois, se mantém atual.
Notas de Rodapé: por ser um livro curto (originalmente publicado como uma série de artigos em inglês), ele conta com alguns elementos pré e pós-textuais; ambos bastante singelos, ainda que bons. Acho que poderíamos ter alguma encorpada na edição brasileira, talvez alguma cronologia ou um texto mais direcionado a um resumo factual, pois são eventos bem pouco conhecidos por aqui e a análise de Kanafani não tem essa preocupação. Em substituição a isso, a Expressão Popular adotou uma opção que não gostei, encheu o texto de enormes notas de rodapé: 164 notas até a página 113.
Além de dar uma truncada na leitura, algumas são totalmente dispensáveis, explicam coisas que já estão subentendidas no texto. A nota 158 explica que a Polícia Supranumerária Judaica era uma força policial composta por voluntários judeus; ou que são explicados na sequência, a nota 4 explica o que foi o Acordo de Cairo, sendo que a frase imediatamente depois da nota, no corpo do texto, começa com “tratava-se de um acordo que…” prossegue com outra explicação da mesma coisa.
Assassinado por terroristas: o autor é nascido em Acre, no norte da Palestina, em 1936, ainda sob o domínio britânico, coincidentemente, dias antes do início da revolta. A família foi expulsa por milícias sionistas após o estabelecimento de Israel, em 1948, vindo a se exilar na Síria, onde ele se formou em Literatura e foi professor em um campo de refugiados palestinos. Com o contato com seus conterrâneos, foi se radicalizando em ações e obras, se tornando um prolífico escritor de romances em árabe sobre o drama dos palestinos.

Também passou a escrever em não ficção ao participar de periódicos políticos ligados à causa Palestina – especialmente após a Guerra dos Seis Dias, quando Israel ocupou os territórios que deveriam compor o estado árabe na região, em 1967. Cada vez mais radicalizado, ele fez parte da fundação da Frente Popular de Libertação da Palestina, um dos grupos armados da OLP, e gradualmente tornou-se seu porta-voz, redigindo programas e comunicados.
Ele foi ligado ao atentado ao Aeroporto de Lod (atual Ben-Gurion), no arredores de Tel Aviv, em 1972, quando três integrantes do Exército Vermelho Japonês abriram fogo contra passageiros civis no terminal, matando 26 pessoas. Kanafani teria posado para uma foto com esses japoneses alguns dias antes, e tornou-se de alvo do Mossad, que o assassinou em atentado a bomba, em seu carro, no centro de Beirute, naquele mesmo ano. Os terroristas israelenses assassinaram também sua sobrinha de 17 anos, que pegava uma carona com ele.
Kufiyah: o tradicional lenço associado à identidade palestina ganhou contornos políticos nestes eventos. Normalmente quadrado com padrões xadrez ou de listras, em preto-e-branco, era utilizado pelos camponeses para proteção do sol durante a labuta. Com a proeminência dos combates rurais, a polícia britânica passou a relacionar o adorno com os rebeldes e, assim, focar a abordagem repressiva em seus usuários. Para dificultar o trabalho das forças coloniais, os simpatizantes passaram a usá-lo, mesmo nas cidades; o que o transformou em símbolo da luta por liberdade daquele povo.

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