As big-techs e a Guerra Total

As big-techs e a Guerra Total: o complexo militar-industrial-datificado – Sérgio Amadeu da Silveira

Ano de Lançamento: 2025 – Minha Edição: 2025 – 138 páginas


Ao final do século XX, com as guerras pós-guerra fria, com o perdão da redundância, havia uma espécie de previsão de que os conflitos seriam mais “limpos”. Com o avanço da tecnologia, da comunicação aos armamentos em si, esperava-se que as ações bélicas seriam mais direcionadas; sem grandes danos à população civil. A expressão bombardeio cirúrgico, apesar de já existir desde os anos 60, se popularizou a partir da Guerra do Golfo, em 1991; quando a rápida derrota do Iraque, em cerca de um mês, foi muito associada às ações aéreas direcionadas.

As ações da OTAN na Iugoslávia, poucos anos depois, deveriam servir de alerta. De fato, as operações militares, áreas especialmente, se tornaram muito mais precisas do que jamais poderíamos imaginar. Se na década de 1940 os Estados Unidos construíram réplicas de cidades alemãs e japonesas para entender (e otimizar) a disseminação dos efeitos destrutivos das bombas, em 1999, os explosivos eram capazes de distinguir instalações privadas (de capital europeu e americano) das estatais iugoslavas, destruindo apenas estas últimas.

Três décadas depois, a inteligência israelense conseguiu assassinar 40 pessoas e ferir, pelo menos, outras 4 mil no Líbano com o acionamento de bombas remotas em bipes, em um dos ataques terroristas mais inéditos e impressionantes da história.

A complexidade daqueles atentados vêm de diversas ordens, da fabricação e distribuição desses aparelhos sabotados, ao acionamento a distância, mas, especialmente, na seleção dos alvos. A maioria das vítimas foram civis que estavam ao redor das explosões, mas como os israelenses sabiam quem iria adquirir e portar aqueles aparelho? Não se trata exatamente sobre este caso, embora ele seja citado, mas Sérgio Amadeu explica como uma aliança entre as big-techs e as forças armadas das potências miltares estão inaugurando uma nova era de guerra e morte no planeta.

Hospital lotado em Beirute após atender várias vítimas dos ataques terroristas israelenses no Líbano, em 2024, com a detonação remota de pagers de alvos de interesse.

Em Tecno-Feudalismo, Yanis Varoufakis destaca o papel dos servos-das-nuvens; que seriam os usuários das plataformas. A partir do uso das redes sociais, marketplaces e aplicativos, nós voluntariamente contribuímos com dados para as empresas donas deles – desde localização, a hábitos de consumos e especificações dos aparelhos. E, elas, por sua vez, têm importantes ativos nas mãos (a datificação) e vão comercializá-los sem cerimônia, e com a nossa autorização, através dos termos e condições que aceitamos sem ler.

Desde a década passada, funcionários das bigtechs tentam denunciar que Google, Amazon, e afins estão vendendo sua base de dados (absolutamente civil e não beligerante) para diversas Forças Armadas – especificamente Estados Unidos e Israel. Um dos empreendimentos mais famosos apontado pelo autor é o projeto Maven, que está ativo e, posteriormente à publicação do livro, foi o responsável pela elaboração e ataque de mil alvos em um único dia do atual conflito com Irã.

Essa eficiência toda é ganha através do processamento dessas informações pela “IA realmente existente“. Diferentemente do que o nome de inteligência artificial nos sugere, não há um aprendizado real ou um pensamento por parte da máquina e sim uma série de cálculos probabilísticos para construir uma frase. No exemplo dado por Sérgio Amadeu; se solicitarmos a IA uma citação de algum autor (como Max Webber), ela não irá consultar diretamente o livro pedido, mas irá gerar uma resposta através de padrões extraídos de textos de treinamento. O resultado pode ser o mesmo mas o caminho é totalmente diferente (e manipulável). Eu fiz alguns testes com os livros na mão e, de fato, não recebi exatamente a mesma citação que tinha separado do texto fixo – o que podem ser, por sua vez, diferenças de tradução ou edição em alguns dos casos.

Quando descemos a alguns níveis de complexidade e informação solicitada aos modelos de IA, esse caminho faz toda a diferença. O autor apresenta como, na filosofia da guerra, a ética do guerreiro está sendo substituída pela ética do caçador; que é uma prática unilateral: ele caça e executa a presa, que, por sua vez, não faz parte do ritual. Em tempos de paz e livre acesso de informações, as nações estão mapeando a população de potenciais inimigos através da aliança entre a IA realmente existente, governos e empresas de tecnologia.

Essa foi a prática do Projeto Lavander, utilizado pela inteligência isralense para definir os alvos do atentado do início desta resenha. Como também indicar diversos pontos de bombardeio durante os ataques à população da Faixa de Gaza – fontes trazidas pelo autor indicam que, em menos de um mês, a lista de pessoas a serem atingidas era de 37 mil nomes, construída antes das hostilidades. Isto é, todo mundo que acessa redes sociais e marketplaces se torna um futuro beligerante dessa guerra virtual.

E o mais aterrador – e que provavelmente foi a base desse projeto segundo o livro – é a doutrina dos “alvos em contexto“, que busca indicar pessoas que poderiam se tornar ameaças. Através do monitoramento e processamento contínuos de informações em redes sociais pelas IAs de Defesa, seria possível eliminar pessoas que se tornariam militantes em caso de conflitos, a partir de serem simpatizantes de alguma ação ou grupo, ou terem contato com as pessoas desses círculos – de modo a fazer uma guerra cada vez supostamente mais limpa e precisa. Essas ideias tão humanitárias e éticas foram retiradas por Sérgio Amadeu de um livro de um general americano que pode ser comprado por 20 reais na Amazon (ou lido de graça através de assinatura).

Quando conectamos os pontos, verificamos que os governos imperialistas (nominalmente, Estados Unidos e Israel) estão criando uma relação de interdependência entre o Estado, as forças armadas, suas fornecedoras e, agora, as Big-Techs. Em 1961, ao sair da presidência, Dwight Eisenhower fez um discurso que solidificou umas dos conceitos mais importantes da história contemporânea: o complexo industrial-militar. Com a II Guerra Mundial e a transformação dos EUA em superpotência, houve uma verdadeira simbiose entre o Estado americano e sua burguesia envolvida nos setores militares; o crescimento econômico e expansão financeira proporcionada pela sequência de conflitos e preparação bélica diante da União Soviética foram tão formidáveis e rentáveis que país teria dificuldade de não se deixar levar pelo instinto de sempre manter essa roda girando.

Já avançados no século XX, sabemos que o alerta do general (ele mesmo fruto deste processo) foi profético, especialmente no período após a Guerra Fria. Mas não só isso, e esta é a tese central desta pequeno livro de Sérgio Amadeu: mais uma nova ponta agora integra esse processo que pode ser chamado de Complexo Militar-Industrial-Dataficado, justamente as big techs. Quando nos lembramos da Bolha de IA, movimentando trilhões de dólares entre as mesmas empresas (Oracle, Nvidia e Open AI), e a alocação de capital no setor sendo responsável por 65% do PIB americano; essa nova expressão se torna cada vez mais verdadeira.

A relação imprópria entre os setores é clara. Com “interferência indevida“, tal como disse Eisenhower, a burguesia desse complexo dita os rumos políticos dos Estados Unidos (não por acaso, seus principais nomes foram convidados de honra na posse de Donald Trump e marcam presença constante nas imagens do governo). O problema não está só em uma face “interesseira do processo”: até de uma avaliação “técnica” do quadro, em uma espécie de “alternativa militar keynesiana“, como Noam Chomsky batizou esse processo; operações e mobilizações bélicas com compras de dados das bigtechs podem ser a chave para, por exemplo, impedir o estouro dessa bolha e resguardar a economia americana.

Vale lembrar que muito da propaganda do complexo baseia-se, justamente, em uma nova visão técnica, pura e impessoal dos conflitos políticos e bélicos. Com uma inteligência cada vez mais afinada e simultânea (alimentada voluntariamente por milhões de usuários felizes nas redes sociais), não é difícil imaginar a justificativa para todos esses processos denunciados pelo autor ser facilmente aceita por boa parte da população com o entendimento de crescimento econômico, redução dos custos e a sujeira das guerras – as distopias estão cada vez mais próximas da realidade.

Muito Bom (4,5/5)

Territórios virtuais: uma das faces mais complexas e esquecidas do debate sobre tecnologia, poder, política e economia é que há um componente territorial desse universo; físico e virtual. De um lado, há sede das bigtechs, em solo americano, que possuem aliança e convergência com aquele Estado e suas bandeiras políticas; e, assim, mobilizam os dados captados ao redor do globo de acordo com interesses e legislações americanas – que, obviamente, entendem como mais valiosos as informações dos estadounidenses.

É como, se no mundo virtual, nós nos tornássemos cidadãos americanos – mas de segunda classe. Sujeito a vigilância daquele governo e a ter nossos dados e preferências mobilizadas de acordo. Todos os dados armazenados em servidores americanos estão disponíveis para a inteligência local, como denunciou a quase 20 anos Edward Snowden. E, nessa relação, à fronteira entre voluntário e obrigatório é muito tênue – nós nos voluntariamos a usar as redes sociais, mas há realmente escolha para, por exemplo, algum profissional liberal não ter um instragram?

Por outro lado, há a sedes dos Data Centers, objeto de extrema polêmica, tanto por seus danos ambientas quanto pela própria territorialização dos dados lá armazenados. Seu uso ou comercialização deveria responder a legislação da sede da empresa ou da instalação física dos servidores? Os provedores da nuvem são estruturas geopolíticas que podem interferir diretamente desde as forças armadas estrangeiras a até operação diária de serviços básicos das cidades, hospedadas em servidores da Microsoft ou da Oracle. Essa luta pela soberania digital está apenas começando mas já esperamos não ser tarde demais.

O gigantesco Data Center da google proposto para os arredores de Detroit, nos EUA.

Tecnofeudalismo: Sérgio Amadeu cita o livro de Yanis Varoufakis, mas apesar de concordar com algumas das disposições do economista grego; ele não acredita na ideia central deste modo de produção. Para o autor não estamos vendo a dispersão do capital em feudos digitais, nem a perda da propriedade das infraestruturas da produção. E sim, um concentração sem precedentes do capital em algumas poucas empresas globais em composições com seus Estados; o papel da tecnologia digital é em proporcionar essa hiper dominação global, mas a dinâmica da exploração seria a mesma.

Nesse sentido, este livro é vastamente superior ao de Varoufakis, consegue explicar de forma muito mais rápida, direta, didática e adulta vários dos conceitos e problemas. Foi possível, para mim, entender muito melhor a tese do economista, especialmente seus problemas; uma feliz coincidência ler os dois tão próximos.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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