Parecia um plano de mestre; temos aqui uma série que é um prequel da série original. Colocamos aos poucos um capitão Kirk novo e ver se pega; pegou, então vamos gradativamente abandonar esse seriado e apresentar nosso prato principal: um reboot da série clássica, Jornada nas Estrelas: Ano um, contando os primeiros passos da missão de 5 anos da Enterprise original.
Faltou combinar com os russos. Strange New Worlds continuou cancelada (bom, “ganhou” 6 novos episódios para ano que vem) mas Ano Um foi engavetada – talvez pode voltar como série animada; e no final ficamos sem as duas séries.
O DNA do plano fracassado está por toda essa temporada; se nas primeiras edições de SNW o objetivo era resgatar o Classic Trek (de TOS a ENT) através episódios focados em uma narrativa completa, com tramas de exploração e interação com outras espécies – em contraposição às estórias serializadas de Discovery e Picard. Nas duas últimas, essa intenção original foi completamente esquecida, e a série passou a ter dois outros nortes: episódios experimentais e focar em Kirk, em como ele conquistará o posto de capitão da nave.

Nesse sentido, é como se Strange New Worlds tivesse desistido de si mesma; virou um laboratório para brincadeiras da produção e, quando está falando sério, buscava levantar a bola do protagonista de outro seriado.
Agradou: Visuais e a qualidade geral aumentou um pouquinho
O que dá mais raiva é saber que tudo poderia ser muito diferente pois há um respeito profundo pelo legado da Série Original (TOS), o que sempre fica claro nos visuais. Mais uma vez, quando algo em referência ao Classic Trek aparece, a identificação é instantânea, como os trajes cerimoniais de Q, ou os uniformes e cabelos das personagens um ano no futuro. Impressionante, é uma atualização que beira a perfeição – totalmente desperdiçada.

Ao mesmo tempo, nesta temporada tivemos um número maior de bons episódios. Até os episódios experimentais, na média, foram bons, assim como o reaparecimento de Trelane fez sentido desta vez. Claro, ainda ficou abaixo do que gostaríamos, mas um pouquinho melhorou, sim. Genuinamente ruim foram apenas dois capítulos da temporada. Assim como os episódios de transição para o Kirk foram bons, apesar dos motivos não tão nobres.
Não agradou: série decidida a ser um prequel, mas recheda de episódios sem sentido
Na temporada anterior havia comentado que a Strange New Worlds era uma série desorientada, não sabia para onde correr. Em alguns momentos fazia autoplagio do classic trek, em outros, eram episódios experimentais. Aqui e ali tinha alguma coisa boa; mas nitidamente os produtores não sabiam exatamente para onde queriam levar o seriado. Desta vez, ele estavam, infelizmente, decididos; Strange New Worlds seria uma prequel de Ano um.
Isso significou que foi uma série que desistiu de si mesma. Como na temporada anterior também ocorreu, aliás, o melhor episódio do ano é protagonizado por Kirk. Os personagens originais de SNW (incluindo os coadjuvantes de TOS), que precisariam de uma transição para saída da nave, ficaram de escaneio; como se suas estórias agora ficassem empurradas para a próxima série – que não vai mais acontecer, vale lembrar.
O que levou a uma série de equívocos e episódios sem sentido, sem propósito; em um dos melhores da temporada, é construído todo um arco para a morte de um personagem… que é um dos poucos que precisam aparecer na TOS e sabemos que não pode morrer. Não deveria ser o caso de usar toda aquele cenário para um que precisa desaparecer da nave? Depois temos vários capítulos com pequenas dicas de que a La’an vai abrir o bico em algum momento para, ao final, termos um episódio – e o pior da série – sendo gasto com ela passando por uma aventura para decidir se quer sair com o Kirk. Sério mesmo? Esse é o arco da personagem? Precisa passar por uma nave assombrada e por um conto de fadas para decidir se dá ou desce? Bem machista, na realidade, se pensarmos bem.

Assim como os capítulos cômicos, mais uma temporada com um número enorme deles (4 de 10). Alguns até bem engraçadinhos (os das marionetes e o da novela eu realmente gostei), mas qual o objetivo deles? E todos repetitivos; ambos os citados, que são bons, trabalham de novo com Spock e seu noivado mal resolvido, e Pike com uma vida que ele não viverá. E, novamente, os melhores episódios do ano são sequestrados por Kirk, que deveria ser apenas um coadjuvante aqui, mas tomou de assalto para estabelecer seu personagem na sequência.
Tudo são sintomas de uma série que desistiu de si mesma, não precisaria mais contar estória alguma, todas essas tramas ficariam para ser resolvidas em Ano Um – que triste fim.
Episódios
S04E01: Valles Marineris – A Enterprise recebe uma missão bela e empolgante: examinar uma intensa e gigantesca tempestade estelar. Mas durante a observação a nave é puxada para dentro daquele aglomerado e vai parar em um sistema estelar não identificado. Durante essa “travessia”, ela fica muito danificada e impossibilitada tanto de entrar em dobra como fazer análises adequadas daquele lugar – e como desgraça pouca é bobagem, uma outra nave aparece para sondar nossos heróis.
Que belo começo de temporada! Um episódio muito redondinho, com uma boa dose de tudo que precisamos em uma estória de Jornada nas Estrelas; exploração, aventura, problemas na nave, civilizações diferentes, tecnologias desconhecidas, dilemas éticos e morais – é uma refeição completa! E, claro, nada disso seria suficiente se não fosse muito bem feito e divertido. E, por cima, sempre tem um charme diferente esses tipos de tramas sobre um passado intergaláctico.

O suspense inicial, sobre saber ou não se aquela é uma civilização com capacidade de dobra, para o primeiro contato, é uma ótima maneira para começar; e isso, em uma boa rima, e mantendo conspiração de segredos, é substituída por nova questão de guardar mais outras informações dos visitantes. Só achei meio desproporcional continuar com a dúvida sobre a capacidade de dobra daquelas espécies diante de tantas outras tecnologias avançadas que eles possuíam – provavelmente para justificar porque eles ficaram restrito ao mesmo sistema solar ao invés de buscar outras colônias.
Tem algumas coisas batidas, claro, como as espécies humanoides contra as insectóides, e outras limitações, como toda àquela civilização ter só uma personagem com fala. Essa trama era o caso de um episódio duplo talvez, uma pena que a produção de SNW é totalmente desorientada; pois teríamos um gancho ótimo de uma temporada para outra. Mas ainda assim, um início excelente que tem um dos melhores desfechos de todo o Trek.
Excelente (5/5)
S04E02: O Incidente Griffin – Por uma razão qualquer, que já nem me lembro mais, uma nave auxiliar com Spock, La’an e Kirk acaba encontrando a USS Griffin, desaparecida há 8 anos sem deixar o menor vestígio. Uma vez a bordo da nave, o trio começa a perceber que há coisas estranhas naquela embarcação e começam a duvidar de si mesmos.
Eu estava pronto para reclamar de, já no segundo episódio da temporada, usarmos a cartada da visita aleatória de James Kirk, mas ele é a única coisa interessante dessa coisa toda ao capítulo dar uma complexidade a sua paternidade – algo tão tardio e marginalizado no lore do personagem. De resto, é uma total perda de tempo.

Não bastasse o tempo inteiro ser preenchido por tentativas surradas de fazer terror family friend, com direito a ouvir sons estranhos, os corpos no necrotério que se levantam, nada levar a lugar algum; com exceção de Kirk, não há adição alguma ou desenvolvimento dos personagens. Spock, que novidade, dividido entre sua face humana e a vulcana; e La’an preocupada em ser durona demais. Haja paciência.
No final sequer tem algum mistério a ser descoberto, que besteira. Não sei a tal da Seção 12 vai retornar, que poderia justificar esse enredo aqui, mas, do jeito como foi, o episódio é totalmente dependente de tentar te deixar com medo – coisa que nunca vai acontecer vendo Jornada nas Estrelas.
Ruim (2/5)
S04E03: Melhor Amigo Humano – A Enterprise está a caminho de uma importante missão diplomática para costurar um acordo entre planetas inimigos históricos; mas, antes de tudo isso, para garantir que todos estão descansados para uma tarefa que será complicada a nave fará uma pausa para uma licença de dois dias.
Pelo menos não é Risa de novo, mas tanto faz, capítulos de licença são sempre mais fraquinhos. Este aqui é um pouco mais ousado com as piadas; colocar os personagens drogados foi algo realmente mais arrojado – mas, primeiro, esse é funcionamento do planeta? Deixar todos drogados o tempo todo? É um conceito bem bizarro. E, segundo, é mais um episódio, baseado nos “personagens-agindo-estranho”; é impressionante como SNW é uma série tão curta e com tantas temáticas repetindo-se. Toda temporada tem uns 2 ou 3 desses, e, por aqui, foi dois na sequência – ainda que com objetivos diferentes, terror e comédia.

O elo mental com as plantas foi algo realmente engraçado – e extremante overpowered se pensarmos bem – e a resolução final em que tudo coincidiu foi inteligente; mas poucas são as piadas que conseguiram extrair humor direto do que Jornada nas Estrelas ou o SciFi, de um modo geral, pode oferecer. Na imensa maioria foram os recursos de comédias dos anos 2000, uma mistura de Cara, cadê meu carro? e Se Beber, não Case. Uma triste correlação com o que vimos em Starfeet Academy, basear seu conteúdo em comédias de 20 e tantos anos atrás.
A única coisa que poderíamos levar em conta sobre capítulo é a construção da intimidade entre Spock e Kirk (de novo, ele está aparecendo mais que os personagens nativos de SNW). Todavia, numa opção muito ruim, essas conversas ocorrem fora-de-tela; não vemos nada disso, então, tanto faz como isso tudo aconteceu.
Mediano (2,5/5)
S04E04: Um caso em preto-e-branco – A Enterprise tem a missão de recuperar uma sonda perdida em território Klingon, entretanto, apesar de ser bem sucedida, a equipe é obrigada a se esconder no planeta Ma’taar. Com uma espécie originária, o local está sobre ocupação Klingon e sofrendo uma dura repressão – será necessária muita cautela para não serem pegos. Para ajudar, o sistema estelar é afetado por uma estranha condição que faz com que as pessoas enxerguem apenas em preto-e-branco.
Nossa, mas que grata surpresa. Estava esperando mais um capítulo experimental sem sal – como o de meta linguagem, na temporada passada, sobre a gravação de um seriado inspirado em Star Trek – por conta do preto-e-branco, mas, não, realmente essa característica fez todo o sentido e foi muito bem utilizada a emular filmes noir. A principal inspiração, ainda assim, é Casablanca; há inúmeras referência ao clássico dos anos 40 por aqui.

Claro que precisa de muita boa vontade pra aceitar a explicação do preto-e-branco, assim como a semelhança de Una com uma das locais, e a estética geral daquele planeta ser tão conveniente. Mas vale a pena. É bom ver os Klingon malvados de novo e, especialmente, com caráter de ocupação em um planeta. Aqui eles deixam de ser inspirados nos soviéticos para serem uma versão de nazistas; e os diálogos são muito bons, tal como a propaganda de “união” entre os invasores e invadidos por uma suposta vitória conjunta.
Há algumas coisas meio piegas, e o episódio ficou muito certinho, talvez faltou alguma reviravolta mais aguda – um outro traidor talvez seria mais impactante. Mas o que é mais fraco mesmo foi a trama B sobre o mistério da sonda; além de não ser interessante, é mais uma situação em que os tripulantes fazem coisas por baixo dos panos e há cobertura. Essa cumplicidade toda dos personagens, presente desde sempre, está forçando a mão; de adulteração de dados até tentativa de assassinato (aliás, até houve um assassinato antes), tudo é encoberto. Esse tipo de gestão da equipe era para deixar a nave um caos – rachar o vestiário em outros termos.
Muito Bom (4/5)
S04E05: Acidente de Transporte Nível 5 – Scotty está tentando fazer um importante experimento com o transporte e quer quebrar o recorde de maior distância já coberta com esse equipamento; e pede a ajuda de Spock. Enquanto o oficial de ciências ainda está posicionando retransmissores para a tarefa, o engenheiro tenta realizar a artimanha, usando um boneco como cobaia, mas tudo dá errado e a tripulação é transformada em uma série de marionetes.

Com um reforço de atores ligados à comédia como Rachel Harris (de Lucifer, como a capitão orion) e Joe Loe Truglio (de Brooklyn 99, o capanga que faz amizade com Spock), o episódio tem sempre um bom tempo cômico. Nem todas as piadas são engaçadas, claro, mas o tom permanece sempre – o uso desses convidados foi muito inteligente para compensar a falta de expressão das marionetes. Talvez foi isso que faltou para as bombas como o episódio musical ou horripilante Quatro vulcanos-e-meio da temporada anterior; o elenco não consegue carregar sozinho, por mais simpáticos que eles sejam, eles são melhores para receber e reagir aos convidados – assim aconteceu com o crossover com Lower Decks, foi melhor capítulo cômico da franquia.
Há alguns momentos bem divertidos; toda sequência da “morte” de Pike é ótima. Ainda assim, provavelmente será o episódio mais polêmico desta temporada, pois foi mais um capítulo experimental (gimmick, como é a expressão em inglês; esta não é a melhor tradução). O segundo na sequência e de uma série com menos de 50 episódios com data de validade já decretada; é para tirar qualquer fã do sério. E o pior de tudo é que não deveria, pois é um capítulo engraçado, mas que, invariavelmente, vai canalizar toda nossa insatisfação, uma vez que não adiciona quase nada aos enredos do seriado e lore geral de Star Trek.
Bom (3/5)
S04E06: Hora Crítica – Parecia mais uma viagem de rotina com a Enterprise, faltando só uma hora para mais uma troca de turno, entretanto, rapidamente tudo vira de cabeça para baixo e a nave está presa em uma onda espacial que está forçando seus limites de dobra e integridade estrutural. A tripulação vai precisar resolver mais esse problema; entretanto, com um agravante, eles estão isolados cada um em um canto da nave.
Um episódio com uma estrutura clássica de Jornada nas Estrelas, e vive a altura. Dispensando maiores explicações do que porquê as coisas aconteceram, já somos jogados – literalmente – no meio da tempestade espacial. Particularmente gostaria de mais complexidade, especialmente porque as explicações (pseudo)científicas estão deixando a desejar; o final, das partículas que podem até reconstituir corpos, é mais uma das coisas que exigem muita boa vontade da gente no seriado.
O principal ponto era conseguir utilizar todos os personagens de forma satisfatória, no sentido da contribuição deles para resolução do problema; o que o capítulo cumpre. Claro que alguns são mais e outros menos interessantes, e nitidamente há um privilégio ao casal na enfermaria, mas temos a impressão que todo mundo foi necessário para salvar a nave.

O retorno de alguns personagens “secundários” de TOS, como o Doutor Boyce e a tenente Rahda, foram bem legais (esta última sinceramente só descobri que era recorrente depois de pesquisar), mas foram participações que pouco fizeram diferença. Boyce só foi ranzinza, e Radha, que iria assumir o comando da nave após a troca de turno, poderia ser uma importante presença, mas ela simplesmente desaparece. Assim como o recurso do “episódio em tempo real” também seria dispensável.
O grande elefante na sala, por outro lado, é a falta de ousadia do episódio em matar algum dos personagens. Temos vários que precisam desaparecer até Kirk assumir a nave, mas a trama de despedida e morte – que foi boa e bem emotiva – é dedicada justamente a um dos que não pode morrer. Que desperdício.
Bom (3,5/5)
S04E07: Como crônitos pelas areias do tempo – Enquanto o capitão se recupera de uma estranha crise de amnésia, Uhura descobre, por um acaso, que é sua filha perdida e deseja reconciliação – ao mesmo tempo Spock precisa de um doador para uma cirurgia inadiável, e o único compatível é seu irmão Sybok. No meio de todas essas tramas, com exceção de Pike, todo mundo parece estar agindo estranho; cores saturadas e efeitos sonoros fora de hora indicam que algo de muito incomum está acontecendo na nave.
O grande mérito do episódio é que desde o começo ele já deixa escancarado que há coisa erradas e fora de controle, e antes mesmo da abertura já está esclarecido quem está por trás – e usar a roupa cerimonial dos Q foi toque muito interessante que até faz alguns bons retcon. Isso permite que já vejamos ótimas tiradas e piadas logo no começo da exibição, sem perder tempo com mistério – e particularmente esse comecinho é muito engraçado com Pike notando as coisas estranhas acontecendo.

O que foi muito inteligente foi também usar os clichês de novelas, como o gêmeo do mal, a filha perdida… há, ainda, algumas outras referências mais restritas aos EUA, como a conselheira ser interpretada por uma das mais veteranas atrizes do gênero nos EUA. Da metade para o final, todavia, o episódio muda completamente de figura, há um arco específico de Pike referente ao final da temporada anterior que é bastante emotivo e profundo – e adiciona a tragédia do personagem que já tem um destino terrível definido.
Particularmente eu gostei de quase tudo – a aparição anterior do personagem, no início do ano passado, deveria não ter existido, e esta aqui, por si só, seria um excelente retcon dos Q. A questão é o resultado final é literalmente bizarro, porque as coisas vão acontecendo fora de controle de Trelane e alguns desfechos são inexplicáveis, para os personagens e para nós, e deixam uma sensação estranha, tão estranha quanto a sentida por Pike no começo, ao final.
Bom (3/5)
S04E08: Ordens de Magnitude – Enquanto Pike e Una descem em uma missão de campo, a Enterprise é subitamente contatada por um almirante em missão secreta. Ele não é qualquer oficial, mas sim um dos maiores heróis da recente guerra contra os klingon, e está atrás de uma misteriosa nave camuflada que acabou de atacar uma colônia da Federação. Essa urgência faz com que ele assuma o comando da nave na ausência do capitão e coloque Kirk, em visita ao irmão, como seu imediato.
Vencida, mais uma vez, a incrível coincidência de Kirk estar sempre na hora certa no lugar certo (ou no lugar errado na hora errada), é aconchegante ver, novamente, um episódio com a presença dos almirantes com motivos escusos, tão comuns em TNG. Desde o primeiro momento, Reeger tem métodos questionáveis de comando, jogando sua equipe uns contra os outros, e não perdemos muito tempo com o seu “disfarce”, um mérito do roteiro. Assim, o episódio passa então a testar a reação dos demais tripulantes em situações cada vez mais dúbias.
Na lua, as coisas preenchem o tempo de tela mas é tudo bem menos interessante; os vilões andorianos são completamente ocos – triste isso acontecer com uma espécie já tão subutilizada em Star Trek. Além de tudo, parecem ter esquecido, justamente, da rivalidade entre eles e os vulcanos; está tudo ali mas parece que falou alguém ligar os pontos. A resolução final é bacaninha, mesmo depositando tudo nas habilidades de luta de uma única personagem, mas toda a ação por ali empalidece diante do principal enredo do episódio – e parece uma desculpa esfarrapada para tirar os comandantes da nave.

E é lá na Enterprise que temos o melhor da temporada, até agora. O Almirante tem um efeito hipnótico na tripulação e Kirk encontra dificuldades para colocar em perspectiva suas ordens; e pode contar apenas com seu irmão. O que funciona muito bem e ajuda a desenvolver ambos os personagens, e seu pai – embora achei que a cronologia não foi bem trabalhada, os eventos relembrados parecem ocorrer na infância deles, mas a guerra era recente, acontecendo na primeira temporada de Discovery.
Senti falta, por outro lado, dele ter ajuda de outros tripulantes, e isso parece ser deliberado. Igual a temporada passada, o melhor episódio é um focado no amadurecimento de Kirk, com todos os protagonistas nativos da série jogados pra escanteio. Isso não é coincidência; é como se SNW tivesse abdicado de desenvolver os próprios personagens e seriado; e se decidido tão somente passar o bastão. Uma pena.
Excelente (5/5)
S04E09: Era uma vez uma La’an – Enquanto viajavam sei lá pra onde, nossos heróis encontram uma terra plana viajando pelo espaço; eles detectam aquele local como um ecossistema complexo e habitado por humanos. No caso, criações a partir do Reino de Elysiun, universo constituído a partir das memórias de Rukya (a filha do doutor) sobre um livro infantil, lá da primeira temporada. Para entender melhor como isso foi possível, uma equipe é formada para investigar.
Spoiler: ninguém investiga nada. Mais um capítulo de brincadeiras e altas confusões, para tirar a paciência de qualquer fã. Confesso que achei algumas piadinhas no começo relativamente engraçadas; e havia uma deixa de que aquela aparição não seria aleatória. A mesma entidade que ajudou o doutor a entender a morte iminente da filha estaria buscando ajudar La’an, que vem passando por um inferno astral. E, assim, caminhar para um desfecho para a personagem e, de quebra, conhecer uma nova forma de vida.

Não acontece nada disso; o local é habitado por uma série de duplos (até de Kirk que não estava presente no episódio original e sequer neste) que têm literais poderes mágicos, que alteram a realidade e a física, para além daquele simulacro de planeta, e, ao final, não há explicação ou moral alguma.
Não digo nem algo “científico”, mas dentro da lógica daquele conto-de-fadas, nada tem propósito. Pelia como autora do livro, o que ela faria? Qual era a do Kirk lobisomem? Una e Erica um casal? Depois a rainha má faz a magia com ambas as La’an elas trocam de sentimentos? Foi isso? Mas a proposta não seria extrair isso delas? Quem fez o ataque final ao dragão foram as duas ou o Spock do mal? Aquilo era uma nave? Qual era a espécie? O que eles queriam?
Eu poderia citar outros inúmeros exemplos, mas não vale a pena. Lembrando o péssimo A Licença, da primeira temporada de TOS, parece que os próprios personagens internamente desistiram de entender sua estória; e a mesma coisa aconteceu com os produtores e roteirista. Jogaram tudo pro alto e largaram mão. E aí eu pergunto, se nem eles estão preocupados com a própria série, eu vou ficar?
(Infelizmente fico sim, e muito)
Muito Ruim (1/5)
S04E10 A Enterprise de Amanhã – Enquanto pesquisavam um raríssimo buraco-negro-branco, nossos heróis se vêm presos no local diante de uma força inexplicável. Embora aparentemente inofensiva, ela mantém a nave diante de uma série de pulsos que podem levar a sua destruição – e, ao mesmo tempo, proporcionar a Uhura uma quase-viagem no tempo se comunicando consigo mesma um ano no futuro.
É um episódio de sentimentos divididos o tempo todo. Em primeiro lugar, é um roteiro que soube brincar com as implicações da viagem do tempo, especialmente no comecinho, com as Uhuras deixando recados umas as outras contando com um ano de deslocamento; por outro, as próprias regras são uma confusão danada. Como essas trocas seriam possíveis se, na realidade, estávamos vendo quatro linhas do tempo se desenrolando (havia a original do presente; a do futuro alterado com Scotty morrendo no futuro; e deste episódio, com Scotty morrendo no passado; além, de claro o futuro original em que ele vive até TNG).
Também a lógica pseudo-científica por trás dos buracos negros não fazem o menor sentido; as naves chegarem tão perto sem implicações, o buraco branco ser a ponta de um buraco negro; a comunicação evoluir em uma travessia por motivos de explosões. E claro, a trama do parto. Mas isso é só aceitar, Star Trek é feito dessas coisas, esse não é o primeiro procedimento médico espacial dessa natureza que vimos por aqui.

É divisivo, ainda, porque por mais uma temporada o último episódio é sobre futuros alternativos (dos 4 finais, 3 têm essa temática) e, novamente, há essa tendência da série estar se dedicando mais a passar o bastão que desenvolver a si própria. O que está escondido por trás é que este seria mais um series finale de SNW: seria a ponte para “Ano Um” o ex-futuro seriado sobre os primeiro eventos da Enterprise de Kirk, engavetado pela Paramount – que explica os “tudo que eu passei” que a personagem repete o tempo todo para justificar apenas 1 mísero ano de passagem de tempo.
Entretanto, por meios tortos, as coisas terminam bem feitas. Desde relembrar desse obscuro romance entre Uhura e Scotty, ao novo visual da enfermeira Chapel; assim como a bela rima dos capitães aceitando o que ela dizia por ambos terem experienciado situações como a dela.
Muito Bom (4/5)
Melhor Episódio
Ordens de Magnitude – Um dos mais manjados recurso da era de TNG em Jornada nas Estrelas (e presente também algumas vezes em outros momentos) era a figura do “Almirante maligno”, ou, ao menos, com motivos obscuros não revelados para os protagonistas. Esse alto oficial chega com uma missão urgente topsecret pra ontem, moralmente questionável, mas que não pode poder receber questionamento algum de nossos protagonistas que precisam trabalhar contra o tempo, e a favor da real ética da Frota, para reverter o claramente autoritário e errado curso de ação. Um dos recursos mais manjados mas que quase sempre funciona muito bem – e é o caso aqui em Strange New Words. Uma pena que o episódio foi sequestrado por Kirk

Além dele, a série começou e terminou bem a temporada, em Valles Marineris, com Pike enfrentando um enorme dilema de viagem do tempo, e A Enterprise de Amanhã, com outros dilemas de viagem no tempo (não tinha percebido essa coincidência até agora), mas, especialmente – e ironicamente – um ótimo teaser para uma série que não mais acontecer.
Pior Episódio
Era uma vez uma La’an – Esse é um exemplo de um episódio que não é só ruim, mas que não tem objetivo narrativo algum. Não quer desenvolver mais nada, não quer desenvolver ou apresentar conceito novo algum. Os personagens acham um planeta plano vagando por aí e já tem uma explicação do que se trata – um resquício do pior episódio da primeira temporada, vale lembrar; até aí tudo bem, abre espaço para explicar melhor a resolução. E, no final, não há explicação alguma, em um diálogo Pike explica que aquilo é uma nave que eles vão ajudar a levar a algum lugar com a nova rainha (capitão). Quem era essa raça? Como assim era uma nave? Quem é a rainha, a La’an? Para onde eles iam? Porque eles resolveram ajudar a La’an original? Nada tem explicação: uma série que desistiu de si mesma.

Além desse, achei que o comecinho da temporada é bem ruim; ambos pegando um pouco do pior episódio. O Incidente Griffin é outro capítulo bem similar, ainda que em uma abordagem oposta, buscando terror ao invés da comédia, com uma porção de coisas aleatórias sem explicação; e o “Cara, cadê meu shuttle?” com Melhor Amigo Humano, aposta em várias piadas genéricas ou fora de gênero, o invés dos personagens da fantasia perdidos na realidade, temos os personagens agindo como se estivessem drogados.
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