O projeto de nação do governo João Goulart

O projeto de nação do governo João Goulart: o Plano Trienal e as Reformas de Base (1961-1964) – Cássio Silva Moreira

Ano de Lançamento: 2014 – Minha Edição: 2014 – 349 páginas


João Goulart e seu governo, compostos por mentes das mais brilhantes que já existiram no Brasil, são um dos exemplos mais explícitos do “Silêncio dos Vencidos” – ou seja, exemplo que a História é escrita pelos vencedores de seus diversos conflitos. Sofrendo da mesma sina que o recente Governo Dilma, após ser derrubado pelo Golpe de 1964, a administração de Jango acabou sendo registrada como fraca e errática; um governo que não buscava nada, vivendo tão somente para se manter no poder.

O objetivo deste livro, originalmente uma tese de doutorado em economia, é contestar essa narrativa construída pela ditadura – para legitimar seu poder conquistado através do golpe – e demonstrar que o Governo Jango possuía, sim, objetivos e projetos muito bem definidos. Inclusive, suas diretrizes e iniciativas foram reaproveitadas pelos ditadores não muito tempo depois.

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Flores para Algernon

Flores para Algernon – Daniel Keyes

Tradução: Luisa Geisler – Editora Aleph

Ano de Lançamento: 1966 – Minha edição: 2018 – 284 páginas


Todo tipo de deficiência, seja ela física ou intelectual, gera uma questão filosófica por trás; se elas seriam patologias, doenças, e, dessa forma, elas deveriam ser tratadas ou curadas? O debate sobre isso é amplo; com certeza uma pessoa com determinada dificuldade de mobilidade, por exemplo, desejaria vê-la sanada, por uma série de motivos. Entretanto, esse mesmo entendimento gera uma série de outros questionamentos envolvendo o direito e a existência dessas pessoas como cidadãos, e seres humanos, com plenos direitos – uma das obras pioneiras, na contemporaneidade, para essa discussão é Flores para Algernon.

Publicado originalmente como um conto, em 1959, e posteriormente expandido para um romance em 1966, Flores para Algernon conta a estória de Charlie. Um homem de 32 anos com deficiência intelectual não identificada e que é cobaia em um experimento revolucionário, que promete, através de uma cirurgia, transformá-lo em um gênio.

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Os Anéis do Poder – 1ª Temporada – Um legado (e uma narrativa) de peso

O Senhor dos Anéis já foi considerado um livro “inadaptável”. Desde os anos 30, já haviam discussões sobre animações com o enredo de O Hobbit, e a partir dos anos 50, sobre a trilogia principal. Os direitos chegaram a ser comercializados para várias partes diferentes, e o próprio Tolkien teve discussões com cineastas para verificar a viabilidade. Não só pela grandeza da obra, mas as próprias intenções do autor não eram bem compreendidas – entendiam os livros como um grande conto de fadas ou algo do tipo.

Felizmente um neozelandês provou que todos estavam errados e conseguiu fazer uma sequência de obras primas que até hoje é a recordista de óscares. Quando fora anunciada a produção de um seriado, ainda mais com um enredo original, a discussão voltou a tona.

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Retrospectiva 2024

Um ano bem magro em postagens, embora tenha conseguido ler mais livros; escrever que está bem difícil. Minha filha cresceu mas está exigindo muito mais atenção. Ainda assim conseguimos atingir 17,5 mil visualizações por 9,4 mil visitantes em 2024, atingindo um total de 221 postagens desde 2020.

Obrigado a todos que nos acompanharam este 2024, e um feliz 2025!

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A Reviravolta da História

A reviravolta da história: a queda do muro de Berlim e o Fim do Comunismo – Marc Ferró

Tradução: Flávia Nascimento – Editora: Paz e Terra

Ano de Lançamento: 2009 – Minha Edição: 2011 – 102 páginas


A força com a qual as revoluções socialistas ocorreram durante o século XX, em ondas cada vez mais amplas a partir de 1917, aliada à consolidação da historiografia marxista, havia deixado a certeza no mundo que o Comunismo era algo irrefreável. Uma etapa integrante e inevitável do desenvolvimento da humanidade com a qual dever-se-ia cerrar fileiras – ou lutar incansavelmente contra. Quando, em novembro de 1989, o muro de Berlim foi derrubado pelos próprios habitantes da Alemanha Oriental sem repressão, essa certeza foi cada vez se esvaindo mais até dezembro de 1991 e a imagem da bandeira da Rússia imperial voltando a ser hasteada em Moscou.

Esses eventos deixaram os intelectuais do século XX desorientados, o que houve foi uma (ainda que previsível uma vez revistada pelos engenheiros de obra pronta), ou talvez, “a” Reviravolta da História – como este título, belo mas enganoso, e que não é o mesmo da edição original (veja abaixo), nos aponta. Várias foram as tentativas de compreender o que estava acontecendo com a humanidade; esta é a singela contribuição de Marc Ferro, historiador francês especialista em Revolução Russa e União Soviética, para este esforço.

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Robôs e Império

Robôs e Império – Isaac Asimov

Tradução: Aline Storto Pereira – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1985 – Minha Edição: 2022 – 543 páginas


Séculos adiante, a figura de Elijah Baley tornou-se algo mítico; os terráqueos voltaram a colonizar novos mundos, e seu primeiro e mais importante novo planeta leva seu nome. Entretanto, seus algozes siderais, com vidas muito mais longevas que os humanos comuns, ainda têm assuntos inacabados de Os Robôs da Alvorada; em especial o diretor do instituto de robótica de Aurora; Kelden Amadiro, que deseja vingança contra a memória de Baley, legado que se mantém vivo atualmente através de Gladia e seus robôs, Daneel e Giskard.

Com a recente morte de Han Fastolfe, o mais influente líder do planeta, e decididamente pró-Terra, uma oportunidade política nova se abriu em Aurora e o diretor quer se aproveitar para mudar os rumos da humanidade novamente. Para isso, ele terá a “ajuda” de Levular Mandamus, um ambicioso “jovem” – para os padrões siderais – membro do instituto, para articular um plano ardiloso com objetivos obscuros; e tudo começa com o encontro de Gladia com um descendente do investigador.

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Os Robôs da Alvorada

Os Robôs da Alvorada – Isaac Asimov

Tradução: Aline Storto Pereira – Editora Aleph

Ano de Lançamento: 1982 – Minha Edição: 2015 – 542 páginas


Três décadas depois os talentos investigativos de Elijah Baley e Daneel Olivaw são novamente requisitados… bom, 30 anos depois em nosso mundo real o soviético Isaac Asimov publicou a sequência de O Sol Desvelado, mas dentro da continuidade do livro, três anos se passaram – e as mudanças já são palatáveis. Baley lidera um grupo de terráqueos que deseja se reconectar com a “área externa”, a vida fora das cidades; e periodicamente faz excursões e trabalhos na natureza.

Apesar de continuar como um investigador de nível intermediário, seu nome se tornou conhecido por todos os planetas próximos; suas aventuras em Solaria foram transformadas numa “holo-novela” e ele se tornou um espécie de herói intergaláctico. Exatamente por isso, ele foi requisitado novamente para desvendar um crime; desta vez em Aurora – o principal e mais poderoso dos planetas siderais. Entretanto, o assassinato desta vez é um pouco peculiar; a vítima foi R. Jander Panell, o único outro robô humaniforme já construído – tal como Daneel – que subitamente teve uma espécie de “paralisia cerebral” e parou de funcionar.

Isso só poderia ser causado por uma série de ordens ou diálogos contraditórios, que forçassem o cérebro positrônico de Jander ao limite de processamento a ponto dele parar de funcionar. Entretanto, uma situação extrema como essa só poderia ser feita por um roboticista extremamente experiente; e no caso, o único suspeito seria o Dr. Han Fastolfe – o criador de Jander (e de Daneel, em um retcon). A mesma pessoa responsável por chamar Elijah para a investigação.

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Lutas de classes na Alemanha

Lutas de classes na Alemanha – Karl Marx e Friedrich Engels

Tradução: Nelio Schneider – Editora Boitempo

Ano de Lançamento: 2010 (1844, 1848 e 1850) – Minha Edição: 2010 – 93 páginas


Engels era fascinado pela Irlanda; sua obra mais famosa, A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, descrevia o cotidiano dos operários na região de Manchester na década de 1840, constituídos por um grande volume de imigrantes irlandeses, e atraiu seu fascínio pelo povo – ele casou-se com uma irlandesa, Mary Burns, inclusive. Marx, por sua vez, tinha grande interesse na França; em 18 de Brumário de Luís Bonaparte, ele diz que o país é o local onde as lutas de classes são mais tensas e mais levadas ao limite.

Ambos eram alemães, nascidos no Vale do Reno, mas produziram surpreendentemente pouco em análises sobre sua terra natal. Neste livro, um lançamento exclusivo do Brasil, a editora Boitempo reuniu três pequenos textos escritos pela dupla sobre eventos que se passavam em seu país – embora ele ainda não existisse como tal, maior parte das referências dos textos é sobre a Prússia – escritos entre o anos de 1844 e 1850.

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O Sol Desvelado

O Sol Desvelado – Isaac Asimov

Tradução: Aline Storto Pereira – Editora Aleph

Ano de Lançamento: 1957 – Minha Edição: 2014 – 286 páginas


Alguns meses depois de desvendar o capicioso caso do assassinato do sideral em Nova Iorque, Elijah Baley ganhou uma reputação entre os governos da Terra e dos demais planetas humanos; assim, é destacado para investigar um novo crime, desta vez em outro mundo: Solaria. Sua presença foi requisitada, ironicamente, pelo governo daquele local – que despreza profundamente os terráqueos.

O plano de fundo é o mesmo: a humanidade está dividida em duas civilizações. Uma na Terra, de bilhões de habitantes, vivendo em complexos subterrâneos claustrofóbicos, sem mais contato com o “mundo lá fora” e aversa aos robôs; e outra, espalhada por 50 novos planetas colonizados nos últimos séculos, esparsamente e minimamente populados e totalmente dependentes da mão de obra robótica. O destino de Baley, Solaria, é talvez o mais hostil e averso à vida terrestre; habitado por apenas 20 mil pessoas, que vivem isoladas umas das outras em propriedades de milhares de km² e que consideram qualquer encontro físico entre dois indivíduos algo repugnante – eles convivem apenas através de hologramas.

Investigar a morte do mais importante “fetologista” do planeta é a missão de nosso protagonista, que, no local encontrar-se-á com Daneel Olivaw, seu parceiro robótico mas que, desta vez, se passará por humano, como um enviado de Aurora – a mais importante das colônias siderais – que precisa entender mais do que se passa por lá. Não há um homicídio no planeta em séculos, e a principal suspeita é sua esposa – os cônjuges são os únicos humanos que convivem fisicamente uns com os outros (e ainda assim em situações e datas pré-estabelecidas) no planeta.

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Quando os fatos mudam

Quando os fatos mudam: ensaios (1995-2010) – Tony Judt

Tradução: Cláudio Figueiredo – Editora Objetiva

Ano de Lançamento: 2015 – Minha Edição: 2016 – 440 páginas


Nós, nascidos no apagar das luzes do século XX, também conhecidos como Millenials, somos a última geração que entende o século passado – uma última geração que tem um pé em uma época analógica e outra no digital – uma posição privilegiada de saber que existiram, por exemplo, duas Alemanhas ou que não necessariamente tudo pode, ou deve, ser resolvido através do celular. Entretanto, para os que vieram antes de nós, a virada para o XXI foi um choque, especialmente para, dentre estes, os intelectuais que dedicaram sua vida para entender o seu próprio tempo.

Eric Hobsbawm, com Democracia, Globalização e Terrorismo, ou Marc Ferró com A Reviravolta da História, são alguns do esforços de historiadores do século XX para entender o que começou a se passar no mundo a partir da década de 1990. Esta aqui é a contribuição do britânico Tony Judt, notório estudioso do período pós-guerra, em uma seleção de artigos sobre a contemporaneidade, feita postumamente por sua esposa, Jennifer Homans.

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As Cavernas de Aço

As Cavernas de Aço – Isaac Asimov

Tradução: Aline Storto Pereira – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1953 – Minha Edição: 2013 (2 reimp) – 300 páginas


Daqui há alguns milhares de anos, a humanidade se espalhará pela galáxia próxima e colonizará cerca de 50 novos planetas, os chamados “mundos siderais“, entretanto, esses novas sociedades renegam seu passado. A Terra é considerada uma párea, uma relíquia do passado; superlotada, com mais de 8 bilhões de habitantes, a nossa civilização tornou-se extremamente estratificada e enterrada em megacomplexos urbanos as Cavernas de Aço – que se espalham por quilômetros e quilômetros de espaços apertados e totalmente fechados.

Além disso, os siderais renegam o nosso planeta por uma questão muito especial: o preconceito contra robôs. Nos mundos colonizados, com uma população humana bastante reduzida, na casa de poucos milhões, a maior parte das atividades braçais são realizadas pelas máquinas que se tornaram figuras comuns do cotidiano de lá. Já na Terra, os robôs são relegados à “área externa”, isto é, fora das cidades, nos trabalhos envolvendo a extração de recursos ou a agricultura, por exemplo.

Essa relação conflituosa entre essas duas civilizações humanas é colocada mais uma vez a prova quando, na Vila Sideral de Nova Iorque – bairro exclusivo para “imigrantes” vindo dos outros planetas – um importante roboticista estrangeiro é assassinado, e o principal suspeito é um terráqueo.

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Eu, robô

Eu, robô – Isaac Asimov

Tradução: Aline Storto Pereira – Editora: Aleph

Ano de Lançamento: 1950 – Minha Edição: 2014 (3º rein) – 315 páginas


Uma das mais fundamentais obras do gênero da Ficção Científica, embora sua autora não soubesse disso, foi Frankenstein, ou o prometeu moderno, da britânica, Mary Shelley, lançado em 1818. Ela poderia ser considerada a primeira obra contemporânea do gênero ao contar a conhecida história da criação de uma vida artificial. As críticas da escritora à modernidade são profundas e conectadas ao contexto do século XIX; entretanto, dentro do gênero, as suas obras acabaram por criar um legado que ligava à ficção científica ao terror e ao medo da tecnologia – em especial de formas de vida artificiais.

O sucesso dos livros de H. G. Wells, na virada do século XIX para o XX, mantiveram uma associação entre ficção especulativa e resultados não muito positivos para a humanidade. Muita da inspiração de Isaac Asimov, o escritor soviético radicado nos Estados Unidos, era justamente contrapor este senso comum e mostrar a possibilidade de futuros em que a tecnologia permitisse uma vida genuinamente melhor aos seres humanos, em especial, o advento dos robôs.

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História Medieval

História Medieval – Marcelo Cândido da Silva

Ano de Lançamento: 2020 – Minha Edição: 2020 – 158 páginas


Pensar em Fantasia e Aventura, em vários formatos, de livros à vídeo games, quase que automaticamente nos leva ao cenário medieval; tendência, senão criada, fortalecida pela obra de Tolkien, em especial O Senhor dos Anéis, e pela série de RPGs de Mesa, Dungeons & Dragons (algumas vezes adaptado no Brasil como Caverna do Dragão) ao longo do século XX. Nos anos 90, na onda especialmente dos jogos de computadores (CRPGs), o significado de História Medieval quase que se fundiu aos gêneros citados acima em games, livros e filmes.

O curioso é que nem sempre a História Medieval foi sempre assim “tão querida”. Até o início do século passado, o espaço de tempo entre os anos de 476 até 1453 era conhecido como a Idade das Trevas; a época mais sombria e desoladora da humanidade. Apenas a partir do início do século XX ela começou a ser vista de forma mais “amigável”, especialmente a partir do trabalho de historiadores franceses, na escola dos Annales, nome da revista mais influente do campo no mundo.

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Os Mitos Japoneses

Os Mitos Japoneses: Um guia para os deuses, heróis e espíritos – Joshua Frydman

Tradução: Ceasar Souza – Editora Vozes

Ano de Lançamento: 2022 – Minha Edição: 2024 – 249 páginas


A partir dos anos 90, com animes e vídeo games, a cultura japonesa se tornou uma das mais consumida em todo o planeta. Todos que cresceram a partir dessa década tem uma intimidade mínima com o que se passa na terra do sol nascente. Não é preciso ser muito nerd para já ter ouvir falado em um Youkai, no Kami-Sama, no Emma-daioh, em “senin” ou “sampai”. Isso é resultado de uma capacidade muito peculiar de adaptação cultural naquele país, conforme nos demonstra esta obra do americano Joshua Frydman, professor de literatura japonesa em Oklahoma.

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Alerta Vermelho

Alerta Vermelho – Martha Wells

Tradução: Laura Pohl – Editora Aleph

Ano de Lançamento: 2017 – Minha Edição: 2024 – 213 Páginas


Normalmente as obras da ficção que trabalham com a hipótese de robôs “rebeldes”, aqueles que param de seguir as ordens dos humanos, caminham para duas temáticas: a utopia robótica, menos disseminada, na qual as máquinas nos governam e cuidam do bem estar da humanidade; e a distopia, mais popular, quando somos exterminados ou escravizados por elas. Em Alerta Vermelho, obra premiada com o Hugo e o Nebula, temos uma outra possibilidade: um robô rebelado que só quer viver uma vida medíocre.

Neste livro, acompanhamos a história do “Robôssassino” (Muderbot, no original), como ele próprio se nomeia: um androide que faz a segurança de uma equipe de cientistas que está trabalhando em um planeta desconhecido e isolado.

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