A Era do Capital Improdutivo

A Era do Capital Improdutivo: a nova arquitetura do poder, sob dominação financeira, sequestro da democracia e destruição do planeta. – Ladislau Dowbor.

Data de Lançamento: 2017 – Minha edição: 2018 – 320 páginas


Quando terminei de assistir A Grande Aposta, filme de 2015, fiquei com uma sensação bastante estranha. O filme conta histórias de pessoas que enriqueceram com a crise de 2008/09 e bolha imobiliária, explicando tudo bem didaticamente. O incômodo foi com um núcleo em especial: o dos dois investidores mais jovens assessorados pelo personagem do Brad Pitt. Seu arco era de que foram capazes de transformar um fundo de investimentos de 30 milhões em 80 milhões de dólares.

Essas cifras para o mundo dos negócios são dinheiro de pinga, entretanto, para indivíduos, seria o valor de trabalho de várias vidas. Mas, nada mudou muito para esses personagens; continuaram a viver sua vida de classe média. O que aconteceu com os 80 milhões de dólares que eles estavam gerenciando? Qual foi a diferença entre ter 30 ou 80 milhões?

Esse cenário é descrito e explicado por Ladislau neste livro fantástico; esses 80 milhões muito provavelmente nunca viram a luz do dia. Eles ainda devem estar lá rendendo indefinidamente. Nada foi transformado em empresas, indústrias, comércios, cultura, produtos, pesquisas e salários… continua lá rendendo.

Esse exemplo não é isolado, vem se tornando a tendência de como a economia atual está se desenvolvendo – ou melhor, retrocedendo. Os dados que o livro apresenta indicam que 1/4 da riqueza mundial está em paraísos fiscais (que, por sua natureza, não são convertidos em produção) e que o mercado de derivativos, em 2013, movimentou cerca de 10 vezes mais dinheiro que o PIB mundial.

Isso significa que enquanto civilização, a humanidade produziu x em capital; o mercado financeiro movimentou 10x, dez vezes mais dinheiro em pura especulação. As riquezas produzidas pelo mundo, em serviços e produtos, continuam lá valendo X, mas os investidores ganharam 10 vezes mais dinheiro só jogando capital de lá pra cá.

Esse é um grande sintoma do Capitalismo Tardio. Mais que uma injustiça individual às pessoas que perderam suas casas ou poupanças na crise de 2008/09, ou com o brasileiro que paga 190% de juros no cartão de crédito, ou com o empresário que em média sofre com 62% de juros em empréstimos de pessoa jurídica, essa forma econômica está gradativamente travando o mundo todo.

Um punhado de empresas transnacionais hoje controlam a maior parte da riqueza produzida pelos seres humanos. Elas são conglomerados gigantescos, e têm ramificações de centenas de outras empesas de vários ramos. Ao contrário do mito, essas empresas são uma bagunça burocrática; são ingovernáveis. Administrando as mais diversas áreas industriais e comerciais, que podem ter ou não a ver com o ramo principal, em dezenas de países diferentes, elas têm uma única baliza para verificar se esses ramos menores são eficientes ou não: o lucro.

Isso parece meio óbvio, mas a questão é muito mais profunda. Os dados do livro apontam que um único grupo pode ter de 330 a 12 mil instâncias administrativas diferentes, em 23 a 86 países, e trabalhar com 27 a 164 setores diversos.

Quando uma empresa trabalha com 100 atividades diferentes, como ela pode saber o que está dando certo ou não? Olhando as margens de lucro. É a única linguagem comum e capaz de atravessar as várias barreiras burocráticas, físicas, nacionais e técnicas. E as implicações disso são devastadoras.

Se alguma filial não deu certo, fecha. Se um produto não vendeu bem, é descontinuado. Se uma pesquisa promissora de uma subsidiária está demorando muito, é cancelada. Se em um país aquele mercado é pequeno, vamos sair dele. E assim vai.

A única certeza é que o capital que sobrar tem como destino provável as aplicações financeiras, que rendem até 10 vezes capital que aplicação em produção. Enquanto o dinheiro compra dinheiro, a alimentação de investimentos em produção e desenvolvimento – que também são salários para que se compre as mercadorias – é cada vez menor.

Por quanto mais tempo ainda a civilização humana conseguirá avançar desta forma?

Excelente (5/5)

Um livro muito didático e impactante para apresentar questões tão complexas. Apesar de se tornar repetitivo as vezes, passa por todos os pontos fundamentais da argumentação, com muitos dados e exemplos. uma obra fundamental para entender como funciona a economia atualmente.

Commodities: pelo apurado no livro, o comércio mundial dessas mercadorias – os bens primários – é em sua maioria controlado por um grupo bastante reduzido de conglomerados. Em um exemplo, a suíça Gleencore foi responsável por 55% do comércio mundial de zinco e 36% de cobre em 2010, enquanto a Trafigura, de Singapura, movimenta em média, por dia, mais Petróleo que o produzido pela Arábia Saudita e Venezuela juntas.

De acordo com o autor, o consumo das commodities, por sua natureza primária, é relativamente estável. São coisas tão básicas que sempre haverá uma demanda suficiente para garantir estabilidade. Então o que geraria booms e quedas drásticas de preços, que destroem economias dependentes disso, como a nossa? Especulação.

Para esses tipos de conglomerados, não compensa apenas produzir ou vender as coisas, eles são tão gigantes e tão sedentos por lucro, que é preciso gerar crises para movimentar os preços e assim ganhar em cima dessa instabilidade. No caso do Petróleo, os derivativos do comércio movimentam cerca de 30 vezes mais capital que a produção real. Isso quer dizer, mais ou menos, que um mesmo barril de petróleo é “vendido” 30 vezes no mercado.

Em “Capitalismo, uma história de amor“, Michael Moore tenta entrevistar operadores da bolsa para pedir que expliquem o que são “derivativos”. Um, simpático ao diretor, se dispõe a fazer. Ele tenta começar a explicação por algumas vezes e desiste.

Junk Economics: como acabamos de ver, o comércio mundial está longe de ser uma coisa simples. Entender como uma mesma coisa pode ser vendida mais de uma vez; compreender o que são derivativos, swaps; como é possível apostar na quebra de empresas comprando opções de vendas… todos esses instrumentos são complicados demais até para quem trabalha com eles.

Para fazer você não entender nada disso e continuar acreditando em contos da carochinha econômicos, concordar com transferência de renda para os mais ricos e coisas do tipo, sempre explicam com analogias cotidianas. As contas da casa, a pesquisa de preço no jornalzinho de mercado… tudo furada. Não chegam nem perto de fazer sentido. Isso não ocorre só no Brasil e tem nome: junk economics.

Juros bancários: no Governo FHC, o artigo da Constituição que regulava o sistema bancário e, dentre outras coisas, limitava os juros anuais de crédito a 12% ao ano, foi revogado. Atualmente, os juros no Brasil podem ultrapassar 700% em 12 meses dependendo da modalidade. A questão é que o mesmo Santander oferece, na Espanha, juros de 3,5% ao ano em um empréstimo pessoal, enquanto aqui, em 2016, a média era de 125,02%.

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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