Por uma outra Globalização

Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal – Milton Santos

Ano de Lançamento: 2000 – Minha Edição: 32ª 2021 – 194 páginas


Quem foi a escola nos anos 90 e 2000 provavelmente gastou boa parte das aulas de geografia estudando o fenômeno da globalização. Com o final da Guerra Fria e a alta conectividade no mundo, gerada pela pulverização de fronteiras e vertiginoso crescimento das telecomunicações, a humanidade estava de frente com o seu maior desafio: conviver como uma só entidade.

Paulatinamente esse debate foi cessando e a impressão que fica é que a discussão já não é mais necessária, a globalização já é o nosso cotidiano. Discuti-la é equivalente a questionar se a água é molhada ou se o sol nasce a leste, um verdadeiro fenômeno da natureza. Nada mais perigoso.

Em algum lugar aqui entra a questão do “globalismo” a teoria da conspiração de extrema direita, que ganhou força e versa sobre criação de uma cultura universal “biônica” que enterraria todas as tradições locais. Entretanto, não passa de uma corruptela dos questionamentos reais da globalização. Pois as culturas a serem destruídas, de arco com os neofascistas, não seriam as dos marginalizados nem das minorias, localizadas na periferia da globalização. Pelo contrário, o ataque seria às religiões e tradições dominantes, como o cristianismo ou o nacionalismo ocidental, que são justamente àqueles que a impuseram por séculos; é um besteirol sem tamanho (mas com o objetivo claro de reforçar essa imposição).

Já no final de sua vida, o maior geógrafo brasileiro, Milton Santos, decidiu mergulhar de cabeça naquele debate tão intenso e se dedicou muito a pensar a questão (vale a pena rever sua entrevista no Roda Vida, de 1997); o resultado final foi a publicação desta obra um ano antes de sua morte, que se tornou um clássico instantâneo das ciências humanas.

Longe de comprar o discurso benéfico da Globalização – advertindo na entrevista citada acima: quem concorda com as visões dominantes na sociedade não é um intelectual – ele demonstra que estava em marcha a “Globalização Perversa“; que consistiria na implantação de um motor único do imperialismo: a mais valia-universal. Operando através da implantação vários totalitarismos graças ao final da Guerra Fria. Em especial, o totalitarismo do dinheiro e o totalitarismo da informação.

Tentando resumir de forma muito panorâmica, o que a Globalização Perversa, vem fazendo, longe de integrar, é nivelar a humanidade através de determinados padrões econômicos e sociais de modo a continuar beneficiando o centro do mundo (a “tríade”, como ele nomeia os EUA, Europa e Japão), através do que era chamado na época de Pensée Unique, ou pensamento único. O que nada mais é que a expansão desenfreada do Neo liberalismo, tratado como a única forma possível e natural, que jamais existiu e existirá, de organizar a sociedade humana.

Ao invés de distribuir riqueza, a Globalização distribui crises. Não somente no sentido que a quebra de uma bolsa pode impactar a outra, mas que diante das crises, que se avolumam, elas são distribuídas igualmente ao resto do planeta que é obrigado, para permanecer na comunidade global, a seguir as mesmas medidas de “solução“. Implantadas através de intensa propaganda ideológica (totalitarismo da informação) do centro para a periferia. Como ele aponta; a cada sociedade passa ser julgada igualmente pela “técnica hegemônica”. Isto é, os padrões (índices econômicos, sociais, de produtividade) da tríade se transformam numa verdade aplicada a todos os países e sociedades. Um país é bom ou ruim, uma empresa é eficiente ou não, de acordo com as referências “internacionais”, criadas por órgãos controlados por EUA e Europa, e divulgadas através dos meios de comunicação dos países ricos.

Invariavelmente, desde o final dos anos dourados (década de 1970), o uso desses indicadores em tempos de crise resulta em austeridade e privatizações, que transformam o Estado de um ente público, destinado a cuidar dos cidadãos, em um mero administrador das finanças locais (totalitarismo do dinheiro). Isso para usar um exemplo bem claro, permite que, a partir de privatizações de estatais das periferias vendidas a empresas transnacionais do centro, a extração da mais valia com padrões globais.

O texto vai desenvolvendo cada uma dessas ideias, e ainda outros tantos diagnósticos que ele faz desse fenômeno, de forma muito ágil, com capítulos curtos de umas 10 páginas, divididos em várias partes. Mas não se engane, apesar dessa simplicidade visual, é uma obra extremamente densa – daquelas que temos vontade de grifar todos os parágrafos. Justamente pelo formato rápido, exige muita concentração na leitura. Eu até tenho uma base de Geografia e mesmo assim penei para compreender algumas coisas. Da mesma forma, parece um livro de Filosofia, já que ele não cita diretamente nomes nem eventos, e não há tanta concretude usada pelo autor, como gráficos, mapas, tabelas, indicadores – o que é coerente, afinal, ele está criticando exatamente o uso desenfreado dessa métricas.

Apesar de focar nesta profunda desconstrução da Globalização, Milton Santos reafirma várias vezes que sua face perversa não é o único caminho.

A tentativa de homogeneização da humanidade através dos padrões do dinheiro e da informação, tenderá a criar resistência por parte das populações mais marginalizadas, uma vez que fique latente o quanto o pensamento único as empurram, através da pobreza e crise, para mais longe do centro, ao invés de cumprir a promessa de unificação. Paradoxalmente, ele aponta, uma solidariedade desses grupos fragilizados teria mais possibilidade de crescer a angariar mais apoio justamente dada a espécie de “língua franca” de economia, cultura e sociedade imposta pela globalização.

Não podemos nos esquecer que o autor é um homem do século XX, e muitas das suas impressões foram construídas naquele contexto, especialmente sobre suas esperanças – que carregam, como ele mesmo aponta, uma necessidade de retomar o pensamento terceiromundista (acreditar no imperialismo como raiz da nossa pobreza, para resumir mal e porcamente). Coisas que eu particularmente concordo, acho centrais e que acredito que devam ser sim perseguidas, mas não deixam de parecer coisas do passado. Nesse sentido, não necessariamente é uma visão otimista que temos ao final do livro, pois Milton Santos não propõe o que seria a “outra” globalização, e de fato, dificilmente um intelectual o faria. Ele apenas um indica o caminho de onde esses novos pensamentos poderiam surgir.

Excelente (5/5)

Um dos maiores clássicos das humanidades no brasil. Faz um profundo diagnóstico da “globalização perversa” através de um texto rápido e ágil mas que ao mesmo tempo exige muito do leitor.

Cidade e o Campo: Santos aponta que, ao contrário do que uma avaliação mais superficial poderia sugerir, o campo é uma região que sofrerá muito mais com a Globalização do que a cidade. Com laços esvaziados e mais frágeis entre a população e o território, devido à migração anterior (êxodo rural) e cadeias menos complexas de produção, o interior será muito mais facilmente engolido pelas forças exteriores que as cidades.

O geógrafo não poderia ser mais certeiro na avalição; é só observarmos como a bancada do Boi é o grande motor econômico por trás do reacionarismo da política nacional nos últimos anos. Observando seus ganhos cada vez maiores com o esvaziamento industrial e a política cambial, o agro negócio é o setor que mais luta contra a independência econômica do Brasil e projetos nacionais-desenvolvimentistas.

Resistência Cultural: um dos espaços levantados pelo autor como mais prolíficos focos de resistência à Globalização perversa seria a cultura. Diante a homogeneização forçada pelo hemisfério norte ao resto do planeta para garantir a vitória do Pensée Unique, essa pressão alimentaria uma contradição que geraria o movimento, senão oposto, alternativo, ao que se opera no século XXI.

Pensando, por exemplo, na Revolução Iraniana, onde os valores islâmicos significariam algo próximo disso, o diagnóstico de Santos mais uma vez é certeiro. Entretanto, ele é certeiro até demais. Caso relacionemos isso a fortíssima tendência ao monopólio, empresarial mas também de forma e conteúdo, que o mercado cultural vem sofrendo – através dos serviços de streaming, compra de estúdios, falência de editoras e livrarias através da ação da Amazon – percebemos um grande volume de ações que geram um conteúdo cada vez mais pasteurizado.

Santos acredita que esses símbolos culturais implantados de cima para baixo serão sempre muito fixos – que estou chamando de pasteurizados, e me refiro por exemplo, a filmes de super-heróis ou sitcoms – o que, por sua vez, impediria eles de captarem as diferenças e transformações regionais. Desta forma, seriam insuficientes para as populações locais se expressarem, e assim elas criariam símbolos novos – estes, por sua vez, desempenhariam um papel de se opor à Globalização perversa.

Particularmente, eu acredito que a Globalização vem se adaptando de maneira formidável a esse desafio. Por um lado, implanta pautas de minorias aos seus produtos, dando vazão a necessidade de manifestação dos marginalizados; mas, especialmente por outro, o que Santos não poderia prever, o ambiente da internet possibilita hoje uma espécie de “sincretismo da cultura de massas” em ritmo e forma inimagináveis. Se o filme do Super Herói é americano, os brasileiros, por sua vez, conseguem produzir atualmente, uma série de memes quase que instantâneos ao seu lançamento, de forma a fazer com que esse conteúdo converse perfeitamente com à realidade local, sem confrontar um com o outro, mas sim os adaptando e não gerando questionamentos a sua produção ou objetivo.

Pautas Ambientas: outro dos temas que sempre figuraram em nossos livros de geografia nos anos 90 era a Eco 92, ou Rio 92. Foi o primeiro grande encontro organizado pelas Nações Unidas com o objetivo de frear as mudanças climáticas, e trabalhar por um futuro sustentável para o planeta Terra. Muito marcante, pois pela primeira vez o mundo unido, sem divisões da Guerra Fria, conseguia sentar para conversar sobre a natureza; os encontros decenais com esse tema foram batizados de Rio + 10 (2002) e Rio +20 (2012).

Entretanto, Milton Santos tem uma visão desconfiada dessa preocupação com o meio ambiente despertada, justamente, pela Globalização. Longe de ser contra a preservação da natureza, ele adverte que essas metas não levam verdadeiramente em conta as necessidades de desenvolvimento econômico e territorial dos países. Submeter-se as metas implantadas por países já desenvolvidos (primeiro mundo) seria, senão condenar, mas dificultar a nossa saída do terceiro mundo – chamados, desde então, pelo eufemismo de “em desenvolvimento”.

Podemos relacionar também com outra reflexão dele, a de que a Globalização tira o homem, a humanidade, do centro do desenvolvimento social. O foco dos países não deve ser desenvolver ou amparar seus cidadãos, e sim manter suas finanças sustentáveis (o totalitarismo do dinheiro).

Nesse sentido – e agora sou eu falando, deixando claro para não atribuir uma interpretação errada a obra – desconfio que o crescimento das pautas ambientais também seja um esforço de afirmar a primazia da natureza sobre o homem, e buscar afastar ainda mais a humanidade do foco da política.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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