Uma série que não precisava existir: O Livro de Boba Fett (1ª Temporada)

Um dos grandes segredos do sucesso de Mandalorian é que o seriado, na realidade, foi na esteira de um background muito sutil que já era construído no universo de Guerra nas Estrelas desde os anos 80. Mando é exatamente, em características, personalidade, trejeitos e aparência, o que esperávamos de Boba Fett, um personagem tão intrigante e misterioso dos filmes originais. Mando é Boba Fett.

Claro que livros, quadrinhos, jogos e uma cacetada de coisa do Universo Expandido foi criada para desenvolver o personagem, mas em base, seu segrego era justamente ser quieto, misterioso, silencioso, agindo apenas quando era necessário… dentre outros traços. Mesmo a introdução de Jango Fett, em O Ataque dos Clones, seguiu um pouco essa linha, ainda que com mais diálogos. E foi nisso que basearam Djin Djarin.

Numa decisão muito infeliz, resolveram ressuscitar o cara (eu sei que em várias histórias do UE ele já era vivo, digo no G-Canon). Eu me lembro que quando tinha 10 anos, queria um caderno da Ameaça Fantasma, de folhas negras, se lembram? Rapidamente percebi que inviável usá-lo na escola, então decidi fazer dele um espaço para escrever fanfics de Star Wars; a primeira que eu criei foi uma baseada no fato que Boba Fett não estava morto e tinha sido clonado por uma velha máquina de clones da República (acreditem se quiser). Ao final, o que eu quero dizer é que ressuscitar um personagem assim, e criar uma estória tão vazia, apenas para justificar que ele ainda esteja vivo, é uma mentalidade de fanfic.

Dessa coleção aqui, se lembram?

O problema que ficou de fora dessa equação é que eles já haviam gastado o personagem de Boba Fett para usar em Mandalorian. E agora?

Agradou: aspectos “técnicos”

Assim como em Mandalorian, os aspectos técnicos são impecáveis; maquiagem, uso de marionetes, efeitos, direção de arte – ainda que tenha ficado repetitivo, já que optou-se por uma mesma ambientação de Faroeste neste spinoff; ou seja, além de repetir o personagem repetiram também o contexto. Ah, pelo amor de Deus, até para ressaltar o que é bom percebo novas coisas ruins.

Não agradou: caracterização do protagonista e suas motivações; injetar episódios que seriam importantes em The Mandalorian em outro seriado.

Nem mesmo os bons episódios, que, na realidade, são episódios de The Mandalorian perdidos aqui, me agradaram, porque, no fundo, enfraquece a série original. Por exemplo, o encontro entre dois Jedis, deveria ser impactante, emocionante, um foco central de qualquer história, um dos momentos mais marcantes de toda a Guerra nas Estrelas. Mas aqui, se tornou um rodapé de uma trama, que é paralela do arco principal do que seriado, que por sua vez é um spinoff de outra. Pesado, não? Além do que, quem desejar revisitar ou mesmo ver Mandalorian pela primeira vez vai precisar ir atrás de pelo menos dois episódios de outro programa; isso é bizarro.

Dos 7 capítulos, 2 são histórias de Djin Djarin, isso não é só um sinal vermelho, é uma cancela abaixando, uma ponte pênsil levantando, o carro morrendo, o pneu furando… o protagonista e o enredo original da série não foram capazes nem de segurar uma temporada inteira sem precisar do socorro de Mando. E quando vemos os dois personagens compartilhando atenção do expectador na reta final, Boba Fett é eclipsado completamente pelo parceiro.

Uma vez que Mando é Boba Fett, precisaram criar um outro personagem para receber esse nome. Completamente diferente do que esperávamos, aqui temos um “anti-heroi” – entre aspas porque nem esse retrato é estabilizado; se não soubéssemos que ele era um antigo vilão, não estaria claro – falante, que passa mais tempo sem capacete, dando respostinhas rápidas, olhares atravessados e que não tem a menor ideia do que quer. A construção do personagem deixou o ator, Temuera Morrison, que já não é nenhum gênio, completamente perdido sobre o que fazer; minha impressão é que ele está no piloto automático, faz uns olhares de mal e umas caras de esforço físico e bola pra frente. Temuera, aliás, chegou ao ponto de tentar cortar os próprios diálogos porque não concordava com os rumos sua caracterização.

Suas motivações também são desorientadas; não dá saber o que exatamente ele quer. Boba é um herói ou um anti-herói? Ele quer salvar ou dominar a cidade? Por que ele quer isso? Quer se aposentar? Quer redenção ou ele busca algum tipo de vingança? Contra quem, exatamente? Jabba morreu também; o antigo caçador de recompensas não foi passado para trás por ninguém, parece que todo mundo esqueceu que ele foi derrotado pelos mocinhos há 39 anos atrás. Nada disso são mistérios ou mesmo contradições do personagem, são apenas gigantescos furos de construção dele; e do roteiro do seriado de modo mais amplo. Por exemplo, todo o arco do Povo da Areia é completamente despropositado (é usado em apenas dois diálogos do último episódio sem maiores implicações).

Aliás, roteiros que não chegam a ser ruins, mas muito menos brilhantes que os de Mandalorian. Em um episódio assistimos a 20 minutos da busca de um objeto onde já sabemos que não está; em outro, uma dezena de ajudantes do herói insistem em ficar acuados em todos os momentos.

Devido a fãbase fiel e a forma como o público vem sendo formatado pela Disney/Marvel para aceitar certas coisas, a série não foi um fracasso de audiência; mas o resultado foi um completo desastre. Acredito que ainda não é o suficiente para decretar o fracasso geral e desconfiança das próximas séries de live action baseada em Star Wars; minha impressão é que o erro foi a gênese deste seriado em particular – sua relação com The Mandalorian, abordada no início deste texto.

Ainda assim, olhos abertos e orelhas em pé com Kenobi.


Episódios

S01E01: Estranho numa Terra Estranha – Logo após escapar do estômago de Saarlac, Boba Fett é saqueado por Jawas e sequestrado pelo povo da Areia e se torna uma espécie de refém ou escravo; isso é intercalado com os primeiros passos que ele dá para se tornar o mafioso mais forte do pedaço, no lugar de Jabba e Bib Fortuna nos arredores de Mos Espa em Tatooine.

Pela sinopse já dá para ver o principal problema: a morte consolidada do personagem, desmentida 40 anos depois, tem uma resposta extremamente simplória e que o capítulo leva pouco mais de um minuto para responder: Boba Fett simplesmente escapa de dentro do bicho. Pronto. Essa era “a explicação” do trás da não-morte do personagem.

Não sabendo exatamente para onde seguir, o seriado tenta intercalar umas cenas de humor, com elementos de velho oeste ou mesmo da cultura japonesa, enquanto assistimos a tediosas sequências com o Povo da Areia. É que a qualidade geral da produção segura, mas foi um tremendo começo com pé esquerdo.

Avaliação: 1.5 de 5.

Muito Ruim (1,5/5)


S01E02: Tribos de Tatooine – Buscando descobrir quem enviou os assassinos atrás dele, Boba descobre que primos de Jabba chegaram à cidade para tomar conta dos espólios do Hutt. Mas o foco do episódio ainda é com o Povo da Areia; nosso protagonista tentará organizar os nômades para atacar um trem que atravessa seu território carregando contrabando e drogas.

Um pouquinho mais centrado; este episódio oferece um desenvolvimento interno do seriado com, finalmente, apresentação de outros personagens importantes por um lado e, por outro, há uma ação mais direcionada. Ao invés de cenas soltas do cotidiano do Povo da Areia e seus prisioneiros, como no primeiro capítulo, aqui há um sentido específico do que Boba e a tribo querem fazer.

Todavia, em um momento é estabelecido que Boba pode ir e voltar livremente do acampamento, por quê então ele permanece com seus captores? Tudo bem que ele ganhou o respeito deles e coisa e tal, mas não faz sentido essa repentina síndrome de Estocolmo, por enquanto.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E03: Nas ruas de Mos Espa – Ninguém em Tatooine respeita nosso bravo herói, e Boba Fett precisa mudar isso tentando descobrir exatamente quem mandou os assassinos atrás dele – e uma gangue de jovens motociclistas tem parte importante nisso.

Pensem numa amostra de série perdida; é este episódio. Fica difícil até escrever a sinopse. Não dá para saber exatamente o que o protagonista quer fazer; ser um bom governante, um espécie de bom xerife, um mafioso do bem? Não entendemos seu arco; ele busca redenção? Ou busca vingança? Ele se arrepende de ter feito um serviço para Jabba por quê? Porque era algo “mal” ou porque ele entende que foi passado para trás? Seu diálogo com o Wookie consegue a proeza de não ir para nenhum dos dois caminhos.

Há algum ganho com relação a trama do povo da Areia estar se encerrado, e entrada em cena de novos vilões, mas tudo bem chato. Essa questão da emboscada do primeiro episódio ainda ser um “mistério” é uma perda de tempo e depõe contra Boba, que parece um bobo sem saber para onde agir. O que movimenta o seriado, mais uma vez, é a qualidade técnica da coisa; todos os efeitos são impecáveis – assim como o uso de lore de Guerra nas Estrelas; o Wookie negro é um personagem que automaticamente você já acha legal só pela aparência.

Avaliação: 1 de 5.

Muito Ruim (1/5)


S01E04: Formando uma tempestade – Majoritariamente ocorrendo “no passado”, acompanhamos por boa parte deste capítulo como Boba encontrou Fenec, e sua jornada para recuperar a sua antiga nave, a Slave I. Sendo mais centrada nessa missão em específico, a série passa uma impressão de estar menos perdida que de costume.

A aventura dentro do palácio rende alguns momentos legais, como o ameaçador droide cozinheiro (uma pena que não rendeu uma verdadeira luta) e toda batalha para sair do local. Mas não é o suficiente para elevar o nível geral. Logo em seguida o seriado apresenta graves problemas de roteiro: todo o perigo para buscar a armadura dentro do Sarlaac sendo que nós já sabemos que ela não está lá é uma completa perda de tempo do expectador, em troca de uma pequena cena de tensão – fora que a geografia faz pouco sentido, entrar com a nave no poço?

Por outro lado, supostamente seria o capítulo para estabelecer o laço entre Fennec e Fett, o que não se justifica em momento algum. Ficou tão mal entendido que no dia seguinte já havia vídeos e textos na Internet para tentar explicar o porquê ela continuou com o protagonista.

Avaliação: 2 de 5.

Ruim (2/5)


S01E05: O Retorno do Mandaloriano – Uma verdadeira pausa em uma série para entrarmos em outra; focado apenas em Din Djarin, acompanhamos o protagonista de Mandalorian na sua jornada após entregar Grogu aos Jedi, e sua busca por uma outra nave. Entre nós, a N1 é meu veículo favorito de toda Guerra nas Estrelas, mas não faz sentido um caçador de recompensas usar uma… onde ele vai levar o alvo? No soquete do droide astromecânico, provavelmente, mas tem que ser sempre um humanoide e pequeno.

A fãbase está em polvorosa com Bryce Dallas, que conseguiu erguer esse seriado com um grande capítulo – e pedindo que ela dirija o reboot da trilogia sequel que vem sendo aventado por aí. Ela faz um grande trabalho – as rimas com o Episódio I são maravilhosas, um espetáculo a parte – e gostaria de ver isso se repetir numa trilogia decente, mas direção está longe de ser o problema de O Livro de Boba Fett.

O motivo fica mais do que evidente aqui; como Mando se torna protagonista, está claro que ele é personagem de Boba Fett como era concebido nos filmes. O que inventaram para esse seriado é outra coisa completamente diferente; o que fez a série, como efeito colateral, ficar sem direção narrativa; não sabemos quem ele é, o que ele quer, o que motiva… diferentemente de Mando, que mesmo com um background original, sempre tínhamos claro sua identidade e motivações. O que fica perceptível aqui.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E06 – Um estranho no deserto – Olha só, que surpresa, mais um episódio legal, sendo coincidentemente um, mais uma vez, em que Boba Fett não aparece. Novamente estruturado como se fosse um capítulo de outro seriado, acompanhamos duas estórias separadas; o xerife Cobb Vanth lidando com os traficantes que chegaram a Tatooine, e Mando tentando reencontrar com Grogu. A grande atração são justamente as aparições especiais.

É tudo muito legal, do começo ao final, entretanto ainda é uma estruturação um pouco estranha porque é exatamente uma side-story do seriado, uma espécie de apêndice – dois seguidos, na verdade. Mesmo que ótimos e um ponto alto do show, não faz sentido terem sido abordadas ambas essas histórias aqui. Os produtores estão mais perdidos que cegos em tiroteio em O Livro de Boba Fett.

E isso reflete bastante no desenvolvimento do enredo dos personagens evolvidos; porque, por exemplo, o encontro entre dois Jedi, que seria algo bastante emocionante e deveria haver um capítulo específico para os diálogos e conversas sobre eles, aqui ficou algo casual. Pegamos o encontro deles na metade, ou, melhor, no final. Ao invés de escutarmos perguntas sobre o pai e a mãe de um deles, desconhecidos para o filho, temos apenas um bate papo de 4 ou 5 linhas de diálogo com um “flw, vlw“.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S01E07: Em nome da honra – Um espetáculo de ação. Após o atentado na boate, o Sindicato Pike arma um cerco final contra Boba Fett e seus amigos que reagem para defender Mos Espa. Com algumas conversas ao começo, o capítulo rapidamente se transforma em um excelente blockbuster de ação: tiros, explosões, cavaleiros voadores, robôs gigantes, monstros… tudo que você tem direito.

Há alguns problemas de roteiro nas cenas de ação; como, por exemplo, a capacidade incrível que os ajudantes dos heróis têm de ficarem acuados. Eles se deslocam várias vezes sempre para ficarem mal posicionados novamente: todos em uma esquina sem saída, todos atrás de um mesmo veículo, todos atrás de uma mesma parede… não chega a comprometer a experiência, mas salta aos olhos.

Infelizmente, o problema continua com as motivações e caracterizações do núcleo central; o que eles queriam fazer? Controlar a cidade? Governar a cidade? Boba Fett se tornou contrário ao tráfico de drogas e violência; mas tem como braço direito uma fria assassina. A gangue dos motoqueiros na verdade eram justiceiros do bem? Esse desorteamento interfere em tudo, inclusive no decepcionante uso de Cad Bane, uma das maiores atrações do seriado, mas que rende aparições pequenas e simplórias.

Outro reflexo da pobreza do seriado é finalmente a razão de todo o longo arco inicial referente à amizade com o povo da areia: deixar o protagonista um pouquinho mais bravo. Eu suspeitava que eles seriam o fiel da balança na luta final, mas não.

O desfecho da temporada dá a entender que, no fundo, todos os envolvidos eram muito bonzinhos, inclusive bonzinhos a ponto não aceitar o reconhecimento de serem bonzinhos… nenhum personagem é tridimensional, o que fica claro quanto eles contracenam com, como é o caso aqui. Em poucas linhas de diálogo ele te conquista; enquanto Boba Fett tem pouca ou nenhuma conexão com o expectador, mais parece um personagem genérico de um FPS.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


Melhor Episódio

O Retorno do Mandaloriano – O melhor episódio do seriado é justamente um capítulo que, na realidade, não faz parte desta série. Fica muito nítido que Mando é o personagem original de Boba Fett, ao vermos ele atuando no seriado com este nome; ele que age como esperávamos e age como um real anti-herói. Continuamos aqui o enredo de O Mandaloriano, com a busca dele por novas motivações após entregar Grogu a Luke.

Também somos brindados com mais lore referente ao personagem e sua raça, além de uma ação moderada, mas centrada. No caso, buscando rimas com o Episódio I (dos filmes) a partir do retorno de um veículo.

Além dele, sua sequência, Um Estranho no Deserto, é boa por justamente continuar a contar a história de Mandalorian – mas não gosto do uso de Ashoka e Luke aqui; eles se conhecerem deveria ser algo grandioso. E o final, Em Nome da Honra, é uma ótima história de ação com alta energia do começo ao fim.

Pior Episódio

Nas ruas de Mos Espa – Reúne todas as características do porquê o seriado ser ruim, de como ele não tem a menor sentido narrativo. Não conseguimos identificar quem exatamente é o protagonista, seus traços de caráter, e nem suas motivações. Para ajudá-lo ele ainda recorre a outros elementos tão desinteressantes quantos; alguns jovens cyber-punks em motos coloridas que também não sabemos se são heróis, anti-heróis, vilões…

Estão chamando eles de Power Rangers da Disney

Mesmo recorrendo ao clichê do personagem-explicando-um-contexto-mostrando-um-mapa, as coisas ainda são desorientadas. Não são confusas, mas desmotivadas. Tente fazer a sinopse do episódio; é um trabalho difícil e revela bem seus problemas. Para piorar, ainda somos intercalados com novos flashbacks do arco do povo da areia, que vai se arrastando cada vez mais – e, sabemos ao final da temporada, não terá a menor importância.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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