O ódio à democracia


O Ódio à democracia – Jaques Rancière

Boitempo Editora – Tradução: Mariana Escobar

Data de Lançamento: 2005 – Minha Edição: 2019 – 125 páginas


Porque, ao redor do mundo aparentemente houve uma onda de gente sem noção, alguns burros outros nem tanto, sendo eleita e assumindo a liderança de países importantes no planeta? Foi o surgimento desta crise que este livro tentou diagnosticar, mal sabia o autor à época o quão piores as coisas ficariam nos 15 anos seguintes.

Relativamente curto, tem um pouco mais de 100 páginas, mas muito denso e não tão simples de ler. O autor, franco-argelino, vai desde a noções gregas de democracia e república até a contemporaneidade. Ele aponta como após o final da Guerra Fria a disputa entre democracia e o alegado totalitarismo dos países Socialistas tem fim, e inicia-se um debate interno dessas democracias vitoriosas. Começa a existir uma democracia “do bem” e uma “do mal“.

A do mal” é uma democracia coletiva, que lembraria um autoritarismo, em que as decisões devem dizer respeitos a todos os membros da sociedade – como em um exemplo que ele usa, a de uma campanha salarial de uma categoria, que afeta tanto todos que dependem daquele serviço quanto todos os trabalhadores da área. Enquanto isso, há a democracia “do bem“, em que as decisões são privatizadas. Inclusive as negociações trabalhistas, mantendo o mesmo exemplo. Cada um decide sobre tudo da sua vida em diálogos com outros indivíduos; a grande liberdade.

Isso floresce sobre a confusão e a substituição da noção de cidadão – que é coletiva, você faz parte de uma comunidade, com direitos e responsabilidades sobre ela – pela noção de consumidor – que é individual, você que decide usar determinados serviços, e seu elo é único com o prestador desse serviço.

Essa substituição é um tema importante para Hobsbawm neste obra.

Globalização, Democracia e Terrorismo

Eric Hobsbawm é conhecido por suas obras dedicadas às transformações que consolidaram o mundo burguês tal como conhecemos hoje; estudando o longo século XIX e o breve século XX. Mas o que será que ele conseguiu identificar do século XXI?

A volta é grande, mas fundamental para ajudar a explicar esse fenômeno dos governantes que governam aparentemente contra seus próprios países e suas instituições. Como é claramente o nosso caso, tal vimos no vídeo vazado por aqui há alguns meses da reunião ministerial do governo.

Esses anti-governos, que é o caso Bolsonarista, contam com aprovação de parcela expressiva da população no mundo todo. Por quê?

Nesta obra o que o autor aponta é uma porção de paradoxos: de um lado as classes dominantes acham que o mundo ficou democrático demais, lutando contra isso, e de outro, a maior parte dos dominados entendem a democracia, tal como conhecemos hoje (a democracia burguesa), sendo já algo viciado que pouco resolve seus problemas, não é democrática, no limite.

Os ataques são às instâncias coletivas: instituições, estatais, órgãos públicos, universidades, e outras, como disfuncionais, apelando à individualidade de cada um, que, sendo especiais, teriam direito a coisas melhores. E como, de fato, essas instâncias coletivas estão cada vez menos funcionais, o que é parte do esforço das classes dominantes de fazer a comunidade se tornar menos democrática – neste caso prejudicando seus direitos sociais e econômicos – a falsa crítica faz todo sentido.

Ou seja, os que acham que a democracia não é democrática o suficiente, buscam a salvação naqueles que acham que a democracia é democrática demais.

A solução para isso o autor não aponta, depende dos projetos políticos de cada corrente de pensamento. O importante é entendermos a crise para observar a necessidade de superação desse modelo de democracia que se tornou a forma hegemônica de governo no mundo após a 1991. Desta forma, evitar de cair em outro paradoxo: defender uma bandeira que ninguém mais acredita, nem nós mesmos.

Será que o Brasil realmente cabe em 513 deputados eleitos a cada 4 anos? Será que as grandes empresas devem ser administradas apenas pelos acionistas e diretores? Será que a imprensa deve ficar na mão de algumas famílias e as redes sociais controladas por uma única grande corporação?

Excelente (4,5/5)

Uma obra que é um verdadeiro farol para entendermos a crise política mundial. Uma discussão compacta mas muito densa sobre o esgotamento e contradições da Democracia Burguesa, atualmente a forma hegemônica de governo em todo o planeta. Esse esclarecimento todo tem um preço: é uma leitura dificílima.

Lendo reflexões como O Ódio à Democracia, os livros americanos para entender a mesma crise, tal como esta bobajada abaixo, ficam tão profundos quanto os comentários do Pelé na Copa de 94.

Como as democracias morrem

Contrabandeado como uma grande análise, é uma baboseira do início ao fim: as respostas que eles apresentam deveriam ser a partida da análise, para ir mais a fundo ou desconstruí-las. Ao contrário, o livro apenas endossa as explicações mais superficiais possíveis para a crise política mundial.

República e Democracia: é o trecho do livro que fará fumaça sair de suas orelhas. Partindo do exemplo das escolas, o autor detalhe a diferença entre esses dois conceitos. A república é a ausência dos títulos prévios para se governar – títulos nobliárquicos ou religiosos – criando uma noção de igualdade. Entretanto, para manter um nível hierárquico na sociedade, é preciso criar uma desigualdade entre os iguais.

Isso é possível ao fortalecer a igualdade. Não, não escrevi errado nem você entendeu errado. Numa sociedade de iguais, a forma mais eficiente de criar desiguais é fortalecer um certo aspecto da igualdade, ligado à individualidade.

Reduzindo cada membro da sociedade às suas características e posses, sem nenhum intermediário, ou seja, a tratar todos com igualdade no começo do processo (o que já é um avanço à monarquia). Incluindo seus laços familiares, experiências, habilidades e dons esse tratamento fariam se destacar os melhores; aqueles capazes de governar a República. Já a Democracia teria mais a ver com instrumentos capazes de garantir a igualdade ao final do processo (nas tomadas da decisão)

Nas escolas, como exemplo prático dessas diferenças, isso se traduz em currículos e metodologias iguais para todos os alunos como um ideal Republicano, com foco em formações técnicas. Enquanto um ideal Democrático seria o oposto, escolas adaptadas e com formações críticas.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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