Como as democracias morrem


Como as democracias morrem – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

Tradução: Renato Aguiar. Editora Zahar

Data de Lançamento: 2018 – Minha Edição: 2018 – 272 páginas


Desde que passamos pela queda da presidente Dilma em 2016 houve uma espécie de pane generalizada no entendimento de política, estávamos (e ainda estamos) claramente passando por um golpe de estado mas poucos se deram conta. O segredo é que tudo foi, e é, feito dentro dos marcos legais e institucionais. É algo que ocorre no mundo todo, líderes autoritários assumem por vias legais e ameaçam as instituições que eles juraram proteger

Para entender como esse processo vem ocorrendo no planeta, recomendo que NÃO leiam este livro. Ao final da leitura você vai entender menos ainda como tudo está se passando.

O livro é de americanos escrito para americanos, não há nenhuma pretensão de atingir leitores estrangeiros. Sendo assim, tem como referência o sistema eleitoral americano, e considera seus elementos – tais como bipartidarismo, voto distrital e eleição indireta – como coisas impassíveis de crítica, modelos que seriam sinônimos de democracia (chamados de “guardiães”).

Desta forma, consideram o sistema eleitoral americano como natural, as crises são apresentadas como externas e numa ótica pessoal, personalista, dos envolvidos. Sistemas econômicos, políticos e eleitorais são tratados como elementos da natureza, imutáveis, incontestáveis; são as pessoas que participam deles que podem prejudicá-los.

Também nostálgico de um tempo em que os problemas se resolviam nos bastidores, que os partidos defendiam bandeiras parecidas, tempos em que os políticos adversários se “entendiam ao tomar um bom vinho“… Sem perceber que justamente são situações como essas – políticos de bandeiras opostas confraternizando e se acertando nos bastidores – que desacreditam às democracias.

Entre 1992 e 2020, o Partido Republicano ocupou a presidência dos EUA por 12 anos, desses anos, por apenas 4 o mandato correspondeu à escolha do voto popular. Sabe quantas vezes alguma crítica referente ao sistema eleitoral é feita neste livro? Nenhuma. Pelo contrário, é elogiado como uma defesa da democracia.

Com todos estes elementos, a análise só poderia ser extremamente míope: a política é tratada em abstrato, sem conexões com economia, sociedade, cultura, política internacional; a democracia é “boa” e desvios dela são “maus”, de ordem pessoal ou moral. Ditadores são líderes mentirosos megalomaníacos. Golpes e escaladas autoritárias acontecem pois o resto dos políticos foi desatento. Um presidente ser democrático é uma questão de “comedimento” e “controle”. O livro é um disco riscado dessas análises,

Não que isso tudo esteja “errado” – por isso este livro consegue enganar muita gente e não se sinta ofendido de alguma forma se gostou dele – mas não explica nada.

Apenas confunde, pois a crise geral das democracias é explicada em três linhas gerais: 1) fulano é “mau”, não tem controle, é ambicioso, mentiroso; 2) os apoiadores dos políticos “do mal” foram desatentos, não achavam que o líder chegaria tão longe; 3) a população enganada por um outsider. Esse resumo fuleiro não está errado, tudo está certo, mas deveria ser um mito a ser desmistificado na análise política.

Ferdinand Porsche (esq.) demonstrando o VolksWagem Type 1 (Fusca) a Hitler. Diversas empresas alemãs deram apoio ao regime nazista mesmo antes da guerra; assim como foi na Itália ou no Japão fascistas. Os acionistas, diretores, donos e demais políticos que assinavam os contratos com essas firmas deixaram tudo acontecer porque estavam “desatentos”? Essa seria a resposta deste livro.

Sem esforço, qualquer pessoa culta pode esboçar que 1) autoritarismo não é resultado de “maldade” nem de ambição do ditador, o regime não se torna autoritário exclusivamente por traços pessoais dos políticos; 2) os apoiadores dão apoio a líderes e regimes autoritários por compactuar com as políticas deles, ou mesmos eles forjam esses ditadores em seus cálculos e manobras para atuarem por seus interesses; 3) a população não se engana pelo outsider, ela se engana ao achar que esse outsider seria um outsider – sempre esse cara desconhecido já fazia parte dos círculos do poder, apenas não era a cabeça.

Mas você não achará nada disso em Como as Democracias Morrem. Os autores deste livro apenas confirmam os mitos fuleiros, não é muito mais que a fala de um comentarista da Globonews, e não fazem um único esforço para dar um passo adiante na análise.

0/5 Horrível

Os autores olham a política pela política e são excessivamente personalistas e moralistas. é um disco riscado de lugares comuns de comentaristas políticos de tv. O Líder autoritário é do mal, quem o apoiou não prestou atenção às suas ambições e a população votou porque se enganou. a análise tinha que partir disso, não chegar nessas respostas.

FDR: é difícil destacar o momento mais patético do livro, mas ficaria com os trechos sobre a presidência de Franklin Roosevelt. Durante o New Deal, a Suprema Corte era conservadora e bloqueava muitas das medidas do presidente; para pressioná-la, FDR ameaçou dobrar o número de membros do tribunal e assim ter a maioria nela. A suprema corte recuou passou a aceitar o New Deal.

Isso é política, correlação de forças. Na pior crise econômica até então, Roosevelt, com popularidade e maioria legislativa, colocou o judiciário na parede, que, sem a mesma força e legitimidade, recuou. No livro isso é descrito como uma espécie de balé da democracia, a Corte recuou para preservar a democracia americana e o equilíbrio dos poderes – não teria nada a ver com o contexto econômico e social da época. Patético demais.

Se este livro fosse escrito para adultos, seria mais ou menos como esse abaixo:

O ódio à democracia

A crise mundial das democracias representativas levou a um paradoxo: as pessoas acham que a democracia não é democrática suficiente, está viciada, portanto, elas depositam seus votos em quem fala contra a própria democracia.

Hitler e Chávez, separados no nascimento: as primeiras páginas do livro são dedicadas a comparar diretamente a Alemanha Nazista, a Itália Fascista e a Venezuela Chavista. É regime um sendo usado em referência do outro; apontam que um determinado exemplo “X” acontece tanto em Berlim 1936, como em Roma 1922 e em Caracas 2002.

Em 2002, Bush cravou a Expressão “Eixo do Mal”, composto por Irã, Iraque e Coréia do Norte, como os grandes inimigos dos EUA. Este livro não faz coisa muito melhor, cria o Eixo do Mal 2.0 histórico, com nazismo, fascismo e chavismo.

Evo Morales e Rafael Correa: a ira dos autores também sobra, em vários momentos, para os ex-presidentes da Bolívia e do Equador, comparados aos piores ditadores da história. Ambos precisaram se exilar após um golpe de estado e perseguição política, pouquíssimo tempo depois da publicação do livro, no início de 2018. Já dá uma boa noção da precisão desses caras.

Cinismo: em um ponto da obra eles trazem um quadrinho de como você pode identificar um líder autoritário partir de determinadas características. Logo depois, eles dizem que todos os presidentes recentes da América Latina gabaritaram nesse teste da Capricho dos ditadores. Ao mesmo tempo, exceto pelo golpe no Chile em 1973, não citam uma única intervenção americana para desestabilização política em outros países.

Sugestões

O Presidente Negro

Uma das raras ficções científicas nacionais “de época” conta a história do porviroscópio, uma máquina capaz de enxergar o futuro. Monteiro Lombato então apresenta sua visão de um mundo guiado pela eugenia, em choque nas eleições americanas de 2228.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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