As Revoluções Africanas

As Revoluções Africanas: Angola, Moçambique e Etiópia

Paulo Fagundes Visentini – Editora Unesp

Data de Lançamento: 2012 – Minha Edição: 2012 – 187 páginas


Durante a Guerra Fria, as potências européias fizeram um cálculo muito importante: melhor preparar uma saída controlada de suas ex-colônias, deixando grupos de confiança no poder, que ampliar a repressão e correr o risco de uma rebelião popular e eventual revolução socialista. A conta se mostrou acertada para elas e houve vários casos de sucesso – para as metrópoles, claro – especialmente ligados ao império holandês e britânico.

Mas se existiu uma antiga potência que jamais cogitou qualquer retirada nesse sentido foi justamente nossa também metrópole: Portugal. Afundados numa ditadura fascista nos moldes dos anos 30 até os anos 70, os lusitanos foram até os últimos suspiros na tentativa de manter suas possessões ultramarinas – e o cálculo mais uma vez bateu: Angola e Moçambique foram palco de revoluções e guerras civis entre as décadas de 70 e 2000.

MPLA, FRELIMO, RENAMO, UNITA, SWAPO… siglas dos movimentos políticos são uma constante para quem estuda as independências e revoltas do século XX, mas aqui neste caso elas adquirem uma importância, devido de a complexidade das disputas. E, ainda, dada a lusofonia dos países, a sonoridade portuguesa que as siglas têm cria uma identificação maior conosco.

Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, e Fidel Castro.

Memorizar essas iniciais faz parte da leitura desta obra, que com uma didática inacreditável faz o possível para explicar dois dos cenários mais malucos da Guerra Fria. Em Angola, o conflito ficou polarizado entre o MPLA de um lado – apoiado em armas diretamente por Cuba, além da União Soviética e diplomaticamente pelo Brasil (no auge da ditadura) – e pela UNITA de outro, acompanhada de perto pelos EUA, Israel mas também Egito e até a China – em seu principal movimento de minar a influência soviética sobre as revoluções no planeta.

Do outro lado do continente, em Moçambique a guerra se deu entre a FRELIMO, apoiada também por Cuba e URSS, enquanto a RENAMO pelos EUA, Israel e Alemanha Ocidental. Se entre as potências as coisas ficaram mais claras, a convulsão se deu em grande parte por conta da Rodésia, que passou por sua própria transformação em Zimbábue e mudou de lado durante a guerra.

Uma das características mais famosas de Moçambique mundo afora é a presença de um rifle AK-47 em sua bandeira e brasão oficial, herdados da FRELIMO. Representando a guerra pela Independência e a guerra civil. Aqui, o brasão reproduzido num livro publicado pelo primeiro presidente do país, Samora Machel, em 1975;

Enquanto isso, ambos os países foram invadidos pela África do Sul. Na época governada pelo Apartheid, ela tentou abocanhar parte de seus territórios – assim, estreitando os laços entre os revolucionários das colônias portuguesas com o CNA (grupo de Nelson Mandela). Isso respingou na Independência da Namíbia, o SWAPO, que era ocupada pela África do Sul haviam décadas. Aliás, vários movimentos de libertação dos países vizinhos foram afetados pelos rebeldes lusófonos; Congo, Zaire, Malauí, Tanzânia além das citadas Namíbia e Rodésia.

E, acreditem se quiser, tudo isso está minimamente abordado aqui.

Mas não é só isso“. Também está contemplado no livro o obscuro socialismo etíope. Em 1974, o Império da Etiópia, uma monarquia literalmente feudal, remontando ao século XIII e perdida no século XX, foi derrubada após um golpe militar de orientação socialista. Um dos países mais populosos e menos industrializados do mundo quis fazer o mesmo salto de modernização econômica e política tentado tantas outras vezes, e os resultados foram catastróficos. E uma oposição também formada por socialistas dissidentes iniciou uma violenta guerra civil, agravando mais os problemas etíopes.

Embora nem toda a culpa seja dos militares. Diante da instabilidade do país, e da luta ser protagonizada por movimentos de esquerda, as potências articularam a invasão da Etiópia pela Somália além de impulsionar vários movimentos separatistas; tais como o da Eritreia, e das etnias Oromo e Afar.

Exceto pela cronologia e pela brutalidade dos conflitos, pouco se tem de semelhança entre as revoluções nas colônias portuguesas e a etíope – essa falta de conexão que realmente é o único ponto baixo do livro. Mesmo com a complexidade dos eventos, de três países diferentes, consegue manter um resumo muito didático e competente em identificar os principais pontos a serem abordados – tanto na política interna quanto externa dos países

Excelente (5/5)

Um resumo muito bom de trÊs revoluções extremamente complexas, tanto no cenário nacional quanto no internacional de cada uma. Embora a etíope guarde menos em comum com as outras, ainda é suficientemente bem encaixada no contexto de angola e moçambique.

Participação brasileira: muito mais envolvido no processo angolano que no moçambicano, o Brasil reconheceu a Independência de todas ex-colônias Portuguesas (também de São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau) e foi um dos raros países do bloco ocidental a apoiar diplomaticamente o MPLA (Movimento Popular de Libertação da Angola), suportado diretamente por Cuba e URSS, em detrimento da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), apoiada pelos EUA.

O entendimento do governo brasileiro – na época presidido por Geisel – era que o movimento tinha muito mais capacidade de controle do país que os demais. Sendo assim, era uma boa oportunidade de ampliar a influência internacional do Brasil além de fornecer um eventual contrapeso em relação à Cuba no hemisfério sul a países que buscassem algum tipo de não-alinhamento aos EUA. Foi o ponto mais baixo nas relações internacionais americanas e brasileiras.

Lula e José Eduardo do Santos, presidente de Angola por toda a Guerra Civil. A guerra começara por aqui no Governo Geisel.

Além do apoio diplomático, empresas privadas e estatais brasileiras contribuíram com a construção de infraestrutura no país. Mesmo com os diferentes governos que se seguiram aqui e lá, essa influência durou por décadas, e o Governo Lula teve um papel fundamental na reconstrução de Angola após o término formal da guerra, em 2002.

Feudalismo africano: um dos maiores líderes do século XX foi Haile Selassie, último imperador da Etiópia, governando entre 1916 e 1974. Foi o grande responsável por resistir a colonização do país pela Itália através de vários anos até a derrota na II Guerra da Abissínia, em 1937. Retornou ao poder em 1941 junto das tropas dos aliados e exerceu um papel muito importante durante os primeiros momentos da Guerra Fria, como uma das principais figuras não-alinhadas.

Entretanto, apesar de ter sido um grande estadista e gênio nas relações internacionais, não fez o suficiente em seu governo para desmontar as relações feudais que construíam o país. Embora tenha sido abolida em 1931, condições de trabalhos análogas à servidão persistiam, assim como o acesso a terra e administração pública eram atreladas à relações nobliárquicas. A rebelião generalizada se tornou inevitável.

Selassie fazia parte de uma dinastia que supostamente remonta ao Rei Salomão – a figura bíblica – e teria reinado sobre o país desde o século X antes de Cristo, ou seja, por 3 mil anos. A lenda da monarquia etíope também dá conta de ter sido também o local escolhido para a guarda do Santo Graal após as Cruzadas. De evidências históricas, a linhagem que terminou com o Imperador governava o país initerruptamente desde o século XIII depois de Cristo.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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