The Expanse – Quarta Temporada

The Expanse


A temporada anterior seria a última de The Expanse (exibida tanto pelo Netflix quanto pelo canal Syfy na TV). Seu sucesso de crítica e público fez com que o SyFy vendesse todos os direitos para a Amazon, que passou então a produzir os próximos capítulos. Depois da edição anterior, que foi dois-em-um, com dois finais e essa própria história da produção, é inevitável que esta quarta temporada tivesse a sensação de ser um epílogo.

A forma como a estória terminou tão fechadinha ao final da terceira temporada, e tanto as opções narrativas quanto o próprio escopo desta aqui, com um olhar bastante reduzido, deram a forte impressão que estávamos acompanhando algo “a mais”, quase como um spinoff.

De qualquer forma, o argumento continuou bastante inteligente; além de naturalmente trabalhar em cima das probabilidades deixadas com o final anterior – a abertura de portais para outros sistemas solares – levou elas ao limite dentro daquele universo ficcional.

O arco principal, referente aos dilemas e riscos da exploração, tanto para os belters como para os terrestres, eram mais ou menos óbvios, mas menos interessantes, já a repercussão para Marte foi muito mais sutil e mais inteligente. Infelizmente a temporada toda acabou ficando pequena perto dos anos anteriores e posteriores do seriado.

Agradou: repercussões sobre a expansão através dos anéis

Não havia me dado a menor conta disso até algum personagem precisar falar exatamente na minha cara: se foram descobertos novos planetas com atmosfera respirável, a expansão humana e o sonho de viver em Marte simplesmente perde o sentido. Para que os esforços centenários de criar um ecossistema habitável para humanos em um planeta se agora podem existir dezenas de locais mais fáceis de habitar?

A forma como escolheram para retratar isso foi bastante sutil e inteligente também, acompanhar a vida de Bobbie após a aposentadoria dela nas forças armadas. Desemprego, corrupção, crime, desinteresse por tudo… todas formas de identificar uma sociedade em franca decadência.

Aqui passamos a acompanhar como ela, de heroína de guerra, acaba entrando na criminalidade simplesmente por não ter outra coisa o que fazer – e como se desenvolverá na temporada seguinte, as implicações deste cenário todo em Marte serão muitas. Infelizmente, como essa jornada pessoal da personagem é um arco paralelo também de jornadas pessoais (como veremos logo abaixo), acredito que ela não brilhou como poderia.

Da mesma forma, se as implicações da expansão para além dos anéis acabou prejudicada pelo mesmo motivo e eram muito mais óbvias que a marciana, também foram satisfatórias para a Terra e para o Cinturão. Imaginar a troca de poder no planeta por essa razão foi um desenvolvimento muito bom, ao mesmo tempo que demonstrar o fracasso da união da OPA pelo mesmo motivo, foi outra grande direção da estória.

Não agradou: “temporada em uma garrafa”

Dois arcos principais desta temporada foram tratados como jornadas pessoais, e justamente aqueles com implicações planetárias: o futuro de Marte através da vida de Bobbie após sua saída das forças armadas; e o futuro da Terra através da forma como a secretária-geral Avasarala lida com a oposição ao seu governo.

O primeiro muito melhor tratado até por ser menos óbvio, e também conta com mais empatia aos personagens; mesmo os antagonistas passam a ter sua profundidade ao longo do desenvolvimento – assim como este arco é beneficiado com muito mais ação e suspense que sua contraparte.

Enquanto isso, o terrestre, mais previsível, por outro lado, acaba sendo um elo fraco. Em primeiro lugar, achei que tanto roteiro quanto atriz não foram suficientemente competentes em justificar melhor a postura de não explorar os demais sistemas – embora determinadas passagens da campanha eleitoral sejam boas em indicar quanto ultrapassada e fora da realidade a personagem estava. E, falando em campanha eleitoral, mais uma vez muita preguiça em explicar melhor o sistema politico daquele universo (que é uma parte tão importante da série). A eleição para secretário geral era direta? Sufrágio Universal? Pode ser chamada a qualquer momento?

Da mesma forma, a sensação que temos é de um passo para trás da personagem. O arco dela foi de uma política inescrupulosa nas primeiras temporadas para uma destemida, compreensiva e honesta apesar de se manter dura. Aqui vemos ela voltando ao patamar dos episódios iniciais – onde ela aparentemente não aparece na obra original, foi uma adição da adaptação, e talvez explique melhor esse problema. Alguns surtos nervosos e xingamentos dela são momentos baixos de toda a temporada.

Enquanto isso, o arco principal, que é a expedição à colônia de Ilus, tem um aspecto de um “bottle episode, no jargão em inglês. Este episódios em garrafas são capítulos contados em um único ou poucos cenários, e com poucos personagens interagindo. Que é a impressão aqui, tudo se passa nos mesmos locais – bem pouco inspirados visualmente, o acampamento e as “ruínas”.

Não bastassem os diminutos cenários, toda a trama que se passa neles é extremamente repetitiva; os mesmos personagens brigando sobre as mesmas questões, das mesmas formas, com apenas “camisetas vermelhas” morrendo… e para ajudar tudo termina em um espaço mais reduzido ainda. Este aqui, sim, era um livro que poderia ser tratado em meia temporada.

Enquanto isso, fiquei muito triste em como todo o núcleo da OPA, tão cuidadosamente construído nas temporadas anteriores, é simplesmente desperdiçado. Tirando algumas breves aparições – muito boas, aliás – tudo sobre eles é jogado para escanteio, talvez não somem 30 minutos de tela em toda temporada.

E aliás, se torna difícil até mesmo compreender o quinto ano da série, que já é muito mais voltado a esse núcleo, diante da pouca atenção dispensada a eles aqui.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

2 comentários em “The Expanse – Quarta Temporada

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