No espelho do terror


No espelho do terror: Jihad e espetáculo – Gabriel Ferreira Zacarias

Data de Lançamento: 2018 – Minha Edição: 2018 – 64 páginas


O terrorismo não é uma coisa nova, se há algo que lembramos das aulas de história é que a Era das guerras mundiais se iniciou com um atentado terrorista; o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, em Sarajevo, por um partidário da Independência da Bósnia. Mas de lá pra cá houve uma mudança sensível, marcada pelos atentados de 11 de setembro de 2001: ao invés de atingir alvos estratégicos, como políticos importantes ou prédios governamentais, os alvos se tornaram os que poderiam ter mais repercussão midiática.

Depois daquele momento de desorientação coletiva, com uma seqüência de atentados posteriores à invasão do Iraque em países que participavam da Guerra, como o Reino Unido e Espanha, se tornou uma pauta para os intelectuais ocidentais (mais nominalmente dos países da OTAN, evolvidos na guerra) tentar explicar isso.

Várias foram as teorias, a maioria centrada no suposto “choque de civilizações“, tese apresentada por Samuel Huntington nos anos 90. Superada à Guerra Fria, ao invés de confrontos disputados em torno dos sistemas econômicos, o século XXI seria protagonizado por disputas de imposições culturais de uma civilização – tais como a Islâmica, Ocidental, Ortodoxa, Latina, “Sinóica” e a Japonesa – sobre a outra.

As “civilizações” de Huntington

Não é objetivo discutirmos a validade ou não das idéias apresentadas por ele, mas os atentados de 11 de setembro se tornariam, então, a grande prova que O Choque de Civilizações era uma teoria verdadeira. Partindo dos mais recentes atentados realizados na França (o texto é de 2018), país que este filósofo brasileiro morava no período, este livro aponta para explicações exatamente opostas.

Emprestando de elementos de várias ciências humanas, das mais “convencionais” para esse propósito, como a Sociologia, História e Filosofia, até a campos mais exóticos, como a psicanálise, o que Gabriel Zacarias aponta que a onda de terrorismo desta forma que se popularizou no século atual é, na realidade, sintoma de uma hegemonia cultural ocidental.

Se Huntington estiver certo em sua divisão do mundo, sem potências de mesma força nas outras esferas civilizacionais, a ocidental está se impondo sem concorrência a altura. Assim, até quem deseja combatê-la passa a fazer esse confronto emulando, imitando, certos traços culturais do Ocidente.

A “linguagem”, por assim dizer, dos atentados terroristas, que evoluíram até a ponto de serem filmados para simular vídeo games de tiro em primeira pessoa (FPS), e de privilegiar espetáculos midiáticos – de notícias e cobertura da imprensa até a realização de filmes e seriados sobre o tema – seria uma forma de “ocidentalização” dos instrumentos de luta política (os mais extremos, no caso do terrorismo).

Muito Bom (4/5)

Com um bom formato e uma edição curta e bonita, o autor faz uma rápida avaliação e explicação da forma como o terrorismo vem atuando nas últimas décadas, usando empréstimos de várias áreas das humanidades. Entretanto, justamente por essas referências a várias áreas e a velocidade do texto, não é uma leitura tão fácil; ainda que atrativa.

Individualismo: o autor levanta como alguns dos ataques mais recentes são realizados sem vínculos a organizações terroristas. Frutos de planejamentos e motivos pessoais; como é o caso dos bizarros atropelamentos em massa na França, em 2016 e 17. Nenhum dos envolvidos era membro de células ou movimentos jihadistas, apenas eram “radicais” e “tinham interesses” por eles, de acordo com as próprias investigações.

Para Gabriel Zacarias, é mais um sintoma da onipresença da cultura ocidental, neste caso, do individualismo burguês, um dos pilares da nossa civilização. Ele diz que são ataques “faça você mesmo“, uma corruptela da ideologia do empreendedorismo individual. Ao invés de receber ordens ou orientações de um corpo, como uma célula ou uma organização, o terrorista sozinho – ainda que, supostamente, em nome de interesses coletivos – acredita que é capaz de abalar as estruturas as quais ele está combatendo da forma mais eficaz possível.

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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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