Outubro


Outubro: história da Revolução Russa – China Miéville

Tradução: Heci Regina Candiani – Editora Boitempo

Data de Lançamento: 2017 – Minha edição: 2019 – 336 páginas


Os acontecimentos têm se sucedido com tamanha velocidade que não há tempo de discuti-los nem de simplesmente registrá-los“. Esta é a anotação de um anônimo morador da Ucrânia, a época parte do Império Russo, em seu diário, sobre a primeira semana de março de 1917. Seria muito difícil encontrar outra frase capaz de resumir tão bem a Revolução Russa.

Imagine se o maior país de toda a história humana até então entrasse em uma revolução no meio da maior guerra já enfrentada no planeta até aquele momento; foi exatamente isso que ocorreu naquele ano. Aliás, o ano é a estrutura que este livro é organizado: um capítulo para cada mês de 17, entre fevereiro e outubro.

Neste primeiro mês, após centenas de anos comandada pelos Romanov, a monarquia russa chegava ao fim. Desde 1905 – quando ocorreu aquela que é considerada a primeira revolução russa – o regime já se encontrava em crise profunda; lentamente algumas instituições mais modernas, como um parlamento fixo e com poderes ativos (a Duma), vinham sendo implantadas mas com pouca efetividade. Para ajudar, houve um certo assassinato em Saraievo.

A Revolução de Fevereiro – a segunda revolução russa – derrubou o czar, em 1917. Naquele ano, o terceiro da Grande Guerra, a vida na Rússia não estava fácil. Sem recursos para atender as necessidades básicas da população, especialmente alimentos, todos destinados à guerra, o país foi varrido por ondas de greves e protestos; os mais importantes organizados pelas assembléias de trabalhadores e soldados, os sovietes. Sem a menor força política ou militar, o Czar abdicou em favor do irmão, que não quis assumir, e, assim, uma coalizão parlamentar decidiu reorganizar o governo.

Então quem foi o responsável por derrubar a monarquia? Os sovietes ou os parlamentares?

Essa foi a grande dúvida que percorreu o ano de 1917 até desembocar na Revolução de Outubro – a terceira, e principal, revolução russa. E esta é a história que China Miéville decide narrar neste livro. O autor, apesar de acadêmico respeitado, havia feito a fama e sucesso como escritor de ficção científica, e todo seu talento literário está a prova aqui.

O texto é escrito, com muito rigor de pesquisa e reflexão, mas quase como um grande romance épico. Com eventos reencenados com emoção detalhes e tensão muito adequadas, como se não soubéssemos o que viria a acontecer – e, na realidade, não sabemos muito, exceto se você for um especialista em Revolução Russa. A pesquisa e reconstituição são muito minuciosas.

Há alguns problemas impossíveis de serem evitados, especialmente aqueles envolvidos com as distâncias culturais dos eventos. Mesmo eu que sou simpático e acostumado com o tema me confundo com os nomes das pessoas, locais, eventos e datas, é difícil gravar nomes de uma língua tão distante. Além disso, a complexidade e rapidez dos eventos que se desenrrolam com certeza confundem qualquer um.

Por outro lado, há alguns que poderiam ser evitados. O livro não escapa dos cacoetes clássicos da esquerda quando discute seus marcos mais importantes; mesmo os eventos e reflexões mais consolidados e mais óbvios são colocados em dúvida. Na realidade não era bem isso que fulano queria dizer, o que ele queria dizer mesmo era o seguinte: exatamente aquilo, mas de outra forma.

A expressão do Poder Dual é errada, era, na realidade, uma disputa constante entre os duas entidades que queriam mais poder mas também jogavam responsabilidades uma pra outra; ou Lênin não disse que todo o poder fosse dado aos sovietes, mas sim que um novo poder fosse criado pelos Sovietes.

As sutis diferenças entre cada uma dessas reflexões diferentes dizem mais respeito às apropriações, na falta de melhor palavra, que os herdeiros de Outubro fazem daqueles acontecimentos do que as preocupações daqueles personagens na época, e que eles deixaram manifestadas em seus testemunhos que sobreviveram. Ou seja, tem mais a ver com as práticas dos partidos e políticos de esquerda depois da Revolução Russa, do que com os envolvidos na revolta.

Isso também é inevitável de certa forma, porque o historiador nunca vai reconstruir exatamente o passado livre de suas próprias observações, mas poderia ser suavizado para os objetivos do livro, que são mais narrativos e mais amplos que debate acadêmico ou político interno da esquerda.

O curioso é que, apesar do título, o livro acaba sendo mais uma história da Revolução de Fevereiro, mas contada de trás para frente: a narração é focada na atuação dos bolcheviques durante o o Governo Provisório que levaria à Revolução de Outubro.

Frustrando-nos quando, assim que ela acontece, sobra apenas um epílogo que funciona mais como um balanço político dos ocorridos focado na posterior estalinização do regime – a criticando, claro. Eu compartilho com as críticas do autor, mas achei mal colocadas, porque ele também continua fazendo a história de trás para frente, se perguntando se o estalinismo seria o fim inevitável da Revolução Russa.

Essa resposta não pode ser dada olhando apenas para a Revolução de Fevereiro, como ele o fez; a maioria do entendimento está no que vem depois. O romance Dr. Jivago, na onda da crítica ao estalinismo da era Kruschev, foi um passo adiante e inaugurou a interpretação da “revolução-crime”: dada a sua violência e brutalidade, ela só poderia gerar aquela opressão posterior. Aqui, Miéville está tentando justamente desmentir isso, exaltando os feitos bolcheviques, mas ao interromper os eventos dignos de receber o nome de Revolução Russa em Outubro de 1917, a impressão que fica não é muito distante.

Muito Bom (4/5)

Com uma escrita fabulosa, consegue dar emoção e engajamento ao narrar os eventos. E tudo de forma muito minuciosa, demonstrando uma excelente pesquisa. Entretanto, mais nas opções narrativas que no próprio texto, a moral que fica é que tudo EStava dando certo até a Revolução acontecer.

Conferência Muçulmana de Toda a Rússia: este é um evento quase desconhecido que ocorreu durante a Revolução de 1917 e tem sua história relembrada aqui. Como o nome anuncia, foi um encontro para os islâmicos de todo o Império, convocado originalmente pelos deputados muçulmanos da Duma, entretanto, conforme as agitações cresciam, sua organização também.

Isso culminou em uma conferência preliminar das mulheres muçulmanas da Rússia, que aprovou um forte programa progressista para ser levado à conferência principal. Era contrário a várias restrições da Xariá, como o uso do hijab, direito a voto, mas em especial, uma restrição à poligamia. As mulheres compuseram 1/4 do encontro nacional conseguiram aprovar parcialmente essas medidas. Com a Revolução de Outubro, todavia, vários desses direitos foram implantados posteriormente, inclusive outros como o divórcio e o aborto (e alguns retirados anos a frente).

Convencedor-em-chefe: uma das figuras centrais daqueles meses de 1917 foi Alexander Kerensky, um dos líderes da revolução de fevereiro. Durante aquele tempo viveu na corda bamba entre a Duma e o Soviete de Petrogrado, hora próximo de um, hora de outro. Seu único compromisso público era com a manutenção da Rússia na Grande Guerra – foi ministro da guerra por quase todo aquele ano.

Ele costumava frequentar os fronts mais problemáticos e fazia calorosos discursos por patriotismo, mas também por revolução. Algumas vezes era acompanhado por conservadores, outra por bolcheviques. Sua capacidade de oratória inflamatória (e eficaz) rendeu o apelido de Convencedor-em-Chefe, pois era chamado para apaziguar os ânimos na linha de frente e manter os soldados minimamente disciplinados e motivados para as batalhas.

Após uma ofensiva desastrosa encabeçada por ele, e vários discursos que em falava muito mas não dizia nada, seu convencimento já não fazia mais efeito nos fronts.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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