The Expanse – Segunda Temporada

The Expanse


A tensão na galáxia se acirra, e a protomolécula de segredo se transforma numa das coisas mais comentadas do sistema solar. Todas as facções políticas estão correndo atrás dessa nova “arma” – mas ela também não é só agente passivo disso tudo e dá sinais de uma certa consciência. Este é o cenário desta segunda temporada.

A temporada é praticamente dividida em duas tramas separadas; as conseqüências dos ocorridos em Eros, e, em seguida, uma batalha sobre os “céus” de uma lua de Júpiter e que ninguém entendeu muito bem o que houve.

Esta primeira parte rende os melhores capítulos da temporada, disparadamente. Contém ação, tensão, suspense e a trama política um pouco mais clara (embora não em uma direção que me agrade). Já a segunda metade é mais pausada e se dedica a colocar mais os personagens em dilemas, com situações mais nebulosas sobre que decisões tomar.

A maioria desses dilemas é muito interessante, entretanto, a trama política, envolta em toda essa obscuridade fica um pouco prejudicada. E quando certos eventos começam a se desenrolar nos dois últimos capítulos, ficamos um pouco paralisados por uma sensação que não foi possível acompanhar muito bem o que houve.

Agradou: computação gráfica, redenção de Miller, ritmo regular e cenas de ação/tensão.

Provavelmente a cena mais marcante da série toda será a que se desenrrolou no final do episódio Lar, ao vermos dois personagens conversando a sensação é de completude. É como se tudo que assistimos fosse para chegar àquele momento, e ver ele se realizando é demais, e isso se deve primeiro, à computação gráfica, que já era ótima na temporada anterior e aqui conseguiu se superar. Está tudo muito bonito, essa cena foi uma obra prima. Também, a última cena da temporada, na atmosfera de Vênus é outra coisa fantástica.

O segundo motivo foi o ritmo muito regular de ação, tensão e suspense deste comecinho de temporada, que teve os melhores momentos. Os nosso protagonistas estão sempre em movimento e engajados em novas missões; que são planejadas e executadas no mesmo episódio, deixando sempre o capítulo com completude. Os ganchos ao final são depois de uma sensação de fechamento, não abusando de lacunas.

Há uma espécie de ciclo nesses primeiros capítulos: um ir e voltar de invasões, que é muito bem conduzido e quando culmina numa cena de “romance”, entre muitas aspas, ocupando boa parte do tempo de tela, a sensação de uma pausa merecida para todo mundo. Configura-se um grande clímax. E ao final, o personagem de Miller, que para mim era bem antipático no começo da temporada anterior, aqui se tornou, de longe, o mais agradável dos protagonistas e esse seu momento de redenção foi fantástico.

Após esse momento, há uma sensível diferença de ritmo para os capítulos finais, que são um pouco mais parados. Mas também, e justamente por isso, muito competentes em mudar nosso foco de preocupação. Após um ou dois episódios, é como se tudo o que passou com Eros fosse da temporada anterior. O que nos deixa livres para nos preocupar com a nova crise que vem por aí – mas a forma como essa crise explode já tem alguns problemas.

Não agradou: reviravoltas súbitas e condução da trama política.

Parece até uma redundância ou um pleonasmo dizer que as reviravoltas (plot twists) sejam súbitas demais, afinal, elas têm de ser súbitas; impactantes. Mas não é apenas jogá-las em momentos inesperados, é preciso primeiro que ela encaixe bem com o que estava acontecendo antes, e depois, ela precisa ser preparada. Ainda que a surpresa seja preservada, precisa acontecer algo na estória para que justifique a mudança.

Há duas reviravoltas nesta temporada que são verdadeiros raios em céu azul. A primeira, inclusive, eu acredito que nem era a intenção original, mas acabou soando como plot twist: o romance entre Holden e Naomi. Os personagens dividiram pouco tempo de tela durante a primeira temporada e as interações entre ambos, apesar de inspirarem confiança, nunca foram calorosas – diferentemente da relação com Amos, que parecia ser o romance a ser desenvolvido.

Qual a exata função deles dois no governo? São o equivalente a ministros? Ou a “primeiros-ministros”? Aspones?

Já a segunda reviravolta, que tem a ver diretamente com a trama política, é a “mudança de postura”, na falta de expressão melhor, de um personagem. Na realidade, todo o formato de governo tanto da Terra quanto de Marte é muito mal explicado. Isso é fatal para uma série que tem a política como pano de fundo. E não sabemos direito qual é a função tanto de Avasarala quanto de Errinwright, o que é um outro problema gravíssimo já que ambos ficam cada vez mais fortes e relevantes

Quando um deles muda radicalmente de intenção, ficamos paralisados, por maus motivos. Qual a autonomia dele pra fazer o que fez, e segundo por que mudou? Não há nenhum evento ou cena que indica uma estopim para a mudança. Se foi a conversa com o filho, acredito que houve perda na adaptação do livro para a TV.

Da mesma forma, como a trama política é conduzida ficamos mais uma vez órfãos de empatia. A maneira como a Terra lida com a primeira crise da temporada, levando à destruição de uma Lua é nojenta – e até mesmo mau conduzida, pois tudo se passa numa minúscula sala de guerra com poucos integrantes, cujo papel sequer sabemos. E, para ajudar, há pretensão dos personagens tratando aquela decisão como alto extremante inteligente e comedido. E não fica claro se a intenção da obra é denunciar ou exaltar.

Mas Marte também não se sai melhor, o pouco contato que tivemos com eles na primeira temporada deu entender que eles eram durões, mas de “bom coração” no fundo. Já agora são pintados como algo mais próximo de um fascismo espacial, fanáticos pelo militarismo. Imagino que tenha sido uma opção para fazer a mudança de lado da personagem Bobbie mais impactante; mas uma abordagem exagerada, na minha opinião.

Depois de ter o melhor diálogo da série, explicando porque os terráqueos não entendiam os anseios dos Belters, o personagem de Dawes é de novo colocado como vilão caricato. Opção do ator da direção?

Enquanto isso, os Belters, mais bem explorados agora, têm características muito interessantes, como uma espécie de organização por facções, que poderia servir para alegorias muito próximas com os diversos movimentos de Independência e Libertação do século XX e XXI. Entretanto, continuam sendo tratado como selvagens e vilões.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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