Brasil à parte


Brasil à parte (1964-2019) – Perry Anderson

Tradução: Alexandre Barbosa, Bruno Costa, Fernando Pureza, Jayme da Costa e Rogério Bettoni. – Editora Boitempo.

Data de Lançamento: 2020 – Minha Edição: 2020 – 192 páginas


A parábola é um traçado que forma uma curva e retorna para a mesma linha reta de onde ela saiu, a diretriz. Estou muito enferrujado de matemática mas ainda me lembro suficientemente bem desse formato.

Por ter vivido no Brasil por cerca de um ano, e justamente em um período crítico, entre 1966 e 1967, este historiador britânico passou a notar nosso país (e até planejou ser um brasilianista em certo ponto) e assistiu o desabamento do Brasil com uma atenção maior que outros intelectuais também interessados por aqui. Na realidade, com projeto bem ambicioso, Anderson iniciou, nos anos 90, escritos sobre os caminhos que os principais Estados nacionais tomaram ao final da Guerra Fria e, graças a essa experiência pessoal, tivemos a sorte de sua genialidade se voltar à análise da nossa história recente.

São textos extremamente privilegiados: redigidos no passado, nas trocas de governo que o Brasil passou desde 1994.

Começando com uma avaliação dos governos Collor e Itamar (da redemocratização como um todo) e projeção do que seria o Governo FHC, escrito em 1994; ele se mostra bem cético, desiludido mas também muito interessado nos eventos por aqui. Diferentemente dos demais países da América Latina, o neoliberalismo tropeçou feio em sua primeira tentativa por aqui e o que o autor esperava seria ver como FHC faria para jogar entre as pressões internacionais, pela destruição econômica do nosso país, e as nacionais, cobrando reformas não-realizadas pela ditadura.

Desta forma, no texto de 2002, vemos o Anderson mais incomodado de todo o livro, ao avaliar o governo de alguém que ele considerava um par. Ele ressalta como FHC tornou o Brasil insignificante internacionalmente – comparando o príncipe da sociologia a um presidente de Honduras – e como estabeleceu por aqui o pensar único (la pensée unique) neoliberal. Os clichês e ladainhas das privatizações, corte de gastos, se tornaram verdades absolutas, e esvaziaram os debates políticos – e isso que possibilitou uma transição pacífica para Lula, e não uma suposta altivez de Fernando Henrique.

Entoando o pensamento da época, em 2011, o autor já está mais otimista com o Brasil que Lula deixou para nós e para o mundo. Entretanto, demonstrando seu brilhantismo ele vai certeiro nas principais críticas aos primeiros governos do PT: a desmobilização do partido, que se tornou apenas máquina eleitoral, a dependência dos setores primários da economia (e o esvaziamento da indústria), a especulação imobiliária e os escândalos de corrupção. Esse capítulo é central no livro. Porque, com muito pesar, ele infelizmente acaba reiterando e expandindo todas essas mesmas críticas quando avalia o término do Governo Dilma, em 2016, logo após o golpe. A crise econômica, o fim do boom da commodities, as manifestações de 2013, as eleições de 2014, Michel Temer, Aécio Neves, Eduardo Cunha, Lava Jato… todos são elementos e personagens abordados.

Até pela continuidade do processo e da proximidade temporal entre um e outro, os temas e eixos do texto sobre Dilma permanecem como protagonistas no capítulo seguinte, logo após a eleição de Bolsonaro, em 2019. Ainda não avaliando o governo, é uma continuação das reflexões anteriores, tentando explicar como foi possível a chegada de tão execrável figura ao poder – com um foco maior nos desdobramentos da Operação Lava-Jato e a prisão de Lula. Mais uma vez muitas das críticas precisas do texto de 2011 retornam aqui. Que análise!

Em alguns momentos é de uma leitura de tirar o fôlego com as amarrações que ele consegue fazer, resgatando críticas que ele apontara lá em 2011 se concretizando dez anos depois. Aqui é ver um verdadeiro gênio trabalhando. Entretanto, um dos principais pontos fortes do livro, que é a distância da análise, isto é, ver alguém de fora analisando o país, também é um ponto fraco. Algumas coisas que ele resgata como central para nós nunca tiveram o mesmo impacto. A é de impressão que ele foi influenciado por um número menor de fontes que ele dispôs, especialmente nos casos de corrupção. Mas são momentos raros.

Ao final, temos um capítulo batizado de Parábola, também escrito em 2019, já ao final daquele ano, onde Perry Anderson analisa os primeiros meses do atual governo. Aqui o foco acaba sendo a presença dos militares na administração atual e suas raízes na intervenção no Haiti. Estabelecendo a triste (e possível) analogia da nossa história entre 1964 e 2019 com a figura matemática/geométrica.

Excelente (5/5)

Uma análise distanciada da história recente do brasil, com os prós e contras de um estrangeiro falando sobre o brasil. Os textos foram escritos em cada momento do passado, entre 1994 e 2019, o que é extremamente interessante e escancara a genialidade do autor. Todas as conclusões e críticas que ele tira se demonstram pertinentes no capítulo seguinte.

País ensimesmado: Uma das coisas mais impactantes que lemos em todo o livro está justamente no prefácio, que é o nosso grau de “em-si-mesmo-mento”. O quão pouco cosmopolitas e integrados somos com o resto do mundo: de costas para nossos vizinhos na América Latina, ao mesmo tempo pouco abertos ao resto do Terceiro Mundo na África e na Ásia, também somos pouco interessantes à América do Norte e à Europa – até mesmo distantes de Portugal, numa forma muito diferente que nossos vizinhos mantém relações com a Espanha.

Os motivos apontados por eles são vários, históricos e geográficos, desde o início monárquico às fronteiras pouco convidativas na Amazônia e distantes no Oceano, mas é bem chocante ver essa avaliação de um estrangeiro, ainda mais um que tem interesse no Brasil.

Analistas nacionais: longe de tirar as coisas da sua cabeça, Perry Anderson tem contato direto com o que produzimos aqui, consultando várias obras brasileiras. O maior destaque são para os livros de André Singer e para a Revista Piauí, mas são inúmeras notícias e colunas da imprensa nacional usadas tanto como fontes primárias como secundárias.

Também utilizou muito o livro-entrevista de Lula, como forma de entender mais a cabeça do ex-presidente, e citou a obra sobre a história do PCC, de Bruno Manso e Camila Dias – ambas com resenhas aqui no blog!


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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