O Caso Evandro

O Caso Evandro: sete acusados, duas polícias, o corpo e uma trama diabólica – Ivan Mizanzuk.

Ano de Lançamento: 2021 – Minha Edição: 2021 – 445 páginas


O desaparecimento de crianças na virada dos anos 80 para os 90 se tornou uma triste recorrência; desde à Dona Vilma e o Caso Pedrinho até o Massacre da Candelária, não era fácil ser criança pobre ou de classe média baixa no Brasil naquele período. Um dos casos mais emblemáticos (e macabros) da época foi o de Evandro Caetano, sequestrado, morto e mutilado num matagal de uma pequena cidade litorânea do Paraná em 1992.

A partir de seu longevo trabalho com Podcasts, Ivan Mizanzuk decidiu contar a história daquela morte e seus desdobramentos em três frentes diferentes; um podcast, uma série documental e este livro.

O crime ganhou notoriedade devido a uma série de fatores, mas dois são os principais destaques: a forma como o cadáver foi encontrado, gerando suspeitas do garoto ter sido vitima de um ritual de magia negra, e as principais acusadas serem a esposa e a filha do prefeito da cidade, orientadas por um popular pai de santo recém chegado, Osvaldo Marcineiro. Juntando as duas características, o apelido daquela história foi “As Bruxas de Guaratuba”.

Essas são apenas as pontas do iceberg de uma história extremamente complexa. Originalmente tratado como sequestro, o desaparecimento e morte do garoto começou a ser investigada por um grupo da Polícia Civil, mas alguns meses depois inesperadamente, foi assumido por outro destacamento, desta vez da polícia militar, sem contato com o anterior; que resultou na prisão de 7 pessoas imediatamente. As detenções tiveram como fator chave a investigação particular de um primo (as vezes referido como tio, devido à diferença de idade) da vitima, Diógenes Caetano Filho.

Diógenes Caetano pai havia sido prefeito de Guaratuba alguns anos antes, e era rival político de Aldo Abagge, governante naquele momento, esposo e pai das acusadas. Como não havia reeleição para o executivo naquele momento, ele e a esposa gestavam a sucessora da prefeitura, a secretária de turismo da cidade, que havia comprado uma briga com os artesãos da cidade, representados por Diógenes Filho, ao permitir a instalação da banca de búzios de Osvaldo no mesmo mercado onde eles estavam instalados.

Dadas as dimensões da cidade (uma estância de veraneio no singelo litoral paranaense), uma das coisas que mais chama a atenção são as conexões entre os envolvidos; todo mundo, entre ambas as partes, se conhece, trabalhou com ou para, é amigo ou se odeia. Essa interferência foi decisiva para ao desfecho absurdo do caso.

Para todos os ângulos que você olha, através da investigação do autor, é possível achar as pessoas suspeitas ou inocentes. Toda evidência, depoimento, álibi, testemunha, é duvidosa, sem exagero; a mesma testemunha muda de versão várias vezes e alega ter sido coagida por todos os lados. Nem a identidade do corpo é uma certeza. Ao mesmo tempo, cada vez mais coisas são adicionadas, outros casos são conectados a ele – em especial o desaparecimento de Leandro Bossi, dois meses antes também na pequena cidade; ou também os meninos mortos e mutilados em Altamira/PA – e inúmeras teorias da Conspiração surgem; desde a uma seita satânica internacional, a conflitos pontuais entre facções políticas de Guaratuba.

Impressionante, a sensação é de não dá para confiar em ninguém, é de estar perdido o tempo todo. O fato de Mizanzuk conseguir dar coerência a esse absurdo sem fim é admirável. Ele, por outro lado, não tenta criar um romance de não-ficção; é um texto informativo ainda que a natureza da história seja capaz de criar tensão e suspense. Nesse sentido, também é uma obra longa de mais de quatrocentas páginas de texto (em fonte e diagramação pequenas), com muito espaço dedicado a repetidas evidências da tortura sofrida, o que, se necessário, que torna a leitura menos agradável em alguns momentos devido a uma demora para avançar na trama.

O autor tem uma posição e uma intenção bem clara no livro – e no podcast, e no documentário: os sete acusados são inocentes. Sem entrar em muitos detalhes desse livro que é praticamente um thriller policial, há indícios sólidos de que eles foram brutalmente torturados durante as investigações e, no geral, como falei acima, dada às interferências nas evidências, todo o resto que foi obtido é duvidoso.

Discordo dessa conclusão. De fato, a única certeza que temos em tudo que aconteceu é que as confissões de 4 dos 7 réus foram obtidas após forte tortura e são completamente impossíveis de serem levadas em conta (mesmo porque elas conflitantes entre si e demais evidências); mas não necessariamente é possível ter certeza da inocência ou não envolvimento de todos, já que ainda há outras evidências, mesmo que controversas, apontando para eles – o que por sua vez não é suficiente para condenar ninguém, claro.

Bastante preocupado com a causa – indiscutivelmente justa – de denunciar a tortura sofrida pelos acusados, e como isso era encarado com naturalidade dentro do meio policial e jurídico, ele entende que isso os torna vítimas, concordo, e também, por conseqüência inocentes. Entretanto, se este é o caso, faltou um ponto muito importante na conclusão de Mizanzuk; de onde então partiu o envolvimento, prisão e tortura dos 7 réus? Pela investigação dele seria clara a origem: uma conspiração de Diógenes aproveitando-se da oportunidade do assassinato, todavia, essa é uma conclusão que ele não aponta e nem levanta hipóteses diretas do tema; faltando na amarração final do texto.

No entanto, isso é uma discordância de visão, de análise ou de opção, em última instância, e não de método. A pesquisa é minuciosa, confiável e irretocável (diferentemente da série documental, que escorrega muito no epílogo, vejam acima) – sendo o único aviso o que o texto tem o objetivo claro de inocentar os acusados – e garante uma leitura muito instigante ainda que majoritariamente informativa e descritiva – que exige bastante do leitor em acompanhar as complexas conexões e reviravoltas.

Muito Bom (4,5/5)

uma investigação complexa, detalhada e muito bem documentada de um caso para lá de confuso, bizarro e intricado; que gera uma leitura cada vez mais surpreendente devido à inúmeras conexões, pontas soltas e informações coletadas pelo autor.

Casa Stroessner: o ditador paraguaio Alfredo Stroessner, que governou o país vizinho entre 1954 e 1989, e ídolo público do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, tinha uma casa de veraneio a beira-mar em Guaratuba. Apesar de pedófilo inveterado, com direito a um harém próprio de crianças para abusar, a sua residência no litoral paranaense é um local importante de O Caso Evandro que não é relacionado com a morte e o desaparecimento do garoto.

A mansão foi usada como base de operações das polícias (federal, militar e civil) em vários momentos do passado recente, e o foi também durante a investigação daquele crime. Há denúncias de linhas de telefones da cidade eram grampeadas e o posto de escuta era lá, mas, em especial, no Caso Evandro, foi um local onde os suspeitos foram torturados e gravaram algumas das confissões em vídeo.

Stroessner e Francisco Franco, em 1973.

Trabalho colaborativo: a catalogação dos processos judiciais, transcrição de gravações, dentre outros serviços braçais da pesquisa foram realizadas por fãs da sua longa carreira de podcaster.

Investigação e tortura: a mais sofisticada e importante conclusão apontada por Mizanzuk é referente ao motivo das torturas empregadas pelos policiais militares (que assumem o inquérito após um determinado momento da história). Uma primeira impressão é de que os policiais agrediram os suspeitos até eles falarem exatamente o que eles queriam ouvir; no caso confessar e incriminar pessoas específicas.

Entretanto, ao analisar detidamente as fitas das primeiras confissões e organizá-las uma com a outra, o autor nota que no começo os policiais não têm exatamente um roteiro nas perguntas feitas sob tortura – isto é, não esperam ouvir exatamente dados determinados e nomes tais. Inclusive, muitas contradizem as demais evidências – e foram suprimidas dos autos do processo. Eles vão pescando algumas coisas ditas pelos presos e montando um quadro; apenas posteriormente vão afinando as questões em sessões de tortura subsequentes para montar um quadro mais organizado do crime.

Esse comportamento faz com que a conclusão de Mizanzuk seja que torturar os suspeitos logo de imediato, para os policias militares, fosse entendido como um passo natural da investigação. Claro que eles sabem que estão “fazendo coisa errada”, moralmente, mas não errado profissionalmente. Eles não viam distinção disso para a atividade policial: tortura era sinônimo de investigar. Naturalmente, após ser abusada física e psicologicamente a pessoa deixaria escapar alguma pista.

A explicação é relativamente óbvia, as polícias militares não tinham (e continuam não tendo) papel investigativo; seu único propósito era a repressão (policiamento ostensivo), que na ditatura militar, recém-derrubada em 1992, atingiu níveis inimagináveis.

“Chero”: Sabe-se lá Deus o porquê, na história desses caso, temos três personagens cujos apelidos são o mesmo, “Chero“; uma testemunha, um álibi e um suspeito (as vezes esses papeis mudam também, uma testemunha vira suspeito). Essa confusão entre as pessoas conhecidas pelo mesmo nome foi fonte de inúmeros problemas para a investigação e processo.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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