Westworld e o retrato dos revolucionários no entretenimento de massa

Atenção: este texto contem spoilers decisivos de Game of Thrones e Westword (até o final da 3ª temporada)

Provavelmente um dos momentos recentes que se tornaram mais marcantes do universo dos seriados americanos foi , ao final da oitava temporada de Game of Thrones, a personagem de Daenerys, após se sentir cada vez mais isolada de aliados e amigos, decide queimar a capital dos Sete Reinos e matar todos os seus habitantes.

Eu, pessoalmente, apesar de me decepcionar, como todos, com o final do seriado, não achei de todo exagerado nem fora da personagem essa atitude em específica, afinal, seria uma rima com o passado da família, que tinha um desejo de queimar a cidade já há muito.

Entretanto, no capítulo seguinte, ela faz um discurso onde dizia que queria expandir seus ideais para o resto dos continentes e libertar a todo o mundo. Aí acendeu um farol amarelo; achei um pouco estranho e pensei, “onde vão chegar com isso?”. No episódio em si não foram mais longe que isso, entretanto, no dia seguinte, com a internet em polvorosa com o fiasco do final do seriado tão popular, não tardaram a aparecer comparações de Daenerys com Stalin, Lênin, Fidel Castro, e como ela agia como uma líder comunista e coisa e tal.


Causa coletiva x Causa individual

Na magistral primeira temporada de Westworld, série de ficção científica da HBO, centrada na história de um Parque Temático baseado no Velho Oeste, no qual os humanos podem cometer qualquer tipo de atrocidade com os “NPCs” daquele universo – androides conhecidos como anfitriões – temos dois arcos separados de duas de suas anfitriãs que desejam se libertar daquele terror.

De um lado temos Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), a primeira androide construída, que tem o papel de ser a bela donzela em perigo; e, de outro, Maeve Millay (Thadiwe Newton), a cafetina da cidade. Após muitos vais-e-vens, descobrimos que Dolores já havia sido usada para exterminar todos os demais androides vários anos antes, quando seu criador original, Arnold, percebe ao que os robôs seriam condenados a viver caso as ideias comerciais do Dr. Ford (Hopkins), o co-criador, fossem colocadas para funcionar.

Também aos poucos, descobrimos que Maeve foi realocada como cafetina; seu papel original era de uma posição análoga a Dolores – era uma bela mãe que também agia como donzela em perigo ao proteger sua filha – até um dia reagir às violências que sofria do “homem de preto”. Já aí temos duas importantes diferenciações entre os traumas sofridos pelas duas protagonistas: o pecado de Dolores foi ter assassinado os demais androides para impedir sua exploração, enquanto o de Maeve foi ter atacado um humano ao defender sua filha.

Uma vez libertos de suas programações básicas, os anfitriões criam um caos completo no parque. Dolores lidera a revolta, assassinando os convidados humanos no evento de lançamento da nova narrativa, enquanto Meave quer apenas escapar e viver sua vida. No último segundo, ela decide voltar ao parque para resgatar sua filha – mesmo sabendo que a relação que ela tinha com a menina androide era apenas um resquício de uma antiga programação, e que a garota sequer lembraria dela.

Na trama da segunda temporada, Dolores junta um grupo cada vez mais brutal e cruel de anfitriões em busca de um local além-do-vale (onde estão os backups da personalidade e memórias de cada androide), assassinando todos que pode, traindo os aliados e até mesmo seu grande amor. Enquanto isso, Meave se torna cada vez mais nobre, lutando pelos amigos, vivendo loucas aventuras no Japão feudal, se sacrificando por causas perdidas, com o único objetivo de encontrar sua filha.

Já na terceira, e última até o momento, temporada, o enredo se desenvolve no “mundo real”, em torno de 2050. Fora do parque, Dolores descobre que as experiências com os convidados eram usadas para alimentar parâmetros de uma inteligência artificial que secretamente vem influenciando os rumos da humanidade; ela se engaja numa feroz luta contra o computador e seus controladores em nome, a princípio, da libertação da humanidade. Meave, por outro lado, acaba se envolvendo nessa trama apenas porque é puxada para ela.

Ao final, descobrimos que Dolores deseja, na realidade, a extinção da humanidade através do caos que seria desencadeado sem o controle de Rehoboam (a inteligência artificial que calcula os passos da civilização); como uma espécie de vingança contra eles terem criado Westword – e os anfitriões para tão somente sofrerem em suas mãos. Já Meave, uma vez envolvida na trama, passa a lutar pela sobrevivência de nossa raça – ainda que contrariada em certos momentos.


A virtude está no individualismo

Desde o começo do seriado, as protagonistas se distinguem sempre em dois eixos. Dolores é afetada e se movimenta na história, por vontade dela ou manipulada por outros, devido à causas coletivas. Originalmente ela tenta atrasar a abertura do Parque, e nasce sua tomada de consciência a partir do que Arnold havia deixado de legado. Que depois é despertada em um complexo processo a partir da substituição de seu pai logo no início da série.

(Fiquei com a impressão que o primeiro anfitrião a despertar foi o indígena, Akecheta, e ele que “espalhou” essa tomada de consciência).

Enquanto Meave sempre fica ligada à causas individuais; sua tomada de consciência vai surgindo das suas lembranças de quando tinha programada a ela uma filha. Ela desenvolve seus “poderes” a partir da sua própria habilidade de manipular os técnicos. E, uma vez que ela conquista sua liberdade, ela não tem interesse na libertação dos demais androides, e pretendia apenas fugir do parque. Mudando de ideia apenas para, justamente, buscar a sua citada filha.

Ambos os arcos são justos e interessantes, não quero colocar moralmente em posição maior ou menor cada um. Entretanto, o que os realizadores fazem na narrativa do seriado é exatamente o oposto.

Sim, se você não conhece o seriado, é o Santoro. E ele está muito bem!

Importante notar também que ao longo da rebelião no parque, na segunda temporada, são mais raros os confrontos entre os androides e os humanos. O que domina as cenas (e as brutalidades) é a matança entre os anfitriões. Mais um aspecto da “revolução do mal”, que gera mais perdas entre os oprimidos brigando entre si, que na luta contra o opressor.

As jornadas de cada uma tomam caminhos cada vez mais diferentes até se tornarem antagônicas ao final da terceira temporada. Na busca por sua filha, Meave reencontra e não abandona seus velhos (Hector, Clementine) nem seus novos amigos (todo o grupo desenvolvido no Shogunworld). Criando laços de amizade e lealdade até mesmo entre os humanos que a exploravam e torturavam, como Lee, um dos roteiristas do parque. Através da sua busca individual, ela acaba ajudando inúmeras outras pessoas, humanas ou androides.

Por sua vez, Dolores, desejando o fim do parque e o direito à vida completamente (inclusive na morte) aos anfitriões tem cada vez menos respeito e lealdade aos demais personagens, inclusive os mais próximos dela, como o triste Teddy. Em um arco, ela se envolve com os, já reprováveis de antemão, confederados, para simplesmente traí-los logo em seguida. Todas as ações de Dolores, movidas por uma causa coletiva, levam à ruína dos demais personagens e às suas mortes – da corrupção de Teddy à destruição dos backups, para dar aos anfitriões o direito a morte.

Todas as ações de Dolores em busca do bem maior – a libertação dos androides – são moralmente reprováveis (traições, assassinatos) e levam praticamente a sua extinção, a cada vez mais mortes de seus iguais, e em sua escalada, possivelmente ao fim da humanidade. Enquanto Meave, por sua vez, tentando apenas satisfazer seus desejos pessoais – reencontrar a filha – é cada vez mais virtuosa e salva, dentre os personagens, humanos e anfitriões, também os mais virtuosos deles.

A mensagem de Westword, que se repete em muito entretenimento de massa, é que caso alguém lute por uma causa coletiva, a tendência é a corrupção e o fracasso. Entretanto, uma vez centrado, buscando sua satisfação individual, o resultado será o bem comum. Ou seja: o bem comum seria consequência das pessoas buscarem o bem individual.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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